Denúncia de agressões sofridas por Luaty Beirão

Relatório de Ocorrência

 No dia 24 de Maio, por volta das 11h00, fui conduzir a minha avó à dependência do BPA, Banco Privado Atlântico, sita na Av. Comandante Valódia, conhecida como a Av. dos Combatentes.

Dado que tinha sido incumbido pela minha mãe de tratar de um assunto com a funerária contratada para operar o enterro do meu avô, e que esta se situava a um curto quarteirão de distância, resolvi aproveitar a saída de casa para matar dois pássaros com uma só pedra.

Para evitar o transtorno do trânsito que iria fazer-me perder mais tempo, deixando a minha avó desnecessariamente a espera, estacionei a viatura em frente ao banco e desloquei-me, à pé, até a dita funerária, situada em frente à Anangola, instruíndo a minha avó que não saísse de dentro do banco até o meu regresso.

Estaria a meio do caminho, quando senti desaparecer o chão por baixo dos meus pés e me apercebi que tinha caído por ter sentido uma pontada na nuca. Dei por mim, instintivamente a proteger-me de golpes que, segundos mais tarde, dando por mim de pé e ganhando consciência do que me estaria a suceder, percebi serem pontapés. Até ao momento em que me levantei foi o meu subconsciente a conduzir-me. Não houve um segundo para me distanciar e observar os meus algozes pois a chuva de socos e chapadas foi ininterrupta, vindo de frente e de trás. Possuído por uma raiva incontida, fiz a única coisa que um animal encurralado faria, ataquei também, para me defender. Procurando ganhar um espaço e evitando ao máximo voltar ao chão, escolhi o indivíduo que me atacava de frente e atirei-me para cima dele correspondendo aos socos que me desferia. Foi uma questão de segundos até conseguir o espaço que pretendia e aí corri para a estrada, descalço e com a camisola completamente rasgada, voltando ao passeio uns 20 metros mais à frente para junto da multidão que, impávida, assistia aquela cena desenrolar-se.

Disseram-me eles que seriam três, eu não tive tempo para me certificar de quantos eram pois estava mais preocupado em defender-me. Só senti dois a agredirem-me, parecendo-me que haveria um terceiro ali de pé, preparado para a acção, mas que não terá tomado parte. Como fui atacado pelas costas, prefiro dizer que foram dois, dado não ter certezas que o terceiro jovem estaria com eles e também porque me disseram as testemunhas que, quando consegui soltar-me, eles se puseram em fuga numa motorizada “acelera”, onde normalmente só cabem duas pessoas, mas onde se vêem até 3 com alguma frequência.

De uma multidão de testemunhas que chegaria a trintena, ninguém se avançou quando pedi que dois ou três me deixassem os seus contactos caso a polícia precisasse de alguém que corroborasse com a minha versão, apesar da insistência, fixando com o olhar algumas das pessoas que ali se encontravam. Mais do que os golpes, foi essa atitude de passividade reveladora do pavor ignorante que vivemos neste país que me magoou mais. Ninguém estava disposto a confirmar a minha história caso se revelasse necessário.

Irritado, virei costas e voltei ao Banco, amarrando a camisola o melhor que pude sem auxílio, para tentar evitar que a minha avó se desse conta do que me teria sucedido. Não pensei que fosse ser possível, mas logrei os meus intentos, deixando a minha despreocupada avó em casa e dirigindo-me imediatamente à esquadra onde fiz a participação. Primeiro a 3ª, depois a esquadra com jurisdição na área onde a agressão teve lugar, a esquadra móvel afecta à 7ª esquadra no Sambizanga.

Quero que fique bem patente que, para mim, a responsabilidade desse acto não recai (exclusivamente) sobre os jovens que a praticaram, ainda que não tenham para isso sido mandatados, são irmãos angolanos, escravos de consciência, fanáticos e endocrinados por um partido que tentam defender, acreditando estar dessa maneira a agir para um bem maior. O autor moral desse crime político, ainda que não tenha sido explicitamente ordenado (o que seria apurado caso a polícia fosse independente), é SEM DÚVIDA, o partido no poder, o MPLA que criou ao longo dos anos, uma estranha forma de reconhecimento à fidelidade partidária, recompensando com prémios e promoções, pessoas que, pelo partido, provassem que são capazes das mais insanas barbaridades. O MPLA e o seu patrono José Eduardo dos Santos, são a meu ver, culpados pela agressividade dos seus militantes, tornados vigilantes e justiceiros, quando incentivam à bufaria e à violência, dissimulando mal nas suas intervenções públicas a sua verdadeira natureza autocrática.

“…fala-se de revolução, mas não se fala de alternância democrática. Para essa gente, revolução significa juntar pessoas e fazer manifestações, mesmo as não-autorizadas”.
José Eduardo dos Santos no discurso de Abertura da I Reunião Extraordinária do CC (ver aqui)
 

Identificando o alvo.

“… nós devemos estar atentos e desmascarar os oportunistas, os intriguistas e demagógos que querem enganar aqueles que não têm o conhecimento da verdade”.
Idem
 

Desmascarar? Ou silenciar? O senhor José Eduardo sabe muito bem, por experiência histórica, como ressoam certas frases na cabeça dos seus acéfalos correligionários, usando-as irresponsavelmente e maquiavelicamente para que os resistentes à transição ideológica (que não se opera miraculosamente na cabeça de dinossauros por demais habituados a hegemonia política), possam de seu “livre” arbítrio agir da maneira a que se habituaram no tempo do partido único, fazendo o que crêm ser um serviço de utilidade pública.

O silêncio ensurdecedor que se faz sentir diante de tamanhas violações dos nossos direitos mais fundamentais, como o direito a diferença de opinião, de manifestação, de imprensa e, sobretudo, direito à vida, é, mais do que um claro indicador da cumplicidade de quem estabelece as directivas de acção (e que pode portanto com uma ordem PROIBIR que estas agressões se repitam, ameaçando consequências legais), uma subentendida carta branca aos aspirantes a cargos superiores, para continuarem a agir da forma que achem mais adequada na defesa do supremo interesse do partido, a manutenção do status quo.

Que fique bem claro para todos, que se alguma coisa me acontecer, não procurem em mais lado nenhum, o culpado é o MPLA e não os jovens, carne para canhão, que têm de se submeter aos ritos de passagem para serem admitidos na gang.

Luanda, aos 26 de Maio de 2011
Luaty Beirão
 
 

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Relatório de Ocorrência

Hoje por volta das 16h00, quando me encontrava no quarto da minha residência ensaiando para uma apresentação artística, ouvi tocar a campaínha. Quando me dirijo à sala, apercebo-me de um ruídoso rumor vindo da rua e oiço pancadas estrondosas na minha porta. Observo pela câmara da campaínha o que me parecia ser uma manifestação. Deduzi que fosse uma manifestação de desagrado pelas minhas opiniões que, ultimamente se tornaram um pouco mais mediatizadas do que eram até uns meses atrás. Estariam a ser excessivos, pois lançaram garrafas de vidro, pedras e até um balde de tinta (vazio) para o quintal enquanto iam pontapeando a porta a ver se cedia. Apercebi-me que gritavam “queremos o nosso dinheiro” e foi aí que me dei conta que aquilo não era a simples manifestação do descontentamento de jovens com opiniões contrárias à minha, mas mais uma maquinação para me intimidar e descridibilizar-me perante a opinião pública que, à excepção de alguns jornalistas que escolheram apelidar-me de predicados pouco abonatórios e personalidades ligadas ao governo, me tem sido razoavelmente favorável. A chuva de garrafas continuou e a porta, eventualmente, acabou por ceder, ficando a fechadura partida. Dirigi-me então à porta para ver se conseguia dialogar com algum dos manifestantes para entender o que lhes trazia ali na verdade. Mas os jovens estavam exaltados, tendo um deles avançado, agraciando-me com uma bofatada. Imediatamente um dos jovens manifestantes se colocou entre ele e mim, mostrando que (desta vez) não tinham vindo com intenção de me invadir o domicílio ou de me fazer mal, mas nem com este consegui dialogar, pois, pedindo calma, perguntei o que se passava tendo ele respondido simplesmente “vai só buscar o nosso dinheiro e é tudo”. Que dinheiro, era a pergunta para a qual não me davam resposta. Entretanto, uma rapariga da rua que atende pelo nome abreviado de Teté, entrou e fechou a porta amarrando-a com o cordão de uma das suas peças de roupa, até que eu pudesse trancá-la. Liguei para o 113 que levou 5 minutos a atender o telefone e, apesar da urgência da situação e da péssima ligação telefónica que me impedia de ouvir claramente o que dizia a minha interlocutora, insistia em fazer-me perguntas sobre a razão de estar a ser agredido. Finalmente decidiu-se por comunicar à 3ª esquadra que, por sua vez, estando a uns escassos 300 m de distância da minha residência, conseguiu meter 15 minutos até chegar ao local, contrariamente ao que alega a RNA/ANGOP quando diz “graças a pronta intervenção da polícia”. Quando esta aqui chegou, os rapazes já teriam debandado e eu já tinha epilogado com a vizinhança que se mostrou preocupada e consternada com a minha sorte. Fui levado para a esquadra onde já me esperava a minha cunhada, prestei declarações e ficaram de me ligar na vaguidão de “um desses dias”.

Para quem não me conhece, não será muito difícil acreditar numa notícia oficial da RNA que me pinta como um desonesto capaz de prometer o que não tem ($) a quem (supostamente) está a defender, num gesto desesperado para aumentar o número de aderentes a uma manifestação, que nem sequer convocou, engrandecendo assim, de forma pouco desportiva, a legitimidade dos seus propósitos. Para essas pessoas esta denúncia de nada servirá, pois não têm mais razão para acreditar em mim do que num grupo de 20 jovens que juntaram forças para reclamar o que (supostamente) lhes teria sido prometido. Será a minha palavra contra a deles. Eis a tal “guerra pela informação da verdade” onde as armas são assimétricas e onde o mais importante é tudo excepto a verdade.

Luanda, 2 de Junho de 2011

Luaty Beirão

O Cazenga fervilha!

Encontrámo-nos com um dos organizadores da manifestação que teve lugar no Cazenga, no dia 30 de Abril de 2011 que obrigou o Administrador Tany Narciso a sair voado do Congresso do M para ir atender os seus descontentes municipes e ouvir-lhes os queixumes (nota: Tany é conhecido por ser dos admnistradores mais acessíveis de Luanda, fazendo uso de diplomacia directa, ao contrário dos seus homólogos que primam pela criação de obstáculos entre eles e as pessoas que representam). Nessa reunião, Tany terá lançado aos queixantes o repto de apresentarem propostas por escrito, desafio prontamente aceite e consumado com a entrega no dia 25 de Maio do documento que aqui disponibilizamos.

Exceptuando o sarapiá subserviente e graxista da introdução e a falta de clarificação sobre as consequências caso não sejam atendidas as suas exigências num período fixo de tempo, a lista de exigências é contundente, objectiva e não deixa espaço para duas interpretações, alguns dos pontos podendo no entanto levantar controversia do lado dos próprios municipes (vide ponto 8).

Pedem que sejam recenseados os desempregados e que se retomem os subsídios outorgados aos desmobilizados na década de 90, legalizados os zungueiros, espaços abertos para prática de desporto e leitura, arborização, contratação de mais professores que chegam a ter 1500 alunos sob sua responsabilidade de avaliação, abertura de linhas de transporte público, transparência na denominação dos donos das obras em placas públicas para que possam mais facilmente responsabilizá-los no caso de atropelos às normas e que seja atribuída uma moradia fixa ao admnistrador dentro do próprio Município.

Apesar de não vir explicitado na carta, foi-nos dito em privado que será dada uma moratória de 6 meses às autoridades municipais para mostrarem trabalho, sendo que “mostrar trabalho” teve início no dia 26, um dia depois de entregue a carta, caso contrário podem esperar manifestações de forma sistemática.

 

 

Os Cães Ladram e a Caravana Passa

Por Cláudio Silva (do blog Havemos de Voltar)

Os cães ladram e a caravana passa…

Um sábio ditado árabe, bem das minhas origens, das quais me orgulho, diz que não importa o latido dos cães, não importa o barulho que façam, a caravana segue o seu caminho, apesar deles… existe uma estrela a ser seguida, um pensamento a ser preservado, e nada vai impedir que a caravana siga o seu rumo…mesmo que pare por alguns momentos, mesmo que alguns cães se julguem alimentados pegando os restos que caíram durante a passagem, a caravana segue o seu rumo, mais fortalecida, mais coesa, deixando cada vez mais longe o barulho dos cães esfomeados. Uma caravana é feita de gestos, de sonhos, de atitudes, de longas vivências, de cumplicidades, de sentimentos fortes, de amizade, de amor e de desejos. Ela segue o seu caminho, totalmente indiferente ao ganido de cães enlouquecidos, atrás de alguma cadela no cio…

-Sandra Nasrallah, em O Recanto das Letras, 2005

Quão bela é a história.

A beleza da historia é que não obstante a sua diversidade colorida e diversa, ela se repete. E a teimosia do homem é que, não obstante a repetição da história, ele se recusa a aprender dela.

Sinto que neste momento vivemos mais uma destas repetições da história. Sente-se algo de diferente no ar, algo que pressente a mudança do status quo. Creio que os nossos pais sentiram o mesmo por ocasião das independências das colónias africanas e o surgimento de novas nações no continente berço, finalmente lideradas pelos seus próprios povos. Olharam com olhos molhados às imagens de um Kwame Nkrumah triunfante e radiante perante o seu povo liberado, donos de um novo país, cujo nome clamavam com orgulho: Gana. Deve ter sido assim também quando as outras colónias se libertaram por África afora, deixando por último as colónias portuguesas, cujos líderes agarravam-se a elas com unhas e dentes, impávidos contra o rumo da maré e sem capacidade para lerem os sinais dos tempos.

Na altura, os portugueses deviam ter chamado a isto “os ventos da independência”,  jurando a pés juntos que tal coisa nunca chegaria à sua província ultramarina de Angola. Devem ter exortado os seus cidadãos a se manterem vigilantes contra os que queriam manchar a paz e a tranquilidade pública. Devem ter dito que a realidade em Angola era diferente e que os que queriam independência simplesmente queriam imitar o que viam no estrangeiro. Seguramente que os denunciaram como confusionistas, apelidando-os de terroristas e que só estavam a usar o nome do povo para motivos pessoais e objectivos inconfessos. Quando eles se tentavam manifestar, reprimiam-nos violentamente, atirando-os para cadeias por ousarem pensar de forma diferente e quererem gerir os seus próprios destinos.

Como reza a história, foram incapazes de lerem os sinais do tempo e de medir o nível de descontentamento das suas populações. Foram cegados pela sua própria arrogância, desprezando as aspirações, desejos e direitos dos povos cuja lealdade julgavam sua. Depois do derrube do Salazar, foi só uma questão de tempo para os portugueses fizessem o que era esperado deles, e darem a independência a Angola, mesmo que em condições menos boas e da forma quase irremediável em que o fizeram.

Algo parecido aconteceu pelo mundo no final da década dos 80, aquando do derrube do muro de Berlim. Mais uma vez, as classes no poder foram incapazes de ler os sinais do tempo e aprender com a história. Julgaram-se superiores aos seus povos e, arrogantes, desprezaram as suas demandas legítimas, atirando-os para cadeias, ameaçando-lhes, e reprimindo-lhes. E, sendo o povo mais forte que qualquer classe reinante, os governos comunistas foram caindo um por um. Talvez o episódio mais caricato desta transição tenha ocorrido na Roménia, onde o Nicolae Ceausescu, de tanta ignorância e incapacidade de saber dos problemas dos seus constituintes, quase foi morto em plena rua durante um discurso irrealista que fazia, dizendo ao seu povo esfomeado que na Roménia não existia nem fome nem pobreza extrema.

O muro de Berlim, por tanto tempo um símbolo do comunismo, caiu como se de areia se tratasse, e alemães, de um lado e outro do muro, se abraçavam, choravam, e sentiam-se vitoriosos, mais uma vez donos do seu próprio destino. Porque afinal de contas, a força de uma nação reside no seu povo, e são eles que acabam por ditar o rumo de um país. Eis o que conta a história, vez após vez.

E acontece assim sucessivamente na história. Hoje, estamos perante mais uma mudança do status quo, naquilo que muitos à volta do mundo chamam “A Primavera Árabe”, e, aqui em Angola, “os ventos do norte”. Um pouco por todo o médio oriente e o Norte de África, e mesmo na África subsaariana, os povos destes países, fartos da pobreza, da gestão grosseira dos seus recursos naturais, do fosso enorme entre os ricos e os pobres, das injustiças, das perseguições, das prisões, da falta de liberdade de expressão, das violações sucessivas dos direitos humanos, enfim, fartos de serem tratados como colonizados nos seus próprios países por dirigentes dos seus próprios países, decidiram sair à rua para reclamarem os seus direitos, de forma pacífica. É muito importante realçar este último ponto: de forma pacífica.

Quase sempre, a resposta às suas demandas por parte dos seus dirigentes, do mesmo povo, foi violenta. Contra cartazes e cânticos são exibidas armas de fogo e algemas. Morreram cidadãos por ousarem demandar um futuro melhor para os seus filhos. Outros foram presos, outros torturados. Mas, na Tunísia, o Presidente Ben Ali decidiu que era melhor sair do que evitar mais confrontos, porque, talvez por ter aprendido com a história, viu que esta era a sua melhor opção. O mesmo fez o Presidente Hosni Mubarak.

Já o Presidente Laurent Gbagbo decidiu afiar os dentes e as unhas, só para depois aparecer nas televisões mundiais de camisola interior, a transpirar, altamente desonrado e deorientado, fazendo uma figura ridícula e triste.

Outros ainda decidiram disparar indiscriminadamente contra os seus povos, tentando matar as mudanças do tempo cidadão por cidadão, homem por homem, mulher por mulher, para ver se esta vontade da mudança é derramada do país tal como é derramado pelas estradas o sangue dos seus povos. Neste grupo estão o Presidente Muamar Khadaffi, da Líbia, o Presidente Ali Abdullah Saleh do Iémen, e o Presidente Bashir Al-Assad na Síria.

Um pouco por todo continente, as populações africanas subjugadas pelos seus dirigentes vão acordando. No Uganda, um Museveni paranóico prende e ameaça vezes sem conta o líder da oposição e seu antigo médico pessoal, o senhor Kizza Besigye, só para este  se reerguer, cada vez mais forte e com mais apoio, vezes sem conta.

E, finalmente, aqui em Angola, uma juventude corajosa, farta da falta de acesso ao ensino, farta das gritantes assimetrias sociais, farta do fosso entre os ricos e os pobres, farta do facto de só poderem singrar se tiverem um determinado cartão de um determinado partido, ou um “tio na cozinha”, farta dos sussurros “xé menino, não fala politica”, farta dos mujimbos “se você falar muito não vais conseguir emprego”, farta das promessas falídas dos seus dirigentes, farta do acesso ao crédito inexistente, farta de não poderem comprar casa própria devido aos preços astronómicos destas, farta da falta de oportunidade, farta do crime, farta da incompetência de muitos dos seus dirigentes, farta da pobreza extrema, farta da falta de liberdade de expressão, enfim, fartos de serem tratados como colonizados no seu próprio país, acordaram da sua letargia, sairam da maratona, sacudiram os ouvidos da última nota teimosa dum kuduro qualquer, e decidiram sair à rua e manifestar o seu descontentamento, conforme permite a constituição do nosso estado democrático de direito no seu artigo 47.

Curiosamente, a reacção do regime foi parecida com a do colono nos tempos idos. Em vez de atender às preocupações legítimas da juventude, chamaram-nos nomes. Oportunistas. Demagogos. Fantoches. Intriguistas. Disseram que a realidade aqui é diferente, que os “ventos do norte” jamais chegariam à Angola. Exortaram os seus cidadãos a se manterem vigilantes contra os que queriam “manchar a paz” (como se mancha a paz com uma manifestação pacífica?) e a “tranquilidade pública”. Disseram que a realidade em Angola era diferente e que os que queriam uma democracia verdadeira simplesmente queriam imitar o que viam no estrangeiro. Denunciaram-nos como confusionistas e que só estávamos a usar o nome do povo para “motivos pessoais” e “objectivos inconfessos”. Quando a juventude se manifestou, reprimiram-na, atirando-a para cadeias na noite cerrada por ousarem pensar de forma diferente e quererem gerir os seus próprios destinos.

Enquanto que no mundo a juventude é a impulsionadora da mudança e da renovação, em Angola ela é insultada, o seu ensino é asfixiado, e o seu emprego quase que inexistente. Enquanto que o mundo abraça as novas tecnologias de informação (neste momento a valorização do Facebook ronda os $8 bilhões), em Angola o acesso a elas sofreu um atentado de restrição, por parte de um regime com medo da sua própria sombra, com maioria absoluta de 80% no parlamento mas fabricando panfletos falsos e violentos para tentar denegrir a iniciativa de uns vinte ‘gatos pingados’.

Os tempos estão a mudar, e a marcha da democracia por África é real. Como a caravana citada acima, ela passa. Com cães a ladrar ou não, ela continuará a passar. Com o advento da internet, a propaganda de outrora já não funciona. Pouco por pouco, a população vai abrindo o olho. A juventude já não cai nas mesmas fintas dos tempos idos. Os nossos problemas são reais, e queremos ser uma força competitiva em África e no mundo, não por virtude do preço do nosso petróleo, ou no número de estradas descartáveis que construímos, o pelo número de prédios de vidro na baixa de Luanda, mas sim pela nossa capacidade de gerir os nossos próprios destinos, sim pela quantidade de doutores, juristas, pesquisadores, gestores e professores entre nós, sim pelo número de invenções feitas por angolanos, sim pela nossa capacidade intelectual, sim pelo nosso poderio financeiro não extraído por estrangeiros mas feito por angolanos e para angolanos, e sim pela força da nossa democracia.

Quão bela é a história.

A beleza da historia é que não obstante a sua diversidade colorida e diversa, ela se repete. E a teimosia do homem é que, não obstante a repetição da história, ele se recusa a aprender dela.

Resta saber se o regime angolano saberá lidar com as lições da história.

- Cláudio Silva

Vídeo das detenções

*Mesmo com uma manifestação devidamente comunicada ao GPL.  Ainda que alguns insistam em afirmar que os organizadores não estavam bem identificados na carta, a LEI –  uma famosa lei que já postamos muitas vezes aqui na Central – é explícita ao dizer que todos os promotores devem ser avisados por escrito durante as seguintes 24 horas.

*Mesmo quando os promotores da manifestação, do MRIS, sofrem ameaças de morte. Pode ser visto nos videos que circulam pela internet, onde os jovens do MRIS explicam, além das pressões que têm sofrido, também as suas motivações.

*Mesmo quando 3 desses promotores são detidos pela PN nas vésperas da manifestação, sem justificação sólida.

*Mesmo com a violência verbal, com a intimidação, com as armas exibidas, com as detenções ilegais.

*Até mesmo com a festa do outro a uns escassos metros da estátua no centro do Largo da Independência…

A MANIFESTAÇÃO DO DIA 25 ACONTECEU.

Neste video pode-se ver o momento das detenções:

Início de actividade, dia 25 de Maio

Alguns dos manifestantes já tinham sido algemados e levados para a esquadra, dentre os quais a kota Elsa. A polícia agiu com arrogância e à margem da lei, não conseguindo nos dar uma justificação legal para nos mandarem sair do largo, alegando o sempre vago: razões de segurança pública! Exibiram-nos um documento que tinha na sua primeira página uma ordem do SINSE e que eles descuidadamente nos deixaram ver, na segunda uma nota do GPL a dar a conhecer a polícia que a manifestação seria ilegal por violar o ponto 2º da lei 16/91, já que, não sendo um feriado, só poderíamos nos juntar ali para manifestar depois do horário laboral (19h00). Essa nota vinha datada de 19 de Maio. Ora, o que o GPL se esquece, é que dentro da mesma lei que usaram ABUSIVAMENTE para inviabilizar a manifestação, existe um artigo, o 7º, que obriga a entidade competente (GPL) a comunicar POR ESCRITO a inviabilização da manifestação A TODOS OS SEUS PROMOTORES, no prazo de 24 HORAS!
Esclarece ainda no seu ponto 2, que caso esse preceito não seja cumprido, a manifestação estará AUTOMATICAMENTE considerada LÍCITA!

Como podem confirmar aqui, a carta do MRIS foi entregue com acusação de recepção do GPL no dia 6 de Maio. A comunicação feita exclusivamente à PN, data de dia 19. Aqui há dois aspectos perversos típicos da mente distorcida de quem quer fazer o jogo das baçulas jurídicas:

- a omissão na carta dirigida à PN do artigo 7 da referida lei que torna ILEGAL a ILEGALIZAÇÃO
- a maldade de não anunciar a mais ninguém senão a PN que deveriam IMPEDIR a manifestação pois esta seria ilegal. Se eles tivessem usado dos seus tentáculos de serviço público para anunciarem repetidamente na rádio/tv que tinham recebido a carta mas que havia discrepâncias com a lei e por lhes ser difícil contactar os promotores (eles foram obrigados a deixar os endereços no envelope) usavam do meio x,y ou z para comunicarem oficialmente da ilegalização da manifestação, aí seria mais fairplay. Não o fizeram mesmo para nos obrigarem a, mais uma vez, nos forçarem à desagradável situação que o vídeo abaixo vos ilustra:

Para quem quer fazer o download da lei de reunião e manifestação, pode pegá-la aqui

E a dança continua

Não se trata de tentar persuadir mais pessoas a participarem na manifestação, mas sim de denunciar estas práticas bárbaras do escalão mais baixo do MPLA, onde as pessoas para além de básicas, refletem amplificadamente a mentalidade de partido único dos dirigentes, mostrando que não sabem lidar com a diferença de opinião e com convicções resolutamente opostas as impingidas pelo partido, lidando com estas como se pode ouvir em mais esta gravação telefónica. Trata-se também de ilibar o Luís Bernardo das acusações de que tem sido alvo pelos cépticos que o acusam de estar a inventar essas “perseguições”. Vê-se claramente que estes pretendentes à algozes são AMADORES, mas não é por isso que não se deva levar a sério uma ameaça à vida tão direta e contundente.

Para aqueles que gostam de duvidar

Muita gente ao ver o vídeo do Luís Bernardo Luembe saltou rapidamente para a conclusão que o jovem, por se mostrar postrado e muito introvertido, estaria a fantasiar e a inventar histórias para denegrir os seus algozes. Aqui têm uma pequena amostra do que estes jovens têm sofrido diariamente com os telefonemas anónimos, isso para não mencionar as ameaças veladas e disfarçadas de conselho que vêm inclusivé do próprio representante máximo do CAP do Rangel. MPLA açaimem aí os vossos cães, pois se um deles decidir agir de seu livre arbítrio, será o partido como um todo a ser conotado com a acção e a ser responsabilizado. Haja instrução!

Imprimam e distribuam

Faltam 6 dias para a manifestação de dia 25. Se quiserem contribuir para a difusão da informação, imprimam este panfleto e distribuam-no pelo vosso bairro, pelos táxis, pelas escolas, pelos postos de trabalho, espalhem a palavra, não se subtraiam da luta, façam a vossa parte. Estamos a viver um momento crucial no nosso país e todo o angolano que esteja alerta a actualidade política e social DEVE TOMAR UMA POSIÇÃO de acordo com a sua ideologia e consciência, sejam contra ou sejam a favor, mas SEJAM ALGUMA COISA!!!

A Fundação 27 de Maio convida…

A todos os cidadãos que busquem a luz sobre a escuridão voluntária que se faz à volta da tenebrosa efeméride de 27 de Maio de 1977, que tomem parte nas actividades que tencionam levar a cabo nos dias 27 e 28 de Maio, sendo que a palestra (e lançamento de novo livro sobre a vida e obra do Cdte Nito Alves) a ter lugar no dia 27, está ainda dependente de confirmação de hora e local. No entanto, dia 28, sábado, será um dia preenchido de actividades que começarão por ser fúnebres com a deposição de coroas de flores no Cemitério da Santana e culminará com uma marcha que sairá do cemitério até ao Largo da Independência.

Abaixo ficam as cartas enviadas ao GPL e ao Comando Geral da Polícia Nacional

Mário, seguindo o exemplo do seu companheiro Luís Bernardo

O Mário é o vice-presidente do M.R.I.S., Movimento Revolucionário de Intervenção Social e após as revelações do atentado/intimidação sofrido pelo seu camarada Luís, resolveu também contar a sua história, de sombrios contornos envolvendo o seu próprio irmão que, segundo Mário, terá denunciado as suas actividades subversivas, consistindo estas no simples facto de ter convocado uma manifestação e distribuir panfletos na rua. Também ele é assertivo quando tem de responder a pergunta: “pretendem continuar apesar da pressão?”