Archive for December, 2012

Hoje os nossos manos foram soltos após 6 dias de calvário. O juíz considerou não haverem provas suficientes para reter os jovens sob custódia até que se retome a sessão… em 2013. Aguardam por isso em liberdade!

soltura

Ao mesmo tempo, numa banda do Município “R”, Carbono Casimiro recebia esta mensagem reconfortante de festas felizes.

carbono morrera

Assim seguimos, entre conquistas e tropeções, rumo a 2013.

Tamu juntu!

A detenção de cerca de uma dezena de jovens manifestantes pela Polícia Nacional Angolana está sendo considerada ilegal pelo advogado de defesa, basicamente por ter excedido o período, segundo o Código Penal, do começo de processos sumários.

Desde a detenção dos jovens aos 22 de Dezembro, passaram-se 6 dias sem nenhuma aparição em tribunal, e hoje, o julgamento terá lugar mas provavelmente não chegará ao fim e sendo assim, alastrando-se para o ano 2013.

Os jovens integrantes do Movimento Revolucionário foram detidos durante um protesto que visava exigir a liberdade de Isaías Cassule e Álves Kamulingue desaparecidos aos 27 e 29 de Maio deste ano.

O julgamento dos jovens que devia ter começado ontem, 27 de Dezembro, foi adiada para hoje alegadamente devido a ausência do juíz.

O processo terá lugar no tribunal Dona Ana Joaquina, frente ao Ministério das Relações Exteriores (MIREX) e a Robert Hudson, na Maianga.

O advogado de defesa, Luís do Nascimento, questionou a legalidade da detenção segundo os artigos 381º e 391° do Código Penal que dita o começo da realização de processos sumários num período máximo a 48 horas após a detenção dos réus.

O Movimento Revolucionário alertou sobre várias incongruências registadas no processo sumário.

“A informação acerca de onde e quando seriam julgados está a ser propositadamente ocultada para facilitar mais uma fantochada de julgamento sem defesa, ou com ‘defesa’ do promotor público, quando nós já temos advogados que se prontificaram para nos representar: Luís Nascimento e Marcolino Moco,” disse Luaty Beirão, um dos integrantes do Movimento.

Os jovens manifestantes, que encontram-se detidos na Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC), manifestaram descontentamento pelo mau tratamento a que estão a serem submetidos.

Eles alegam serem submetidos à fome e que um dos jovens detidos, António João Ferreira Broas, esteve com paludismo e passou a noite com febres altas e que não lhe foi prestada nenhuma assistência médica.

A reclamação foi denunciada pelo jovem Jang Nomada, que conseguiu chegar a tempo de interpelar o carro-cela onde seguiam os jovens detidos para ouvir deles.

“Não nos estão a dar de comer,” disseram os detidos ao Nomada.

“Os manos estão a passar fome, e não é uma greve voluntária, e estão ilegalmente detidos. O julgamento sumário deve ocorrer no primeiro dia útil após a sua detenção,” disse.

Tendo-se apercebido do sucedido, os jovens Américo Vaz e Jang Nomada foram a DPIC, onde foram informados que não podiam visitar os detidos, mas em contrapartida, fizeram questão de deixar alguns alimentos para os detidos.

Durante a manifestação de Sábado, 22 de Dezembro, onde os jovens foram detidos, a Polícia de Intervenção Rápida (PIR), fazendo o uso de força excessiva e agredindo manifestantes com porretes,  gás lacrimogéneo e balas de borracha, prendeu dezenas de jovens activistas e peões que foram levados para a 4ª, 5ª e 6ª esquadras.

A marcha partiu do Largo da Independência, no 1º de Maio, e foi reprimida pela polícia na rua Marian Ngoubi em direção ao Ministério da Justiça, na Maianga.

Pelo impedimento do percurso da marcha pela polícia nacional, o Movimento juvenil defendeu que elementos infiltrados na manifestação pacífica, causaram distúrbios em gesto de retalhação às agressões policiais.

No mesmo dia, a polícia deteve e libertou Zita Conde, Marcelina Carlos, Lacerda Van-dúnem e mais quatro jovens anónimos que estavam na 6ª Esquadra junto à Assembleia Nacional.

De forma selectiva, a polícia manteve detidos os jovens: Hugo Kalumbo, Gabriel Chakussanga, Mateus Chiwale, Salomão “Alemão” Franciso, Baltazar Alberto e António João Ferreira Broas.

Numa reportagem, a que os jovens denominaram de “distorcida” por terem sido referenciados como “afiliados à UNITA”, pela Televisão Pública de Angola (TPA) no dia da manifestação, a Polícia Nacional prometeu remeter o processo as instâncias judiciais, levando os jovens a tribunal por supostamente causarem “pânico, distúrbios público, vandalismo à propriedades privadas e insultos à polícia”.

Tal como nas detenções que sucederam durante as manifestações passadas, a convite da polícia, a TPA entrevistou jovens detidos, num acto que os manifestantes descrevem como uma tentativa de forçar os jovens a admitirem supostas culpas publicamente.

Na reportagem, o jornalista da TPA diz que “um dos líderes da manifestação assume em nome do grupo os danos e reconhece que essa não foi a via mais correcta de reivindicar”.

Contrariamente, em nenhum momento o jovem entrevistado, Salomão Francisco, admite culpa embora ter lamentado pelo que aconteceu com as viaturas.

Pela TPA, o Segundo Comandante Provincial da Polícia de Luanda, Dias do Nascimento, confirmou a detenção de 6 jovens e registou “12 viatura totalmente danificadas”.

Dois dias antes da manifestação, 6 jovens membros do Movimento juvenil e dois familiares dos desaparecidos, Isaías Cassule e Álves Kamulingue, tiveram um encontro com o Ministro do Interior, Ângelo Tavares, onde as autoridades comprometeram-se a abrir um processo de inquérito sobre os desaparecimentos.

A reunião contou com a presença do adjunto do Procurador Geral da República, Arcanjo Custódio, o Comandante Geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, o Director Nacional de Investigação Criminal (DNIC), Eugénio Pedro Alexandre, e o Secretário do Estado para a Juventude, Nhanga Assunção.

No encontro, o Ministro do Interior disse “não ter a mínima intenção de coartar os (…) direitos (dos jovens)” mas avisou que tinha “inteligência que haverá infiltrados na manifestação para denegrir a nobre causa e tirar daí dividendos políticos”.

Ângelo Tavares ameaçou que “se houver comportamentos irregulares e à revelia da lei, a polícia terá de intervir para repor a ordem e a tranquilidade”.

Dito e sucedido, a manifestação que foi brutalmente reprimida pela polícia de intervenção Rápida, num acto que o Movimento disse que estava “convicto que os dois jovens que decidiram pegar em pedras para confrontar a polícia anti-motim, fazem parte dos tais que o Ministro Ângelo Tavares mencionou como ‘infiltrados para tirar dividendos políticos’.

“A questão agora é quem beneficia mais com a generalização da imagem de manifestantes ‘confusionistas’? Serão os partidos da oposição que poderão acusar o regime de repressivo incorrigível, ou o regime que pode continuar a mostrar que os jovens não conseguem que se lhes dê a mão, querem logo o braço? Uma coisa é certa, os únicos que não beneficiam NADA são os manifestantes, por isso não haveríamos de infiltrar ninguém com intuito de subverter aquilo que professamos,” disse o Movimento juvenil.

Diante de mais um julgamento sumário, o Movimento Revolucionário juvenil publicou várias fotografias e vídeos que expoem a brutalidade policial sofrida pelos seus integrantes.

Os jovens pretendem usar tais materiais visuais como evidências incontestáveis no julgamento “sumário” dos seus integrantes.

Por: Pedrowski Teca | Quinta-feira, 28 Dezembro 2012

Antes da manifestação de sábado, mandamos uma carta ao Governo Provincial de Luanda e à Polícia Nacional, como manda a lei, informando-os do trajecto da nossa marcha. Tanto o GPL e a PN mantiveram-se calados. Dias depois, nos reunimos com algumas das entidades mais altas do país, incluindo o Ministro do Interior, e o transmitimos, entre outras coisas, a nossa intenção de realizar a marcha e que percurso iria seguir.

Mesmo assim, fomos interpelados pela Polícia de Intervenção Rápida e anti-motins ainda muito antes da chegada ao nosso destino final. As imagens que se seguem mostram o o que se passou no sábado.

A TPA disse que os manifestantes eram membros da JURA, associando a manifestação da juventude angolana à uma subversiva actividade partidária, borrando assim o nome dos jovens apartidários e o dos seus principais adversários. Vejam e digam de própria justiça: quem busca a violência afinal de contas?

Gás lacrimogéneo, porradas de porretes, várias detenções arbitrárias e relatos de tiroteios orquestrados pela polícia anti-terror (anti-motim), foi o saldo da manifestação realizada hoje pela juventude angolana e que visava a exigência da liberdade incondicional de dois cidadãos desaparecidos há 7 meses.
A manifestação pacífica organizada pelo conhecido Movimento Revolucionário juvenil, na tentativa de reivindicar a liberdade de Isaías Cassule e Álves Kamulingue desaparecidos aos 27 e 29 de Maio deste ano, sofreu forte repreensão por parte das autoridades angolana.

Horas antes da concentração do acto, um jovem activista identificado por Alex, foi supostamente sequestrado quando se dirigia ao local e a notícia espalhou-se rapidamente entre os activistas.
Em Luanda, a marcha partiu do Largo da Independência, no 1º de Maio, e pretendia terminar no Ministério da Justiça na Maianga, mas todos os acessos ao mesmo local foram bloqueados e os manifestantes interceptados na rua Marian Ngoubi pela polícia anti-motim.

“A manifestação chegou até ao Largo da Maianga sem nenhum incidente e sem acompanhamento policial, para encontrar um cordão de anti-motins. A polícia tentou encetar diálogo connosco, mas havia no nosso seio pessoas infiltradas com intuito de provocar o confronto. Não se tentou muito para apaziguar os ânimos e começou-se logo a disparar essas bombas de gás. Os manos estão todos tontos neste momento,” relatou Central Angola, o site de informação do movimento juvenil.

Na rua Marian Ngoubi, a polícia dispersou os manifestantes com uso de força excessiva com porretes, detenções e gás lacrimogéneo que resultou em desmaios.

Há relatos de várias detenções e desaparecimentos de jovens activistas e transeuntes mas até ao momento conseguiu-se identificar nomes como: Hugo Kalumbo, Alemão “o monstro imortal”, Zita, Marcelina Costa, Chakussanga, Mateus, aparentemente detidos na 4ª Esquadra, e outros não identificados que foram levados à 5ª Esquadra.

Na sequência das detenções, o Secretário-Geral do partido político Bloco Democrático (BD), Filomeno Vieira Lopes, exigiu em nome do seu partido, a liberdade dos jovens manifestantes.

“O Bloco Democrático protesta veemente contra a ofensiva policial brutal contra os manifestantes duma marcha legal e do conhecimento de toda a estrutura governativa. Exige a libertação imediata de Hugo, detido em estado de inanimidade, devido ao excesso de gás lacrimogéneo que inalou. Apenas por mera casualidade os dirigentes do Bloco Democrático presentes, Luís Nascimento, Alfredo Baruba e Américo Vaz, não sofreram agressões cruéis, tendo que se refugiar em sítio seguro. O regime mostra mais uma vez estar muito distante da convivência democrática,” disse Lopes.
Na mesma senda, o deputado do maior partido da oposição, Adriano Sapiñala disse: “a ditadura angolana precisa de ser parada. Não nos podemos permitir mais que Angola e os Angolanos andem ao sabor de JES quando o resto de Angolanos são tratados feitos animais. Infelizmente JES não tem conseguido fazer a leitura dos sinais dos tempos e isso poderá condiciona-lo a ter um final muito trágico. Os Angolanos de hoje não são mais os de 1977 nem 1992, hoje a consciência dos Angolanos amadureceu e não se deixarão bater mais por muito tempo. O tempo das ditaduras acabou pelo que não será está de Angola que perdurará por muito mais”.

Este tratamento agressivo de jovens manifestantes por parte do regime angolano, surgiu dois dias depois que 6 jovens membros do movimento juvenil e dois familiares dos desaparecidos, formalmente tiveram um encontro com representantes do governo angolano, que oficial e abertamente abriram um processo de inquérito sobre os desaparecimentos, apesar das autoridades negarem conhecimento do caso e do paradeiro dos desaparecidos.

No que foi conotado como tentava de prevenção da realização da manifestação convocada, o diálogo com a juventude foi encabeçada pelo Ministro do Interior, Ângelo Tavares, e contou com a presença do adjunto do Procurador-Geral da República, Arcanjo Custódio, o Comandante Geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, o Director Nacional de Investigação Criminal (DNIC), Eugénio Pedro Alexandre, e o Secretário do Estado para a Juventude, Nhanga Assunção.
No encontro, o Ministro do Interior sublinhou “não ter a mínima intenção de coartar os (…) direitos (dos jovens) ” mas avisou que tem “inteligência que haverá infiltrados na manifestação para denegrir a nobre causa e tirar daí dividendos políticos” e ameaçou que “se houver comportamentos irregulares e à revelia da lei, a polícia terá de intervir para repor a ordem e a tranquilidade”.

No encontro da juventude manifestante com a polícia anti-terror na rua Marian Ngoubi, houve dois jovens que foram vistos a atirarem pedras aos agentes da polícia e aos carros estacionados na via, e o movimento juvenil respondeu sobre o incidente:
“Estamos convictos que os dois jovens que decidiram pegar em pedras para confrontar a polícia anti-motim, fazem parte dos tais que o Ministro Ângelo Tavares mencionou como ‘infiltrados para tirar dividendos políticos’. A questão agora é quem beneficia mais com a generalização da imagem de manifestantes ‘confusionistas’? Serão os partidos da oposição que poderão acusar o regime de repressivo incorrigível, ou o regime que pode continuar a mostrar que os jovens não conseguem que se lhes dê a mão, querem logo o braço? Uma coisa é certa, os únicos que não beneficiam NADA são os manifestantes, por isso não haveríamos de infiltrar ninguém com intuito de subverter aquilo que professamos”.

A manifestação para a liberdade de Kamulingue e Cassule, que também pretendia recolher donativos de natal para as famílias dos dois, terminou em mais desaparecimentos e detenções, cujo desfecho somente os próximos dias dirão em plena quadra festiva.

 

 Por: Pedrowski Teca | 22 Dezembro 2012

Centraleiros e gov

Compreensivelmente, um encontro público e publicamente divulgado com uma equipe de elite do regime deixa algumas pessoas confusas, coçando inquisitivamente as cabeças, indagando-se: “mas o que se passa afinal aqui, não era suposto estes serem inimigos?”.

Algumas dessas pessoas são (ou eram) nossas companheiras de luta há mais de dois anos e, conhecendo-nos melhor que a maior parte das pessoas que não interage connosco, a sua dúvida e a virulência das suas reacções, exibe uma clivagem profunda nos métodos que cada um considera ser mais adequados para levar a cabo a árdua tarefa que temos em mãos.

Considerando que água e azeite não se misturam, fixam-se nesse axioma raramente trasladável para seres humanos marcando o diálogo com os responsáveis pelos seus infortúnios como a linha a JAMAIS pisar. Nesse âmbito, não estão prontos a tolerar comportamentos por eles considerados desviantes por parte de qualquer outro companheiro, sendo os eventuais transgressores imediatamente enviados para o “pelotão de fuzilamento”, após julgamento sumário das suas limitadas cabeças.

Em nome da transparência que defendemos, aqui vai um pequeno resumo do que foi o encontro de ontem, para além do que se pode auferir pela pequena peça exibida na TPA no noticiário de ontem. Após esta exposição, convidamos todos os leitores a julgarem a nossa escolha como bem lhes aprouver. Recomendamos a leitura do artigo anterior “Uau, fairplay no maioritário“, para um prefácio do que agora vos expomos.

O encontro convocou-se para as 9 horas da manhã de ontem, quarta-feira dia 20, e foi-nos transmitido que nele iriam estar o Ministro do Interior, o Chefe da Casa Militar, o Procurador-Geral da República e o Ministro da Justiça. O local: Ministério do Interior, na Marginal.

Por volta das 8h35, já se faziam presentes no local o Hugo Kalumbo, o Luaty e o Coque Mukuta que trouxe consigo o irmão do Kassule. Pouco depois, o S.E. Nhanga Kalunga veio informar-nos que já estariam TODOS os acima evocados no local e aguardando por nós. O Mbanza, Carbono, Nito Alves e os familiares do Kamulingue (esposa e tio) estavam encurralados no trânsito infernal e imprevisível da cidade capital e, por uma questão de respeito aos horários estipulados, decidimos entrar sem eles para honrar o nosso compromisso.

Os representantes do executivo optaram por aguardar que chegassem todos os que deveriam estar presentes, o que atrasou a reunião à volta de 45 minutos. Nesse entretanto, o General Kopelipa teve de retirar-se sem ter dado o “ar da sua graça”. Dado que o atraso era nosso, não tínhamos moral para fazer finca-pé exigindo a sua presença.

Quando finalmente a sala estava composta com todos os elementos convidados, entraram na sala alguns dos mais importantes funcionários públicos ao serviço do povo angolano (muitos dos quais acham que esse estatuto lhes dá mais direitos do que deveres), dentre os quais o Director Nacional da Investigação Criminal (DNIC), o Comandante-Geral da PN, Ambrósio de Lemos, o Procurador-Geral Adjunto e o S.E da Juventude. Logo a seguir, uma entrada triunfal do titular da pasta do Interior, Ângelo Tavares, que causou um efeito trampolim imediato nas cadeiras dos previamente mencionados que se levantaram numa fracção de segundo com uma sempre surpreendente subserviência, se tivermos em conta que havia ali pessoas praticamente septuagenárias. Foi algo surreal e lembrou a reverência obrigatória ao professor do ensino de base que quando entrava na sala de aulas, despoletava o mesmo efeito, acompanhado de um “bom dia camarada professor”!

Depois dos agradecimentos e introduções da praxe a palavra foi-nos concecida e nós tomámo-la por aproximadamente uma hora evocando essencialmente o que tinha sido feito do nosso lado (activistas e familiares) para divulgar essa gravíssima ocorrência.

Nós falámos do programa de rádio, da imprensa alternativa, da privada, das redes sociais, das várias campanhas simbólicas que foram sendo levadas à cabo para que os nomes dos dois jovens não caíssem no esquecimento.

Os familiares informaram que bateram mais de 5 esquadras pela cidade de Luanda (incluíndo o próprio Comando-Geral) com fotocópias do bilhete de identidade dos desaparecidos e com contactos pessoais dos familiares caso fossem localizados.

Ao se lhes perguntar se tinham feito uma “queixa formal”, os familiares, comprometidos, não sabiam muito bem como responder a esta pergunta, dizendo que sim, mas não sabendo dar um nº de processo ou do investigador que dele tinha ficado incumbido. Aqui nasceu o fio condutor da desresponsabilização do executivo que foi sendo martelado ao longo do encontro e que deu depois forma à peça exibida pela TPA: “a culpa é ESSENCIALMENTE dos familiares, que privilegiaram a imprensa privada ao invés de usar os corredores adequados para resolução destes “assuntos”.

Curioso que, além da implicância com a imprensa “privada”, o argumento usado para se furtarem a investigação dum caso que assumem ser “gravíssimo” e que é de domínio público há já 7 meses, é o facto de não ter sido FORMALIZADA uma queixa. É para rir, ou para chorar baba e ranho?

É importante frisar aqui por uma questão de justiça e compromisso com a verdade, que a TPA não entrou por nos terem preparado uma cilada. Foi usado o argumento de como tínhamos levado o Coque Mukuta que era jornalista, então não deveríamos importar-nos com a presença de “outra” imprensa, ao que nós anuímos, pois não temos vergonha nenhuma de ter lá estado e, assim sendo, faltavam-nos razões para querer ocultá-lo.

O nosso Nito Alves, sempre acutilante e algo inconveniente, tomou a palavra para lembrar aos mais-velhos que não estão a saber ler os sinais dos tempos e dos exemplos que abundam acerca do que sucede quando um povo é metido na panela de pressão durante tanto tempo: “vocês estão a conduzir o país para outro banho-de-sangue”, vaticinou.

Outros assuntos foram mencionados como preocupações importantes de expor, mas por serem algo descontextualizadas (e menos importantes) do que lá nos levou, descartaram-se as respostas a estas reclamações.

Foi então a vez de os “mais-velhos” tomarem a palavra. Os pronunciamentos do Procurador-Geral Adjunto e do Director da DNIC foram simplesmente tenebrosos na sua falácia e arrogância respectivamente, um dizendo que “não tinha sido feita em tempo útil (?!?) uma denúncia à PGR acerca deste caso, que desconhecia em absoluto, caso contrário, fariam o mesmo que fazem com todas as queixas que aterram nos seus gabinetes: abrir-se-ia imediatamente um inquérito que seria meticulosamente levado à cabo”, o outro dizendo que “não sou obrigado a ouvir a imprensa privada e não sou ouvinte da VORGAN” (?!?!), rematando de seguida que “ouvimos no entanto falar por alto do assunto e fizemos algumas diligências em esquadras e hospitais, sem no entanto obter resultados”.

Seguiram-se o Comissário Ambrósio de Lemos, o S.E. da Juvente Nhanga Kalunga e o Ministro Ângelo Torres, que oscilaram entre o simpático, quase paternalista, e o já habitual discurso da externalização das culpas da sua inépcia para os mais humildes que não sabem como proceder diante da burocracia opressiva. Houve um raro momento mea-culpa quando o Ministro admite que “se calhar por parte da polícia podia ter sido feito mais, havendo por isso falhas de parte a parte”. Pois, QUALQUER agente em QUALQUER uma das várias esquadras onde compareceram os familiares  dos jovens desaparecidos TINHA A OBRIGAÇÃO de informar os desavisados como proceder para abrir oficialmente um processo. Cabe A POLÍCIA informar o cidadão como proceder! Ambrósio de Lemos fez questão de sublinhar que TODAS as quartas-feiras recebe no seu gabinete o público e que às vezes (imagine-se) estas audiências estendem-se pela noite fora. Diz também que os seus números são públicos e estão ligados 24 horas por dia para atender QUALQUER situação. Assim sendo disponibilizámo-los aqui para qualquer cidadão que tenha um assunto de polícia que não consiga resolver com a base da pirâmide: 912500138 e 924282818.

Este tipo de defesa do indefensável começou a trocar-nos às voltas ao estômago, sobretudo quando se tocou no assunto da manifestação e se evocou mais uma vez o fantasma da guerra e da instabilidade, para sugerir que privilegiássemos o “diálogo” ao invés de “métodos que nada dignificam o país”.

O que o senhor Ministro (e restantes) talvez não tivesse à espera, foi o pedido da palavra por parte do Luaty quando, depois do seu discurso em que sublinhou “não ter a mínima intenção de coartar os nossos direitos”, mas avisando “temos inteligência que haverá infiltrados na manifestação para denegrir a vossa nobre causa e tirar daí dividendos políticos” e ameaçando veladamente “se houver comportamentos irregulares e à revelia da lei, a polícia terá de intervir para repor a ordem e a tranquilidade”, se aprontava para encerrar o encontro.

O mano começou por dizer que estava extremamente desapontado com a miserável linguagem política utilizada para se desculparem esfarrapadamente da sua inércia em relação a um assunto que consideraram de extrema gravidade, lembrando ao Director da DNIC que diligências para inglês ver não podem ser consideradas como tal, pois em momento algum se dignaram em procurar os familiares para apurar os factos, coisa que os jornalistas fizeram por eles. Fez questão de lembrar também o PGR adjunto que já tinham entrado na PGR várias cartas em que se citava o caso do Kassule e do Kamulinge ainda ANTES das eleições. Não se esqueceu de refrescar a memória ao Comandante-Geral dizendo que já lhe tinha sido entregue uma cópia de DVD com vídeos em que se vêm claramente quem são os provocadores de arruaças e promotores da instabilidade e que esses, contam não só com a conivência, mas protecção da polícia e, finalmente, virando-se para o Ministro, lhe indicou que se existe inteligência para antecipar elementos infiltrados na manifestação, deveria haver também para se conseguirem contactar os familiares de Kassule e Kamulingue sem que os tivessemos de levar à sua presença e mais, que se esses elementos estão identificados que nos ajudem a ajudá-los, revelando as suas identidades, para que possamos estar atentos aos seus comportamentos na manifestação e “colaborar com as autoridades, como sempre quisemos fazer quando reparamos que existem elementos mais exaltados no seio da manifestação que, ao não reagirem ao apelo à calma, fazemos questão de notificar as autoridades para que o extraiam da mesma”. E ESTA foi a frase que a TPA aproveitou de maneira propositadamente descontextualizada, para mostrar, quiçá, que estaremos domesticados e obedientes. Houve ainda tempo para um apelo: “Não voltem NUNCA MAIS a associar os nossos nomes à guerra e a instabilidade. Nenhum de nós quer ver o país de pantanas e se o sacrifício dos nossos corpos não for disso prova suficiente, então que a persistência em fazê-lo o seja. Ninguém no seu perfeito juízo há de apreciar a ideia de um retorno à guerra, pois temos a certeza que não haverá ninguém nesta mesa que não tenha perdido nesse fratricídio massivo pelo menos um familiar”.

Saímos de la satisfeitos porque dissemos o que tínhamos de dizer, porque os familiares saíram dali num carro patrulha directamente para a DPIC onde foram formalizar a queixa e depois levados por outro carro para as suas respectivas casas e porque, acreditamos nós “provámos” que somos mais que “jovens bêbados e drogados, sem sentido de estado, apoiados por forças ocultas que querem ver o país mergulhar numa guerra”, que temos ideias próprias e que somos movidos por um elevado sentido de patriotismo e não por um qualquer partido político ou influência estrangeira.

A MANIFESTAÇÃO SAI AMANHÃ, FAÇA CHUVA OU FAÇA SOL, HAJA JACTOS DE ÁGUA OU MILÍCIAS! ESTÃO TODOS CONVOCADOS!

É sempre com muitas pinças e reticências que parecem pontos de exclamação, que acedemos a um convite emanado de alguém com ligações declaradas ao regime. As razões são mais do que óbvias e seriam necessárias páginas inteiras para enumerar esses pontos pertinentes, já sobejamente conhecidos do público com pensamento livre e discernimento para distinguir “Jornal de Angola” de “jornalismo”. Seria portanto fastidioso estarmos a justificar-nos mais uma vez dos motivos que nos levaram a protelar durante um mês um encontro que nos foi requisitado pelo Secretário de Estado para a Juventude e Desportos, Nhanga Kalunga de Assunção.

Ignorando alguns conselhos por parte de kotas com sabedoria de quem muito viveu, já longamente rodados nestas andanças, decidimos que se reclamámos diálogo, temos de saber ouvir quando os nossos adversários requisitam “tréguas” e querem falar-nos. Fomos lá, fomos lá! Isto pode vir a revelar-se uma estratégia ingénua e desastrosa e virar-se contra nós (como hoje já se tentou fazer no programa Zwela, desvirtuando o objetivo do encontro e atribuindo-lhe uma conotação de namoro inconfesso para partir braço por rebuçados), mas a vida vive-se errando e nós estamos todos a aprender.

O encontro teve lugar na pretérita sexta-feira, dia 14 de Dezembro e durou cerca de duas horas. Foi EXTREMAMENTE produtivo! Em primeiro lugar, tivemos pela primeira vez a ocasião de ser oficialmente convidados por um órgão de Estado e entrar num Ministério de calças de pijama, chinelos e uma t-shirt “32 é muito”, apesar dos muxoxos de uma funcionária que, depois de reclamar em voz alta: “de chinelo? de chinelo?” (como se tivesse a ver passar impune o assassino do papa), teve de se resignar, pois seguíamos com alguém que pia mais forte. Em segundo lugar, porque fomos recebidos sem um único laivo de altivez por parte dos nossos anfitriões, que foram sempre muito polidos e atenciosos connosco. Em terceiro lugar porque ouviram (e não foi pouco) das boas, a maior parte das vezes assumindo com um trejeito dos lábios e um inclinar de cabeça que não tinham como contrariar os nossos argumentos, o que mostrou pelo menos que, estando do lado oposto da cerca, não estão (totalmente) indiferentes ao que denunciamos. Finalmente, porque pudemos pela primeira vez estabelecer um contacto HUMANO, com uma salutar troca de ideias que nos aproxima como ANGOLANOS, fazendo com que nos respeitemos nas nossas diferenças.

É claro que isto eram 4 angolanos do regime a falar com 4 “adversários ideológicos” e não temos a ilusão que aquelas 4 almas simpáticas possam ser representativas da vontade REAL de aproximação por parte do Executivo, de uma inflexão drástica na sua maneira de proceder com quem pensa diferente e contra quem contesta a legitimidade das suas acções. Foi isso mesmo que lhes transmitimos: “não vemos nenhum indício que nos faça perder o cepticismo em relação a este governo, pois a dança das cadeiras continua, e desde que nascemos que ouvimos promessas e declarações de vontade que não se traduzem em realizações concretas para além das inaugurações e cortes-de-fita eleitoralistas”.

Citámos dezenas de exemplos, começando pelo esvaziamento da supremacia da constituição quando o cidadão empossado Presidente cuspiu nela deliberadamente para mostrar quem manda, ao recusar-se cumprir com o estipulado no artº 118 da CRA.

Em alguns pontos eles fizeram algumas ressalvas e observações que educadamente discutimos, às vezes concedendo razão, outras vezes mantendo cada um a sua posição, o que é perfeitamente natural.

Falámos da manifestação do próximo sábado. Fizemos questão de entregar-lhes uma cópia da carta entregue ao GPL (e já aqui publicada) e da lei 16/91 que regula o direito à reunião e à manifestação, com sublinhados nas partes que nos interessavam para dissipar de uma vez o termo “autorizada” do léxico das manifestações. De maneira algo preocupante, mostraram algum desconhecimento pelo “caso” Kassule e Kamulingue, o que nos deixou mal impressionados. Ainda assim fizemos questão de resumir-lhes a história, o que não os terá deixado propriamente perplexos, mas reconhecendo que, a ser como narrávamos, era um acontecimento aberrante no Estado Democrático e Direito que alegamos pretender edificar.

O momento em que o nosso irmão Nhanga Kalunga subiu instantaneamente vários pontos na nossa consideração, foi quando o nosso mano Nito Alves pediu a palavra e exibiu todo o seu “talento” de revú, levantando o queixo, abrindo as narinas e disparando que “todo esse diálogo já sabemos que vai dar em nada, vocês são um governo de assassinos, vossas mãos estão sujas de sangue!”. Se o mano Nhanga (e os outros ilustres presentes) fossem 10 anos mais velhos e não tivessem a bagagem/estômago que ele comprovou ter, a conversa teria parado por ali e o diálogo teria de ser adiado para a próxima geração. Ao invés disso, o mano sorriu e provocou o Nito com mais perguntas incitando-o a continuar a metralhar “assassinos, bandidos ” e outros nomes pesados, renunciando à diplomacia. O mais incrível, não revelou a mínima ponta de ofensa e foi brincando com essa situação ao longo do resto da conversa. Digam-nos lá que isso não é fairplay e estarão a ser extremamente injustos!

Agora a parte interessante: hoje recebemos um telefonema do nosso mano Sidónio (assessor do Nhanga e assumido “centraleiro” – diz que a página da central está sempre aberta no seu computador e prova isso enunciando partes de artigos que metemos aqui de cor) pedindo um encontro de emergência para dali a algumas horas. Depois de acertos, negociações e algumas atribulações pelo meio, conseguimos finalmente encontrar-nos. O que ele queria transmitir-nos era que de todas as questões que aflorámos, a mais urgente pareceu-lhe ser sem dúvida a dos jovens raptados e que por isso fez diligências para conseguir juntar as pessoas que ocupam os pelouros que devem explicações ao público angolano e que tinha conseguido PARA AMANHÃ DE MANHÃ (altura em que a maior parte de vocês vai estar a ler este artigo) um encontro que iria juntar pelo menos o Ministro do Interior (Ângelo Tavares), o Procurador-Geral da República (João Maria de Sousa) e o Chefe da Casa-Militar (Manuel Hélder Vieira-Dias “Kopelipa”), 6 activistas cívicos e um familiar de cada um dos jovens raptados.

Sabendo que há uma manifestação agendada para o próximo sábado, temos a certeza que isso fará parte de alguma estratégia bem pensada para dar a entender que há vontade por parte do governo em “ouvir” os jovens e compadecerem-se com as suas lamurias, dando-nos a sua palavra de honra que irão envidar esforços para que se esclareça esse assunto de uma vez por todas. Mas não é por deduzirmos isso que deixaremos de mostrar que, do nosso lado, estamos dispostos a ouvir as suas justificações. Julgamentos faremos após a conversa.

Não nos surpreenderá que tentem convencer-nos a não sair no sábado, mas isso só poderá acontecer se os nossos irmãos forem “miraculosamente” encontrados VIVOS até sexta-feira e restituídos às suas famílias respectivas. Qualquer outro cenário é inaceitável e não iremos transigir.

Ficará também a ser difícil negar conhecimento de dita manifestação pelas mais altas esferas da República de Angola, como já se tentou fazer antes para se lavar as mãos das responsabilidades de protecção dos mesmos, o que nos dá alguma segurança acrescida em relação à sábado.

Nada mau para um bando de lúmpens han Rui Falcão?

Fundos e Mundos

Posted: December 19, 2012 in Angola, Argumentos, Corrupção, Notícias, Opinião

O kota Rafael Marques, “sniper anti-regime” como lhe apelidou o Novo Jornal, voltou a atirar. Desta vez o alvo foi o Fundo Soberano de Angola (FSDEA). No seu artigo, o autor destapa as diversas irregularidades presentes no fundo, a identidade dos seus verdadeiros gerentes, bem como faz perguntas ‘inconvenientes’. Algumas trechos:

Apesar das circunstâncias, Armando Manuel sublinhou que, até à presente data, o fundo não fez quaisquer aquisições ou investimentos. Passou, então, de forma confiante, a enunciar os planos do fundo para investir no sector hoteleiro em Angola, bem como na abertura de um hotel-escola para atrair estudantes de toda a África.

É difícil imaginar como a construção de hotéis servirá para responder às necessidades crónicas de Angola, quanto ao seu desenvolvimento. Também é caricato entender porquê e/ou como potenciais estudantes africanos de hotelaria e turismo gostariam de estudar na mais cara capital do continente africano, onde se fala inglês de forma ínfima.

Dois meses após o seu lançamento, em Dezembro, o FSDEA continua sem um quadro legal que sustente a sua existência e não tem qualquer política de investimento. Na realidade, o FSDEA começa a revelar-se como sendo apenas pouco mais do que um logo/uma marca bastante caro.

No início de 2012, vários artigos na imprensa privada e na mídia social revelavam que o filho do presidente, o Zenú, havia sido nomeado pelo pai para o conselho de administração do fundo. O África Monitor chegou a afirmar que a nomeação de Armando Manuel para presidente do fundo era apenas um engodo. Demasiado ocupado com as suas funções de assessor presidencial e, por deferência ao chefe, Armando Manuel delegaria sempre a presidência no filho do seu chefe.

Muitas pessoas manifestaram-se incrédulas. “Não era possível, certamente, Dos Santos teria mais juízo,” algumas vozes sussurravam. “Poderia apenas ser um rumor…” Mas, era verdade.

Então, em Agosto deste ano, a imprensa britânica reportou que “o Fundo Soberano Angolano” comprou uma propriedade imobiliária, numa das zonas mais caras de Londres, por US$ 350 milhões.

Os mais atentos coçaram as cabeças: Como era possível, a um fundo soberano que não existia, comprar propriedade em Londres?

Ademais, porquê o negócio tinha de ser feito por via de um intermediário, a firma de investimentos suíça Quantum Global?

As investigações sobre o assunto revelam a teia de poder, os tentáculos e conflitos de interesse. Uma das figuras centrais do Quantum Global é o empresário suíço/angolano, Jean Claude Bastos de Morais, amigo pessoal e mentor de Zenú. Ambos criaram e partilham, como sócios principais, o primeiro banco de investimentos em Angola, o Banco Kwanza Invest.

Por via de uma investigação mais pormenorizada, ficou claro que o cidadão suíço Marcel Kruse, um parceiro de negócios, de longa data, de Bastos de Morais, é o presidente do Conselho de Administração do Banco Kwanza, que até 2010 se chamava Banco Quantum. Contrariamente aos outros bancos que estão obrigados a revelar anualmente os seus relatórios e contas, o Banco Kwanza está isento, pelo menos para o público, de cumprir com este requerimento legal de transparência e boa gestão.

Maka Angola – assim como muitos angolanos – continua a interrogar-se como US $5 bilhões de dólares de fundos públicos angolanos acabaram sob gestão de um simples logotipo, cujos cordelinhos são movimentados a partir da Suíça pelos amigos do filho do Presidente? Alguns desses amigos foram recentemente condenados por gestão criminosa.

Pode ler o artigo na sua totalidade no site do Maka Angola, aqui. Also available in English.

Para além do FSDEA, outro fundo foi recentemente lançado em Angola, também por decreto presidencial e também sem passar pela Assembleia Nacional. Chama-se Fundo Activo de Capital de Risco Angoalno (FACRA) . O decreto presidencial foi despachado no dia 7 de Junho, e no dia 8 de Agosto foi declarado operacional pelo Ministro da Economia, Abraão Gourgel. Depois de um período sustentado de notícias acerca deste fundo na imprensa financeira de Angola, nunca mais se falou no FACRA. Pelo que se sabe, o fundo ainda não investiu em qualquer empresa.

Curiosamente, a gestão deste fundo também passou para o Banco Kwanza Invest, fundado pelo filho primogénito de José Eduardo dos Santos, Zenú dos Santos, e o seu amigo Jean-Claude Bastos de Morais.

O Banco Kwanza Invest, antes conhecido como Banco Quantum, também tem laços com o Quantum Global, que, segundo várias publicações, gere cerca de $3 bilhões dos activos líquidos do FSDEA.

É curioso que os dois maiores fundos de capitais angolanos ou são geridos pelo Banco Kwanza ou por gente a ele ligado. Neste momento a maioria dos activos do FSDEA são últimamente geridos pela Quantum Global, enquanto que o FACRA é gerido pelo Banco Kwanza.

Não houve concurso público para estas escolhas, nem temos a certeza dos critérios usados para a seleção destas entidades. Notamos porém a sua íntima ligação com a Presidência da República e a sua família.

Não há nada de errado na criação destes fundos. Aplaudimos a criação de fundos de capitais de risco para fortalecerem a nossa emergente economia, e nada melhor que um fundo que (realmente) apoie as micro, pequenas e médias empresas. Principalmente se tais investimentos forem feitos de forma transparente, aberta, e eficaz, sem clientelismo. Um fundo soberano que apoie realmente a nossa infra-estrutura eléctrica e hídrica também é uma excelente iniciativa.

O que é difícil de perceber é a falta de estrutura legal para estes fundos, falta de conhecimento de como foram escolhidas as entidades que os gerem, ou mesmo como estes fundos foram lançados sem uma estrutura legal pre-definida. É díficil de perceber como, porqué, e com base em que critérios, concretamente, foram escolhidas as entidades financeiras que gerem literalmente bilhões de dólares de dinheiro público angolano. Quais os termos dos seus contractos?

As direcções destes fundos prometeram ao povo angolano a sua total transparência. Ficaremos então, daqui em diante, bastante atentoao seu desempho fiscal, ético, e justo. Com os olhos bem abertos. Seremos nós, a juventude, os principais beneficiários destes fundos.

-Cláudio C. Silva

No seguimento do post anterior, aqui vão mais algumas imagens recolhidas em Cacuaco.

By Hitler1072

Um rasta africano entoando um cliché: Viva África! Não é o graffiti mais lindo do mundo, mas o que interessa é começar!

By Hitler1074

Este graffiti é uma homenagem às vítimas dos desmaios ATÉ HOJE por esclarecer, como podem ver na mensagem mais legível no canto inferior esquerdo.

By Hitler1076By Hitler1071

Fotos por Kara Pito

Cacuaco, via-expresso. Sepulcro de dezenas de anónimos infelizes que são semanalmente atropelados, encontrando-se prematuramente com a dona morte, implacável na sua ceifa.

Há alguns meses atrás, fartos de receber notícias de cidadãos mortos nessa via, alguns jovens tiveram a iniciativa de fazer o mais modesto dos gestos para expiar de algum modo a sua impotência, fermentando a sua raiva interior: pixar!

By Hitler1075

Facto: pouco tempo após ter sido pintado este recado na parede, olhem a Odebrecht a instalar a dita cuja ponte, a escassos metros do local da reivindicação!

By Hitler1082 By Hitler1081

 

Coincidência? Já estava planeado? A mensagem não teve influência nenhuma?

É possível, mas acho que nunca vamos ter a certeza e a sensação que nos fica e nos alegra, é que SIM, a exposição pública dessa gente faz com que ganhem um pouco de vergonha e decidam TRABALHAR um mínimo para variar.

A verdade é que a ponte está a ser montada DEPOIS da mensagem ter sido escrita.

E agora? Que tal isso virar moda? Pode ser que esta seja a maneira de dialogar com os nossos governantes: por-lhes as tangas à mostra!

 

mbanzera

Fonte: http://www.issuu.com/revistacibernetica

Fazer ativismo em regimes ditatoriais e totalitários é muito difícil. A situação piora quando a ambição de poder e a vontade de se eternizar no trono corrompem o já corrompido ditador, Angola é parte deste episódio triste, tão triste porque a vasta maioria dos que hoje oprimem o povo, foram os que outrora lutaram para libertá-lo da escravidão colonial portuguesa. Mudaram-se as frentes, criaram-se novos inimigos, enriquecem e fazem-se enriquecer e esqueceram-se o povo.

Desde Março de 2011 que um punhado de jovens, que vai crescendo a seu rítmo, tem manifestado publicamente o seu descontentamento contra a administração de, um dos 10 mais longevos chefes de estado do mundo, José Eduardo dos Santos e da sua máquina opressora/desgovernativa MPLA.

A razão deste descontentamento encontra eco primeiro, na longevidade do presidente da república, 33 anos ininterruptos no poder. Segundo, na desigualdade social, no atropelo propositado e sistemático das leis, no sufoco dos poderes judicial e legislativo vincando apenas a vontade clarividente do ditador, na discriminação política, étnica e racial, no galopante desemprego, na falta de luz e saneamento básico, na pobreza extrema, na falta de ensino de qualidade, na valorização da mão-de-obra estrangeira em detrimento da nacional, na falta dos serviços de saúde, enfim, na falta de tudo aquilo que até agora foram só promessas impressas em papel e engavetadas a chave de ouro.

Apresentamos a seguir um resumo das atividades levadas a cabo durante o ano que agora finda, 2012, nesta árdua luta por justiça, democracia e igualdade social. Queremos lembrar que o nosso objetivo não é gabarmo-nos de coisa alguma ou autoglorificarmo-nos nem mesmo daquilo que seria considerado realização nossa. Reconhecemos que o caminho ainda é longo e que o que se fez até agora é ínfimo, o resumo que agora vos apresentamos serve para mostrar quanto trilho ainda temos pela frente.

PERDASVIOLÊNCIA, JULGAMENTOS INJUSTOS, MANIFESTAções BARRADAS:

  • Janeiro – dia 22, Cacuaco. Jovens em Cacuaco manifestam-se pela falta de luz e água nos seus bairros. 12 foram detidos, julgados e 8 foram condenados a 3 meses de encarceramento. Julgamento decorrido sem advogado de defesa. Pena convertida em multas rondando a 48 mil kwanzas cada um. Famílias endividam-se para pagar a multa, outras não conseguem pagar, lança-se a campanha de solidariedade “o teu grão de areia, o nosso deserto” que vai agora a encerrar no dia 15 deste mês para acudir esta infame situação e ressarcir os gastos feitos por estas famílias de patriotas com a multa imposta por um julgamento injusto.
  • Fevereiro – dia 3, Cacuaco. Numa tentativa de clamar pela libertação de seus companheiros presos injustamente, outro grupo de jovens sai à rua em manifestação. Mais violência e detenções e o episódio de julgamento injusto repete-se.
  • Março – dia 7, Cazenga. Mário Domingos e Kembamba são raptados nas imediações do tanque do Cazenga por indivíduos não identificados, são brutalmente espancados, ficando com ferimentos graves e hematomas na cabeça, rosto e a sangrar pelas narinas.
  • Março – dia 9, Rangel. Na véspera da manifestação marcada para o dia 10 de março para exigir a saída de Suzana Inglês do cargo de presidente da CNE, a residência do jovem Carbono Casimiro é invadida em plena luz do dia (14h) por indivíduos ligados à Bento Kangamba, com barras de ferro e cabos elétricos. Os 5 jovens que lá se encontravam descontraídos com a TV, foram barbaramente agredidos. Santero, um dos 5 levou 20 pontos na cabeça, até um senhor de idade, o mais velho Ramalhete (sobrevivente do 27 de Maio de 1977, 64 anos) não foi poupado tendo levado 4 pontos na cabeça, para não falar do Cavera, Carbono e Sampaio que também não escaparam da investida.
  • Março – dia 10, Cazenga e 1º de Maio. Manifestação para exigir a demissão de Suzana Inglês da presidência da CNE. Marcada de terror e sangue. Os agressores acobertados pela polícia, com barras de ferro, cabos elétricos, porretes, paus, pedras e restos de tudo quanto é sólido encontrado na via pública, atacaram sem dó nem lástima os indefesos manifestantes. David, uma das vítimas, teve de ser socorrido em dois hospitais (Cajueiros e Américo Boa Vida), teve o tímpano direito rebentado, Luaty teve a cabeça partida levando 7 pontos. Dr. Filomeno Viera Lopes (Secretário Geral do partido político Bloco Democrático) foi dos que mais violentamente sofreu, tendo-lhe sido quebrado o braço direito 3 vezes, além de ferimentos graves na cabeça e outras partes do corpo. A dona Ermelinda Freitas teve o tornozelo direito deslocado, Jovelino, Hexplosivo, Tukayano, Putu Mário e outros fizeram parte do guisado de vítimas com ferimentos graves e o jovem Mário até hoje sofre com problemas no peito de tanta pancadaria que recebeu, muita, para os seus 17 anos de idade.
  • Março – dia 10, Benguela. 3 jovens (Hugo Kalumbo, Jesse Lufendo e David) são detidos por se juntarem a manifestação para exigir a demissão de Suzana Inglês da presidência da CNE organizada localmente. São julgados sumariamente acusados de assuada, arruaça e agressão à agentes da polícia (as mesmas acusações imputadas à 21 jovens manifestantes em Setembro de 2011) e condenados injustamente a pena de 3 meses de prisão, convertidos em multa num valor de 42 mil kwanzas cada um.
  • Março – dia 12, a Televisão Pública de Angola (TPA) dá cobertura extensiva ao suposto Movimento pela Paz que reivindica as agressões de 10 de Março como sendo de sua autoria e prometem mais atos de gênero e de forma implacável contra todos aqueles que “estão contra a paz e querem guerra”.
  • Abril – dia 28, Cacuaco. O regime angolano dispersa a tiros um grupo de jovens manifestantes que pretendia marchar contra o alcoolismo, prostituição e violência doméstica em Angola (lembrando que  cerca de 10 dias antes, havia sido aprovada a lei contra a violência doméstica). Os agressores além de armas de fogo, usaram barras de ferro e picaretas. Dois jovens ficaram gravemente feridos e lhes foi negada assistência no hospital municipal de Cacuaco. Neste mesmo dia, o governo da província de Luanda cedeu o Largo da Independência à maior empresa de álcool de Angola, a Cuca, para a realização de uma festa.
  • Maio – dia 22, Rangel. Milícias pró dos Santos-MPLA invadem o local de reuniões dos jovens ativistas (21h), munidos com barras de ferro, pistolas, cabos elétricos e porretes e agridem violentamente os 10 jovens que lá se encontravam em acertos sobre as suas atividades. Ferem gravemente Mbanza Hamza (12 pontos na cabeça, braço esquerdo deslocado), Gaspar Luamba (8 pontos na cabeça, perna esquerda perfurada com chave de fenda, dois dedos da mão direita partidos), Hexplosivo Mental (7 pontos em ambos braços, dedo médio direito deslocado), Jang Nómada (4 pontos na cabeça), Américo Vaz, Tukayano Rosalino, Mabiala Sozinho, Alexandre Dias dos Santos “Libertador” e Massilon Chindombe também não foram poupados.
  • Maio – dias 27 e 29, Ingombotas e Cazenga. Dois soldados da guarda presidencial que pretendiam reivindicar sobre o aumento de seus subsídios, Àlves Kamulingue e Isaías Kassule, são raptados por indivíduos não identificados e até hoje não se sabe se estão vivos ou mortos.
  • Junho – dia 11, Lisboa. Trama da cocaína ao jovem ativista, Luaty Beirão. É encontrado na sua bagagem (que consistia num pneu de bicicleta) um quilograma de cocaína, a intenção era vê-lo atrás das grades por uns anões – mas felizmente, a justiça portuguesa não está eduardizada.
  • Junho – dia 20, antigos combatentes saem às ruas para exigir enquadramento na caixa social.
  • Julho – dia 14, São Paulo. Manifestação para exigir a anulação da candidatura de José Eduardo dos Santos às eleições gerais de 31 de Agosto por ser “uma fraude”, um presidente ilegal. A manifestação acaba com a detenção de mais de 13 manifestantes incluindo: Hugo Kalumbo, Rosa Mendes, Nfuka Muzemba, Pedro Malembe, Mário Domingos e muitos outros.

 

GANHOSPALESTRAS, DESPERTAR DA SOCIEDADE, MANIFESTAÇÕES:

  • Janeiro – nos dias 27 e 28, primeiro encontro provincial da juventude, cujo objetivo primordial era refletir em torno do papel que a juventude deve desempenhar de forma social e politica para assegurar as transições intergeracionais e a responsabilidade social sobre os destinos do país.
  • Abril – Benguela, campanha “Por Uma Angola Livre”. Por causa das agressões contra manifestantes, a associação cívica Omunga em Benguela, através do seu espaço Quintas de Debates, lança (oficialmente a 29 de Março) a campanha contra a proibição, repressão e criminalização da liberdade de manifestação em Angola. O objetivo era colher 50.000 assinaturas a serem enviadas ao Presidente da República e ao Presidente do Tribunal Supremo. Outro aspeto da campanha era, para quem aderisse, criar uma frase refletiva sob o slogan “Por Uma Angola Livre”, pintada com as cores da bandeira da República.
  • Maio – dia 14, foram-nos cedidos 2 horas semanais de emissão na rádio despertar. Foi o nascimento do programa Zwela Ngola. Este primeiro dia foi uma total desilusão, pois o programa não foi emitido por razões inconfessas. Mas depois daí, seguiu a todo gás até conhecer outros inconvenientes em Setembro.
  • Maio – dia 19, movidos pelo poder transformador das manifestações, e forçados pela surdez do regime JES em indigitar e manter a Suzana Inglês na presidência da CNE, o partido UNITA convoca uma das maiores manifestações dos últimos tempos e nós apoiamos (onde milhares e pessoas afluíram o local não por promessas de Cuca ou assistirem músicos famosos, mas pelo dever cívico e moral de contribuírem para o engrandecimento da consciência patriótica e social de que “cada ato nosso é o que muda o mundo”) para forçar sua destituição e foi bem-sucedida a iniciativa. Tendo sido exonerada um dia antes da manifestação.
  • Agosto – dia 11, LAASP. Segundo encontro provincial da juventude – “O voto é nosso”. Teve como objetivo criar um mecanismo de observação/fiscalização das eleições, apelidada de campanha pela Verdade Eleitoral. De onde se lançou a plataforma online do Movimento pela Verdade Eleitoral em www.eleicoesangola2012.com.
  • Agosto – dia 20. Lançada a campanha “Cidadão em Protesto Permanente”. Visa “encorajar os nossos irmãos que reclamam no anonimato a dar um passo em frente para a zona iluminada e dizer sem medo “estou farto!” dizia o comunicado (exemplos no site: http://centralangola7311.net).
  • Setembro – dia 20, Maianga. Vigília contra a tomada de posse dos partidos da oposição por as eleições se terem provado injustas, não credíveis, fraudulentas. Como não deixaria de ser, fomos detidos e mantidos sob cárcere por mais de 7 horas.
  • Novembro – dias 12-17, estreia na Aljazeera. Documentário “Angola: Birth of  a Movement” – (Angola: O Nascimento de um Movimento). Retrata o dia-à-dia de 3 ativistas angolanos, bem como a sua luta em prol da democracia, justiça e igualdade social.
  • Dezembro – Fomos convidados para fazer parte da Conferência Africana da Juventude a ter lugar em Maputo de 9 à 14 de Dezembro. Uma conferência que contará com mais de 200 delegados de diversos países da África, para se discutir dentre vários assuntos estes: democracia e boa governação em África, desenvolvimento sustentável, educação transformadora em África almejando revoluções pacíficas, equidade de gênero, educação e formação em novas tecnologias de informação, etc.

 

RESUMINDOSEM CONCLUIR

i)  Mais de 12 Manifestações públicas com diversas exigências;

ii)  Mais de 60 pontos nas cabeças e corpo, braços partidos e internamentos hospitalar;

iii)  Dois (2) manifestantes desaparecidos até hoje;

iv)  Chantagem, perda de emprego, rejeição pela família;

v)  Ameaças de morte, raptos e descaracterização quase sem conta;

vi)  Sociedade cada vez mais a se sentir movida a participar da causa;

vii)  Cada vez mais as pessoas despertam e esperamos que despertem mais ainda;

viii)  Causa conhecida e reportada além fronteiras;

ix)  Iniciativas não são monopólio de um punhado de jovens arruaceiros, lúmpenes e drogados, como carinhosamente nos tratam;

x) A febre a alcançar outras províncias, etc, e esperamos que cada vez mais se evolua e cresça o ativismo cívico. Que a sociedade tome consciência do seu poder e saiba usá-lo para melhorar-se a si mesma. FORA!!! COM TODOS DITADORES E OPRESSORES, ONDE QUEIRA QUE SURJAM!

 

Juntamos aqui os nossos principais meios de divulgação das nossas atividades e do que acontece no país. É o nosso mural não só de lamentações, mas especialmente de apelar a consciência social crítica. O nosso ponto de encontro, a nossa casa comum, a nossa voz.

  • http://centralangola7311.net – este é o nosso principal meio de divulgação. O nosso site, tal como diz a mensagem de apresentação do portal é “ponto de encontro, de informação e de debate sobre a situação política de angola.” Nosso atual maior, senão único meio de divulgação.
  • www.eleiçõesangola2012.com – plataforma de observação paralela das eleições de 31 de agosto de 2012. Poderão encontrar as inúmeras denúncias de irregularidades do processo eleitoral, alguns resultados provisórios que contrastam os dados oficiais publicados pela CNE, denúncias em vídeo, áudio e imagens. Poderão também encontrar a nossa avaliação do processo eleitoral.
  • Central7311 – é o nosso canal no Youtube. Publicamos material audiovisual através deste canal, a nossa pequena biblioteca de vídeos das manifestações, coberturas noticiosas, conferências, palestras e outras.
  • Zwela Ngola? – nosso programa de rádio, emitido todas segundas e quartas das 14 às 15h, rádio despertar 91.0 ou www.radiodespertarangola.com.
  • Central Angola – nosso perfil no facebook.