História macabra: os pormenores

Posted: August 2, 2012 in Denúncia, Direitos Humanos

Num bairro de S. Pedro da Barra, a EDEL desistiu de tentar honrar o seu compromisso de distribuição elétrica para com os cidadãos há sensivelmente… 2 anos! É um problema exclusivo daquele bairro, pois os que o circundam, são beneficiados com abastecimento regular desse bem precioso, imprescindível para um país que está sempre a levantar a bandeira do “crescimento de dois dígitos”, obrigatório em qualquer capital de país, sobretudo na cidade mais cara do mundo, sobretudo num país em paz há 10 anos.

Os moradores formaram uma comissão ad-hoc para lidar com o assunto e começaram a fazer visitas regulares à EDEL, recebendo sempre como resposta: “temos conhecimento do problema, mas estamos sem técnicos disponíveis”.

Após visitas insistentes, os funcionários da EDEL encontraram a “perfeita alternativa” à sua falta de técnicos, não se fazendo rogados e propondo-a aos enfurecidos utentes: “se vocês comprarem um cabo suficientemente longo para chegar ao [inserir nome de bairro vizinho aqui], podem ligar vocês próprios”. Brilhante e exemplar. Como forma de mostrar compreensão pela situação “incómoda” na qual se encontravam os utentes, a empresa de distribuição incitou todo um bairro a fazer um “gato”!

Os moradores, depois da bênção dada, precisavam de uma “vaquinha” para conquistar o “gato”, então cada residência contribuiu com 4500 AKZ e o cabo foi adquirido.

No momento da montagem aparece a polícia (fardada) num Land Cuiser (civil) que, deparando-se com uma situação irregular, logo se apressou a mostrar que o seu trabalho consiste em servir o cidadão, impedindo que este arrisque desnecessariamente a sua vida.

Saíram do carro e, com o tom de pai que ralha o filho insurreto, ordenaram que o rapaz/eletricista descesse imediatamente do escadote, reforçando essa ordem com o ameaçador desembainhar da arma. A população barafustou insatisfeita que já teriam recebido luz verde da EDEL, mas a polícia não foi na conversa e, para evitar que se desse continuidade ao ato, confiscou o escadote.

O próprio escadote era propriedade emprestada de uma empresa das redondezas e os moradores não queriam permitir que a polícia o levasse, receando que este fosse extraviado e que fossem depois ter de remunerar a empresa que, de boa-fé, o terá cedido para tão ilícita missão.

Para mostrar punho firme, o polícia manipulou a sua arma e após ordem não cumprida de não se aproximarem do escadote, deixou que esta arrotasse 5 balas, tendo duas delas atingido dois cidadãos, garantes financeiros dos respetivos lares: um homem, trabalhador na plataforma offshore, de seu nome Simão e uma senhora, vendedora desenrascada que responde pelo nome de Janete, sustento de 9 bocas. O senhor Simão levou com a bala no tornozelo direito e a senhora Janete na coluna vertebral!

A bala vê-se distintamente no meio da coluna vertebral

Após terem sido baleados qual foi a primeira coisa que fizeram, esvaindo-se em rios de sangue? Pensaram Hospital? Clínica? Enganam-se! Não tinham como lá chegar! Então? Pois é, arrastaram-se para a esquadra para pedir assistência.

Na esquadra chamaram ambulância, enquanto iam informando que não teriam enviado patrulha nenhuma para a zona da ocorrência. O comandante daquela divisão do Cacuaco tentou resolver o assunto oferecendo 10 mil kwanzas para que ele morresse ali mesmo.

A dona Janete, está em casa e não consegue mexer-se. Os filhos e ela própria estão dependentes da solidariedade dos vizinhos. A vida, já de si pouco grata para estas famílias ostracizadas da nossa Angola profunda, tornou-se um autêntico inferno, um fardo pesado demais para arrastar.

Lançamos, através do nosso programa Zwela Ngola, um pedido de socorro que tem sido atendido, como de costume, pelos cidadãos mais humildes, de rendimentos mais modestos. Este sábado fazemos chegar as famílias a primeira cesta básica que se angariou ao longo da semana.

Este dramático episódio teve lugar no dia 16 de Julho. Até agora ninguém foi responsabilizado, não houve consequências para os perpetradores do crime e, entretanto, as famílias penam no seu suplício.

Até quando nossa Angola?

Comments
  1. Jesus Henriques says:

    sinceramente! que história macabramente trágica! não é possivél que num país como este os policias ainda agem deste jeito, como é possivél o comando geral aperceber-se de tal acto e ficar estático? não existe comandante? será que depois de esclarecido os acontecimentos, o ministério do interior não podia simplesmente evacuar a srª a uma clinica?

    santo Deus que pais é este?!!!

  2. Luareco says:

    Nada espantoso num país governado por criminosos do topo à base. Até fico espantado como não há mais episódios desta natureza.

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