Entrevista de Sousa Jamba ao Semanário O País

Posted: April 27, 2012 in A Voz do Povo, Notícias, Opinião

Numa entrevista tão rica de conteúdo e tão educacional, ficamos sem perceber porque é que o Jornal O País escolheu como manchete “Savimbi Nunca me Perdoou.” Deve ser porque vende. Savimbi é tipo Tupac…mesmo depois de morto continua a render!

A entrevista que se segue é de leitura obrigatória. Bem haja Sousa Jamba!

Sousa Jamba: Savimbi nunca me perdoou

Estamos a comemorar a Paz, para um homem que é angolano e que sente o seu país e também o pode observar a partir de fora, que apreciação faz destes dez anos?

A possibilidade de se criar uma nova nação, a possibilidade de esta nação reflectir a diversidade, a energia de realizar, as possibilidades, que são imensas. As potencialidades do país foram sempre adiadas, por causa da guerra e de outros factores. A paz é um sinal de que agora os talentos e a capacidade dos angolanos pode ser realizada.
O acto central da comemoração foi feito no Luena, viu pela televisão?

Não. Não vi.
Então não viu o seu Luena, também andou por lá…

Devo confessar que quando estou em Angola normalmente não vejo televisão. Sigo as coisas pela Internet, pelo Facebook, pelos vários portais angolanos como o Angonotícias e o Clube K, além de vários outros. Sigo também pela Voz da América, pela Rádio Ecclédia, que sigo pela Internet.

Sigo atentamente os vários debates na Internet. Estes são as minhas fontes de notícias sobre Angola.
E estes debates que se segue pelas redes sociais permitem perceber o quanto o angolano se está a transformar em termos democráticos, em termos de consciência de país?

Absolutamente. É incrível o que tenho visto, a capacidade de argumentação, a capacidade de os angolanos apreciarem a complexidade das coisas.

E também estamos a ver a instalar-se uma cultura de tolerância. A ideia de que podemos não estar de acordo, mas isso não significa que não fazemos parte do mesmo barco, que não temos o mesmo destino. Há uma grande manifestação da diversidade: angolanos interessados no kuduro, angolanos interessados em desporto, os que se interessam pela política… isso vê-se muito bem no Facebook, mais que na televisão angolana, por exemplo.

Há muita matéria sobre Angola no You Tube. Há muita matéria em que a juventude angolana é apresentada como estando obcecada por certos desejos carnais, uma juventude dada a coisas vistosas, vulgares. Mas na realidade é uma juventude mais complexa. No domingo passado fui a uma igreja no Morro Bento, a idade média dos presentes era de trinta anos.

Quando chegou o momento de ler a Bíblia, de repende apareceram vários iPads. Lá estavam jovens a ler a Bíblia no iPad… alguém me disse que estes iPads vieram do Dubai… mas o iPad dá tantas possibilidades, porque pode-se ter muitos livros, pode-se fazer muita coisa. Nós lá fora não vemos esta energia, esta capacidade… Quem pensava que o Facebook teria tantos adeptos angolanos? do Huambo, do Lubango, de vários sítios? Eu tenho tido conversas com um jovem angolano que está no Luena olha, falando do Luena ! e que está a fazer um curso pela Internet numa universidade brasileira. Há jovens que vão seguindo a evolução, o desenvolvimento do mundo, articulados, inteligentes. Infelizmente isso não tem sido reflectido lá fora. O triste é que temos instituições angolanas que vão promovendo estereótipos de angolanos que nada têm a ver com a realidade. A realidade é mais interessante, é mais complexa, mas o que vemos é o kuduro mal explorado e outras vulgaridades.
Para quem tem lido Sousa Jamba nos últimos anos não pode deixar de notar uma certa inversão nesse tipo de apreciação.

Absolutamente
Era mais crítico do jovem, via-o mais frívolo, consumindo exageradamente álcool, a tentar falar como um lisboeta e a pensar em ter um carro grande.

Era esta a imagem que eu tinha, mas evoluiu muito. Sobretudo através do meu intercâmbio no Facebook e também nos contactos do dia-a-dia.

Em Luanda encontro jovens cada vez mais interessantes, jovens que querem aprender, interessados no mundo.

Jovens com muito potencial.
Falou dos iPads na igreja, sabe-se que a própria revolução para a independência teve raízes também nas igrejas, ou em pessoas ligadas às igrejas. Depois houve um tempo de aparente afastamento. Sente que estes jovens novos quando voltam à Igreja revelam uma tomada de consciência e de moral social ou buscam apenas a salvação da alma e passam ao lado a parte cívica e política… a dimensão social?

O processo nacionalista angolano está profundamente ligado à Igreja, esse é um aspecto da história angolana que não está a ser muito bem contado.

Nos três principais eixos temos a Igreja Batista, com missionários americanos e ingleses que se instalaram no Norte; a Igreja Metodista aqui, o bispo Taylor, que depois fundou a Missão do Quéssua, de onde saiu uma faixa da elite do MPLA. O pai do Dr. Agostinho Neto foi pastor da Igreja Metodista. E depois temos a IECA (Igreja Evangélica Congregacional em Angola) com os canadianos da Amarican Boar of Missions que fundaram as missões no Planalto Cental, no Dondi, Chissamba, Galambi, etc. E depois tínhamos a Igreja Católica. No nacionalismo angolano há também uma vertente marxista, os jovens poetas Viriato da Cruz, Ilídio Machado, Agostinho Neto, que fundam ou pertencem à Casa do Império, em Portugal… Mário Pinto de Andrade… Mas há também uma vertente muito ligada à religião. São os velhos Barros Nekaka, ligados à Igreja Baptista, no Norte. No Planalto Central temos figuras como o velho Jesse Chipenda que faleceu em S.

Nicolau (campo de concentração) que também fizeram parte de um certo nacionalismo, de uma certa reivindicação. Eu sei do velho Chipenda porque o reverendo Lawrence Anderson escreveu a biografia de Jesse Chula Chipenda que faleceu em S. Nicolau.

No Namibe o aeroporto tem o nome do astronauta soviético Yuri Gagarin, mas o velho Jesse Chiula Chipenda, primeiro negro secretário-geral da Igreja Evangélica, que chegou a levantar o caso de Angola nos Estados Unidos da América, nos anos 50, e depois morreu humilhado em S. Nicolau, não tem nada em seu nome.

Como professores tivemos o reverendo Mussili. Lembro-me que quando tinha cinco anos um destes dias havia muita comoção em nossa casa, no Bom Pastor, no Huambo. A minha mãe, tias, todos fomos para uma casa, estavam a chorar… o tio pastor Mussili tinha acabado de sair de S. Nicolau. O meu nome, Sousa Jamba, é o nome do irmão do meu pai, que foi catequista na aldeia de Manico, e eu, quando entrei, o tio Mussili que tinha acabado de chegar de S.

Nicolau, estava sentado e a minha mãe apresentou-me – este é o Sousa Jamba –. E ele – hã, o catequista do Manico! E eu vou e sento-me no colo dele.

Nos anos de 1940 fez-se um filme sobre a vida do velho Mussili, que veio a ser pastor, pelos canadianos, que eu vi, depois, claro, no Canadá. Mas ele foi um grande nacionalista que depois foi levado para S. Nicolau. Não se fala dele. Na nossa história não se fala dele.

E mesmo entre os metodistas não se fala do grande valor do pai do senhor Bornito de Sousa e de outros grandes nacionalista que vieram da Igreja Metodista. O nacionalismo angolano está muito ligado à religião.

Havia a noção de que a Igreja católica era a igreja do Estado, mas não é correcto, porque os padres viam também de várias proveniências.

Havia padres suíços, espanhóis… e alguns eram muito progressistas. Eu comecei a escola em 1972 na escola de Fátima (católica), no Huambo, onde havia uma mistura de alunos negros e brancos. Havia uma dimensão muito progressista também na Igreja Católica. Isto é uma outra forma de ver. O nacionalismo é um processo muito importante na história da independência de Angola, onde a religião teve um papel muito importante.

O que aconteceu é que em 1975 dá-se a revolução e os marxistas eram muito bons a propaganda. Já estive na Missão do Dondi, onde, na igreja em que o meu pai e a minha mãe se casaram em 1945, havia inscrições com citações de Marx.

Não sei se já tiraram, mas vi lá as inscrições. Escreveram na igreja.

Isso, para mim, é algo altamente vulgar. Também vivi na Europa, fui ao sítio onde Carl Marx nasceu, conheço a tradição do marxismo.

Só para dizer que a religião teve muita importância no nacionalismo, mas, depois, só porque os marxistas venceram, exagerou-se muito na sua importância. Temos que entender a nossa História, temos que entender as variantes, os factores todos, para isso nos dar a autoconfiança de avançarmos.

Havia duas formas de o colonialismo controlar os africanos: uma era por via do comércio. Colocavam comerciantes nas aldeias e esses formavam um cartel que fixava os preços dos produtos agrícolas. A outra via era a escola: os nativos tinham que aspirar a ser assimilados, mas ao mesmo tempo havia a escola para os nativos e a escola dos brancos. Aquilo era complicadíssimo. Tudo com o objectivo de oprimir as pessoas. A Igreja fez tudo para mudar aquilo, abrindo escolas que depois produziram os líderes que temos. E vejo que esta juventude que hoje vai à igreja só está a continuar com aquela tradição. Houve, num certo momento, uma aberração nos nossos valores, em que a família, o respeito aos mais velhos, o respeito à tradição, a veneração pelo que é alheio, isto tudo passou a ser nada.

Mas agora há uma reacção e estamos a voltar para o velho Jesse Chiula Chipenda. Não sabemos que carro ele conduzia, não sabemos que marca de sapatos usava, mas sabemos dos seus ideais. E quem lê as cartas que ele escrevia de S. Nicolau sabe que era um homem com dignidade, um homem de Cristo, um homem com valor, um homem com quem orgulhosamente me identifico e suspeito que muitos jovens de hoje se identificam também.

‘COM A DERROTA DE CHIVUKUVUKU EM 2007 SURGIRAM DUAS UNITAS’

As energias começaram a ser dispersas, quase uma luta fratricida, com desconfianças. Aí viu-se uma grande falha do mano Abel, porque ele, como líder, deveria ter dado sinais de lealdade ao líder

Sabemos que Sousa Jamba é um intelectual ligado à UNITA, que tem vindo muitas vezes ao país, mas desta vez a sua vinda coincide com o Congresso da CASA, rumou também para esta nova força política?

Não tenho nada a ver com a CASA, desta vez vim porque terminei o meu mestrado em Comunicação, Estratégia e Liderança e, cansado, vim “recarregar as pilhas”. Pela primeira vez em dez anos quero relaxar, andando pelo interior, quero ir à Missão do Dondi, vou ao Huambo e quero conhecer um pouco mais o Norte. Não tenho nada a ver com a CASA.

 Pode ler o resto da entrevista clicando aqui.

Comments
  1. Laura Dias says:

    «O Dia Seguinte»
    Alguém terá convencido a senhora D. Maria Eugénia Neto de que tinha o estatuto duma rainha dos angolanos. E vai daí, a dita senhora, apoiada na sua «inteligente» filha e servindo-se duma Fundação paga com o dinheiro dos angolanos, convocou uma assembleia magna de «grandes cabeças» para pensarem o «Dia Seguinte» e lhe sugerirem o nome do sucessor de Eduardo dos Santos: lá estiveram os senhores Lopo do Nascimento, Nelson Pestana, Marcolino Moco e Sousa Jamba, o moderador de tão douta assembleia.
    O candidato indigitado e preferido, o senhor Lopo do Nascimento, subitamente esquecido de que, no 27 de Maio de 1977, tivera a casa cercada no Miramar e um dos carrascos da cadeia de S. Paulo dizia que, agora, só faltava prende-lo e interrogá-lo, até aparecera a dizer que os nitistas o tinham querido matar, atraindo-o ao porto de Luanda.
    O senhor Nelson Pestana, preso no 27 de Maio de 1977, convertido em teorizador emérito sobre a forma como deve ser criada uma burguesia nacional, agora aliado do senhor João de Melo e dos adeptos de Neto na antevisão do «Dia Seguinte» à partida de José Eduardo dos Santos.
    E ainda o senhor Marcolino Moco e o senhor Sousa Jamba, mais amigos que nunca, buscavam um lugar ao sol, ainda que entre gente distinta.
    Se fosse nos tempos do antigamente, uns seriam considerados «fraccionistas», «outros inimigos». E todos eles rapidamente fuzilados como traidores à pátria.
    Mas, felizmente, o tempo, embora agreste, vai mais ameno.

  2. Maria A. Guimarães says:

    O senhor Sousa Jamba este na semana passada numa iniciativa promovida pela presidente da Fundação Agostinho Neto, a senhora D. Maria Eugénia. Nada menos que uma mesa redonda com dissidentes do MPLA e membros de outros partidos, membros do corpo diplomático e até deputados, todos apostados na escolha dos cabeças da lista eleitoral do partido no poder. Isto passando por cima dos seus órgãos de direcção do MPLA. O que é uma novidade na cena política, como o seria, por exemplo, a Fundação Presidente Kennedy convidar gente do Partido Repúblicano para escolher o candidato presidencial ou formar a lista eleitoral do Partido Democrático. Nas hostes do partido no poder, as divergências quanto ao futuro parece serem muitas. Aliás, quem tem amigos e deputados destes não precisa de ter inimigos.

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