Cadeias de Luanda: Histórias de Reclusos

Posted: August 2, 2016 in Luanda

Histórias da Cadeia 01

Aos 28 de Março de 2016 foram condenados os 17 jovens envolvidos no famigerado processo que ficou conhecido como 15+duas. De forma arbitrária e prepotente, o Juiz decidiu reconduzi-los às comarcas apesar de ter aceite a interposição de recurso que deveria suspender a aplicação das penas. Três meses depois, o Tribunal Supremo corrige esta aberração e coloca os 17 em Termo de Identidade e Residência. Os relatos que vamos publicar ao longo das próximas semanas foram colhidos ao longo desse último período de cativeiro e poderão já estar desatualizados (esperemos sinceramente que estejam): Nicolas, Nuno, Mbanza, Luaty e alguns reclusos solicitos colaboraram na recolha destes depoimentos. Alguns deles já terão sido publicados na nossa página de facebook, outros nas páginas de parceiros como Maka Angola, mas a maioria ficou arquivada por razões de ordem diversa… até hoje.

A maior parte destes jovens está em excesso de prisão preventiva e deverão ser soltos com esta leva dos “8000 amnistiados”.

Nome: Tchoninguimbi Massala;
Idade: 16 anos;
Detido aos 26/12/2015;
Nº PROC: Não se recorda;
Acusação: Assalto à mão armada;
Estabelecimento Prisional: Calomboloca;
Advogado: Não;
Família: Não;
Torturado: Sim

No dia 26 de Dezembro de 2015, Tchoninguimbi e 6 outros amigos encontravam-se numa residência privada, mais propriamente no quintal de uma senhora que comercializa bebidas alcoólicas. Muitas outras pessoas se encontravam no mesmo espaço, a maior parte delas com o mesmo objetivo: embriagarem-se.

A dada altura deflagrou uma rixa violenta de um grupo alheio ao seu, culminando com o vazamento de um dos olhos de um dos envolvidos. O grupo de Tchoninguimbi tenta separar os beligerantes.

Em tempo recorde, enquanto ainda tentavam parar a luta, 5 agentes dos SIC (DNIC) irrompem pelo local fazendo 5 tiros e dispersando a multidão.

Os 7 rapazes que alegadamente estariam a tentar parar a luta foram agarrados e acusados no local de serem bandidos, algemados e colocados num Hiace “quadradinho” que os agentes forçaram a parar para transportar os jovens para a esquadra.

Postos lá, foram encaminhados para o gabinete dos SIC e aí mesmo começou o terror: 3 dos agentes, munidos de cabos de aço (cabos de alta tensão), chicotearam os rapazes, todos com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos.

Choraram ao longo dos 5 intermináveis minutos alegando inocência, enquanto os agentes aumentavam a intensidade dos seus golpes acompanhando o ritmo dos lamentos e choros, gritando mais furiosamente a cada vergastada: “bandidos!!!”.

Depois dessa sessão foram entregues à cela (4x2m, com 20 ocupantes dormindo no betão), onde não chegaram a aquecer lugar, pois foram sendo chamados um por um, levados para uma sala conhecida como “sala de bater”.

A Tchoninguimbi exigiram que apontasse bandidos do seu bairro que tenham praticado assaltos. Respondeu que não anda em companhia de gente dessa índole, mas isso enfureceu os “investigadores” que de imediato se puseram a empregar das suas super eficazes técnicas de extração de confissões, provavelmente a única que dominam: a tortura.

Pontapés na cabeça inscreveram-lhe uma cicatriz na bochecha, pisões no pescoço pressionando-o contra o solo e atadores para amarrar-lhe os cotovelos e tornozelos atrás das costas formando um arco, deixando apenas o peito em contacto com o solo (helicóptero) deram continuidade à maldade sanguinária dos agentes malfeitores. Mas ainda não estavam satisfeitos. Ainda na posição de helicóptero, os meliantes legalizados voltaram a empregar o cabo de aço para vergastar Tchoninguimbi.

De tanta dor, raiva e impotência, o rapaz concentrou as suas últimas forças para agarrar com os dentes os pés de um dos agressores e morder-lhe num ato insensato de desespero. Valeu-lhe um novo pisão no pescoço e várias ameaças de morte, se não dissesse “a verdade”, a que eles queriam ouvir.

Deram-lhe um intervalo de duas horas após o qual foi acordado com um balde de água, chibatadas de cabo de aço, pontapés na barriga, nas costas… mijou-se, desmaiou de novo. Esperaram que voltasse a si, voltaram a ameaçá-lo de morte e pegaram num martelo de ferro pequeno com o qual lhe bateram nos joelhos (várias cicatrizes comprovam-no). Por essa altura Tchoninguimbi estava preparado para dizer fosse o que fosse: “sou eu o bandido!”.

Desamarraram-no, meteram-no no carro com a missão de apontar gente do bairro que reconhecesse como agentes do crime. Tinha advertido que não conhecia e por isso foi torturado, de modos que se pôs a apontar para pessoas na rua ao azar. Azar para os apontados poder-se-á dizer, pois estes foram recolhidos compulsivamente e transportados para a esquadra.

Tchoninguimbi não voltou a vê-los, foram para uma cela diferente, quiçá soltos horas depois. Os agentes começaram agora a pressionar os Tchoninguimbi e os seus 6 amigos para lhes pagarem 30 mil kwanzas, prometendo-lhes que seriam soltos mediante esse pagamento.

Entretanto, os mesmos agentes já se tinham posto confortáveis com os seus bens pessoais, como roupas e chapéus. Segundo o relato, um dos agentes torturadores chegou mesmo a usar o chapéu de um deles enquanto decorriam as sessões.

Três pagaram, os outros 4 foram conduzidos ao Comando de Divisão de Cacuaco onde aguardaram três semanas para ser ouvidos por um investigador/procurador, apelidado de “Vic Ross”. Este começou a ler em voz alta os documentos já fornecidos pelos SIC: “assaltaram uma cantina com arma de fogo e levaram 200 mil kwanzas”. “Não”. “São bandidos e vão para a Comarca”. Choros: “Não conhecemos comarca, somos inocentes”.

Diz que nunca lhe foi apresentado documento algum para assinar. Transferidos para a Comarca de Viana, passaram pelos infâmes “andares” (os blocos), dormiram “na catana” (no chão, de lado, com os pés de outro companheiro na sua cara, encaixados em longas filas pelo corredor), contraíram as infeções cutâneas que chamam de fagulhas e outras aflições como dor de peito (tossia sangue).

Foi atendido, passou-lhe a dor de peito, mas não a dor de alma.

Comments
  1. Southwind says:

    Isto é INCRÍVEL!!!! Se este é o ambiente de Luanda neste momento, então que se preparem para ver como a comunidade internacional vai reagir. Isto vai dar uma maka muito feia. Continuem a relatar. Já existe gente a traduzir estes relatorios em diversas linguas e em vários países. Não são muidos nem NGO, é gente alta, responsável, idónea e com poder, que ficou enojada com este relato.
    Haver vamos o resultado quando estas coisas macabras sairem abertas ao mundo.
    Obrigado por ter a coragem de denunciar isto. Continuem, por favor.
    Coragem !

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