A minha experiência na Marcha Contra a Violência

Posted: October 9, 2012 in Argumentos, Direitos, Direitos Humanos, Luanda, Manifestações, Opinião

No passado dia 1 de Outubro, o desespero de uma família que procurava pelo paradeiro do seu ente querido, teve o desfecho mais temido: o rapaz foi encontrado na morgue e de tal modo foi o nível da brutalidade exercida, que só através da indumentária conseguiram reconhecer o cadáver.

O seu nome era Jorge Valério e tinha apenas 20 cacimbos.

O seu assassinato levantou uma onda de comoção e indignação que se transferiu do facebook para as ondas de rádio e televisão dando-lhe uma amplitude sem precedentes.

No calor do momento, na vontade de ir um pouco mais além do que lamentar mais uma tragédia, um grupo de jovens decidiu convocar uma marcha para pedir o fim da violência que devasta o nosso país.

Poucos poderão negar que a dimensão gargantuesca que este nefasto acontecimento ganhou se deve sobretudo a uma conjugação de dois factores: o nível de maldade torcida na barbárie empregue e o facto de tanto a vítima como os seus algozes pertencerem à fina-flor da elite angolana (ou a famílias com ligações íntimas à nobreza). Há ainda um aspecto a assinalar como relevante que é a idade de todos estes meninos que ainda não atingiram a maioridade e já carregam em si tanto ódio, tanta fúria, tanta violência.

Independentemente desses factores, violência é violência e nós consideramos não haver vida mais valiosa que a outra, não tem um “medidómetro”, nem concursos para estabelecer quem sofre mais quando, contra-natura, tem de enterrar um filho. Por isso, alguns de nós decidiram fazer-se presentes nessa marcha.

Ao chegarmos porém, recebemos uma chamada do Alex dando conta da detenção de 5 jovens, dizia ele que seria por se terem aparecido com t-shirts “32 é muito”. O Mbanza proferiu e nós anuímos: “é preciso saber fazer leitura dos momentos, agir menos por emoção!”.

Certo, aquele não era o local, nem o momento para misturar assuntos, sobretudo por respeito à organização que sublinhou várias vezes que seria uma marcha com pinças, pegando em tudo muito delicadamente para evitar ferir susceptibilidades.

Foi por isso, concordámos, uma má leitura do momento por parte do(s) mano(s) que assim decidiu vestir-se. Mas daí também a serem elementos à civil a esbofetearem-nos e dar ordens a polícia para extraí-los do local já vai um salto que não podemos jamais tolerar, é contra o espírito da lei pela qual primámos e pela qual eles juraram zelar.

Por isso, ao chegar, a primeira coisa que fizémos foi dirigir-nos à roulote da PN estacionada no Porto para a ocasião e pedir informações:

-        O que fizeram?

-        Porque estão a ser levados?

-        Para onde os levam?

As respostas foram vagas, passando a impressão que não teria havido de facto razões legais que justificassem medidas tão draconianas. “Para o piquete do Comando da Divisão” foi a resposta que conseguiram dar para a questão “para onde os levam?”.

Já habituados a essas andanças e sabendo-os com a PN, resolvemos primeiro cumprir com a missão que nos levou ali, sem suspeitar que também nós seríamos alvo de uma tentativa de agressão, à frente de tanta gente influente na sociedade angolana.

O nosso delito foi distribuir listas nominais de vítimas de violência em Angola que a nossa equipa do facebook conseguiu reunir com ajuda de outros internautas. A lista tinha intenção de homenagear simbolicamente as vítimas de violência lá citadas, pois, apesar da marcha ter sido despoletada pelo assassinato do Tucho, ela era abrangente a todo o tipo e forma de violência que grassa a nossa sociedade, castrando-a nos seus passos rumo ao desenvolvimento. A lista pode ser consultada aqui.

Em menos de 5 minutos um grupo de 5 indivíduos com ares de poucos amigos aproximaram-se de nós de forma ostensiva, rodeando-nos. O seu líder, era o único que trajava uma camisola com cor diferente à da pedida pelos organizadores para a marcha. Todos os outros elementos vinham “disfarçados” de manifestantes. Ele posicionou-se a menos de um metro de nós fitando-nos com uma cara de quem estava mortinho para estar a sós connosco numa ilha deserta.

Perguntei-lhe o que desejava e porquê que se colocavam dispostos daquela maneira em nosso redor. Silêncio e tromba feia!

Dava para ver o volume por baixo da sua camisola, ele colocou a arma ali de propósito, para nos mostrar que caso as coisas não corressem como ele desejava, teria recurso fácil!

Depois de 30 segundos, subiu para o degrau do passeio onde nos encontrávamos e passou a fazer parte do nosso circulo de discussão.

Mais uma vez o abordei dizendo: “Diga de uma vez o que quer de nós e retire-se porque a sua presença aqui não é bem-vinda!”.

Nisso, ele pegou numa cartolina enrolada que nos tinha sido oferecida por um par de moças com quem caminhámos lado-à-lado, do local onde ficou estacionado o carro até ao porto. A cartolina estava no colo do Adão Ramos e ele puxou-a, perguntando-lhe “Queres reagir?”. Aí se percebe o nível de raiva cega que movia aquele indivíduo, pois o Adão Ramos, mesmo que quisesse muito, mesmo que fosse o mais ardente desejo queimando a sua nobre e justa alma, não poderia reagir, pois, vítima da eterna pólio que não se consegue “chutar para fora de Angola”, está desde os seus 5 anos preso à uma cadeira de rodas!

Ao desenrolar a cartolina, encontrou lá mensagens de paz e de amor, tão convictas e sinceras que até coraçõezinhos à volta tinham desenhadas. Sensibilidade feminina, sabem né?

Mas nem isso o demoveu, antes pelo contrário. Tornou-se possuído por algum espírito maligno e num gesto Hulkiano, puxando os braços em direcções opostas, rasgou ao meio tão inofensivo e singelo cartaz que pedia justamente o oposto do que ele nos estava ali a dar. Fazendo-o ele não parou de me fitar, e agora dizia-me “estou-te a provocar, não vais reagir?”. “Não vou dar-te esse gostinho, isso é o que tu queres”. Peguei no Adão Ramos e começámos a andar em direcção oposta à daqueles energúmenos. Mas eles seguiram-nos e o animal atirou-me à cara o resto do cartaz, com o qual tinha estado a preparar uma bola, insistindo para que eu reagisse, agora num tom mais vigoroso.

Vendo que não funcionava acabou por perder as estribeiras e determinar vociferando: “Vocês estão excluídos desta marcha, vão embora, VÃO EMBORA!!!”, enquanto nos empurrava para longe da multidão, que assistia impávida, certamente chocada, ao episódio que anulava o sentido da sua presença ali.

O Adolfo começou a puxar para o lado contrário gritando com todos os seus pulmões: NÃO A VIOLÊNCIA!!! E aí, depois de já estar o putedo instalado, finalmente a organização acorreu em peso, pedindo ao animal por misericórdia e a nós para nos acalmarmos. Mas nós estivémos SEMPRE calmos, o que havia ali para nós nos acalmarmos?

Daí tiveram de decidir o que fazer connosco, o que não foi fácil pois alguns dos organizadores manifestaram claramente e sem margens para desvios de interpretação, que se sentiam incomodados com a nossa presença. Isto o Adão Ramos ouviu e por isso resolveu retirar-se do local, apanhando o táxi para o seu distante Panguila, de onde saíu exclusivamente para participar nessa actividade, onde afinal não era bem-vindo (por alguns).

As instruções foram contraditórias e tinha no meio agitadores (SINFO) que também queriam mandar bitaites e dar ordens, propositadamente para criar confusão e fazer-nos parecer como as maçãs podres da cesta. O irmão do Tucho, de coração dilacerado veio suplicar-nos que respeitássemos a solenidade do evento, ao que nós respondemos que só estávamos a fazer o que nos tinham pedido que era: ficar ali especados à espera; não, encostem-se à parede; não, vão lá para trás; não, voltem para frente para andarem connosco. Isso criou ali um salamaleque de todo o tamanho e o resultado almejado pelo SINFO foi parcialmente conseguido. No fim a decisão da organização foi a de proteger-nos colocando-nos à frente, marchando com eles (o que, vamos convir, é corajoso da parte deles pois mostra que não têm receio de serem – mal – conotados, ao serem vistos connosco), mas estavam visivelmente abalados pela sua “paz” ter sido atrapalhada com aquela indigesta situação: violência numa manifestação cujo lema é “não à violência”.

Felizmente a marcha lá arrancou sem mais incidentes a deplorar, ficando-se por perceber bem como o Pe. Apolónio Garcia foi lá parar, se alguém o chamou, se foi enviado, se foi de livre e espontânea, a verdade é que assumiu o seu protagonismo fazendo um discurso antes do arranque e marchando sempre à cabeça da multidão.

A primeira meia-hora da marcha foi muito incómoda porque caminhou-se pelo passeio, cheio de jardins, pontes e obstáculos diversos que o tornam impróprio para caminhada de multidões. As pessoas começaram a entoar canções que pediam para ir para a estrada e a dada altura uma fracção dividiu-se e tomou a iniciativa, para pânico dos organizadores que, de uma maneira muito rápida e diplomática conseguiram fazer recuar a multidão determinada.

Parou-se muito, demais! Acharam que estaríamos a andar depressa demais e queriam esperar o escuro para as velas fazerem sentido. Será que era isso? Sei é que essa parte foi muito chata.

O que não conseguiram travar foi a espontaneidade dos slogans pois, após meia hora de “Basta a violência”, as pessoas nas filas de trás (que cresceram num ápice, diga-se) começaram a criar os seus, que iam mais de encontro com a vontade da multidão sequiosa por justiça.

Acabou também por se “tomar de assalto a estrada” numa parte em que o jardim bloqueava completamente o caminho pelo passeio e, aí sim, começou a marcha! A euforia tomou conta de todos, os slogans jorravam e até alguns dos organizadores menos “visíveis” os entoavam de caxexe.

Fiquei com a ideia que os organizadores não queriam dar motivos para as autoridades perderem a confiança neles e, por isso, esforçavam-se de tempos em tempos para que voltássemos aos singelos: VIOLÊNCIA NÃO, TODOS UNIDOS CONTRA A VIOLÊNCIA e PASSOU UM AVIÃO, NA ASA TAVA ESCRITO VIOLÊNCIA NÃO, mas o povo adensou-se demais e fartou-se do politicamente correcto. Da mesma maneira que os putos pegam mais rapidamente um “tchuna baby” e um “kambwá” do que uma pedante música de elevador, o povo é quem mais ordena e ouviram-se cânticos pedindo justiça e evocando nomes de outras vítimas.

Os manos mais inspirados do movimento, aproveitando a emoção instalada criaram slogans que recuperavam melodias conhecidas, e fizeram as moças da frente pedirem bis. Os que me lembro assim de repente eram: “(inserir nome aqui) Tá nus duê mêmu, tá nus duê memu bem malê (inserir nome seguinte aqui)” e “Justiça? Em Angola é difícil”.

Não faltaram os nossos coros: EU SOU KASSULE, EU SOU KAMULINGUE, que também acabaram por contagiar aqueles que estavam mais próximos de nós e apanharam boleia.

Chegados à casa do desportista, com a sensação de missão cumprida, reagrupámos e voltámos para trás, pois tínhamos agora de ir reclamar a soltura dos nossos irmãos, que não mereceram sequer uma referência no discurso final, o que eu pessoalmente considero um tratamento diferenciado, que não fica de bom tom numa iniciativa que visa promover a união.

Ao chegarmos à esquadra em frente a Lello, recebemos um telefonema do Hugo Kalumbo dizendo que os manos já se encontravam em liberdade e respirámos de alívio pois iríamos todos dormir em casa. Tinham ido parar ao Hoji-ya-henda! A próxima vez que me disserem “no piquete do comando da divisão” ao menos já saberei aonde me dirigir! Palhaços!

Houve coisas assinaláveis à nível da organização que acabaram por fazer parecer que estávamos num evento desportivo com transmissão em direto e rendimentos por direitos televisivos, estilo, a Tour de France em bicicleta: um grupo de escuteiros mirins ladeou a marcha, impondo os limites desta por intermédio de cordas, ou dando as mãos, mostrando, apesar da sua pequena idade, um raro nível de disciplina e organização; houve acompanhamento de pick-ups com embalagens de água que foram sendo distribuídas ao longo de TODA a marcha e, inclusivé, equipas de patinadores que faziam um vai-vem, para ir buscá-las ao carro, trazendo-as para os marchantes que se tornavam sedentos depois de tanto gritar; também houve uma cena-para-fotografia, de largada de balões brancos simbolizando a paz;  não se descuraram os copos de plástico para proteger as velas que, apagar-se-iam com facilidade com o vento nocturno; o palanque montado para o discurso não sei se foi aproveitado já do local ou se também foi adornado por eles. O que dizer? Em termos estéticos, nota 10.

Mas se calhar toda essa preocupação, acrescida da de não pisar nos calos de ninguém, não enfurecer as autoridades e não comprometer os papás de quem não quereriam ouvir mais do que um “estou orgulhoso de ti” (depois de já terem certamente ouvido vários “não te metas nisso”), fez com que descurassem a coerência com o tema que ali nos levou, controlando demais a magia da espontaneidade da junção das massas e fingindo que nada de errado se passou que tivesse deixado uma mácula que fosse no seu dia.

Ainda assim prefiro focar-me no que é bom e, sinceramente, foi fantástico ver finalmente a burguesia a aparecer em actos de massa que não sejam as festas de fim-de-ano do Miami. Mesmo que para muitos tenha sido uma experiência que queriam ter pelo menos uma vez na vida, para juntar à lista de desportos radicais, viagens para lugares exóticos, malabarismos sexuais, concertos, drogas, arte em todas as suas vertentes e marcas de bebidas alcoólicas já experimentadas, mesmo assim, foi bonito.

Para aqueles que não apareceram porque a elite convocou, sinceramente lamento a vossa escolha, pois somos nós que insistimos sempre que a elite tem que se envolver, mas agora que o fazem, decidem que “essa é deles”, “eles também não vêm as nossas”, “na hora que raptaram o kassule e kamulingue, que bateram zungueiras, que nos maltrataram, que outros tantos morreram de forma igualmente cruel, ninguém convocou marcha”?

Ouvi ainda coisas que me fazem sentir que todo o esforço é inglório. Do género: “não sou racista, mas vi na televisão e aquilo era só mulatada”. Se isso não é racista, mandemos vir o Hitler de volta! Afinal eu sou o quê? “O bom mulato”? Eu emano dessa mesma elite que sábado, por fim, se fez as ruas. Se o simples facto de ser da elite ou de ter uma tez mais clara é suficiente para fazer com que as pessoas franzam o sobrolho e torçam o nariz, lamento profundamente, mas tenho de o dizer: isso é complexo de inferioridade e precisa de ser sanado urgentemente!

Vamos pôr a mesquinhice de lado e aproveitar as poucas hipóteses de convivência para reiterarmos que não somos nada daquilo que querem pintar de nós, que partilhamos da mesma dor, da mesma angústia, do mesmo desespero quando ficamos irremediavelmente privados da companhia de alguém que amamos. Vamos mostrar que somos coerentes com o nosso discurso de solidariedade, de paz e reconciliação, mesmo que não recebamos em igual medida, pois é isso que nos diferencia do resto. Senão estamos a ser iguaizinhos aos que criticamos.

Aos jovens da organização, meninas e meninos, tão jovenzinhos ainda, parabéns pela vossa audácia e espero que tenha nascido em vocês algo duradoiro, que não tenha sido um deslumbre a não repetir, uma “experiência” diferente e única para contar um dia aos netos, que se aproximem dos que TODOS OS DIAS sofrem as agruras da má governação dos vossos (nossos) pais e que, contra todas as adversidades, se coloquem do lado da verdade e da justiça. Mas se assim não for, parabéns a mesma.

Lembrem-se: é suposto haver um pouco de descontrole, é suposto exercer-se a liberdade de gritar e extravasar o que vai no peito e na alma e é suposto alguém sentir-se pressionado, visado, ofendido. É NORMAL!

Um forte abraço a todas as famílias angolanas que já perderam alguém querido para a violência.

Luaty Beirão

Comments
  1. JC says:

    Estive lá, curti ver a “elite” unida por uma causa nobre. Fiquei intigrado com o carataz que levavam umas moças que dizia algo do género “que se cala perante a violência é cúmplice”. Fiquei intigrado porque o grosso daquela malta tem se calado perante tanta barbaridade que até dói, das coisas mais visíveis como a incopetência de altos servidores públicos e a corrupção que a acompanha assim como os casos de manifesta injustiça.

    A minha maneira vou exprimindo as minhas ideias, muitas vezes contrárias ao “falso consenso” porque recuso-me a trair os meus princípios e sinto muito orgulho em ver tipos da minha geração que dão valor à questões que valem a pena.

    Um abraço.

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