Em tempos celebrámos com alegria o facto de um jovem com o perfil do Pedrowski, ativista e abertamente crítico do regime de JES, pudesse conseguir um lugar no que foi, até ao passamento físico de Aguiar dos Santos, um dos últimos bastiões da imprensa independente em Angola: o Semanário Agora, tendo acabado por tombar, sucumbindo à pressão das leis de mercado e indo para as mãos dos suspeitos do costume.

Agora liderado por Ramiro Aleixo, o jornal começou a surpreender com algumas capas (1,2) que quebravam com a postura generalizada de uma falta de interesse doméstica na juventude apartidária e contestatária, facto que despertou uma ingénua ponta de esperança que estaríamos a lidar com angolanos de outro calibre.

Hoje o Pedrowski publicou uma surpreendente denúncia no seu mural que faz luz sobre uma realidade mais tenebrosa dos bastidores, pois parece que o rapaz esteve a trabalhar à borliú e metendo inclusivé dinheiro do próprio bolso para conseguir ir fazer as suas matérias. A pedido do próprio iremos partilhar, na esperança que esta singela contribuição e demonstração de solidariedade possa servir para adicionar o nosso quinhão de pressão social para que este caso se esclareça e se resolva de uma vez por todas.

Segue então na íntegra o post de facebook do Pedrowski, com adição de fotos da nossa parte:

Pedrowski Teca no antigo local de trabalho, o Semanário Agora

Pedrowski Teca no antigo local de trabalho, o Semanário Agora

“Ponderando levar o jornal AGORA à justiça

Hoje contactei os advogados da associação Mãos Livres afim de intentar uma ação judicial contra o jornal semanário AGORA, propriedade da empresa Nova Vaga (Score Media), e especificamente contra o seu director Ramiro Aleixo.

Passaram-se um mês e meio desde que me auto-demiti do mesmo jornal semanário, isto após ter trabalhado por 5 meses sem ver a cor do meu salário, num jogo de desonestidade e má fé do director do jornal, Ramiro Aleixo.

Eu respeito o senhor Ramiro Aleixo por ser, na minha opinião, um excelente profissional e experiente jornalista, e director de um órgão de comunicação social respeitável; infelizmente é tido por vários jornalistas como um líder sem peito para defender os direitos dos seus subordinados diante da entidade patronal do jornal, chegando até a ser considerado uma pessoa que explora, burla, mente e frustra vários jornalistas, sobre tudo jovens inexperientes e desesperados (para um primeiro emprego).

Ramiro Aleixo, Diretor do Semanário Agora

Ramiro Aleixo, Diretor do Semanário Agora

Passado 5 meses, trabalhando em cima de promessas do senhor Ramiro Aleixo, decidi abandonar o jornal, deixando uma carta de demissão a 3 de Março de 2015, solicitando que resolvessem a dívida no período de um mês.

Na quarta-feira, 8 Abril de 2015, regressei ao jornal e o director Aleixo continuava com o mesmo discurso de que não havia resolvido a situação. Daí que afirmei que passavam-se 6 meses, que o director não foi capaz de defender os meus direitos perante os donos da empresa, e que chegara a hora de eu usar os meus métodos para pressiona-los a pagarem o que me devem. Subitamente o rosto do director Ramiro Aleixo ficou roxo e indignado, afirmando que era desnecessário eu contactar um advogado ou ir ao tribunal. Saí do escritório dele, com a promessa de contactar um advogado.

No entanto, pela primeira vez decidi contactar a senhora Sónia, chefe do departamento dos recursos humanos da empresa proprietária do jornal AGORA e fui informado que apesar de ela conhecer o meu nome, nunca recebeu nenhum documento ou solicitação para a minha efectivação e que eu não existia naquela empresa.

Algumas das capas conquistadas pelas matérias do Pedrowski

Algumas das capas conquistadas pelas matérias do Pedrowski

Apresentei à ela a minha declaração de trabalhador assinada e carimbada pelo director Ramiro Aleixo, e adicionalmente a minha carta de demissão, onde o director acusa a recepção e mais uma vez promete resolver a situação. A senhora Sónia ficou chocada com a declaração, revelando que somente os recursos humanos tinha o direito de passar declarações aos trabalhadores. Acrescentou que tudo aquilo era um acto de má fé por parte do director Ramiro Aleixo, sendo também que eu não era o primeiro jornalista a ser vítima do mesmo, passando pela mesma situação.

A senhora Sónia fez cópias dos documentos que apresentei e prometeu apresentá-los aos donos da empresa.

No mesmo dia, quando eram 20h21, o director Ramiro Aleixo ligou-me solicitando que eu fosse devolver a declaração de trabalhador que outrora emitiu para eu exercer o meu trabalho, justificando que o mesmo documento “não tinha nada a ver” com a situação a ser resolvida. Retorqui que não tinha a mínima intenção de manter a mesma declaração em minha posse e que faria a devolução, tão logo ele resolvesse a minha situação. Ramiro Aleixo bravou, numa conversa que durou 7 minutos, chegando a ameaçar-me de que se eu não fosse devolver a declaração, usaria outros métodos para me forçar a fazê-lo. Disse também que recebeu um e-mail da dona Sónia e que deu a devida resposta, sendo que ela não era a pessoa indicada para resolver os actuais problemas dos trabalhadores. Mantive-me firme em minha posição e ele terminou a conversa dizendo que nunca mais iria me ligar, e que qualquer comunicação seria feita por escrito.

Para mim, aquilo foi uma tentativa de me receber a única prova que tenho, onde o director afirmou que eu era trabalhador do jornal Agora, exercendo a função de jornalista.

Posto esta publicação porque sinto-me muito injustiçado pelos actos de desonestidade e má fé por parte do director do jornal AGORA, Ramiro Aleixo, que perdeu a minha consideração pela desonestidade.
Alguns jornalistas perguntaram-me se aquilo não era um acto do MPLA para me inviabilizar a vida, encurralando-me na impossibilidade financeira. Não sabia o que responder. Apenas sei que tive muita paciência e fui muito compreensível com ele, até descobrir que eu sou apenas mais um de vários casos perpetrados pelo mesmo.

Sendo assim, informo que hoje apresentei o caso (com as provas) aos advogados das Mãos Livres e estou decidido, se for possível, a ir ao tribunal.”

As valas ou canais de drenagem artificiais são extremamente comuns no mundo inteiro. Servem para minimizar o impacto das chuvas e evitar inundações que se traduzem invariavelmente em avolumadas perdas. Servem ainda para reduzir a velocidade de erosão e sedimentação dos solos.

Em frente do apartamento que ocupei durante 3 anos em Montpellier, França, um desses canais transportava tranquilamente as águas do rio Lez, serpenteando por zonas habitadas de forma harmoniosa e até pitoresca. A diferença é que o cenário calamitoso de transbordo e impraticabilidade das vias adjacentes não acontecia a cada chuva de 30 minutos, por mais intensas que estas fossem. Nunca aconteceu, aliás, ao longo da minha estadia e, para que tenham uma ideia, o registro histórico de inundações provocadas por transbordo desse canal é de treze em 700 (setecentos!) anos. Eram necessários débitos de água superiores a 200mm em 24 horas para que o nível da água superasse o da estrutura que foi desenhada para a conter. A razão? Foi corretamente planificado. Esta palavra, “planificação”, parece assustar muitos, senão todos, os gestores da coisa pública em Angola, pois, pela forma com que sistematicamente tudo corre para o torto, fica mesmo a triste impressão que organizar e planificar é coisa do demónio, do qual fogem, esbaforidos, a 7 pés.

Em Luanda, as várias valas de drenagem que existem para escoar as águas pluviais e fluviais, foram feitas com boa intenção mas, a maioria, sem a planificação adequada, o que tem redundado em desastres de toda a sorte, com graves consequências para as vítimas, incluíndo a morte.

Foto 01

A vala que passa no Bº da Cerâmica, Cacuaco, é uma dessas valas que se tornou um autêntico matadouro. Recentemente foi alvo de obras de alargamento e aprofundamento com retroescavadoras. Três manilhas foram colocadas com o fito de permitir a passagem de um maio débito de água sem comprometer a “ponte” situada no chamado setor 5 do Bº da Cerâmica.

Em obras de remendo, tratores enviados pela Administração aumentaram profundidade do canal

Em obras de remendo, tratores enviados pela Administração aumentaram profundidade do canal

Passagens alternativas para além de muito distantes e exigem voltas pelos interiores de bairros lamacentos, são mais perigosas, não sendo por isso uma opção propriamente viável. Se o objetivo for apanhar a estrada principal Luanda-Cacuaco que corre longitudinal à linha do mar, a passagem seguinte é a que dá acesso ao aviário, a mais de 500m de distância e com o “caudal” mais largo como se pode ver pela imagem googlemaps abaixo.

Imagem aérea mostrando as passagens sobre a vala mais próximas

Imagem aérea mostrando as passagens sobre a vala mais próximas

Sem grandes opções, resta aos moradores suspirar e aguardar um período que pode superar os 60 minutos após o fim das “hostilidades” aquáticas, ou confiar nos seus dotes de anfíbio e tentar atravessar assim mesmo. Ultimamente muitos têm sido os casos de quem falha tentando.

Nesse estado, só os peixes e os aventureiros passam. Repórter Cívico Bitão Holua na imagem.

Nesse estado, só os peixes e os aventureiros passam. Repórter Cívico Bitão Holua na imagem.

Foi o que aconteceu ao vizinho do ativista que nos reuniu este material, o Joel, que com outros 3 moradores se entregaram a um trabalho de esforço comunitário, com contribuição dos moradores na aquisição de entulho suficiente para colocar na ponte e reduzir, por pouco que fosse, a dificuldade na sua travessia. Uns dias depois, Joel desapareceu, tendo o seu corpo sido encontrado 4 dias mais tarde a 500m das manilhas, juntamente com o de outro rapaz entre os 18 e os 20 anos que julga-se ser estudante, pois estava com a mochila às costas.

Obras feitas pela comunidade. Aqui vêm-se as 3 manilhas, polvilhadas com terra batida por cima para formar a "ponte".

Obras feitas pela comunidade. Aqui vêm-se as 3 manilhas, polvilhadas com terra batida por cima para formar a “ponte”.

Joel, o vizinho malogrado, arrastado pelas águas.

Joel, o vizinho malogrado, arrastado pelas águas.

Aconteceu igualmente com a senhora que na imagem abaixo se confunde com qualquer resto de lixo arrastado pelas correntezas pluviais. Ambulância e polícia, solicitados para remover o cadáver, ao constatarem o estado de putrefação do mesmo, se retiraram do local como se não fizesse isso parte da sua ingrata tarefa profissional. A senhora aí ficou, a definhar, até que cidadãos com estômago de aço inox a fossem retirando aos pedaços.

Tanto a senhora como o cão confundem-se com o lixo que se acumulou em seu redor.

Tanto a senhora como o cão confundem-se com o lixo que se acumulou em seu redor.

Estas mortes não fazem notícia, não escandalizam, não criam campanhas de solidariedade, não chamam a atenção, são, quando muito, estatísticas!

Àqueles que gostam de sempre atribuir a culpa ao cidadão angolano por ser preguiçoso e não gostar de trabalhar, por ser bêbado e provocar todos os acidentes na via pública, por ser armado em chico esperto e construir onde não deve, não pode, por ser mal educado e analfabeto justificando a sua submissão perante líderes arrogantes que os espezinham, basicamente, culpando-o de tudo, gostaria que me respondessem se isto também é culpa do cidadão?

Por Luaty Beirão e Bitão Holua

Acerca da tragédia humana precipitada pela incomum pluviosidade na província de Benguela, fomos parar ao mural de facebook de André Silva, natural do Lobito e cidadão preocupado que, com auxílio de imagens aéreas do google maps, partilha com os seus seguidores um ponto de vista sustentado, aguardando contraditório. O Sr. André assevera que já tinha emitido vários alertas às autoridades acerca da configuração deficitária da drenagem de águas pluviais, avisos esse sucessivamente ignorados, com as consequências que todos agora testemunhamos. 

Partilhamos ipsis verbis os dois posts de André Silva, um de 23 e outro de 26 de Março, pontuados pelas imagens que foram usadas para os ilustrar nos artigos originais, começando pela sua imagem de capa.

Imagem google earth ilustrando parte da rede de drenagem da cidade do Lobito

Imagem google earth ilustrando parte da rede de drenagem da cidade do Lobito

23/3

Regressei a Luanda, depois de uma breve visita ao Lobito, para fazer um levantamento, que brevemente, seguirá. Entre as muitas barbaridades encontradas, vou publicar uma, A SAÍDA DAS ÁGUAS PLUVIAIS entre a Caponte e a Canata, estrada Obelisco (operativa) Bombeiros e o seu problema desde a Sbell e a Toyota. Outrora, tinha uma vala com alguns metros de largura. hoje tem uma galeria com cerca de um metro de largura. O meu espanto (fiquei mesmo de boca aberta). A galeria, sendo só para essas águas, até que seria suficiente, mas, o espanto dos espantos, é que A SUPREMA INTELIGÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL DO LOBITO. selou a saída! Estas fotos, são de domingo 22-03-2015. Ao lado, estão duas pontes paralelas com cerca de 50 metros, para dar escoamento a 5 tubos de cerca de 1 metro de diametro (Ponte da Caponte), que faz a ligação aos mangais da Caponte e Compão. Imaginem, quanto custou toda aquela estrutura (a ponte nova) para 5 tubos a montante e 3 tubos e 3 comportas a jusante! E, não há dinheiro para valas de drenagem. SÓ PODE SER BRINCADEIRA DE MAU GOSTO!!!!

Galeria de escape das águas pluviais entre Caponte e Canata, incompreensivelmente selada pela Administração

Galeria de escape das águas pluviais entre Caponte e Canata, incompreensivelmente selada pela Administração

26/03

Esta vala, da ex Salineira, a qual servia para abastecer a Salineira de água salgada, é hoje, a ÚNICA SAÍDA DAS ÁGUAS PLUVIAIS desde a Catumbela até à estrada para a Bela Vista (Africano). A PONTE da foto sobre DOIS TUBOS MEIO ENTUPIDOS,é a da estrada que vai para a LOBINAVE. A anterior vala, com grande dimensão e sem obstáculos, estrava bo mangal, entre a Canata e o Liro. Hoje, ocupados por aterro. Lamentável, que ontem, 2 semanas depois, morreram mais pessoas e ouve iguais ou piores cheias, motivadas pela mesma causa. É sacanagem colectiva! Porque será, que a tal coragem, que dizem ser patente no Sr. Governador, Camarada Isaac dos Anjos, ficou no saco e NÃO EXONEROU O COLECTIVO ADMINISTRATIVO da Administração Municipal do LOBITO????? Será falta de poder?????

André Silva post 1

A indução é um método de produção de conhecimento científico.

Parte de dados particulares, suficientemente constatados e infere uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas. Ou seja, é uma operação lógica que vai do particular ao geral. Das premissas tira-se uma conclusão.

Trazemos essa análise hoje para percorrer a comunicação política do MPLA:

  1. Quando o inimigo político era a FNLA, o MPLA chegou a divulgar recorrente e extensivamente o “canibalismo” efenelático, afirmando e mostrando na televisão que a FNLA comia pessoas. Muitos acreditaram e acirraram os seus ódios contra os canibais. Hoje, sabe-se que aquilo não passou de propaganda enganosa para denegrir.

    Massacres perpretados pela UPA, aproveitados para propaganda do MPLA.

    UPA Cabeças Massacres perpretados pela UPA, aproveitados para propaganda do MPLA.

  1. Depois da independência e a tomada/assalto do poder pelo MPLA, a sua agenda política tinha e continua tendo como mira a politização [entenda MPLArizacao] de Angola. Sorrateiramente, incorporou isso em tudo: no ensino, na cultura, na manietação do poder tradicional, no conceito de ONG, nas igrejas, enfim, na maneira de ver, agir e pensar do angolano. Na TV, radio e jornais isso tem sido passado como desenvolvimento e o nascimento de um novo país, sob alçada do arquiteto-mor, JES!

    FNLA, muito próxima de Luanda, de onde tinha sido expulsa

    FNLA, muito próxima de Luanda, de onde tinha sido expulsa

  2. Ate há uma década atrás, Savimbi e a UNITA eram a desculpa para tudo, para a pobreza, para falta de serviços sociais básicos, para falta de governacao transparente, enfim, para tudo que não funcionava. Na TV, na rádio, no jornal e noutros meios, a propaganda era ensurdecedora. Hoje, Savimbi está morto, a UNITA esta militarmente desbaratada, mas os problemas de outrora persistem e a cada dia se agravam mais.

    Ao longo da guerra civil, parece que só Savimbi destruiu, do outro lado vinham cravos.

    Ao longo da guerra civil, parece que só Savimbi destruiu, do outro lado vinham cravos.

  3. Desde a semana passada que se canta e encanta nos meios públicos de comunicação social sobre a Batalha do Kuito Kuanavale ganha pelas FAPLAs (1). Diz-se que as FAPLAs combateram e venceram o exercito sul africano, que era, segundo o que se noticia nos meios públicos:

– militarmente muito superior.
– superior igualmente em termos de comunicação.
– e apoiava a UNITA.

O MPLA gaba-se de ter ganho o exército sul africano com o seu poderio militar, sem apoios nem ajuda de ninguém. Os entrevistados chegam a dizer: “não vi cubanos, nem vivos, nem mortos ou ate mesmo enterrados, apenas tropas do exército angolano” palavras de um antigo militar sul africano que esteve no Tumpo, segundo os meios públicos.Reportagem com as FAPLAS no Kuito Cuanavale_0001

A minha questão é a seguinte: Se as FAPLAs derrotaram o exército sul africano (abrindo assim caminho para o fim do apartheid e a independência da Namíbia), que era militarmente muito superior (e apoiava a UNITA), numa única batalha, como é que as FAPLAs levaram 27 anos para derrotar a UNITA que era apoiada pela a África do Sul?

Ou seja, como é que o MPLA derrota o apoiador numa única batalha e leva 27 anos para derrotar o apoiado?nunca tinha pensado nisso

Induzindo afirmo: Sempre que o MPLA der destaque ostensivo a um evento, seja político, social, cultural ou outro qualquer, há mentiras, omissões, propaganda política e alienação.

(1) Ignorada está a tragédia de Benguela, com exceção de algumas individualidades que se prontificaram a ajudar e incansavelmente vão dando o que podem. A figura do nosso PR foi a mais ridícula. Teve tempo para ir à Namíbia para assistir a cerimónia de tomada de posse de Hage Geingob, novo (terceiro) PR da Namíbia, mas nenhum pronunciamento, quanto mais uma visita, para consolar e se solidarizar com as vítimas de Benguela. Angovida pá!

Por Mbanza Hamza

A primeira sessão do julgamento de Rafael Marques decorreu no dia 24 de Março.

Na sala onde decorreu o julgamento tudo se passou de assaz ordeira e pacífica, tendo sido o único ato de protesto o segurar alto de uma cópia do livro Diamantes de Sangue por parte de alguns dos ativistas na sala.

Depois do juíz dirimir que o julgamento iria continua à porta fechada, a solidariedade no exterior subiu de um tom e, já no exterior do tribunal, os ativistas começaram a entoar pedidos de inversão de culpa, vociferando “Prendam o Kopelipa, libertem Rafael”.

Cinco acabaram detidos por um período de 7 horas e a Rosa Conde ficou magoada num braço, torcido pelo Comandante Kiala (sempre ele), comandante da esquadra da Ilha de Luanda, que deu passe livre aos seus subordinados para bater, dizendo que ele assumiria as culpas depois.

Segundo um dos ativistas no terreno, alguns polícias recusaram-se a tomar parte de qualquer agressão, mesmo quando sacudidos pelo Kiala, virando-se para o outro lado num gesto de rara coragem de desafio à(o abuso de) autoridade.

Gostaríamos de saber os nomes desses agentes para nos assegurarmos que não foram depois vítimas injustas da fúria de um comandante que se terá sentido humilhado ao ser desautorizado. De todos os modos, fica aqui o nosso reconhecimento e esperança que isso seja algum indicativo das coisas finalmente estarem a mudar.

Rafael Marques volta amanhã ao Tribunal Dona Ana Joaquina na condição de réu, acusado de calúnia e difamação por sete donzelas patenteadas de generais que ficaram muito ofendidas de verem os seus nomes e das suas empresas serem citados na obra “Diamantes de Sangue” como protagonistas de torturas e homicídios na zona diamantífera das Lundas. Estas matrioskas já tentaram processar a editora do livro e o autor em Portugal, mas saíram de lá (bem) derrotados, de modos que vão agora dar continuidade ao circo na sua selva privada chamada Angola.

Um apelo de solidariedade lançado por cidadãos comuns tem rodado no facebook desde Janeiro, pedindo que as pessoas se façam presentes no perímetro do Tribunal e nós subscrevemos: Deixem o Rafael em paz, prendam os generais.

Rafael Marques Julgamento

 

 

Cruzámo-nos esta manhã com este post feito pelo artista Thó Simões no seu mural de facebook. Um daqueles desabafos sentidos, que infelizmente são tão raros tendo em conta a proporção de aberrações que diariamente testemunhamos neste grande kimbo chamado Angola. O Thó diz odiar a política, odiar políticos e não podemos censurá-lo, mas, desafortunadamente para ele, não consegue desembaraçar-se do seu coração de artista e esse, quando observa ao seu redor, transforma os fotogramas registados pela retina em emoções e ao exprimir essas emoções está, involuntariamente, a fazer política.

Obrigado ao Thó por não auto-censurar o artista e não manter essas angústias que dilaceram como navalhas a garganta de quem tem de as engolir em seco para si.

Segue então na íntegra o post do Thó Simões

“DESABAFO DE UM BANANA NO PAÍS DOS BANANAS!

Bom dia caros amigos, camaradas e desconhecidos.

Hoje a umas horas a atrás, enquanto me aventurava pelos magistrais engarrafamentos de Luanda (para quem não vive cá, ontem choveu a noite toda)a tentar deixar o filho e a mulher na e escola e no serviço, ia ouvindo a Rádio Luanda, quando já estava sozinho no carro (graças a deus) uma ouvinte, moradora do Morro da Luz, ligou para o programa para pedir socorro, para uma situação que esta a virar rotina lá no bairro. Dizia ela ao locutor de rádio por telefone, que há duas semanas atrás, a sua casa fora assaltada por um grupo de marginais… para entrarem na casa usaram uma pedra como martelo ou marreta para arrombar a porta, e saquear a casa, depois dos assaltantes se retirarem ligaram logo para a policia, segundo ela era 2h da manhã, a Policia apareceu nas proximidades as 5 da manhã mas recusaram-se a ir ao local da (ocorrência) o pessoal teve descer até a estrada para reportar a Policia, dai para frente nada mais… ou melhor dai em diante os assaltos sistemáticos continuaram nas casas vizinhas, quem não tivesse nada em casa que satisfizesse os ladrões era espancado. Um trecho em particular no seu relato me revoltou as entranhas.
Ela disse que numa das casas os bandidos amarram uma mãe e meteram o seu bebé na arca frigorífica!

AMARRAM UMA MÃE E METERAM O SEU BEBÉ NA ARCA FRIGORÍFICA!!!
Graças a Deus a criança não morreu e parece estar sob cuidados. Acham isso normal???

A policia entretanto, não sei o que fez ou faz por essas famílias até ao momento.
Mas agora passei a perceber bem uma coisa… este não é o País do Pai Banana, como é (carinhosamente) cantado e citado… É O PAÍS DO POVO BANANA!!!

Como podemos ser tão hipócritas!?
A nós, tudo nos acontece… até agora, já há 800 famílias desalojadas, de ontem para hoje! Grande parte da população hoje não vai trabalhar, porque a geografia das zonas, dos bairros, onde habitam ou dos trajectos que os leva de casa para o trabalho e do trabalho para casa mudou para cenários apocalípticos como nas grandes produções de Hollywood, sobre o fim do mundo ou sobre a extinção da raça humana!

Mas ao olhar para as postagens na minha página do Facebook, bwé de fotos do pessoal interessante, o pessoal que faz isso andar, o pessoal que se quisesse podia sim aliviar esse fardo que carregamos a mais de 500 anos, pessoal que faz a opinião publica, pessoal que mobiliza e se mobiliza para causas que estejam na moda mas que convenha (afinal ninguém quer ser apelidado ou ser confundido com os revús, esses sim tiro-lhes o chapéu, uma dúzia de putos, mas que basta um deles dar um peido (desculpem o termo) movimentam logo uma enorme estrutura Policial seus meios e aparatos que não são nada baratos para os nossos bolsos) dizia eu… pessoal jovem, uns com grandes carreiras outros nem tanto, como dizia, olho para as vossas fotos no festival Sons do Atlântico, (fotos bonitas na sua maioria) vocês também lindos e felizes, dentes todos escancarados a posarem ao lado de grandes estrelas da música mundial, quem olha até parece que vivemos no mesmo mundo, temos os mesmo direitos temos as mesma oportunidades e que por aqui desde que a guerra acabou…

ESTAMOS SEMBRE A SUBIR!!!

Thó Simões”