Carta aberta a Gabriel o Pensador

Posted: March 2, 2016 in Luanda

gabriel-pensador-protestos

Caríssimo Gabriel, Em primeiro lugar, receba os nossos melhores cumprimentos e votos de boa saúde e bons ventos para si e sua família.

A razão que nos rege na escrita desta carta radica no facto de que EXISTEM PRESOS POLÍTICOS EM ANGOLA, o país que realizará o festival denominado Sons do Atlântico, evento para o qual você foi convidado e, ao que tudo indica, participará, sendo uma das maiores atracções do mesmo. Este evento, como sabe, terá lugar na cidade de Luanda, no dia 5 de Março do ano em curso. Você é um dos cabeças de cartaz, ladeado por Craig David, músico britânico que, tal como a sua pessoa, é bem conhecido em Angola.

Gabriel o Pensador inspirou uma geração de rappers de intervenção social e política de Angola. Alguns desses artistas estão hoje presos por defender as mesmas ideias que você vem apregoando ao longo da sua respeitável carreira e, seguramente, um posicionamento público de um artista com a sua trajectória, condenando as restrições de liberdade e violações dos direitos humanos a que são diariamente sujeitos, lhes traria algum alento.

Por esse motivo, e em nome de todo o angolano perseguido, injustiçado e martirizado pelo seu próprio governo, pedimos-lhe que NÃO PARTICIPE NO FESTIVAL SONS DO ATLÂNTICO.

Em Angola há uma ditadura perversa que reduziu à pó a dignidade da vasta maioria dos Angolanos. O regime de José Eduardo dos Santos tem levado a cabo diversos golpes à liberdade, à justiça e à democracia, que diz existir em Angola. Atente aos seguintes factos ocorridos entre o ano transacto e o presente:

1- Em Março de 2015, o activista angolano Marcos Mavungo foi detido em Cabinda, sua terra natal, por agentes dos serviços de segurança, sendo colocado em prisão preventiva. Cerca de 6 (seis) meses depois, em Setembro, num julgamento impregnado de absurdos, Marcos Mavungo foi condenado a 6 (seis) anos de prisão efectiva pelo fictício crime de ter realizado acções contra a segurança do Estado, quando tudo o que fez foi enviar uma carta ao Governo Provincial daquela província indicando que desejaria levar a cabo uma manifestação contra as violações dos direitos humanos! O activista, que padece de problemas cardíacos e hipertensão, tem tido várias crises recorrentes e sua família enfrenta graves problemas económicos, em situação de quase penúria.

2- Entre os dias 20 e 24 de Junho de 2015, quinze activistas foram detidos em gigantescas operações policiais mobilizando vários agentes do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e dos Serviços de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE), sob acusações iniciais de “associação de malfeitores”. O seu crime era juntarem-se numa sala de aulas, numa residência privada, para debaterem em torno do conteúdo de um livro que professa o activismo não-violento.

O Procurador Geral da República, em conferência de imprensa, informou que a razão da detenção se deveu a ‘terem sido flagrados a realizar acções tendentes à alteração da ordem pública’, ou seja, ‘estavam a levar a cabo um golpe de Estado, tendo disso sido impedidos’. Em Outubro a Procuradoria fez a acusação formal: “actos preparatórios de rebelião e atentado contra o Presidente da República e membros do Governo”.

O julgamento – recheado de contornos kafkianos – começou no dia 16 de Novembro e ainda não foi concluído. Mais de 1 (um) mês depois, fruto da elevadíssima pressão interna e externa sobre o regime do ditador José Eduardo dos Santos, no dia 18 de Dezembro de 2015, os 15 activistas saíram da medida de prisão preventiva para a de prisão domiciliária, a qual foi prorrogada pelo juiz do Processo (0148/15-A) no dia 19 de Fevereiro, o que significa que os activistas continuam sob prisão domiciliária.

Deve ser acrescentado que no dia 8 de Fevereiro de 2016, no início da quarta temporada, o activista Manuel Chivonde Baptista (Nito Alves), em processo sumário, foi condenado a 6 (seis) meses de prisão efectiva por alegadamente ter desrespeitado o tribunal ao se insurgir contra as arbitrariedades do interrogatório dirigido ao seu pai constituído declarante. Nito voltou aos calabouços, sendo conduzido no mesmo dia à Comarca de Viana, situada em Luanda. Ele já esteve preso neste estabelecimento em 2013, pelo ‘crime’ de ultraje contra o Presidente da República. Foi libertado depois de aproximadamente 2 (dois) meses e posteriormente absolvido pelo tribunal. Nito ainda não tinha sequer 18 anos.

3- Em Novembro de 2015, o activista angolano Raúl Mandela teve de viajar ao Brasil para ser submetido a exames médicos e respectivo tratamento, pois tinha sido selvaticamente agredido por agentes da Polícia Nacional de Angola quando participava em manifestações a favor da libertação dos Presos Políticos Angolanos. Recentemente, o Estado brasileiro acabou concedendo asilo ao jovem activista.

Como vê, é sistemática a violação dos Direitos Humanos em Angola. A lista de arbitrariedades e violações seria infindável se prosseguíssemos dando exemplos probatórios do estado de selvajaria instaurado pelo regime de José Eduardo dos Santos, na presidência de Angola desde 1979, sem nunca ter sido nominalmente eleito.

Infelizmente e como em todas as ditaduras, o mundo do entretenimento não consegue estar independente do poder político, que o usa consoante as suas conveniências. O Festival Sons do Atlântico tem como patrocinador principal o BANCO PRIVADO ATLÂNTICO, recentemente envolvido num escândalo de corrupção de proporções inéditas envolvendo o Vice-Presidente da República, Manuel Vicente, amplamente divulgado na imprensa portuguesa e alvo de um silêncio tumular na nossa. Não é a única. A maior parte das empresas têm de uma forma ou de outra vínculos com o círculo mais restrito do poder político em Angola.

As pessoas que prezam e defendem a dignidade da pessoa humana, a liberdade, a justiça, a democracia, a solidariedade, a paz e o progresso da Humanidade NÃO PACTUAM COM REGIMES DITATORIAIS E SUAS PRÁTICAS RETRÓGRADAS. E nós estamos certos de que Gabriel O Pensador é uma destas pessoas, por isso lhe pedimos que não participe neste festival.

Com muita estima,

Luanda, 29 de Fevereiro de 2016

Os subscritores:

ARAGÃO SANDA
HARVEY KIASONGA
SIZALTINA CUTAIA
MAGNO DOMINGOS
FARADAI
MCK
NVUNDA TONET
RAÚL LINDO MANDELA
PEDROWSKI TECA
EDSON GOMES
STONES CÂMARAS
JESSE LUFENDO
KAPITÃO F
ELIETE GONÇALVES
TERÊNCIO CHIWALE
ANÍBAL SIMÕES
ANTÓNIO SETAS
FERNANDO GUELENGUE
TONI NETO
GIRINHA COSTA
DANIEL “BRUTAL MP” GASPAR
TIMÓTEO “TIMOMY FREEDOM” GASPAR
VANDERSON “VERSOS NEGROS” TAVARES
FELISBERTO HOLUA
EMANUEL PIITRA
OLIVEIRA ANESTESIA
ZACARIAS NGOMALO
NELSON PESTANA “BONAVENA”
LEANDRO FREIRE
EVYAH EVELYN
MIGUEL BONDO
FLAGELO URBANO
SIMÃO HOSSI
ADILSON NALATO
VICTOR MANUEL MASNADA
GRA DE ÂNGELO
FRANCISCO MAPANDA
HILÁRIO DINNA
NÁDIA EDUARDO
JOSÉ SANTOS AVOZINHO
ORLANDO FREIRE
FIRMINO ZOMBO
ALBERTO NUNDA
HAMILTON CARLOS
PEDRO MALEMBE
JOÃO MAMBO
VENÂNCIO MANUEL ANTÓNIO
MATEUS DALA
TITO TATI
ALEXANDRE DIVUA
DELFINO KASSANGE DA ROCHA
HOMOLIBERO SOPENDA
JORGE CALIATA
ZAIDA FRANCISCO GANGA
DARCI ZANGA
JOÃO GOULART
JOÃO ANTÓNIO ZANZUCA
OSVALDO NARCISO
JOÃO MAMBO
ANTÓNIO DE SOUSA PEGADO
NELSON MANUEL GUILHERME
ABÍLIO GUEDES
FELICIANO DA LUZ
WILSON CABETO

Comments
  1. Osvaldo Kassindula says:

    Eu sou um dos que cresci ouvindo Gabriel O Pensador e acredito no bom senso dele.
    Bem haja a Liberdade de pensamento e expressão

  2. Invisivel Barros says:

    por favor Gabriel Pensador Atenda o pedido de Angola

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s