Uma carta aberta ao irmão Zenu

Posted: September 4, 2015 in Luanda

Caro irmão José Filomeno de Sousa dos Santos (Zenu)

Espero que estas linhas o encontrem em paz e prefeita saúde, em companhia de todos que te são queridos.
Nós aqui também estamos bem, pelo menos cá em casa reina saúde. Os miúdos só as vezes é que ficam doentes, nem eu sei bem porque.

Mas vamos indo, é a vida.

Irmão Zenu, sou mesmo um jovens desses angolanos aqui, tal como o mano. Também nasci em 1977 na fase da troca da moeda, então somos da mesma idade, por isso ouso em chamá-lo de irmão, e peço desculpas se achar ousado demais.

Mas o que me faz escrever para si, não é o facto de sermos da mesma idade. Sabes, irmão? Estamos muito preocupados com o jovens que foram presos a 70 e tal dias, e que até agora não têm a situação definida.

Estes jovens foram primeiro acusados de estarem a preparar um atentado contra o seu pai (o que não acredito), e com o passar do tempo as acusações foram mudando quase uma diferente por semana. Neste momento nem sei bem qual é o nome da acusação que pesa sobre eles.

E o que me da mais medo, é saber que alguns mais velhos depois, sem as devidas investigações, fazem analogia do caso deles, com casos que acontecem noutros lugares do mundo, mesmo sabendo que nos outros lugares as pessoas foram bem investigadas antes de serem detidas, e tinham com eles planos reais para procederem a um atentado contra o presidente deles, e até são encontrados com armamento. Mas no caso dos jovens angolanos, não houve isso. Eles até são contra golpes de estado, pois acreditam que um golpe facilitaria a manutenção de um sistema opressor, trava o avanço do país em todos os aspectos, e gera violência. Esta posição pode ser lida nas primeiras páginas do livro que um deles escreveu, e que na altura que eles formam presos, eles estavam a meditar no tal livro.

Irmão Zenu, não estou a escrever para si para justificar nada. Aliás, temos uma justiça que precisamos que trabalhe, e que não seja influenciada por nada nem por ninguém.

Só queria que o irmão, influente como é, e filho do presidente, com responsabilidades acrescidas no nosso país, nosso irmão, filho da nossa geração, jovem como nós e certamente pessoa com quem podemos contar no futuro, interceda por estes jovens. Não só eles não são o que as pessoas têm dito, como também não querem nada de mal para o país nem para as pessoas que lideram o pais.

Está certo que eles contestam. Sim, mas como é que vamos viver sem contestação? 

O país é grande, os problemas são muitos e nunca se vai satisfazer a todos. Alguém sempre vai contestar. Só não precisamos de maltratar quem contesta só porque contestou, muito menos precisamos de tratar tão mal, a jovens que podem muito bem ser úteis para este pais.

Sabe irmão Zenu? Ai naquele grupo de jovens que estão presos, tem lá licenciados, mestres, doutores e acadêmicos cheios de vontade. Pessoas que até podiam ser seus assessores nos mais variados aspectos da vida, jovens com talentos muito preciosos.

Por favor, interceda só por eles, junto do seu pai, junto dos mais velhos que mandam, e aí onde poderes… Eu imploro.

Também, alguns deles são pais e chefes de família. Fica difícil as suas famílias estarem a ser penalizadas só porque eles (os jovens) são do tipo que não descansam a mente, mas a usam-na para o bem do país.

Irmão Zenu, há muita coisa que se podia falar acerca dos jovens e da detenção deles. Mas como disse acima, não vim justificar nada, quero apenas apelar à sua sensibilidade, para que interceda aí onde nós não conseguimos chegar, e o irmão sendo a pessoa com as responsabilidades que tem, saberá sim interceder e certamente terá a atenção dos mais velhos.

Ao despedir-me, faço votos de sucesso nos seu afazeres, melhores cumprimentos para a sua família e muita coragem neste momento de crise, onde o esforço, dedicação, criatividade e inteligência de todos, são necessários.

Esperando boa resposta. 

Do seu irmão e concidadão, António Domingos “Magno”

Comments
  1. Ju Jaleco says:

    Gostei muito desta carta. Puseram no Face Book? Acho que deviam… vou ver.
    Um abraço, de uma angolana no Puto

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