Archive for the ‘Angola’ Category

Revelam moradores da Tchavola em carta de contestação enviada ao PR

 

Tchavola depois das demolições. Foto da Omunga

Tchavola depois das demolições. Foto da Omunga

Definitivamente o povo angolano começa a despertar de uma longa sonolência pós-27 de Maio que anestesiou o espírito reivindicativo. Nesta carta que nos foi entregue pessoalmente por um dos representantes da Comissão de Moradores da Tchavola, pode notar-se o grau de retórica e consciência dos direitos reivindicados, a forma com que foram instigados pelo Primeiro Secretário do MPLA na Huíla, agora governador, Marcelino Tyipingi, a manifestarem-se contra o então Governador Isaac dos Anjos a propósito das demolições discriminatórias às quais foram sujeitos (casa do pobre no chão, casa do vizinho influente intacta!).

Feita a dança das cadeiras, os moradores da Tchavola estão a descobrir amargamente que o Tyipingi lhes deu “do cagueiro” e está a correr com a bola sem dar confiança a ninguém e depois de por diversas vezes lhe solicitarem audiência para confrontá-lo, perceberam que o indivíduo ligou o ignorómetro, tendo passado então a dirigir-se para o topo da cadeia alimentar.

Nas imagens em anexo podem ler essa correspondência enviada ao Presidente JES. A forma com que concluem a sua carta é excelente e passamos a citar: “Terminamos com o pronunciamento do Sr. Governador Provincial da Huila proferido por ocasião da abertura das Festas da Nossa Sra. do Monte, edição 2013 que citamos ” O Senhor Presidente da República tem sabido interpretar os anseios e os interesses do povo angolano de Cabinda ao Cunene … “
Já que Sr. Presidente da República tem sabido interpretar os anseias e interesses do povo angolano, então aguardamos pela máxima colaboração de Vossa Excelência na resolução das nossas preocupações porquanto foi o Executivo, encabeçado por Vossa Excelência, que consentiu a demolição das nossas moradias sem justa indemnização.”

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Escolhemos colocar apenas a última página das assinaturas por questão de espaço

Escolhemos colocar apenas a última página das assinaturas por questão de espaço

Vídeo registado no dia 1 de Abril de 2014.

Isto não é uma mentira, isto não é uma montagem.

É a vida real de quem é forçado a assistir aos “1 de Abril” diários na TPA ficando com a falsa sensação de constituir uma minoria excluída.

wilganga

O que se temia aconteceu, novamente de forma bárbara, sem o mais elementar respeito pela vida humana. Manuel Hilberto Carvalho “Ganga”, dirigente da ala juvenil do partido CASA-CE, foi abatido a tiro quando colava cartazes com o seu grupo, sábado, quando a manifestação programada ainda não tinha saído à rua. Leram bem: QUANDO COLAVA CARTAZES !

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

Os cartazes que a PNA considerou motivo de sobra para o cidadão merecer a morte

Não se sabe ainda quantas mais pessoas foram assassinadas pela polícia em outras cidades e vilas pelo país onde se realizaram manifestações pacíficas, assim como quantas centenas de pessoas estão detidas e desaparecidas. Até este momento, a polícia confirma que deteve 292 pessoas. Lembro que a manifestação de sábado, tinha como objectivo repudiar e protestar pelo assassinato por agentes dos Serviços Secretos (SINSE), dos activistas Kamulingue e Cassule, e exigir que TODOS os culpados fossem julgados, e à qual aderiram outros partidos, além de organizações cívicas.

Um desses partidos, o BD-Bloco Democrático, no seu comunicado de 20.Novembro, referia que a sua decisão de se juntar à manifestação, tem como fim «pretender salvaguardar o processo democrático, a pureza das instituições do Estado de Direito, a solidariedade activa com os familiares directos das vítimas e estancar definitivamente o vício dos assassinatos e perseguições políticas.» Leram bem: ESTANCAR DEFINITIVAMENTE O VÍCIO DE MATAR ! No mesmo comunicado, o BD concluía que «atento ao que se tem passado em manifestações anteriores, adverte que o facto do Presidente da República não estar no país, não retira ao mesmo a responsabilidade dos distúrbios, normalmente provocados pelas forças policiais e suas milícias à civil».

Além disso, vários líderes políticos foram interceptados pela polícia e foi-lhes lançado gás lacrimogéneo, como aconteceu a Samakuva ou Abel Chivukuvuku da CASA-CE e também, entre outros, a David Mendes, antigo presidente da Associação Mãos Livres e líder do Partido Popular que se fundiu com o Bloco Democrático, da oposição extraparlamentar e liderado por Justino Pinto de Andrade.

Mas também activistas cívicos sem nenhuma ligação à política foram perseguidos, como por exemplo o advogado da associação ‘Mãos Livres’, Alberto Zola, que foi interceptado pela polícia, espancado publicamente e levado para uma unidade de polícia. Horas depois de ser solto, voltou a ser interceptado por um polícia que dizia “ter ordens superiores para o deter” e levado para as instalações da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) onde, como habitualmente, foi torturado pelos gorilas do regime.

Porém, já se sabe quem foi que executou a sangue frio o jovem Manuel Hilberto Carvalho “Ganga”, que colava cartazes para a manifestação. O crime foi praticado pela Guarda Presidencial de Eduardo dos Santos. Leram bem: GUARDA PRESIDENCIAL Testemunhas revelam também como o seu companheiro “Ganga” foi abatido, desmentindo a versão da polícia. O deputado da CASA-CE, Lionel Gomes, desmentiu os pronunciamentos públicos da Polícia Nacional segundo os quais não deteve nenhum deputado: “A polícia mente muito. Eu estive detido na 9ª Esquadra das 22h00 às 16h17”.

O país acordou em Estado de sitio, este sábado, depois de a Policia através do seu porta-voz Aristófanes dos Santos ter ameaçado impedir qualquer manifestação. Verificou-se também uma acção altamente bélica com helicópteros da Polícia e da Força Aérea no ar, além dos tanques-blindados das FAA e da PIR no solo, com ordens para atirar em tudo o que mexe. Não parece haver dúvidas de que o Governo da ditadura parece que tem saudades da guerra. Tudo isto por causa da anunciada manifestação pacífica ! Hoje percebemos bem o que significavam as ameaças proferidas dias antes pelo MPLA, ao declarar que a manifestação é uma «aventura irresponsável e de consequências imprevisíveis». Aí estão os resultados dessas ameaças, com a invasão a tiros de sedes de partidos, prisões arbitrárias e assassinatos. ESTA É A VELHA MARCA DO REGIME DO MPLA E DE ZÉ KITUMBA DOS SANTOS, há 34 anos consecutivos no poder, um regime protofascista com métodos de terrorismo de Estado, que permanentemente cala a voz do povo com violência.

Para o regime de assassinos chefiado por Zé Kitumba dos Santos, as únicas manifestações autorizadas são aquelas “espontâneas” organizadas pelo MPLA em apoio ao ‘querido líder’, tal como acontece noutros regimes semelhantes. As manifestações organizadas pelos partidos da oposição ou de associações cívicas – cujo direito está consagrado na Constituição angolana -, para reclamar da má governação, protestar contra o roubo, a corrupção e o crime, são na óptica do bárbaro regime para “desestabilizar” e proibidas, “argumento” muito comum entre os antigos e actuais piores ditadores tais como Pinochet no Chile, Ceausescu na Roménia, Thein Sein em Myanmar (antiga Birmânia), Teodoro O. Mbasongo da Guiné Equatorial e muito amigo de Eduardo dos Santos, Sharif Ahmed na Somália, Kim Jong-un da Coreia do Norte e outros.

Uma coisa é certa: este hediondo regime instalado e chefiado por Eduardo dos Santos há 34 anos, deve e tem de ser levado ao Tribunal Penal Internacional, pelos antigos e actuais crimes que tem praticado ao longo dos anos, que inclui o assassinato de mais de 20 jornalistas nas duas últimas décadas.

Por Telmo Vaz Pereira

É o mínimo que podemos dizer depois de ter dado um destaque tão grande ao Carbono e agora, de novo, a priorizar a cobertura à manifestação, ao invés de (como seria de esperar) dedicar a primeira página ao enguiço UNITA/Mfuca, o assunto que mais tem estado na berra essas últimas semanas envolvendo as tradicionais forças políticas.

Não vamos desfazer-nos em elogios porque também já nos habituámos a ver projectos começarem a todo o vapor (nova direcção, novos donos) e depois descarrilarem num instantinho, cedendo à pressão (ou à tentação dos “Cara Grande” ou dos “Euro”) que se exerce sobre todo aquele que tente contrariar a verdade imposta pelo regime caduco de Zéduardo!

Aqui estão as matérias (para além da do Mário Paiva que já aqui postámos) que sairam no Semanário Agora, edição nº 840 de 20 de Setembro:

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AGORA Xinguilamento Aristofanesuntitled
AGORA Artigo Manif 02

Manifestações e manifestantes fizeram mais uma vez a notícia de capa do Semanário Agora. Depois do ARTivista Carbono Casimiro, agora é a manifestação (mais uma vez) abortada violentamente pela PNA, tal como prometido na véspera pelo seu porta-voz.

As fotos, conseguidas pelo Quintiliano dos Santos, não conseguem deixar de ser impressionantes e dão uma ideia do que tem faltado para ilustrar através da imprensa o nível desproporcional de força utilizado contra jovens pacíficos que pouco mais querem do que exercer um direito que lhes é caro.

Ao todo, 6 páginas são dedicadas à manifestação (inclusive o Editorial), indo o destaque para o artigo de Mário Paiva que aqui partilhamos convosco. Mário Paiva fala com o tom que se esperava de um jornalista isento há 3 anos. Até então tudo o que tinhámos nos jornais eram essencialmente peças sofríveis e claramente parciais (se motivadas ou não pelo envelope castanho não sabemos, mas que eram especulativas e vazias de rigor jornalístico, ai lá isso eram), ou a ocasional coluna de opinião lacónica, normalmente evitando chamar os bois pelos nomes.

Depois, se estivermos bem dispostos, partilharemos o resto :=).

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Insólito!

Depois dos habituais rasgados e reiterados elogios à figura endeusada do velho babão, este é apresentado como protagonista do “momento mais alto” do Fórum (só mesmo em Angola o momento mais alto de um simpósio de discussão de ideias é a figura que profere as últimas, eternamente vãs, felicitações), mas antes que conseguisse iniciar o seu discurso, foi apupado por um (seriam mais?) jovem, que se pôs a gritar algures nos fundos da sala. Infelizmente, as suas palavras são incompreensíveis, mas o seu gesto está para além de assinalável!

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No dia 5 de Julho publicámos aqui uma notícia que dava conta da intimação feita por via telefónica ao mano Mbanza para se apresentar na PGR, por parte de alguém que se terá apresentado como Pedro de Carvalho.

De início tentou marcar-se a data para uma quinta, mas por impecílios de agenda dos Adolfo Campos e Makitá Kuvula, o procurador acedeu em remarcar para terça-feira seguinte, 9 de Julho pelas 9h00 da manhã.

Depois de passar o fim-de-semana a reunir as provas que fomos amontoando contra o Bento Bento, a preparar um documento no qual nos prestámos ao papel de fazer o trabalho dos investigadores dando-lhes a papinha na boca, o telefone toca às 17h00 de segunda-feira, dia 8h00, na véspera do encontro:

- Alô? Como está? Daqui Pedro de Carvalho da PGR. Era só para lhe comunicar que devido a reunião de Procuradores da CPLP que como sabe está a ter lugar aqui em Luanda, não nos será possível realizar a nossa audiência amanhã conforme combinado. Remarcamos para a próxima terça?

Tudo bem. Depois daquela conversa toda de “organizar agenda” e de terem sido eles a sugerir as datas, parece que se esqueceram de verificar a agenda ou esqueceram-se de anotar nela provavelmente o evento mais importante do semestre, convocando-nos descuidadamente (terá sido?) para o mesmo dia da tal de reunião. Mas, sem problemas, também nos dava mais tempo para melhorar a apresentação do nosso dossier e de dominar melhor a cronologia das ocorrências. Ficou assim a audiência marcada para terça-feira, dia 16 de Julho (hoje).

Hoje o senhor quis repetir a façanha, só que desta vez não ligou para o Mbanza, mas para o Adolfo, bastante mais temperamental, não teve muita paciência para as falinhas mansas do “procurador” e assim que este balbuciou: “vamos ter de adiar…” foi interrompido com um “de nooooovvvvooo??? Mas vocês não têm respeito nenhum pelas pessoas, pensam que é só assim, marca, desmarca, que todos têm disponibilidade nas suas vidas para se ajustarem aos vossos desejos?”.

O Carvalho meteu-se naquela palavra que rima com o nome dele rematando apenas: “você é muito stressado, o seu colega pelo menos é mais cordato. Quando é assim, o melhor será fornecerem os vossos endereços para vos notificarmos por escrito”.

E desligou. Seriam por volta das 15h00.

Tendo o contacto do “cordato” Mbanza Hamza, porque não terá de seguida tentado encetar contacto com este último? Isso mesmo é instituição que se preze? Não há vergonha, não há decoro?

A “audiência” fica assim adiada sine diem porque o Adolfo meteu o Sr. mui abusado procurador em sentido dizendo-lhe o que ele precisava de ouvir.

Isto mesmo é país?

No dia 19 de Junho postámos um ultimato dado ao MININT para que se repusesse a legalidade ou que se restituisse imediatamente à liberdade o nosso companheiro Emiliano Catumbela. Hoje, de maneira inesperada, recebemos o informe que o Emiliano estaria prestes a ser solto e há instantes foi publicada no mural do Pedrowski Teca a prova retumbante dessa victória: o Emiliano, rodeado de companheiros sorridentes, com ar fragilizado e com o punho timidamente erguido, fora das muralhas da Comarca de Viana. Mais um caso que termina como começou, de forma misteriosa, ou talvez nem tanto.

A LUTA CONTINUA!

Emiliano Catumbela Livre

Os documentos abaixo partilhados revelam a argumentação da PGR para pedir investigação à DNIC. Precisamos de estudar a lei de imprensa no que se refere à incitação ao uso de violência e ter acesso ao artigo do Domingos da Cruz para perceber se o extracto seleccionado pela PGR está descontextualizado ou se realmente terá faltado cautela ao mano ao não metaforizar o que queria dizer com “guerra”. Ele fala de uma guerra do povo, não militarizada, o que nos parece contrasensual. Talvez tendo acesso ao artigo completo possamos perceber melhor o significado da palavra “guerra”, se ela realmente incita à violência e entretanto consultar o que diz a lei acerca disso.

De todos os modos, se repararem no parágrafo final da primeira página da convocatória, a lei citada para justificar a intimação é a lei 7/78 de 26 de Maio referente aos Crimes Contra a Segurança de Estado, lei alegadamente revogada (por confirmar, mas sendo de 1978 é mais que possível que assim seja).

De lembrar que a convocatória foi feita ao Domingos via telefónica o que nos parece desde já muito pouco deontológico.

A Human Rights Watch está a acompanhar de perto o desenrolar deste caso, segundo este artigo no club-k.

Domingos da CruzDomingos, AcusaçãoDomingos, Acusação 2

O nosso centraleiro Cláudio Silva escreveu este artigo (em inglês) para os manos do Africa is a Country. O artigo foi depois retomado pelo jornal britânico The Guardian. O artigo foi escrito há quase um mês, mas nós na nossa eterna kunanguice só estamos a postar agora. Continua relevante. Boa leitura!

Our ‘centraleiro’ Cláudio Silva wrote this article for a site we enjoy reading, Africa is a Country. The article was then picked up by British newspaper The Guardian. The article in question is almost a month old, and in our eternal laziness we are only posting about it now. It remains highly relevant. Happy reading!

“Angolan authorities forced to act after horrific abuse videos go viral”

For the past two weeks, Angolans who use Facebook and other social media sites viewed and shared two particularly gruesome videos. One showed prison officials severely beating incarcerated men in the Comarca de Viana (Viana Jail), while the other, even more heinous, showed several men brutally beating and abusing two women who had allegedly attempted to steal a bottle of Moët & Chandon from the shop the men owned. The latter video lasts 13 long, uncomfortable minutes and among its more difficult scenes is the one in which an attacker forcibly kisses one of the women while the others laugh, and another in which the shop-owner beats the women with the blade of a machete. The video shows several men participating in the beating, while others, including women, stand by and watch while egging on the attackers. Both videos went viral in Angola.

They evoked very strong emotional reactions, particularly the second one. Within a matter of days, they had been mentioned on state television and talked about in public and private newspapers. It marks the first time that videos have gone truly viral in a country in which only about 5% of the population has access to the internet.

The videos come at a sensitive time. People continue to be shocked at the level violence permeating Angolan society. The torture and murder of a popular and well-liked teen last year at the hands of his teenage friends — which prompted a march against violence along Luanda’s new Marginal — is still fresh in many people’s minds. But the most remarkable outcome of this mass sharing of media was that the Angolan attorney general, or Procuradoria Geral da República (PGR) as it is locally known, actually did something about it. And they did it publicly and swiftly.

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