Archive for April, 2012

The graphs above are from a Gallup poll conducted in 34 African countries in 2011. As one can tell from the most basic cursory analysis, the Angolan leadership has the worst approval rate in the continent. As astounding 78% of those surveyed disapprove of the country’s president, while only 16% approve; more tellingly, unlike the vast majority of the continent, Angolans also heavily disprove of the country’s entire governmental leadership, with only 16% saying they approve. And yet people wonder why the youth protests, or why Angolans complain about widespread human rights violations, or why the government responds with violence and repression to any challenge to its dictatorial rule…

Com a devida vénia ao Pedrowski Teca pelo resumo excelente com tão pouca informação e em tão curto espaço de tempo, reproduzimos aqui o texto de sua autoria que publicou há algumas horas no seu mural do facebook:

“Segundo relatos na rede social, Facebook, hoje, Sábado 28 de Abril de 2012, o regime angolano dispersou à tiros um grupo de jovens manifestantes que pretendiam marchar contra o alcoolismo, a prostituição e a violência doméstica em Angola.

Noutro lado, o regime, através do Governo Provincial de Luanda (GPL), preferiu dar o espaço do Largo da Família (Largo da Independência) à maior empresa de àlcool em Angola, a Cuca, para a realização de uma festa.

No mesmo dia, o Largo da Família poderia inicialmente albergar uma actividade do braço juvenil da Unita, a JURA. A actividade foi suspensa pelo GPL para acomodar a festa organizada pela CUCA.

Segundo relatos, os agressores dos jovens manifestantes no Cacuaco estavam munidos de barras de ferro e picaretas.

“Um grupo de jovens do Cacuaco pretendia realizar hoje uma marcha para protestar contra o excesso de consumo de álcool no Município. Todos os fins de semana há cerveja ao desbarato em maratonas do regime o que desnorteia a juventude e contribui para a delinquência,” relatou Filomeno Vieira Lopes, Secretário Geral do Bloco Democrático (BD).

No seu relato no Facebook, Lopes acrescentou que “os manifestantes foram dispersos com violência por milícias associadas às forças policiais, munidos de barras de ferro e picaretas”.

“Há, pelo menos, um ferido em estado grave e a zona do Colégio Sacriberto encontra-se completamente cercada.

“O regime promove o alcoolismo e todos que pretendem sensibilizar as populações em sentido contrário são agredidos institucionalmente,” estressou.

Em gesto mais detalhado, um cidadão, Alexandre Neto Solombe, descreveu a situação no Facebook:

“A polícia dispersou há instantes uma concentração de jovens, nas imediações do antigo posto de controlo, no município do Cacuaco. Há relatos de feridos, dois, e um número ainda não determinado de detidos. Segundo Hugo Kalumbo, um dos responsáveis pela organização da marcha, a polícia contou com o auxílio de elementos a civil que se supoe estarem afectos à milícia pro-governamental”.

Solombe acrescentou que “segundo os organizadores, a marcha percorreria a via principal, com destino à Cacuaco, contra o alcoolismo, a prostituição e a violência doméstica. Ainda de acordo com as mesmas fontes todas as demarches legais tinham sido tomadas para que o movimento saisse a rua. Pelo menos 100 pessoas marcaram presença no local de acordo com testemunhas, um dado por nós não verificado”.

“O G.P.L, preferiu dar espaço à Cuca para fazer a sua “festa” no Largo da Família (Largo da Independência), enquanto os jovens que manifestam-se contra o alcoolismo e são espancados,” relatou outro jovem, Jandiro Maurício.

Referente a situação entre a JURA e a CUCA no Largo da Família, um jovem, Fonseca Bengui, postou no Facebook:

“Acabo de testemunhar mais acto de intolerância. A JURA, juventude da UNITA, programou uma actividade que inicialmente teria lugar no Largo da Família. O governo recusou alegando que haveria outra actividade lá. RFA feriram para o largo da CIMEX, ao lado dos Congolenses. Não é que logo pela manhã um outro grupo colocou música no local para saudar o primeiro de maio.”

“Agora os jovens da Jura andam ai sem saber como realizar a sua actividade. Esta uma confusão, não sei como isso vai terminar. A polícia esta nos arredores e os activistas da JMPLA (Juventude do MPLA) também, aparentemente coordenando com a Polícia. Não sei como isso vai terminar. Estou a testemunhar isso porque é mesmo em frente à minha igreja, onde me encontro neste momento. Que democracia é essa?” disse.

O jovem Adão Ramos disse: O Kim e o Inocêncio dizem-me apenas que foram feridas vários rapazes, um deles em estado grave, foi rejeitado no hospital de Cacuaco e está em casa. O local de concentração está sitiado pela milícia e seus cobertores, a polícia.

Até ao momento, não se tem informações concretas de como culminaram os incidentes no Cacuaco e no Largo da Família.

Por Pedrowski Teca

Em nome da confluência de energias e da ação partilhada, achámos que este artigo estava por demais bem redigido para nos darmos ao trabalho de escrevermos a mesma coisa por outras palavras. Vamos só adicionar aqui os contactos telefónicos de dois manifestantes, caso vos interesse verificar as nossas alegações:

Zita 928059229 e Hugo Kalumbo 932025109

MPLA vocês estão a preparar a vossa cama, depois terão de se deitar nela, não tarda muito o povo não vai voltar sequer a ouvir mencionar o vosso nome, vão ter de irradiar o partido e virarem “bailarinos políticos” como diz o Bento Bento em tom jocoso falando do JPA. A vocês importa repetir à perpetuidade uma mentira na qual já ninguém mais acredita, só temem. Mas quem estão a tentar iludir senão vocês próprios?

Fazemos questão de reproduzir o abaixo texto, escrito pelo mais velho Nelson Pestana para o Jornal Agora e publicado também no Club-K. Sem mais rodeios:

“Nós, os estudantes do IMEL, através da sua direcção, fomos forçados a assistir a actividade da JMPLA, hoje, em Luanda e um colega foi obrigado a dar uma entrevista, JB, (25/04/12)”

Durante muito tempo o regime investiu, através da instituição das “maratonas”, na alienação da juventude, para que esta se afastasse do terreno da política. Outros segmentos mais exigentes foram alienados através do dinheiro, das prebendas ou das promessas de emprego ou carreira na administração do Estado. O grupo dos mais recatados foi imobilizado pela instrumentalização da carência identitária e pela aparente compensação através de um dito patriotismo, travestido por manifestações partidárias camufladas. Todas estas formas de condicionamento da irreverência e da acção protestaria da juventude foram cimentadas pelo apelo ao medo, manipulado no interior das famílias, das escolas, das igrejas, das empresas, dos clubes desportivos, dos movimentos culturais, da função pública e das relações interpessoais, em geral.

Mas, apesar da aparente eficácia desta política, ao longo de vários anos, agora o ditador deu-se conta que a juventude despertou e não quer mais nada com o seu regime. A juventude está ávida de liberdade e de justiça social. E identifica o ditador com a repressão, a corrupção e a miséria que grassa pelo país a dentro. Uma sondagem, por ele próprio encomendada, realizada por uma empresa especializada brasileira, e mantida em sigilo, constatou que JES não chega a 50% dos votos e que, isto é a questão fulcral, o seu eleitorado é maioritariamente constituído por pessoas a partir dos 45 anos de idade. Ou seja, ele é minoritário (daí ter fugido das eleições presidenciais) e a juventude não o apoia.

Estas duas informações capitais fizeram-no mudar de estratégia política e abandonar as contra-manifestações antecipadas, as declarações bombásticas e terroristas dos seus cabos eleitorais mais extremados, a acção política através do partido de poder. Desesperado, tenta reverter o quadro, incidindo toda a acção política do partido-Estado na juventude, através de uma mão cheia de promessas. Casas, bolsas internas e externas, emprego, formação profissional, empreendedorismo, microcrédito e um dito “diálogo com a juventude”. Mas, neste caso, não é o partido do poder que comanda a acção política mas directamente a sua organização de massas, para a juventude, superiormente dirigida pelo próprio ditador.

Na sua retórica de recuperação da boa imagem, aos olhos da juventude, reconhece que o país “precisa da força, dinamismo, criatividade e disponibilidade da juventude” mas “o programa do executivo” para a resolução dos problemas dos jovens foi suspenso. Não explicou quais foram as razões de tal suspensão, com certeza o desprezo pela condição de pobreza das populações, porque ele que fez a apologia pública do enriquecimento fácil e venal, não é responsável pela pobreza existente. Mas, aflito, ansioso por conquistar o voto dos jovens, promete (mais uma vez) que o programa vai ser retraçado e vai ser avaliado pelo Ministério da Juventude e Desportos e pelo Conselho Nacional da Juventude. No entanto, esta instituição pluripartidária, representativa das organizações da juventude angolana, foi preterida para dar lugar à acção monopartidária da Jmpla, no dito “diálogo com a juventude”.

Este dito “diálogo” começou por ser um monólogo, em que a organização de massas do partido no poder, falava consigo própria e era manipulada pelo ditador para gritar bem alto que “o cabeça de lista” é sempre o mesmo. Agora, numa tentativa de corrigir o erro e porque o tempo urge, os “diálogos” passaram a ser feitos naquilo que consideram as suas reservas de caça eleitoral: as organizações juvenis das igrejas, sobretudo aquelas que estão presas ao poder, pela força do envelope gordo e as instituições de ensino, com jovens em idade eleitoral, as universidades e os institutos médios. Sobretudo estes últimos, já que as universidades foram ganhas pelas ideias revolucionárias de mudança e reivindicação do fim do regime de ditadura. Nos institutos médios, com a conivência ou passividade das suas direcções, as aulas são suspensas, o anfiteatro é todo decorado com as cores e símbolos dos camisas vermelhas e todos os estudantes são forçados a participar dos ditos “diálogos”.

O Bloco Democrático já denunciou vários casos destes, não com base em “espantalhos”, como diria o ditador, mas sustentado na denúncia dos próprios estudantes que se sentem violentados nos seus direitos de estudantes e de cidadãos, como é o exemplo em epígrafe.

Por outro lado, manipulando uma política ambígua e ambivalente, do bastão e da cenoura, como outra face do “diálogo com a juventude”, organizou milícias para reprimir com violência inusitada, as manifestações dos jovens revolucionários para que elas não fossem, em crescendo, ganhando a adesão de toda à camada juvenil e colocassem a nu a verdade escondida que os números da sobredita sondagem revelam. E, entre cabeças, braços, pernas, mãos e outros ossos partidos, procura, ao mesmo tempo, com falinhas mansas sobre a tradição combativa da nossa juventude, delegitimar a acção reivindicativa dos jovens, de hoje, que cansados dizem que “32 anos é muito” e lhe pedem: “Ti Zé tira o pé”que “o teu tempo já expirou a bué”. Fazem-no, tal como os jovens, de ontem, disseram não ao colonialismo e reivindicaram a independência, dizendo basta a “500 anos de opressão e exploração”. Há pois uma continuidade da luta dos jovens, de hoje, em relação a luta dos jovens de ontem, pois eles apenas querem que a libertação social, que era, a par da libertação nacional, uma das componentes da luta pela independência, se concretize, através da liberdade, da modernidade e da justiça social.

Os jovens revolucionários continuam pois a honrar a as tradições de resistência do povo angolano pela sua participação activa na luta contra a nova opressão e exploração.

Dispensamos introduções – afinal de contas já conhecem a rubrica. Ademais, neste preciso momento estamos a colher informações que o nosso mano Hugo Kalumbo e muitos jovens estão a ser espancados por participarem numa manifestação contra o alcoolismo.

Numa entrevista tão rica de conteúdo e tão educacional, ficamos sem perceber porque é que o Jornal O País escolheu como manchete “Savimbi Nunca me Perdoou.” Deve ser porque vende. Savimbi é tipo Tupac…mesmo depois de morto continua a render!

A entrevista que se segue é de leitura obrigatória. Bem haja Sousa Jamba!

Sousa Jamba: Savimbi nunca me perdoou

Estamos a comemorar a Paz, para um homem que é angolano e que sente o seu país e também o pode observar a partir de fora, que apreciação faz destes dez anos?

A possibilidade de se criar uma nova nação, a possibilidade de esta nação reflectir a diversidade, a energia de realizar, as possibilidades, que são imensas. As potencialidades do país foram sempre adiadas, por causa da guerra e de outros factores. A paz é um sinal de que agora os talentos e a capacidade dos angolanos pode ser realizada.
O acto central da comemoração foi feito no Luena, viu pela televisão?

Não. Não vi.
Então não viu o seu Luena, também andou por lá…

Devo confessar que quando estou em Angola normalmente não vejo televisão. Sigo as coisas pela Internet, pelo Facebook, pelos vários portais angolanos como o Angonotícias e o Clube K, além de vários outros. Sigo também pela Voz da América, pela Rádio Ecclédia, que sigo pela Internet.

Sigo atentamente os vários debates na Internet. Estes são as minhas fontes de notícias sobre Angola.
E estes debates que se segue pelas redes sociais permitem perceber o quanto o angolano se está a transformar em termos democráticos, em termos de consciência de país?

Absolutamente. É incrível o que tenho visto, a capacidade de argumentação, a capacidade de os angolanos apreciarem a complexidade das coisas.

E também estamos a ver a instalar-se uma cultura de tolerância. A ideia de que podemos não estar de acordo, mas isso não significa que não fazemos parte do mesmo barco, que não temos o mesmo destino. Há uma grande manifestação da diversidade: angolanos interessados no kuduro, angolanos interessados em desporto, os que se interessam pela política… isso vê-se muito bem no Facebook, mais que na televisão angolana, por exemplo.

Há muita matéria sobre Angola no You Tube. Há muita matéria em que a juventude angolana é apresentada como estando obcecada por certos desejos carnais, uma juventude dada a coisas vistosas, vulgares. Mas na realidade é uma juventude mais complexa. No domingo passado fui a uma igreja no Morro Bento, a idade média dos presentes era de trinta anos.

Quando chegou o momento de ler a Bíblia, de repende apareceram vários iPads. Lá estavam jovens a ler a Bíblia no iPad… alguém me disse que estes iPads vieram do Dubai… mas o iPad dá tantas possibilidades, porque pode-se ter muitos livros, pode-se fazer muita coisa. Nós lá fora não vemos esta energia, esta capacidade… Quem pensava que o Facebook teria tantos adeptos angolanos? do Huambo, do Lubango, de vários sítios? Eu tenho tido conversas com um jovem angolano que está no Luena olha, falando do Luena ! e que está a fazer um curso pela Internet numa universidade brasileira. Há jovens que vão seguindo a evolução, o desenvolvimento do mundo, articulados, inteligentes. Infelizmente isso não tem sido reflectido lá fora. O triste é que temos instituições angolanas que vão promovendo estereótipos de angolanos que nada têm a ver com a realidade. A realidade é mais interessante, é mais complexa, mas o que vemos é o kuduro mal explorado e outras vulgaridades.
Para quem tem lido Sousa Jamba nos últimos anos não pode deixar de notar uma certa inversão nesse tipo de apreciação.

Absolutamente
Era mais crítico do jovem, via-o mais frívolo, consumindo exageradamente álcool, a tentar falar como um lisboeta e a pensar em ter um carro grande.

Era esta a imagem que eu tinha, mas evoluiu muito. Sobretudo através do meu intercâmbio no Facebook e também nos contactos do dia-a-dia.

Em Luanda encontro jovens cada vez mais interessantes, jovens que querem aprender, interessados no mundo.

Jovens com muito potencial.
Falou dos iPads na igreja, sabe-se que a própria revolução para a independência teve raízes também nas igrejas, ou em pessoas ligadas às igrejas. Depois houve um tempo de aparente afastamento. Sente que estes jovens novos quando voltam à Igreja revelam uma tomada de consciência e de moral social ou buscam apenas a salvação da alma e passam ao lado a parte cívica e política… a dimensão social?

O processo nacionalista angolano está profundamente ligado à Igreja, esse é um aspecto da história angolana que não está a ser muito bem contado.

Nos três principais eixos temos a Igreja Batista, com missionários americanos e ingleses que se instalaram no Norte; a Igreja Metodista aqui, o bispo Taylor, que depois fundou a Missão do Quéssua, de onde saiu uma faixa da elite do MPLA. O pai do Dr. Agostinho Neto foi pastor da Igreja Metodista. E depois temos a IECA (Igreja Evangélica Congregacional em Angola) com os canadianos da Amarican Boar of Missions que fundaram as missões no Planalto Cental, no Dondi, Chissamba, Galambi, etc. E depois tínhamos a Igreja Católica. No nacionalismo angolano há também uma vertente marxista, os jovens poetas Viriato da Cruz, Ilídio Machado, Agostinho Neto, que fundam ou pertencem à Casa do Império, em Portugal… Mário Pinto de Andrade… Mas há também uma vertente muito ligada à religião. São os velhos Barros Nekaka, ligados à Igreja Baptista, no Norte. No Planalto Central temos figuras como o velho Jesse Chipenda que faleceu em S.

Nicolau (campo de concentração) que também fizeram parte de um certo nacionalismo, de uma certa reivindicação. Eu sei do velho Chipenda porque o reverendo Lawrence Anderson escreveu a biografia de Jesse Chula Chipenda que faleceu em S. Nicolau.

No Namibe o aeroporto tem o nome do astronauta soviético Yuri Gagarin, mas o velho Jesse Chiula Chipenda, primeiro negro secretário-geral da Igreja Evangélica, que chegou a levantar o caso de Angola nos Estados Unidos da América, nos anos 50, e depois morreu humilhado em S. Nicolau, não tem nada em seu nome.

Como professores tivemos o reverendo Mussili. Lembro-me que quando tinha cinco anos um destes dias havia muita comoção em nossa casa, no Bom Pastor, no Huambo. A minha mãe, tias, todos fomos para uma casa, estavam a chorar… o tio pastor Mussili tinha acabado de sair de S. Nicolau. O meu nome, Sousa Jamba, é o nome do irmão do meu pai, que foi catequista na aldeia de Manico, e eu, quando entrei, o tio Mussili que tinha acabado de chegar de S.

Nicolau, estava sentado e a minha mãe apresentou-me – este é o Sousa Jamba –. E ele – hã, o catequista do Manico! E eu vou e sento-me no colo dele.

Nos anos de 1940 fez-se um filme sobre a vida do velho Mussili, que veio a ser pastor, pelos canadianos, que eu vi, depois, claro, no Canadá. Mas ele foi um grande nacionalista que depois foi levado para S. Nicolau. Não se fala dele. Na nossa história não se fala dele.

E mesmo entre os metodistas não se fala do grande valor do pai do senhor Bornito de Sousa e de outros grandes nacionalista que vieram da Igreja Metodista. O nacionalismo angolano está muito ligado à religião.

Havia a noção de que a Igreja católica era a igreja do Estado, mas não é correcto, porque os padres viam também de várias proveniências.

Havia padres suíços, espanhóis… e alguns eram muito progressistas. Eu comecei a escola em 1972 na escola de Fátima (católica), no Huambo, onde havia uma mistura de alunos negros e brancos. Havia uma dimensão muito progressista também na Igreja Católica. Isto é uma outra forma de ver. O nacionalismo é um processo muito importante na história da independência de Angola, onde a religião teve um papel muito importante.

O que aconteceu é que em 1975 dá-se a revolução e os marxistas eram muito bons a propaganda. Já estive na Missão do Dondi, onde, na igreja em que o meu pai e a minha mãe se casaram em 1945, havia inscrições com citações de Marx.

Não sei se já tiraram, mas vi lá as inscrições. Escreveram na igreja.

Isso, para mim, é algo altamente vulgar. Também vivi na Europa, fui ao sítio onde Carl Marx nasceu, conheço a tradição do marxismo.

Só para dizer que a religião teve muita importância no nacionalismo, mas, depois, só porque os marxistas venceram, exagerou-se muito na sua importância. Temos que entender a nossa História, temos que entender as variantes, os factores todos, para isso nos dar a autoconfiança de avançarmos.

Havia duas formas de o colonialismo controlar os africanos: uma era por via do comércio. Colocavam comerciantes nas aldeias e esses formavam um cartel que fixava os preços dos produtos agrícolas. A outra via era a escola: os nativos tinham que aspirar a ser assimilados, mas ao mesmo tempo havia a escola para os nativos e a escola dos brancos. Aquilo era complicadíssimo. Tudo com o objectivo de oprimir as pessoas. A Igreja fez tudo para mudar aquilo, abrindo escolas que depois produziram os líderes que temos. E vejo que esta juventude que hoje vai à igreja só está a continuar com aquela tradição. Houve, num certo momento, uma aberração nos nossos valores, em que a família, o respeito aos mais velhos, o respeito à tradição, a veneração pelo que é alheio, isto tudo passou a ser nada.

Mas agora há uma reacção e estamos a voltar para o velho Jesse Chiula Chipenda. Não sabemos que carro ele conduzia, não sabemos que marca de sapatos usava, mas sabemos dos seus ideais. E quem lê as cartas que ele escrevia de S. Nicolau sabe que era um homem com dignidade, um homem de Cristo, um homem com valor, um homem com quem orgulhosamente me identifico e suspeito que muitos jovens de hoje se identificam também.

‘COM A DERROTA DE CHIVUKUVUKU EM 2007 SURGIRAM DUAS UNITAS’

As energias começaram a ser dispersas, quase uma luta fratricida, com desconfianças. Aí viu-se uma grande falha do mano Abel, porque ele, como líder, deveria ter dado sinais de lealdade ao líder

Sabemos que Sousa Jamba é um intelectual ligado à UNITA, que tem vindo muitas vezes ao país, mas desta vez a sua vinda coincide com o Congresso da CASA, rumou também para esta nova força política?

Não tenho nada a ver com a CASA, desta vez vim porque terminei o meu mestrado em Comunicação, Estratégia e Liderança e, cansado, vim “recarregar as pilhas”. Pela primeira vez em dez anos quero relaxar, andando pelo interior, quero ir à Missão do Dondi, vou ao Huambo e quero conhecer um pouco mais o Norte. Não tenho nada a ver com a CASA.

 Pode ler o resto da entrevista clicando aqui.

Falando com os meus manos centraleiros chegámos a conclusão que o melhor seria fazermos este exercício antes que as “mentes brilhantes” por detrás daqueles panfletos que circulam pela cidade acusando-nos dos impropérios habituais (vendidos ao ocidente, lacaios de sei lá mais o quê e, mais recentemente, agente da CIA), as Isabeis João desse nosso “jornalismo”, tivessem a genial ideia de capitalizar na nossa recente visita à Embaixada dos EUA, com um simples “Não vos dissemos?”. Pois é, os mesmos que, não encontrando nada mais de que nos acusar, perdem-se em devaneios desesperados, acusando-nos de estarmos a agir a mando de seja quem for que lhes dê jeito: já foi a UNITA, depois o BD, depois, finalmente, as “potências” ocidentais, reduzindo a nossa já tímida (sem embargo, prepotente) existência à uma generalizada “impotência”.

Para não vos dar esse gostinho caros amigos desinformadores, travestidos em “jornalistas”, nós antecipamo-nos, pois não temos nada a esconder e não temos vergonha de falar com quem bem entendamos:

Depois de termos sido contactados por email, o Carbono e eu próprio, algo reticentes, justamente com receio de dar mais lume aos piromaníacos do regime, fomos travando um diálogo com o Derek Wright, responsável pelos assuntos políticos, questionando acerca das suas intenções e do porquê que de repente, depois de um ano de servirmos de saco de pancada, tinham interesse em ouvir-nos. Verdade seja dita, nunca foi nossa política procurar contactos com as representações diplomáticas de país algum, pois achamos que somos maduros o suficiente para assumir as consequências dos nossos actos entre angolanos e ficaria de muito mau tom, provocar o dragão e depois esconder-se atrás das saias protectoras daqueles que acusamos de um monte de coisas. Assim sendo, não tendo a atitude proactiva de procurá-los, não podemos afirmar categoricamente que não havia interesse da parte deles, fica só já assim!

A retórica do Derek convenceu-nos e resolvemos ir, um grupo de 4 centraleiros: Timóteo João, Massilon Chindombe, Adão Ramos e eu próprio Luaty Beirão.
A conversa foi praticamente num sentido, eles queriam ouvir a nossa história e nós comunicámos o melhor que sabemos. O Derek deixou logo claro que o trabalho dele consiste em registar tudo, todas as versões, de todos os lados (mencionou a reunião com o Coque Mukuta – que agora a Isabel João quer pegar para atirar o nome do rapaz na lama – e com o Luther Rescova – este por sua vez poupado das diatribes selectivas da “jornalista” em questão), dizendo-nos que todos pronunciamos os mesmos anseios: mais liberdade, mais justiça, mais democracia (sério Luther? Não está bom assim com o teu patrão aí a puxar os cordelinhos?). Avisou-nos, não que fossemos perguntar e não que estivessemos a espera de outra coisa, que os EUA não garantem em momento algum mais do que a oportunidade para contarmos a nossa história. Isso significa, para as Isabeis João dessa vida, nada de pressões ao JES por detrás das cortinas, apoio logístico ou de segurança, ou de que natureza for, apenas o registo da nossa singela história de pauladas nos cornos!

Foi um encontro amistoso, o Derek é jovem e muito simples no trato, ouviu-nos durante uma hora e algumas esquebras e assegurou-nos que o relatório seria enviado aos seus superiores.

Convidou-me para um evento de artistas Hip Hop nos Estados Unidos que se dediquem ao mesmo tempo ao activismo social, com a participação de artistas desse género musical que (às vezes) pratico de vários, recônditos cantos do mundo. Infelizmente, na altura que se dará esse evento, eu estarei em tournée com a minha banda Batida e por isso vou perder essa fantástica oportunidade. Isabel João, veja bem, em TOURNÉE, ie, TRABALHO, não vou para o exílio ok?

Bateu bwé, nakela unidade, mais careca, mais cicatrizado, mais convencido do que nunca que estou a trilhar o caminho da liberdade, independentemente dos espinhos que tenha de pisar.

Luaty Beirão

Alguns dos nossos centraleiros foram entrevistados a semana passada pelo programa do World Service da BBC, numa reportagem que já não se ouvia faz tempo por parte daquela emissora britância. O mano Luaty Beirão, bem como a Nyanga T. e o Fernando Macedo, foram entrevistados pelo jornalista Ganês Komla Dumor sobre os benefícios da paz em Angola, 10 anos após o fim da guera. O gerente da loja Porsche em Luanda também teve o seu espaço, bem como alguns residentes de um dos musseques da capital. Foi um excelente trabalho por parte do nosso novo amigo Komla. A Louise Redvers da BBC teve a gentileza de nos ajudar a editar os audios – só as partes do programa referentes a Angola estão disponíveis nos audios que gentilmente postamos abaixo. Boa escuta!

Some of our ‘centraleiros’ were interviewed last week for BBC’s World Service Program, the likes of which haven’t been broadcast from Angola for quite some time. Luaty Beirão, Nyanga T. and Fernando Macedo were all interviewed, as was the manager of Porsche’s dealership in Luanda and, on the other side of the spectrum, residents of one of Luanda’s notorious slums. Our new friend Komla Dumor added his characteristic flair to the broadcast, which focused on the perceived benefits of 10 years of peace in Angola. It was a well-balanced and well-researched piece by the BBC, and Louise Redvers had the courtesy of helping us edit the audio that you can hear below – only the parts of the program concerning Angola are made available for your listening pleasure (or displeasure).