Mbanza tem o seu BI caducado e foi tentar renová-lo. Em dois postos de identificação distintos no Município de Cacuaco ouviu a mesma resposta: “vai na Cultura tratar do documento do cabelo”.

Contestou, bradindo a constituição e alegando discriminação, mas acabou removido à força do local.

A conversa que vão ouvir é absolutamente surreal e mete a nú uma denúncia antiga que nunca foi devidamente abordada pelas autoridades: a falsa questão do documento do cabelo, sentida de forma bem real, sobretudo pela comunidade Rastafari.

Abaixo o áudio (carregue na imagem) e, um pouco mais abaixo, a carta que o Mbanza remeteu ao Delegado Provincial da Justiça e DH (leitura muito aconselhável)

Mbanza Mixcloud
AO

EXMO SENHOR DELEGADO PROVINCIAL DA JUSTIÇA E DOS DIREITOS HUMANOS DE LUANDA

LUANDA

Assunto: Solicitação de acção imediata

Saudações,

Solicito a atenção de V.Excia para o assunto que passo a expor:

Sou o Afonso Matias, também conhecido por “M’banza Hamza” e “Prof. John”, cidadão angolano, residente na província de Luanda, município de Cacuaco, comuna da Funda;

No dia 23 de abril de 2015, pelas 6 horas desloquei-me à Repartição do Registo Civil da Vidrul em Cacuaco. Depois dos procedimentos bancários, concluídos as 8h20 numa das dependências do Banco BPC na Vila de Cacuaco, fiz-me novamente a referida Repartição para a renovação do meu Bilhete de Identidade caducado desde setembro de 2014. Contextualização:

Desde fins de 2013 que decidi não cortar o meu cabelo com o fito de deixa-lo crescer em dreadlocks (cabelos longos, encachados, deixados crescer naturalmente), mais vulgarmente conhecido como cabelo rasta;

Levo a vida exercendo a minha profissão de professor primário, bem como a de ativista cívico e defensor de direitos humanos. Entre a indignação de alguns e a curiosidade de outros vou fazendo o meu percurso, esclareço a quem mo solicita e defendo-me ante críticas, quase todas baseadas em preconceitos e desinformação sobre os dreadlocks.

De volta ao dia 23 de abril;

Depois da recolha dos BIs que iam para renovação, fui chamado e à porta, o funcionário (que mais tarde vim a saber chamar-se Cândido) perguntou-me se eu ‘tinha o documento da cultura para o cabelo’ eu disse que não tinha e que não era necessário. Ele pediu que o acompanhasse até a um gabinete para ir esclarecer-se com o seu superior (que vim igualmente a saber tratar-se do chefe de Repartição local);

No gabinete o superior disse, ao lhe ser solicitado se eu podia ou não renovar o meu bilhete com o cabelo que tinha:

– O senhor não sabe que tem que ter o documento da cultura para tratar o bilhete com cabelo? Eu perguntei se me podiam mostrar alguma lei ou uma nota escrita que afirmasse tal.

– Mas você não está escrito no ministério da Cultura, não sabes que para teres o cabelo assim tens que estar escrito no Ministério da Cultura? – continuou o chefe de Repartição.

– Vou estar escrito por quê? Como? O ministério da Cultura pelo que sei é um ministério que lida com instituições e agentes que promovem a cultura – disse eu. Eu não sei se há lá um gabinete para atender pessoas que mudem a fisionomia como dizeis.

– Tem! – responderam unanimemente todos.

– Como se chama esse gabinete? – perguntei a eles.

– Vai lá, vão te informar – respondeu o chefe de Repartição.

– Não! Vocês têm que me dizer – repliquei.

– Podes me deixar trabalhar? Ou então procura outro posto e vai lá tratar – foi o ultimato do chefe de Repartição. Eu disse que não iria a outro posto, era aqui onde tinha de ser atendido ou que ao menos me esclarecessem. Peguei na constituição para ler o artigo 23º e o 41º, não adiantou em nada. O Cândido teve a luz verde para protagonizar a sua arrogância e incompetência autoritária. Começou a empurrar-me para abandonar o gabinete, eu ofereci resistência e continuei a falar e a tentar abrir a lei, ai, o chefe de Repartição e mais um funcionário juntaram-se ao “empurra esse gajo.”

– Mostrem-me uma lei! Eu estou a ser discriminado! Que lei é maior que esta [a constituição]? Foi o que fui clamando enquanto empurravam-me do gabinete para a sala de tratamento e renovação de BI. Os empurrões tornaram-se mais violentos e por duas vezes os meus óculos caíram por efeito da agressividade com que estive a ser tratado, protagonizados pelo Cândido, chefe de Repartição e um funcionário. O chefe de Repartição havia pedido paz para trabalhar, pois eu estava a ser uma espécie de incomodo, só não sei se essa paz era para energicamente se engajar no teatro do “empurra esse gajo”.

Eles queriam humilhar-me em hasta pública, levar-me aos empurrões até fora da sala de renovação de BI, mas eu mostrei-lhes que se insistissem na intentona, só podiam é piorar as coisas e o alvoroço seria maior. O Cândido ameaçou bater-me e tudo. Continuei a gritar que estava a ser discriminado e ser agredido, algo que eu não esperava numa instituição do Ministério da Justiça. Aos poucos os empurrões foram acalmando e não insistiram na minha expulsão. O chefe de Repartição voltou a falar da necessidade de legalização da mudança de aparência, com os mesmos argumentos anteriores. As minhas questões mantiveram-se e ele acabou por retirar-se. Veio um funcionário que começou a falar calmamente comigo e a tentar esclarecer o motivo por detrás da suposta rejeição. Fomos falando amigavelmente e saímos para o pátio e até à rua. Pela conversa, percebe-se claramente a desinformação e, o pior, a falta de capacidade para perceberem que a sua atitude como instituição foi discriminatória. Em suma, eis o que estive a exigir:

  • Que me mostrassem uma lei a informar que cidadãos que tenham mudado a aparência careçam de autorização do Ministério da Cultura;
  • Ou em alternativa que me mostrassem pelo menos uma nota escrita, presente na Repartição a informar que casos de alteração da aparência, ou casos de uso de dreadlocks careçam de autorização do Ministério da Cultura e afiliação à Comunidade Rasta;
  • Procurei saber porque tenho de ir ao ministério da Cultura para fins de legalidade quando estes aspectos são da tutela do Ministério da Justiça? O que é isso de tão complexo que escapa as competências do Ministério da Justiça, para se socorrer do Ministério da Cultura? É um procedimento de cuja justeza e legalidade não consigo compreender;
  • Pedi para que me deixassem ler-lhes o que a lei magna, a Constituição da República de Angola nos seus artigos 23º e 41º diz; mas se há alergia dos nossos servidores públicos, é a de ouvirem o que a lei diz. A minha tentativa a isso valeu-me ser arrastado e empurrado que nem um porco, acção protagonizada inclusive pelo chefe da Repartição do Registo.

Depois de estar fora da Repartição (com o funcionário Farias) e ter esgrimido os argumentos legais que queria poder fazer perante o chefe de Repartição, um outro funcionário, solícito, e que me esteve a ouvir, recomendou-me fazer um recurso hierárquico, começando com o chefe de Repartição. Foi essa recomendação que ajudou-me a saber que um dos sujeitos que me esteve a empurrar era justamente o chefe de Repartição. Quando voltei a solicitá-lo, os seus argumentos não mudaram, apenas o temperamento. Conversamos amigavelmente desta vez, mas para ele só havia duas saídas: 1. Cortar o cabelo ou 2. Registar-se numa comunidade rasta e com o parecer positivo do Ministério da Cultura. A tão solicitada fundamentação legal dessas condições, ficou para segredo dos deuses.

Neste dia, entrei para o gabinete do chefe de Repartição 3 vezes. A primeira que resultou no teatro “empurra esse gajo”; a segunda para falar com o chefe de Repartição e a terceira foi quando voltei para ir buscar o borderô do depósito bancário que havia esquecido. O funcionário Farias (não estou muito certo quanto ao nome) ao qual apresentara a argumentação legal fora da Repartição, e que antes havia negado o meu professorado (por causa do meu comportamento – entenda-se, por reclamar um direito que me cabe), depois dos argumentos e conversa na rua, é provável que tenha mudado de opinião e quando me viu no pátio, chamou-me:

  • Senhor Professor, Senhor Professor, vem. Olha, está ai um outro funcionário no gabinete do chefe de Repartição, vamos tentar novamente. Vamos lá e explica o teu caso calmamente a ele, quem sabe ele te atende.

Mas não adiantou em nada. O Cândido quando me viu ficou indignado por estar novamente naquele gabinete e já esteve a ranger os dentes. Expliquei a minha situação e rejeição que sofrera no período da manhã. Ele não foi diferente na argumentação, “documento da cultura!”. Perguntei-lhe, se uma senhora viesse de postiço ou tissagem na cabeça, careceria igualmente da autorização do Ministério da Cultura? Disse Não! Perguntei se estava a par do princípio da igualdade enunciado artigo 23º da CRA (o Cândido já estava a mofar nesta altura), do apelo a “não ser prejudicado, privado ou isento de um direito em razão de religião, convicções políticas, ideológicas ou filosóficas”? Os rostos franziram e os dentes rangeram.

Reforcei dizendo que o postiço e a tissagem além de figurarem na lista de acessórios que alteram a aparência, são acessórios artificiais, que podem ser trocados ou removidos ao cabo de uma semana, já os meus dreads, além de 100% naturais, constituem-se num look (visual) que vai manter-se por uma longura de anos. Ninguém cria dreads para cortá-los uma semana, ou mês após consegui-lo.

O absurdo é a resposta vinda do outro lado, que nega-se redondamente a admitir que postiços e tissagens alteram a aparência, justifica tudo como sendo “elas [as mulheres] o fazem para realçar a sua beleza”. Mas realçar a beleza altera ou não a aparência? Quanto a questão da igualdade mencionada no artigo 23º, este funcionário defendeu que ‘nós não somos iguais, ou se é que eu achasse que somos iguais, que viesse tratar o BI de vestido e fio dental.’

Em 2011 quando fui registar a minha filha, vivi um incidente similar. O gabinete de registo civil do Centro Materno Infantil da Funda tinha (não sei se continua tendo) uma lista com os nomes “oficialmente” permitidos para nomes próprios a atribuir aos filhos, realçar que não consta nenhum nome de origem africana nesta lista, são todos nomes de origem portuguesa e ocidental. Dois casais que presenciei, acabaram por mudar os nomes aos filhos (nomes africanos para nomes portugueses) porque não constavam naquela lista. Eu por pouco não registava a filha, pois o nome “Leonor” que dei, a senhora não encontrava na lista, eu insisti que ela lesse bem, Leonor é um nome português, tinha certeza que estava na lista, depois de mais uma lida, ela achou o nome e aceitou registar a filha.

Eu me pergunto, afinal, o que valeu-nos a independência? Grande parte do que se constitui em nossos valores e princípios éticos hoje, foram exigências do colonizador para nos aculturar, assimilar, fazer-nos negar a nossa identidade e nos tornarmos portugueses. O rapar obrigatório do cabelo, a imposição de nomes portugueses, a obrigatoriedade de ter-se mais de um nome (antes da colonização os africanos podiam ter um nome só, exemplo: Mandume, Ekwikwi, Ngola-Kilwanji, Nzinga-Mbandi, Shaka-Zulu, Asantewaa, Nanny (rainha, Ghana), Rahmzés, Imohtep, etc.) são apenas alguns exemplos. 40 anos depois da independência, ainda não traçamos o nosso próprio rumo, não há flexibilidade para esses assuntos? Continuamos na mesma imposição colonial? Será que Nzinga-Nkuvu, Mandume, Ekwikwi, Nimi-a-Lukeny e muitos outros usavam cabelo escovinho?

Outro aspecto que também me deixa inquieto é o facto de que deixei igualmente crescer a barba e as unhas das mãos. Durante toda essa fanfarrice em volta da alteração da aparência, ninguém mencionou o factor barba longa, muito menos as unhas compridas, será que elas não abrangem na famigerada “alteração da fisionomia”? Se sim, onde irei conseguir legalização para eles, será também no Ministério da Cultura? Ou terei que igualmente afiliar-me a uma comunidade qualquer de barbudos e unheiros com o parecer positivo do Ministério da Cultura? Careço de informações a respeito para que se não me ponha novamente impedimento em renovar o BI por causa da barba e das unhas. Um segundo aspecto que não quero deixar de parte são os óculos. Tenho recomendação e prescrição médica para usar óculos permanentemente por causa do problema de visão. Tem sido embaraçoso removê-los sempre, pois “não estás assim no BI e nem no passaporte”. Não sei se haverá objeção para que no meu novo BI esteja de óculos ou se precisa igualmente de um recurso legalizador.

Excelência, é por esses factos que lhe escrevo, solicitando a sua intervenção para o meu caso. Eu preciso renovar o meu Bilhete de Identidade, já recorri ao chefe de Repartição local, os seus argumentos são os já apresentados acima. Fui para o Posto de Identificação de Cacuaco na vila municipal em cumprimento do “procura outro posto e vai lá tratar” do chefe de Repartição da Vidrul, o cenário foi o mesmo, mal informei a situação, a resposta dos funcionário foi “documento da cultura.”

Por isso me dirijo a si senhor Delegado, para a solução do meu caso e quiçá de muitos milhares de angolanos amordaçados e discriminados sem fundamentação; mas por todo amor à pátria que se possa ter, não me peça por favor para ir registar-me ao Ministério da Cultura que não irei, muito menos em filiar-me a uma Comunidade Rasta, pois eu não posso entrar numa associação, comunidade ou ONG cujo objecto social seja criar cabelo, não faz o mínimo de sentido para mim. Por outra, associar-se a uma organização, não importa que fim prossiga é um acto voluntário e de consciência, não pode ser imposto ou compulsivo.

Quanto aos funcionários (Chefe de Repartição do Registo Civil da Vidrul, seu auxiliar e o funcionário Cândido) que me maltrataram e agrediram verbal e fisicamente, solicito uma acção disciplinar exemplar e à medida.

Levo igualmente ao seu conhecimento senhor Delegado que, assim que tiver a acusação de recepção desta carta, levarei a público o que me sucedeu assim como as diligências perante o senhor Delegado.

Sem mais nada a expor, despeço-me na expectativa de breves notícias da vossa parte.

Luanda, 04 de Maio de 2015.

Atenciosamente

_____________________________

Afonso Matias “M’banza Hamza”

Contactos:

Telm.: +244 937 775 616

e-mail: mbanza.hamza@gmail.com

Mbanza Hamza em 2007 (esquerda) e 2014 (direita)

Mbanza Hamza em 2007 (esquerda) e 2014 (direita)

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Os moradores do Bº Chimuco, Viana, Km 12-B, reuniram-se na manhã de Domingo, 26 de Abril, para traçar estratégias de como estancar a onda dos assaltos à mão armada praticados pelos amigos do alheio.

Segundo o senhor Joaquim, que presidiu a reunião devido a ausência irresponsável do Coordenador do Bairro, os moradores pretendem substituir-se à Polícia Nacional por esta não estar a cumprir com a sua missão de proteger e servir, defraudando as expectativas dos munícipes.

Minutos antes da reunião, os moradores contactaram o comandante de uma das esquadras locais para também participar no encontro, mas este alegou não poder fazê-lo por não ter sido devidamente notificado pelos anfitriões.

Nas intervenções dos munícipes, houve um coro unânime que versava: “Já que a polícia nada faz, então nós vamos assumir tudo o que vier. Vamos nos armar na medida do possível e agiremos em auto-defesa.”

Ainda na mesma senda, um dos intervenientes, identificado apenas por Vicesse, assinalou que os marginais estão identificados, tendo mesmo citado alguns nomes: “Neste preciso momento estão identificados dois mandantes. Sendo os mesmo conhecidos do bairro, são eles que indicam as zonas e residências para serem assaltadas. Os informantes não penetram no interior das casas para não serem reconhecidos. Um deles foi enviado na manhã de hoje pela mãe, para o Huambo, enquanto que o outro vagueia no bairro. Um chama-se Kangoxi e o outro chama-se Quim Ribeiro.”

Retomando a palavra, o senhor Joaquim conclui dizendo que vão se criar grupos de actuação na zona composta pelos moradores, maioritariamente agentes da polícia e das forças armadas angolanas e que: “Vamos queimar os que forem apanhados com gasolina em asta pública (na pracinha do bairro) para dar exemplo aos demais. Ao longo desta semana iremos escrever para o novo comandante de Viana para vir ter connosco ou delegar alguém para o efeito.”

Na ocasião, um dos moradores afirmou ser agente da autoridade e “por isso estes jovens não podem brincar connosco desta forma”, rematou. Um outro participante enfurecido adiantou que “vamos fotografar os danos e mostrá-los ao comandante”.

A reunião terminou quando eram 11:h45 minutos com aplausos e abraços a mistura.

Por Alemão Francisco

Em tempos celebrámos com alegria o facto de um jovem com o perfil do Pedrowski, ativista e abertamente crítico do regime de JES, pudesse conseguir um lugar no que foi, até ao passamento físico de Aguiar dos Santos, um dos últimos bastiões da imprensa independente em Angola: o Semanário Agora, tendo acabado por tombar, sucumbindo à pressão das leis de mercado e indo para as mãos dos suspeitos do costume.

Agora liderado por Ramiro Aleixo, o jornal começou a surpreender com algumas capas (1,2) que quebravam com a postura generalizada de uma falta de interesse doméstica na juventude apartidária e contestatária, facto que despertou uma ingénua ponta de esperança que estaríamos a lidar com angolanos de outro calibre.

Hoje o Pedrowski publicou uma surpreendente denúncia no seu mural que faz luz sobre uma realidade mais tenebrosa dos bastidores, pois parece que o rapaz esteve a trabalhar à borliú e metendo inclusivé dinheiro do próprio bolso para conseguir ir fazer as suas matérias. A pedido do próprio iremos partilhar, na esperança que esta singela contribuição e demonstração de solidariedade possa servir para adicionar o nosso quinhão de pressão social para que este caso se esclareça e se resolva de uma vez por todas.

Segue então na íntegra o post de facebook do Pedrowski, com adição de fotos da nossa parte:

Pedrowski Teca no antigo local de trabalho, o Semanário Agora

Pedrowski Teca no antigo local de trabalho, o Semanário Agora

“Ponderando levar o jornal AGORA à justiça

Hoje contactei os advogados da associação Mãos Livres afim de intentar uma ação judicial contra o jornal semanário AGORA, propriedade da empresa Nova Vaga (Score Media), e especificamente contra o seu director Ramiro Aleixo.

Passaram-se um mês e meio desde que me auto-demiti do mesmo jornal semanário, isto após ter trabalhado por 5 meses sem ver a cor do meu salário, num jogo de desonestidade e má fé do director do jornal, Ramiro Aleixo.

Eu respeito o senhor Ramiro Aleixo por ser, na minha opinião, um excelente profissional e experiente jornalista, e director de um órgão de comunicação social respeitável; infelizmente é tido por vários jornalistas como um líder sem peito para defender os direitos dos seus subordinados diante da entidade patronal do jornal, chegando até a ser considerado uma pessoa que explora, burla, mente e frustra vários jornalistas, sobre tudo jovens inexperientes e desesperados (para um primeiro emprego).

Ramiro Aleixo, Diretor do Semanário Agora

Ramiro Aleixo, Diretor do Semanário Agora

Passado 5 meses, trabalhando em cima de promessas do senhor Ramiro Aleixo, decidi abandonar o jornal, deixando uma carta de demissão a 3 de Março de 2015, solicitando que resolvessem a dívida no período de um mês.

Na quarta-feira, 8 Abril de 2015, regressei ao jornal e o director Aleixo continuava com o mesmo discurso de que não havia resolvido a situação. Daí que afirmei que passavam-se 6 meses, que o director não foi capaz de defender os meus direitos perante os donos da empresa, e que chegara a hora de eu usar os meus métodos para pressiona-los a pagarem o que me devem. Subitamente o rosto do director Ramiro Aleixo ficou roxo e indignado, afirmando que era desnecessário eu contactar um advogado ou ir ao tribunal. Saí do escritório dele, com a promessa de contactar um advogado.

No entanto, pela primeira vez decidi contactar a senhora Sónia, chefe do departamento dos recursos humanos da empresa proprietária do jornal AGORA e fui informado que apesar de ela conhecer o meu nome, nunca recebeu nenhum documento ou solicitação para a minha efectivação e que eu não existia naquela empresa.

Algumas das capas conquistadas pelas matérias do Pedrowski

Algumas das capas conquistadas pelas matérias do Pedrowski

Apresentei à ela a minha declaração de trabalhador assinada e carimbada pelo director Ramiro Aleixo, e adicionalmente a minha carta de demissão, onde o director acusa a recepção e mais uma vez promete resolver a situação. A senhora Sónia ficou chocada com a declaração, revelando que somente os recursos humanos tinha o direito de passar declarações aos trabalhadores. Acrescentou que tudo aquilo era um acto de má fé por parte do director Ramiro Aleixo, sendo também que eu não era o primeiro jornalista a ser vítima do mesmo, passando pela mesma situação.

A senhora Sónia fez cópias dos documentos que apresentei e prometeu apresentá-los aos donos da empresa.

No mesmo dia, quando eram 20h21, o director Ramiro Aleixo ligou-me solicitando que eu fosse devolver a declaração de trabalhador que outrora emitiu para eu exercer o meu trabalho, justificando que o mesmo documento “não tinha nada a ver” com a situação a ser resolvida. Retorqui que não tinha a mínima intenção de manter a mesma declaração em minha posse e que faria a devolução, tão logo ele resolvesse a minha situação. Ramiro Aleixo bravou, numa conversa que durou 7 minutos, chegando a ameaçar-me de que se eu não fosse devolver a declaração, usaria outros métodos para me forçar a fazê-lo. Disse também que recebeu um e-mail da dona Sónia e que deu a devida resposta, sendo que ela não era a pessoa indicada para resolver os actuais problemas dos trabalhadores. Mantive-me firme em minha posição e ele terminou a conversa dizendo que nunca mais iria me ligar, e que qualquer comunicação seria feita por escrito.

Para mim, aquilo foi uma tentativa de me receber a única prova que tenho, onde o director afirmou que eu era trabalhador do jornal Agora, exercendo a função de jornalista.

Posto esta publicação porque sinto-me muito injustiçado pelos actos de desonestidade e má fé por parte do director do jornal AGORA, Ramiro Aleixo, que perdeu a minha consideração pela desonestidade.
Alguns jornalistas perguntaram-me se aquilo não era um acto do MPLA para me inviabilizar a vida, encurralando-me na impossibilidade financeira. Não sabia o que responder. Apenas sei que tive muita paciência e fui muito compreensível com ele, até descobrir que eu sou apenas mais um de vários casos perpetrados pelo mesmo.

Sendo assim, informo que hoje apresentei o caso (com as provas) aos advogados das Mãos Livres e estou decidido, se for possível, a ir ao tribunal.”

As valas ou canais de drenagem artificiais são extremamente comuns no mundo inteiro. Servem para minimizar o impacto das chuvas e evitar inundações que se traduzem invariavelmente em avolumadas perdas. Servem ainda para reduzir a velocidade de erosão e sedimentação dos solos.

Em frente do apartamento que ocupei durante 3 anos em Montpellier, França, um desses canais transportava tranquilamente as águas do rio Lez, serpenteando por zonas habitadas de forma harmoniosa e até pitoresca. A diferença é que o cenário calamitoso de transbordo e impraticabilidade das vias adjacentes não acontecia a cada chuva de 30 minutos, por mais intensas que estas fossem. Nunca aconteceu, aliás, ao longo da minha estadia e, para que tenham uma ideia, o registro histórico de inundações provocadas por transbordo desse canal é de treze em 700 (setecentos!) anos. Eram necessários débitos de água superiores a 200mm em 24 horas para que o nível da água superasse o da estrutura que foi desenhada para a conter. A razão? Foi corretamente planificado. Esta palavra, “planificação”, parece assustar muitos, senão todos, os gestores da coisa pública em Angola, pois, pela forma com que sistematicamente tudo corre para o torto, fica mesmo a triste impressão que organizar e planificar é coisa do demónio, do qual fogem, esbaforidos, a 7 pés.

Em Luanda, as várias valas de drenagem que existem para escoar as águas pluviais e fluviais, foram feitas com boa intenção mas, a maioria, sem a planificação adequada, o que tem redundado em desastres de toda a sorte, com graves consequências para as vítimas, incluíndo a morte.

Foto 01

A vala que passa no Bº da Cerâmica, Cacuaco, é uma dessas valas que se tornou um autêntico matadouro. Recentemente foi alvo de obras de alargamento e aprofundamento com retroescavadoras. Três manilhas foram colocadas com o fito de permitir a passagem de um maio débito de água sem comprometer a “ponte” situada no chamado setor 5 do Bº da Cerâmica.

Em obras de remendo, tratores enviados pela Administração aumentaram profundidade do canal

Em obras de remendo, tratores enviados pela Administração aumentaram profundidade do canal

Passagens alternativas para além de muito distantes e exigem voltas pelos interiores de bairros lamacentos, são mais perigosas, não sendo por isso uma opção propriamente viável. Se o objetivo for apanhar a estrada principal Luanda-Cacuaco que corre longitudinal à linha do mar, a passagem seguinte é a que dá acesso ao aviário, a mais de 500m de distância e com o “caudal” mais largo como se pode ver pela imagem googlemaps abaixo.

Imagem aérea mostrando as passagens sobre a vala mais próximas

Imagem aérea mostrando as passagens sobre a vala mais próximas

Sem grandes opções, resta aos moradores suspirar e aguardar um período que pode superar os 60 minutos após o fim das “hostilidades” aquáticas, ou confiar nos seus dotes de anfíbio e tentar atravessar assim mesmo. Ultimamente muitos têm sido os casos de quem falha tentando.

Nesse estado, só os peixes e os aventureiros passam. Repórter Cívico Bitão Holua na imagem.

Nesse estado, só os peixes e os aventureiros passam. Repórter Cívico Bitão Holua na imagem.

Foi o que aconteceu ao vizinho do ativista que nos reuniu este material, o Joel, que com outros 3 moradores se entregaram a um trabalho de esforço comunitário, com contribuição dos moradores na aquisição de entulho suficiente para colocar na ponte e reduzir, por pouco que fosse, a dificuldade na sua travessia. Uns dias depois, Joel desapareceu, tendo o seu corpo sido encontrado 4 dias mais tarde a 500m das manilhas, juntamente com o de outro rapaz entre os 18 e os 20 anos que julga-se ser estudante, pois estava com a mochila às costas.

Obras feitas pela comunidade. Aqui vêm-se as 3 manilhas, polvilhadas com terra batida por cima para formar a "ponte".

Obras feitas pela comunidade. Aqui vêm-se as 3 manilhas, polvilhadas com terra batida por cima para formar a “ponte”.

Joel, o vizinho malogrado, arrastado pelas águas.

Joel, o vizinho malogrado, arrastado pelas águas.

Aconteceu igualmente com a senhora que na imagem abaixo se confunde com qualquer resto de lixo arrastado pelas correntezas pluviais. Ambulância e polícia, solicitados para remover o cadáver, ao constatarem o estado de putrefação do mesmo, se retiraram do local como se não fizesse isso parte da sua ingrata tarefa profissional. A senhora aí ficou, a definhar, até que cidadãos com estômago de aço inox a fossem retirando aos pedaços.

Tanto a senhora como o cão confundem-se com o lixo que se acumulou em seu redor.

Tanto a senhora como o cão confundem-se com o lixo que se acumulou em seu redor.

Estas mortes não fazem notícia, não escandalizam, não criam campanhas de solidariedade, não chamam a atenção, são, quando muito, estatísticas!

Àqueles que gostam de sempre atribuir a culpa ao cidadão angolano por ser preguiçoso e não gostar de trabalhar, por ser bêbado e provocar todos os acidentes na via pública, por ser armado em chico esperto e construir onde não deve, não pode, por ser mal educado e analfabeto justificando a sua submissão perante líderes arrogantes que os espezinham, basicamente, culpando-o de tudo, gostaria que me respondessem se isto também é culpa do cidadão?

Por Luaty Beirão e Bitão Holua

Acerca da tragédia humana precipitada pela incomum pluviosidade na província de Benguela, fomos parar ao mural de facebook de André Silva, natural do Lobito e cidadão preocupado que, com auxílio de imagens aéreas do google maps, partilha com os seus seguidores um ponto de vista sustentado, aguardando contraditório. O Sr. André assevera que já tinha emitido vários alertas às autoridades acerca da configuração deficitária da drenagem de águas pluviais, avisos esse sucessivamente ignorados, com as consequências que todos agora testemunhamos. 

Partilhamos ipsis verbis os dois posts de André Silva, um de 23 e outro de 26 de Março, pontuados pelas imagens que foram usadas para os ilustrar nos artigos originais, começando pela sua imagem de capa.

Imagem google earth ilustrando parte da rede de drenagem da cidade do Lobito

Imagem google earth ilustrando parte da rede de drenagem da cidade do Lobito

23/3

Regressei a Luanda, depois de uma breve visita ao Lobito, para fazer um levantamento, que brevemente, seguirá. Entre as muitas barbaridades encontradas, vou publicar uma, A SAÍDA DAS ÁGUAS PLUVIAIS entre a Caponte e a Canata, estrada Obelisco (operativa) Bombeiros e o seu problema desde a Sbell e a Toyota. Outrora, tinha uma vala com alguns metros de largura. hoje tem uma galeria com cerca de um metro de largura. O meu espanto (fiquei mesmo de boca aberta). A galeria, sendo só para essas águas, até que seria suficiente, mas, o espanto dos espantos, é que A SUPREMA INTELIGÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL DO LOBITO. selou a saída! Estas fotos, são de domingo 22-03-2015. Ao lado, estão duas pontes paralelas com cerca de 50 metros, para dar escoamento a 5 tubos de cerca de 1 metro de diametro (Ponte da Caponte), que faz a ligação aos mangais da Caponte e Compão. Imaginem, quanto custou toda aquela estrutura (a ponte nova) para 5 tubos a montante e 3 tubos e 3 comportas a jusante! E, não há dinheiro para valas de drenagem. SÓ PODE SER BRINCADEIRA DE MAU GOSTO!!!!

Galeria de escape das águas pluviais entre Caponte e Canata, incompreensivelmente selada pela Administração

Galeria de escape das águas pluviais entre Caponte e Canata, incompreensivelmente selada pela Administração

26/03

Esta vala, da ex Salineira, a qual servia para abastecer a Salineira de água salgada, é hoje, a ÚNICA SAÍDA DAS ÁGUAS PLUVIAIS desde a Catumbela até à estrada para a Bela Vista (Africano). A PONTE da foto sobre DOIS TUBOS MEIO ENTUPIDOS,é a da estrada que vai para a LOBINAVE. A anterior vala, com grande dimensão e sem obstáculos, estrava bo mangal, entre a Canata e o Liro. Hoje, ocupados por aterro. Lamentável, que ontem, 2 semanas depois, morreram mais pessoas e ouve iguais ou piores cheias, motivadas pela mesma causa. É sacanagem colectiva! Porque será, que a tal coragem, que dizem ser patente no Sr. Governador, Camarada Isaac dos Anjos, ficou no saco e NÃO EXONEROU O COLECTIVO ADMINISTRATIVO da Administração Municipal do LOBITO????? Será falta de poder?????

André Silva post 1

A indução é um método de produção de conhecimento científico.

Parte de dados particulares, suficientemente constatados e infere uma verdade geral ou universal, não contida nas partes examinadas. Ou seja, é uma operação lógica que vai do particular ao geral. Das premissas tira-se uma conclusão.

Trazemos essa análise hoje para percorrer a comunicação política do MPLA:

  1. Quando o inimigo político era a FNLA, o MPLA chegou a divulgar recorrente e extensivamente o “canibalismo” efenelático, afirmando e mostrando na televisão que a FNLA comia pessoas. Muitos acreditaram e acirraram os seus ódios contra os canibais. Hoje, sabe-se que aquilo não passou de propaganda enganosa para denegrir.

    Massacres perpretados pela UPA, aproveitados para propaganda do MPLA.

    UPA Cabeças Massacres perpretados pela UPA, aproveitados para propaganda do MPLA.

  1. Depois da independência e a tomada/assalto do poder pelo MPLA, a sua agenda política tinha e continua tendo como mira a politização [entenda MPLArizacao] de Angola. Sorrateiramente, incorporou isso em tudo: no ensino, na cultura, na manietação do poder tradicional, no conceito de ONG, nas igrejas, enfim, na maneira de ver, agir e pensar do angolano. Na TV, radio e jornais isso tem sido passado como desenvolvimento e o nascimento de um novo país, sob alçada do arquiteto-mor, JES!

    FNLA, muito próxima de Luanda, de onde tinha sido expulsa

    FNLA, muito próxima de Luanda, de onde tinha sido expulsa

  2. Ate há uma década atrás, Savimbi e a UNITA eram a desculpa para tudo, para a pobreza, para falta de serviços sociais básicos, para falta de governacao transparente, enfim, para tudo que não funcionava. Na TV, na rádio, no jornal e noutros meios, a propaganda era ensurdecedora. Hoje, Savimbi está morto, a UNITA esta militarmente desbaratada, mas os problemas de outrora persistem e a cada dia se agravam mais.

    Ao longo da guerra civil, parece que só Savimbi destruiu, do outro lado vinham cravos.

    Ao longo da guerra civil, parece que só Savimbi destruiu, do outro lado vinham cravos.

  3. Desde a semana passada que se canta e encanta nos meios públicos de comunicação social sobre a Batalha do Kuito Kuanavale ganha pelas FAPLAs (1). Diz-se que as FAPLAs combateram e venceram o exercito sul africano, que era, segundo o que se noticia nos meios públicos:

– militarmente muito superior.
– superior igualmente em termos de comunicação.
– e apoiava a UNITA.

O MPLA gaba-se de ter ganho o exército sul africano com o seu poderio militar, sem apoios nem ajuda de ninguém. Os entrevistados chegam a dizer: “não vi cubanos, nem vivos, nem mortos ou ate mesmo enterrados, apenas tropas do exército angolano” palavras de um antigo militar sul africano que esteve no Tumpo, segundo os meios públicos.Reportagem com as FAPLAS no Kuito Cuanavale_0001

A minha questão é a seguinte: Se as FAPLAs derrotaram o exército sul africano (abrindo assim caminho para o fim do apartheid e a independência da Namíbia), que era militarmente muito superior (e apoiava a UNITA), numa única batalha, como é que as FAPLAs levaram 27 anos para derrotar a UNITA que era apoiada pela a África do Sul?

Ou seja, como é que o MPLA derrota o apoiador numa única batalha e leva 27 anos para derrotar o apoiado?nunca tinha pensado nisso

Induzindo afirmo: Sempre que o MPLA der destaque ostensivo a um evento, seja político, social, cultural ou outro qualquer, há mentiras, omissões, propaganda política e alienação.

(1) Ignorada está a tragédia de Benguela, com exceção de algumas individualidades que se prontificaram a ajudar e incansavelmente vão dando o que podem. A figura do nosso PR foi a mais ridícula. Teve tempo para ir à Namíbia para assistir a cerimónia de tomada de posse de Hage Geingob, novo (terceiro) PR da Namíbia, mas nenhum pronunciamento, quanto mais uma visita, para consolar e se solidarizar com as vítimas de Benguela. Angovida pá!

Por Mbanza Hamza

A primeira sessão do julgamento de Rafael Marques decorreu no dia 24 de Março.

Na sala onde decorreu o julgamento tudo se passou de assaz ordeira e pacífica, tendo sido o único ato de protesto o segurar alto de uma cópia do livro Diamantes de Sangue por parte de alguns dos ativistas na sala.

Depois do juíz dirimir que o julgamento iria continua à porta fechada, a solidariedade no exterior subiu de um tom e, já no exterior do tribunal, os ativistas começaram a entoar pedidos de inversão de culpa, vociferando “Prendam o Kopelipa, libertem Rafael”.

Cinco acabaram detidos por um período de 7 horas e a Rosa Conde ficou magoada num braço, torcido pelo Comandante Kiala (sempre ele), comandante da esquadra da Ilha de Luanda, que deu passe livre aos seus subordinados para bater, dizendo que ele assumiria as culpas depois.

Segundo um dos ativistas no terreno, alguns polícias recusaram-se a tomar parte de qualquer agressão, mesmo quando sacudidos pelo Kiala, virando-se para o outro lado num gesto de rara coragem de desafio à(o abuso de) autoridade.

Gostaríamos de saber os nomes desses agentes para nos assegurarmos que não foram depois vítimas injustas da fúria de um comandante que se terá sentido humilhado ao ser desautorizado. De todos os modos, fica aqui o nosso reconhecimento e esperança que isso seja algum indicativo das coisas finalmente estarem a mudar.