Ponto da Situação – Uma Carta à Mãe

Posted: July 10, 2012 in Ficção/Conto, Opinião

Querida Mãe,

Queria te dizer que espero que esteje tudo bem, mas não está. Sei que te dói a alma.

Está tudo de patas pro ar.

Dois dos teus filhos continuam presos e não se sabe bem aonde. A polícia não diz nada e os mantém em prisão ilegal. Não cometeram crime nenhum. Os seus nomes, Alves Kamulingue e Isaías Cassule, serviram de fonte de inspiração para outro filho teu a escrever um poema:

Eu sou Kamulingue
Eu sou Cassule
Amanhã seremos dois Kamulingues
Mais dois Cassules
Depois de amanhã seremos três Kamulingues
Mais três Cassules
E não tardará, Angola será de todos os Kamulingues
E de todos os Cassules.

Haverá uma manifestação no dia 14 de Julho. Os teus filhos já esperam pelo pior: agressões, ataques e uma incompreensível sede de sangue por parte daqueles que acreditam que tu não deves ser uma mãe inclusiva e democrática e que os teus filhos não merecem viver em democracia, pluridade e paz.

E as eleições…epa, mãe, eu desisti de perceber como é que um partido com supostos 5 milhões de habitantes tem tanto medo de eleições. Desde 2010, aboliram as eleições presidenciais directas, inventaram esta malabarice de eleições atípicas, deram poderes extraordinários ao Presidente da República (mãe, como é que um só homem, que nem sequer é eleito directamente pelo povo, pode ter tanto poder?); a CNE já vai no seu terceiro presidente desde o início do ano; o FICRE ainda não foi auditado, ao arrepio da lei, e até hoje ainda não foram publicados os cadernos eleitorais, também ao arrepio da lei. Os juízes do Tribunal Constitucional, que são todos do partido no poder, excluiram partidos do pleito eleitoral com base nestes dados não auditados do FICRE, mas aprovaram partidos de quem nunca ouvi falar nem os vi fazer recolhas de assinaturas; mãe, há casos de mandatários de lista que votaram há quatro anos com o mesmíssimo cartão, mas hoje já não constam no FICRE. O que é isso mãe?

Como podemos confiar em eleições assim? Mãe, muitos amigos meus nem sequer vão votar nestas eleições, por considerarem perca de tempo…

Agora a CNE está a querer aprovar leis que já foram rejeitadas na Assembleia Nacional, sem ter competências para o fazer. Mas mãe, se têm 5 milhões de habitantes, porquê estes truques todos? De onde vem esste medo?

Sabes o que eu acho mãe? Eu acho que isso de 5 milhões de habitantes é só cantiga, tipo aquela do Pioneiro Ngangula. Acho que estes truques todos são por causa do friozinho que eles sentem no estomago. Aquele medo de perder as benesses, os poderes extraordinários, o lucro fácil que provem da corrupção que eles tanto adoram e que lhes sustenta.

Senão vejamos, mãe. Os jovens já perderam o medo. Mesmo com todas as cacetadas que levaram, os raptos, as agressões, os ferros na cabeça, as ameaças de morte, as cocaínas nas binas, as milícias, os aliciamentos, mesmo com tudo isso mãe, eles ainda estão aí, prontos para outra marcha.

E agora os ex-combatentes ainda, mãe? Esses nunca tiveram medo, mas agora menos que nunca. Pararam a cidade no outro dia e prometem fazê-lo outra vez; era ouvi-los a cantar, em voz alta:

Eu Vou Morrem em Angola!
Com arma da guerra na mão,
Granda será meu caixão,
Enterro será na patrulha!

Causava arrepios, mãe. Homens destemidos, sem mais nada a perder, que foram usados como carne de canhão e agora estão aí, esquecidos e atirados a sua sorte.

E mãe, no outro dia os da oposição puseram centenas de milhares de angolanos na rua em todo o país, sem promessas de birra e comida; sem Nagrelhas, Yolas e Yuris para animar a plateia; sem fechar os mercados da cidade; sem obrigar alunos em idade escolar a a comparecerem; sem ameaças ao sector público, e sem promessas de milhões. Contaram só mesmo com o desejo do povo em ver eleições livres e justas e a não pactuar com a fraude. Já os outros precisaram de tudo isso e mais alguma coisa (leia-se, toda a máquina propagandística da comunicação social nacional) e mesmo assim não conseguiram o milhão que queriam, eo pai grande deles recusou-se a dirigir-lhes uma palavra sequer.

Os jovens perderam o medo, os ex-combatentes já não estão para brincadeiras e perderam confiança no partido, há divisões internas dentro do próprio partido, o povo já não comparece as maratonas como antigamente…de repente mãe, os 5 milhões de militantes já não parecem assim tão seguros! Isso pra não dizer que, como disse o outro, o eleitorado muda. As pessoas mudam de opinião. De repente o medo começa a fazer sentido…

Mãe Angola, tenho medo por ti. A ganância deste homens não conhece fronteiras. É só veres os ex-combatentes na miséria e o seu Ministro a se passear em carros de luxo e a relaxar em mansões de $10 milhões no Lubango…

Mãe Angola, não sei o que será das próximas semanas, meses..só tenho um desejo intenso de mudança, porque já ando farto de te ver maltratada, violada, sofrida. Já ando farto de ver os teus filhos a sofrer e já ando farto de sofrer com eles.

Mãe Angola, estou pronto para a mudança e farei tudo para alançá-la.

Espero poder contar contigo.

Um beijo tenro,

O Teu Filho,

Juventude

Comments
  1. Lubazandy.. says:

    quão triste deixara-me!!! agora os governos das desculpas esta sem autos para suster suas tiras tirânicas.Mater não deixa-me órfão

  2. Revolucionario Voluntário says:

    Eheh

    Simplesmente arrepiante!
    Muito criativo [sobre tudo o poema do Kamulongue] e informativo com uma perspectiva panorâmica da dinâmica do heracliteísmo civilizacional ou da humanidade.

    É verdade! Estamos todos juntos, pela Mãe Angola emancipada e confortada, apesar da hipótese de ser a “terra” a nos oferecer conforto, lutaremos…

    Pela verdade lutaremos, com as armas ideológicas e objectivas, para buscar o ar fresco de que Angola e os angolanos precisam respirar.

  3. the domono says:

    mae angola estamos prontos pra mudança, e mandar pro tribunal internacional quem nos faz sofrer…

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