Aos 23 de Novembro de 2014 a ativista Laurinda Gouveia foi alvo de uma repugnante e covarde sessão de tortura que se estendeu por duas longas horas, perpretada por agentes (devidamente uniformizados) da Polícia Nacional. Uma entrevista muito pormenorizada foi dada ao Rede Angola e, para quem ainda não acompanhou, pode fazê-lo agora apertando no play no vídeo abaixo:

Volvidos três meses e meio, nem água vai, nem água vem, a polícia continua amorfa, a assobiar para o lado, aguardando que a poeira assente.

A nossa missão é fazer com que isso não aconteça tão cedo, nem tão facilmente e por isso solicitámos um serviço de advocacia para formalizar uma queixa-crime que, no dia 4 de Março, deu finalmente entrada na PGR e na DNIC, que deverão agora decidir a quem passar a batata quente. Quanto a nós, queremos levar isto até à última instância e consequência.

Se continuamos a limitar-nos a encolher os ombros, emitindo suspiros resignados de “aqui é assim” não há razões para que estas práticas deixem de se verificar e a/o leitor(a) pode perfeitamente vir a ser a próxima vítima desta impunidade generalizada.

Abaixo, podem ver o scan da primeira página da queixa e a acusação de recepção (sem carimbo… que degredo) da PGR.

Justiça, é o nosso clamor.laurindaDNIC

As cicatrizes da colonização são ainda marcantes na alma dos vários povos que a ela foram submetidos. Angola não se escapou deste trágico encontro com a História e viu-se submetida a senhores, regras e formas de organização social que lhe eram, até então, alheias.

Traumatizante e estigmatizante para as vítimas, é natural que, nessa qualidade, temamos ser sujeitos novamente a um processo semelhante. Mas, pelo andar da carruagem, existem contornos que nos fazem antecipar a enraização de um “Império Chinês” em Angola. O poder e as imunidades das quais gozam são pura e simplesmente inaceitáveis num país democrático e de direito, o seu excesso de confiança de intocabilidade revelado em diversos escândalos que protagonizam nesta pátria que nos pariu e do qual saiem amiúde impunes.

“Chineses raptam um doleiro em Benguela e dias depois a vítima é encontrada morta.” (In Rádio Despertar e Rádio Eclésia).”Mototaxis­­ta perde a vida fruto de um acidente de viação em Cacuaco. Polícia aconselha motorista do camião, um cidadão chinês, a evadir-se do local para não ser linchado e indica-lhe que se dirija à esquadra, sem o acompanhar” (In mural de facebook de Bitão Felisberto Holua).”Chineses enterram trabalhadores em obras. Os mesmos trabalhadores são maioritariamente oriundos de províncias como: Cunene, Benguela e Lubango.” (In Rádio Despertar). Há ainda o caso várias vezes captado em fotografias de chineses envergando fardas das FAA ou Polícia Nacional, mostrando até que ponto chega a promiscuidade do poder do Estado com cidadãos de origem estrangeira, o que poderia (e deveria) ser considerado um atentado à segurança do Estado, perpretado justamente por aqueles que deveriam velar por ela.

Gostaríamos de acrescentar o elemento que nos propulsionou a redigir este texto: o caso das obras descartáveis. A mão-de-obra chinesa continua em descrédito pelo simples facto de serem frequentemente de pouca durabilidade. Mas, a questão que se coloca é a seguinte:

QUEM FOI QUE CONSTRUIU A CHINA?

Temos visto várias reportagens acerca do potencial da China em termos infra-estrutural e económico, mas também técnico, factor que terá sido usado como argumento pelo governo angolano ao celebrar o maior contrato com este gigante asiático na reconstrução do país saído de 27 longos anos de guerra. O facto de permitirmos que os chineses construam obras descartáveis no nosso país leva-nos a questionar se nós (angolanos) é que somos burros ou eles (chineses) é que preparam terreno para uma neo-colonização apadrinhada pelos nossos próprios conterrâneos que criaram raízes no poder.

As chuvas que se abateram na Sexta-feira 13 e Sábado 14 de Fevereiro, deitaram abaixo esta grande estrutura e o que a nossa reportagem apurou no terreno foi que, surpresa, a empreiteira responsável pela obra era chinesa. Esta estrutura seria usada como stand automóvel e a sorte do proprietário é que não havia ainda viaturas no interior.

Antes mesmo da inauguração, a obra é depenada pela chuva miúda. Quem se vai responsabilizar pelos danos causados?

REPORTAGEM Alemao Vieira 01Reportagem Alemão Vieira 02

Já em 2010 o Hospital Central de Luanda, com apenas 4 anos de existência, foi evacuado por causa de graves fissuras que tornaram o edifício propenso ao elevado risco de colapso. O edifício da DNIC (apenas “restaurado” cosmeticamente pelos chineses) não foi a tempo da evacuação e acabou mesmo por vir abaixo qual torre gémea ou “O desejo de Kianda”.

Por Alemão Francisco e Manuel Vieira

No dia 31 de Janeiro chegava ao seu término a “Semana Social” organizada pela Mosaiko, ONG angolana promotora dos direitos humanos. Recheada de preletores interessantes e sérios, pensadores sociais com ideias próprias e sem receios de os exporem (salve Pio Wacussanga, salve Reginaldo Silva, salve Luísa Rogério), mas também “dirigentes” do mais alto escalão para tratar de temas relacionados com os respetivos pelouros.

mosaiko semana social conviteUm comportamento que se tornou rotineiro entre os nossos dirigentes é a indelicadeza (eufemismo) de, depois de acederem ao convite e terem o seu nome colocado no programa, simplesmente não aparecerem ou mandarem alguém em seu lugar.

No programa dessa semana estavam como preletores a Ministra do Comércio, Rosa Pacavira com o tema “Combate à pobreza e às assimetrias em Angola” e o Ministro da Educação, Pinda Simão e ambos se escusaram em fazer-se presentes.Mosaiko Semana Soc Prog 2

A desculpa eterna quando mudam de ideias e resolvem que, afinal de contas, não irão comparecer num evento em que estarão sujeitos à questões vindas do público – sobretudo se essas questões não puderem ser programadas e previamente preparadas pelas empertigadas e mui importantes figuras do nosso elenco (des)governativo – é que, à última da hora, não conseguiram desvincular-se dos seus compromissos profissionais.

É, são muito ocupados estes meros auxiliares do titular do Poder Executivo, estes sapupos cuja única competência é exarar “decretos executivos e despachos”, não conseguem honrar os compromissos assumidos?

Rosa Pacavira não se deu ao trabalho de esboçar uma tese de doutoramento em torno da sua ausência, mas, desta vez, o Ministro Pinda superou-se e, tentando ser original, inventou outro pretexto, tendo-lhe no entanto a emenda saído pior que o soneto.

Ministra do Comércio, Rosa Pacavira

Ministra do Comércio, Rosa Pacavira

Ministro da Educação, Pinda Simão

Ministro da Educação, Pinda Simão

Confiando a missão da preleção ao senhor Joaquim Cabral Felizardo, alegou que a sua agenda colidia com a abertura do ano lectivo 2015, por sinal fora de Luanda. Para seu infortunio, ele foi visto por um professor na FILDA onde teve lugar uma reunião… do MPLA! Acrescenta ainda o professor que o ano letivo teria início apenas no dia 2 de Fevereiro, três dias depois da data da sua apresentação. Não conseguimos conceber que uma pessoa com responsabilidades no país, ainda que limitada à exaração de decretos, tenha uma postura de inenarrável infantilidade ao mentir com assuntos que são do domínio público para encobrir a sua desfaçatez.

E estes são os líderes exemplares que nos sairam na rifa. Como se diz na gíria: “estamos feitos ao bife” e bem mal passado por sinal.

Excesso de zelo ou abuso de poder?

Pelo menos foi nesses termos que a vítima manifestou a intenção de acusar, em Tribunal, os seus agressores, que, por ironia ou não, eram indivíduos com a farda das Forças Armadas Angolanas, em número de nove (9), armados com metralhadoras AK-47, e agentes da DNIC, três (3), com pistolas em punho.

O Jornalista da Voz da América e professor, Manuel José, foi a vítima referida acima, ao ter sido cruelmente destratado por patriotas e acérrimos defensores da integridade territorial e segurança do Estado angolano, quando, na última segunda-feira, 09.02.2015, no Zango 0, zona em que reside e dá aulas, decidiu encontrar um canto, praticamente na rua, para sentar-se, abrir o seu PC e enviar um trabalho jornalístico à Washington, onde está sedeada a VOA.

Manuel José VOAMal tinha concluído o expediente, MJ, viu-se subitamente cercado por doze (12) aguerridos militares e polícias, apontando-lhe doze armas, ou seja, nove AK-47 e três pistolas, como se os tais tivessem encontrado o “criminoso mais procurado do país”, se é que temos algum.

– “O que se passa, algum problema?!”, – Questionou MJ, apavorado e sem perceber o que estaria a ocorrer, pois na sua noção de Estado democrático não cabia um tal cenário, em que um cidadão de bem podia ver-se colocado em tão traumatizante situação.

– “Cala a boca, mãos no ar!”. – Ordenaram os mais exemplares agentes da autoridade que um país de direito pode ter.

– “Vai, deita-se no chão!”. – Obediente, como, se calhar será uma das suas características, MJ deitou-se, mas não deixou de identificar-se (já algemado com as mãos atrás e barriga no solo que o viu nascer): “eu sou o Manuel José, jornalista da VOA, professor e vivo aqui mesmo no Zango, talvez estejam a me confundir com outra pessoa”. Como quem dissesse, “achas que não te conhecemos?”, a resposta dos compatriotas foi pisotearem-no, com botas e vitupérios, quase nada, só uns «insultozitos» de nada, tipo, “tão gordo e não sabe gerir as tuas banhas…?”.

Ato contínuo – os guardiães da soberania que o jornalista punha em causa com os seus meios de trabalho (mochila, PC e caça palavra), em plena rua (perímetro de segurança de quem?), ao Zango 0 – conduziram-no à Esquadra 47ª, adstrita ao Zango 1, onde uma hora depois e a seguir a um irritante interrogatório, recebeu a informação de um investigador, segundo a qual, “houve um engano, confundimos-te com um marginal, podes ir para casa”.

– “Mas eu identifiquei-me, disse-vos quem era e ignoraram-me completamente, como podem ter -se enganado, eu vou processar-vos!” – Retorquiu a vítima do patriotismo zeloso, que no seu próprio país, viu a sua honra e bom nome postos em causa, em asta pública, aos olhos de não poucos conhecidos e vizinhos e quiçá alunos, como se de um reles marginal se tratasse.

– “Pedimos desculpas, foi um engano, não precisas processar…”. – Reafirmou o porta-voz dos agentes ao serviço da pátria, cujo zelo não se pode de forma alguma confundir com abuso de poder, de modos que será uma tremenda falta de espírito patriótico, da parte do cidadão Manuel José, fazer o que prometeu: “…processar a polícia, por excesso de zelo e abuso de poder”.

Mas o Jornalista e professor decidiu ser anti-patriótico e “frustrado”, tendo mesmo avançado com uma queixa à inspecção do Comando Provincial da Polícia de Luanda e manifestando-se disposto a avançar com um processo contra a Polícia Nacional da República de Angola, pelas razões que vimos relatando acima.

No dia 21 de Dezembro de 2014 estava de passagem pela 7ª Avenida do Cazenga, com um horrível amontoado de lixo fedorento que, para além de impossibilitar o trânsito e de ser uma paisagem que denigre o bairro, se tornou num autêntico bunker de ratos, ratazanas,mosquitos e mosquitões e, consequentemente, um foco de doenças, constituindo um atentado à saúde pública para os moradores daquela parcela de Luanda.

Caso Dago ANTES 05

O mais caricato é que, bem no centro da montanha de lixo, estava fixada uma placa de reabilitação posta pelo Governo de Angola que indicava obras que deveriam ter arrancado (e terminado) em 2007. Ainda assim, parecia que o Cazenga não tinha Administrador, pois ninguem tugia nem mugia perante aquele atentado à vida dos cidadãos daquele Município até que, neste dia, decidi denunciar publicamente o estado do abandono daquela via, por meio do facebook.

Cazenga Artigo Dago ANTES 02
Caso Dago ANTES 03
Caso Dago ANTES 04

Um mês depois desta denúncia que foi amplamente comentada e partilhada, eis o que aconteceu:

Cazenga Artigo Dago DEPOIS 02
Cazenga Artigo Dago DEPOIS 01

O executivo de Tani narciso que parecia estar a navegar no facebook cego*, decidiu meter um saldo de dados, abriu os olhos, esfregou-os e resolveu “dar um brilho” na avenida e livrar-se da placa que prometia a construção de uma via alcatroada para 2007, pois não parecem ter ainda intenção de o cumprir. Quem sabe nas próximas eleições.

O que podemos concluir com isso?

Certamente, como cidadão, a maior lição a tirar desta sequência de acontecimentos é que denunciar, reclamar, manifestar são as melhores formas de chamar a atenção de quem nos governa, porque quando fazemos isso expomos publicamente o lixo que eles atiram para debaixo do tapete. E quando isso acontece, com aqueles que ainda têm um pingo de vergonha na cara, passam da passividade governativa à acção,mesmo que só de um coro.

É so vermos o caso da famosa 7ª Avenida

Por Francisco “Dago Nível Intelecto” Mapanda

*Facebook cego é um calão para “Facebook zero”, uma opção para aqueles que não tendo dinheiro para comprar um saldo de dados, navegam gratuitamente (através do endereço 0.facebook.com) no facebook graças a acordos dessa empresa com algumas operadoras de telefonia móvel pelo mundo, dentre as quais a UNITEL. Nessa forma de navegar vêm-se todos os textos normalmente, mas nenhuma imagem, pelo que é referido comummente como “cego”.

Dona Felizarda - 2

Dona Felizarda Miguel Agostinho é uma mãe solteira com 4 filhos que há mais de 5 anos trabalha como empregada, cozinheira do Ministro das Telecomunicações e Tecnologia no condomínio Cajueiros ao Talatona em Luanda.

Há 2 anos que o Ministro José Carvalho da Rocha e a esposa Zumira João Mitanji, terão solicitado à D. Felizarda, também conhecida por “Escurinha” a abandonar a residência de seus pais, cita no distrito do Rangel para uma nova casa que estes lhe ofertaram no complexo residencial do Zango II em Luanda. Ofertaram? Vamos com calma. Eis um excerto de uma entrevista que conduzimos com a Dª Felizarda:

“Isto aconteceu quinta-feira [passada 8/1], como eu estou incomodada, sexta não fui [trabalhar], fui lá sábado para perguntar. [A] primeira coisa [que fiz] foi pedir desculpas a ela (D. Zumira Mitanji, esposa do Ministro), pois possa ser que naquele dia eu também estava alterada e não pedi desculpas, então pedi desculpas a ela. Ela praticamente não aceitou as minhas desculpas e eu perguntei: tia, será que quando a tia me deu a casa eu pedi? Ela disse não, não pediste, mas eu não dei a casa para ti, eu dei-a para ficares um tempo por causa da distância no Rangel. Eu disse: a tia não me disse isso quando me deu a casa, me deu a casa e disse «’tá aqui, isto é teu». E como é que hoje me diz que me deu a casa por causa da distância e só hoje [dois anos depois] por quê?” disse dona Escurinha à nossa entrevista.

Felizarda tem um ultimato que foi ditado na quinta-feira 15 de janeiro para abandonar a casa até sábado 17 de janeiro de 2015. Na sexta-feira 16 de janeiro dia que conduzimos a entrevista, o ultimato foi reforçado. D. Felizarda contratou um advogado, o senhor Gika de Castro que, segundo nos disse, foi escorraçado quando tentou o contacto com a esposa e o Ministro sobre o caso.

Perguntámos à D. Felizarda sobre a documentação da casa, ela disse não ter documentos: “não, não me deram. Só me deram a chave da casa, é a única coisa que tenho, não tenho nenhum documento e foi a D. Zumira que me deu a chave.” Indagámos acerca dos procedimentos que levaram a tal atribuição e a razão de lhe terem atribuído a casa, ela respondeu: “antes de me darem a casa, foi-me pedida a cópia do BI, mas acho que levou um tempo até a [atribuição], porque nesta altura funcionava uma colega que quando me pediram essa cópia ela me disse «D. Escurinha, eu tenho a certeza que vão te dar uma casa». Isto aconteceu em Dezembro [» 2011], em Janeiro [» 2012], numa segunda-feira, lembro-me muito bem, cheguei, entrei, não me troquei, e, como sempre, fui para tentar tirar as coisas da cozinha para fora, [a D. Zumira] mandou-me abrir a gaveta, «tira aquilo» eu tirei e eram chaves. «’Tá aqui, estas chaves são tuas.» São minhas? «São tuas, vai com o senhor Moisés ele vai mostrar-te onde é o sítio. »”

“Quando me deram a casa, praticamente só deram. Disseram a casa é tua, vai com o fulano para mostrar-ta, não me deram mais nenhuma outra diligência a dizer que isso vai ser «assim» ou «assim».” – Não era tipo, uma forma de gratificação? Perguntámos – “Eu acho que é isso.” – Mais pessoas estão nessa condição, ou é a única que o casal decidiu oferecer casa? “Dos que trabalham em casa, sou a única. Mas, na parte dele [o Ministro], deu a muitos, os seguranças deles…” – Depois de terem dado a casa, já lá vão dois anos, nunca houve nenhum problema entre vocês? Insistimos – “Não, não, nunca houve.”

A história da carne

“Terça-feira da semana passada [6/1], é de hábito que quando tem na arca muita coisa antiga… tinha uma carne [na arca], carne já cozida. Eu tirei aquela carne, só que ela [D. Zumira] viu no meu saco a carne que eu tirara, e eu disse «essa é uma carne que já está aqui há muito tempo e eu estou a tirar». Ela disse «não podes tirar por que isso é roubo» e ficou a falar muita coisa.

“Isto foi na terça-feira. Quarta-feira fui à consulta. Quinta-feira voltei no serviço, trabalhámos. Por volta das 16/17 horas ela [patroa] veio do serviço e continuou sempre a falar «isso é roubo, muitas vezes acontece isso e etc.» Eu disse «eu sei que a tia está chateada comigo, a tia é a chefe, se acha que já não posso mais continuar no serviço, então a tia é que decide.» Só foi isso o que eu disse, não aumentei nem diminuí.”

E a carne que a D. Escurinha tirou, estavas a levá-la para casa? “Sim, a carne já é cozida, eu sou cozinheira, como a carne já está lá há muito tempo e como eu quinta-feira tinha que ficar em casa, epá… não achei que fosse algo errado… não sei né! Eu sei que é roubo porque não pedi…” – É normal acontecer isso, coisas que já estão há muito tempo vocês tirarem? “Não, nós as vezes tiramos e deitamos fora, as coisas lá deitam-se fora quando já estão há muito tempo.” – E quando vocês precisam de alguma coisa, podem pedir a vontade, eles dão?» “Nunca fizemos isso, não. Porque conhecemos quem é ela, então nunca fizemos isso.”

Eles oficialmente te acusam de quê? Procurámos saber – “Agora não sei se me acusam de quê, se de roubo ou se de quê!” – Só disseram você não podia levar a carne e agora sai da casa? “Sim. Eu lhe disse, a tia é que sabe (pelas coisas que ela estava a falar, eu acho que ela não gostou, ela é a dona da casa), eu disse a tia é que sabe, a tia é a chefe, se acha que dá para eu continuar fala, se acha que não, também fala, só isso que eu disse.”

Levaste a carne para casa? “Não, não. Não levei.” – Mas qual era a quantidade da carne? “Um bocadinho, um bocadinho numa embalagem.” – Então a carne neste caso está lá? “Sim, está.” – Mas vocês prolongaram muito esta conversa? “Até que não. Porque eu não sou pessoa de falar muito, nós só lhe escutamos, ela não dá espaço para ninguém falar, nós só escutamos, então quando ela parou [foi] quando eu lhe disse isso.” – Tinha mais pessoas lá? “Estavam lá as minhas colegas, nós trabalhamos três.”

Tentamos o contacto com a dona Zumira como podem ver no printscreen abaixo, foram 4 ligações efetuadas no dia 16 de janeiro de 2015 as 17h28. O telefone chamou, mas ninguém atendeu.

Ligações a Zumira

NB: esta matéria foi feita na sexta-feira, dia 16 de Janeiro. Entretanto o site makaangola fez uma peça excelente em torno do assunto que deveria tornar a nossa redundante se não fosse a entrevista em vídeo feita à Dª Felizarda. Achando pertinente colocar o vídeo e estando a peça já escrita, decidimos fazer uma matéria completa.

O desafio para um debate lançado pelo Secretário Provincial da JMPLA, Tomás Bica Muambundo, visando conhecer o fundamento da luta dos chamados jovens activistas cívicos, conhecidos por revolucionários ou revús, foi contraposto nesta terça-feira, 16 de Dezembro de 2014, num encontro de cerca de 40 minutos, que teve lugar na CASA 70, bairro Vila Alice, em Luanda.

Dois incidentes marcantes nas últimas 48 horas determinaram a posição dos jovens revús: a inviabilização, por parte da Polícia Nacional de Angola, de uma reunião interna dos jovens que visava reflectir em torno do desafio feito; E a tentativa de imposição de temas para o debate por parte da JMPLA de Luanda.

O DESAFIO

Pág. 9 do Semanário Manchete, contendo a entrevista à Nito Alves

Pág. 9 do Semanário Manchete, contendo a entrevista à Nito Alves

O secretário da JMPLA de Luanda, Tomás Bica Muambundo, lançou o desafio recentemente, com recurso a um órgão de imprensa pública, onde afirmou, conforme reportado pelo Semanário Manchete, aos 12 de Dezembro de 2014: “queremos um debate, uma reunião com estes jovens que, efectivamente dizem ser revolucionários, porque queremos perceber qual é o fundamento dessa revolução”, referindo-se a constantes realizações de manifestações públicas em Angola desde 7 de Março de 2011.

Em resposta, na mesma edição (nº. 88) do Manchete, o activista Manuel Nito Alves indagado sobre o seu posicionamento acerca do convite lançado por Bica, respondeu que aceitaria, mediante determinadas condições inegociáveis.

No sábado, 13 de Dezembro de 2014, os jovens activistas cívicos mantiveram o primeiro contacto telefónico com o secretário da JMPLA de Luanda, onde se acordou na realização de um encontro preliminar para se abordar o assunto, marcado para às 12 horas de terça-feira, 16 de Dezembro de 2014, na Casa 70, mas que só teve início às 13h00, uma hora depois do combinado, por atraso injustificado dos representantes da JMPLA.

PRIMEIRO INCIDENTE: Polícia inviabiliza encontro interno

Em jeito de concertação, na segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014, juntaram-se no Largo do Amor, Vila Alice, representantes dos vários movimentos de activistas cívicos existentes, para abordar a conveniência e a utilidade de tal debate com um quadro júnior do partido que não exerce influência sobre aquela sombra a quem todos se referem temerosamente como “ordens superiores”.

Enquanto se procurava um consenso acerca do posicionamento a ser tomado em relação a esse convite, cerca de uma hora após o início da conversa, os jovens foram surpreendidos pela chegada de um patrulheiro com um oficial da 3ª Esquadra, Miguel Luís de seu nome, fazendo-se acompanhar de 4 homens de metralhadora em riste que rapidamente se colocaram em posição circular em redor dos jovens, enquanto o comandante da mesma operação, Joaquim Jordão, se manteve no carro, rodopiando pelo largo.

De forma inicialmente apologética e escudando-se na impossibilidade de recusa de uma “ordem superior” (de novo ela), o agente da Polícia rogou aos jovens que saíssem do Largo do Amor pois ali não poderiam estar.

Estranho, pois tratava-se de um parque e como tal, lugar público onde a todo o momento tem pessoas sentadas, a andar ou engajados em qualquer outra actividade lícita. E lá estava a nossa polícia a mais uma vez a discriminar, segundo um conceito muito seu e seguramente anti-constitucional, o direito à vida pública normal de um específico grupo de indivíduos.

Estes factos, que o líder provincial do braço juvenil do MPLA parece ignorar, por si só deveriam explicar o fundamento das acções daqueles que reivindicam nada mais do que direitos elementares de qualquer Estado Democrático e de Direito.

Depois de um pequeno quid pro quo, foi solicitado pelos activistas que lhes fosse indicado então um sítio apropriado para continuarem a sua conversa. Em resposta, o oficial Miguel Luís sugeriu-lhes o Largo da Independência, certamente em forma de piada de mau gosto, apesar do seu tom sério.

O Comandante Joaquim Jordão, da 3ª Esquadra, estacionando finalmente a viatura, entrou no Largo, sem que no entanto se dignasse a dirigir a palavra aos activistas mesmo quando tal lhe foi solicitado. Manteve-se fixo, mudo e trombudo aguardando que os seus capatazes concluíssem a tarefa que lhes foi encomendada.

Comandante Joaquim Jordão, entrou mudo e saíu calado

Comandante Joaquim Jordão, entrou mudo e saíu calado

E foi desta forma que a reunião de concertação de ideias dos jovens activistas foi inviabilizada pela Polícia Nacional, que ameaçou usar a força, caso os jovens não obedecessem à “ordem superior” de se retirarem do referido largo.

SEGUNDO INCIDENTE: JMPLA não quer debater os fundamentos das manifestações

Perante a postura da Polícia Nacional, os activistas passaram a falar em uníssono: “Não há condições para debate algum, queremos debater com quem vos manda”. Ao interpor-se a interrupção policial, foi o único consenso possível e foi esse consenso que os activistas transmitiram hoje, 16 de Dezembro, na conversa que tiveram com Tomás Bica e seus séquitos, na Casa 70.

No entanto, os jovens activistas acrescentaram que estariam abertos a um debate, desde que este trouxesse à mesa de discussão altos representantes do Estado, que devem justificar as suas acções à luz da Constituição da República e sob condição inegociável que essa discussão fosse feita em directo na Televisão Pública de Angola após o Telejornal.

Perante esta contraproposta, Tomás Bica, tal como poderão constatar no áudio registado na reunião, quis condicionar o debate em torno do tema principal “A Juventude e a Política”, um tema vago e já amiúde abordado, excluindo deliberadamente qualquer abordagem que especifique as sevícias às quais os jovens manifestantes têm sido vítimas pelo regime do MPLA desde 2011, sugerindo que isso é competência dos tribunais.

Para os jovens activistas cívicos, é nítida a manietação do debate e defendem ser inaceitável que os seus moldes sejam impostos pela camarilha dos jotinhas, recusando à priori todo o debate que exclua as violações dos seus direitos fundamentais às quais têm sido sistematicamente sujeitos.

Para que conste, todavia, os activistas afirmaram o compromisso com a liberdade de escolha individual, notando que este posicionamento não constitui um vínculo ao qual todos os activistas devam obedecer e que, não se sentindo representados, não se iriam opor à opção de alguém, em seu nome próprio, aceitar o desafio. É portanto um posicionamento que se limita àqueles que nele se revejam.