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O Pensar Diferente

Posted: June 24, 2015 in Argumentos, Direitos Humanos

Primeiro, eram os telefonemas e mensagens. Sempre anónimos. Prometiam porrada, sofrimento, morte. Depois vieram as ameaças concretas. Por fim, os pronunciamentos públicos. “Quem se manifestar, vai apanhar.” A cidade ficou mergulhada num clima de medo.

Após o 7 de Março 2011, data que dá nome à este site e celebra a primeira “manifestação” contestatária pós-guerra em Angola (as aspas são propositadas), os ameaçadores partiram para acção. Perante a teimosia dos nossos amigos, amigas, irmãs, filhos e sobrinhas em ousar fazer valer os seus próprios direitos enraízados numa constituição aprovada por maioria absoluta pelas mesmas pessoas que agora os ameaçavam de morte, perante a teimosia deles em pensar diferente, os donos do poder partiram para a violência.

Primeiro, vieram as agressões durante as manifestações. Depois, as agressões, violentíssimas, antes mesmo das manifestações terem sequer começado. Hoje prendem pela simples tendência de se falar em manifestação.

E mesmo assim, os nossos amigos, amigas, irmãos, filhas, possuídores de uma coragem que eu jamais terei na minha vida, não viraram a cara a luta. Antes pelo contrário, limparam o sangue e partiram para o planeamento de novas acções pacíficas.

Vieram então os actos mais macabros. A colocação de cocaína numa roda de bicicleta para incriminar o Luaty numa viagem internacional. O espancamento repugnante da Laurinda levado a cabo por polícias fardados em plena via pública, em plena luz do dia.

E mesmo assim eles não viraram a cara a luta. Partiram para a próxima acção, a próxima manifestação espontânea, o próximo exercício de um direito seu por serem angolanos.

O próximo exercício de pensar diferente.

E isso aterroriza os que abominam a diferença de opinião. O pensar diferente é o maior atentado contra a “segurança pública” numa sociedade em que a “segurança pública” se resume em sermos um bando de ovelhas despidas de qualquer consciência própria, qualquer sentido de pensamento crítico e qualquer sentido de cidadania no nosso próprio país.

O medo de pensar diferente faz com que estejamos na cauda dos países onde é bom fazer negócios no real sentido da palavra. Estrangula o nosso espírito empreendedor. Destrói a nossa educação. Abafa a nossa capacidade de criação. É responsável pela destruição da nossa cultura, dos nossos monumentos, das nossas cidades, e da nossa maneira de ser.

Mas basta activarmos minimamente a nossa vontade e capacidade de pensar diferente que pomos em parampas um dos maiores exércitos de África, de um regime que gasta mais em material belicista, “segurança pública” e serviços secretos que as duas maiores potências africanas juntas,  e bilhões de dólares mais do que na nossa saúde e educação.

O nosso pensar diferente é o verdadeiro golpe de estado. Porque um estado em que pensar diferente constitui ameaça à segurança pública é um estado que não merece o povo que tem.

-Cláudio C. Silva

As valas ou canais de drenagem artificiais são extremamente comuns no mundo inteiro. Servem para minimizar o impacto das chuvas e evitar inundações que se traduzem invariavelmente em avolumadas perdas. Servem ainda para reduzir a velocidade de erosão e sedimentação dos solos.

Em frente do apartamento que ocupei durante 3 anos em Montpellier, França, um desses canais transportava tranquilamente as águas do rio Lez, serpenteando por zonas habitadas de forma harmoniosa e até pitoresca. A diferença é que o cenário calamitoso de transbordo e impraticabilidade das vias adjacentes não acontecia a cada chuva de 30 minutos, por mais intensas que estas fossem. Nunca aconteceu, aliás, ao longo da minha estadia e, para que tenham uma ideia, o registro histórico de inundações provocadas por transbordo desse canal é de treze em 700 (setecentos!) anos. Eram necessários débitos de água superiores a 200mm em 24 horas para que o nível da água superasse o da estrutura que foi desenhada para a conter. A razão? Foi corretamente planificado. Esta palavra, “planificação”, parece assustar muitos, senão todos, os gestores da coisa pública em Angola, pois, pela forma com que sistematicamente tudo corre para o torto, fica mesmo a triste impressão que organizar e planificar é coisa do demónio, do qual fogem, esbaforidos, a 7 pés.

Em Luanda, as várias valas de drenagem que existem para escoar as águas pluviais e fluviais, foram feitas com boa intenção mas, a maioria, sem a planificação adequada, o que tem redundado em desastres de toda a sorte, com graves consequências para as vítimas, incluíndo a morte.

Foto 01

A vala que passa no Bº da Cerâmica, Cacuaco, é uma dessas valas que se tornou um autêntico matadouro. Recentemente foi alvo de obras de alargamento e aprofundamento com retroescavadoras. Três manilhas foram colocadas com o fito de permitir a passagem de um maio débito de água sem comprometer a “ponte” situada no chamado setor 5 do Bº da Cerâmica.

Em obras de remendo, tratores enviados pela Administração aumentaram profundidade do canal

Em obras de remendo, tratores enviados pela Administração aumentaram profundidade do canal

Passagens alternativas para além de muito distantes e exigem voltas pelos interiores de bairros lamacentos, são mais perigosas, não sendo por isso uma opção propriamente viável. Se o objetivo for apanhar a estrada principal Luanda-Cacuaco que corre longitudinal à linha do mar, a passagem seguinte é a que dá acesso ao aviário, a mais de 500m de distância e com o “caudal” mais largo como se pode ver pela imagem googlemaps abaixo.

Imagem aérea mostrando as passagens sobre a vala mais próximas

Imagem aérea mostrando as passagens sobre a vala mais próximas

Sem grandes opções, resta aos moradores suspirar e aguardar um período que pode superar os 60 minutos após o fim das “hostilidades” aquáticas, ou confiar nos seus dotes de anfíbio e tentar atravessar assim mesmo. Ultimamente muitos têm sido os casos de quem falha tentando.

Nesse estado, só os peixes e os aventureiros passam. Repórter Cívico Bitão Holua na imagem.

Nesse estado, só os peixes e os aventureiros passam. Repórter Cívico Bitão Holua na imagem.

Foi o que aconteceu ao vizinho do ativista que nos reuniu este material, o Joel, que com outros 3 moradores se entregaram a um trabalho de esforço comunitário, com contribuição dos moradores na aquisição de entulho suficiente para colocar na ponte e reduzir, por pouco que fosse, a dificuldade na sua travessia. Uns dias depois, Joel desapareceu, tendo o seu corpo sido encontrado 4 dias mais tarde a 500m das manilhas, juntamente com o de outro rapaz entre os 18 e os 20 anos que julga-se ser estudante, pois estava com a mochila às costas.

Obras feitas pela comunidade. Aqui vêm-se as 3 manilhas, polvilhadas com terra batida por cima para formar a "ponte".

Obras feitas pela comunidade. Aqui vêm-se as 3 manilhas, polvilhadas com terra batida por cima para formar a “ponte”.

Joel, o vizinho malogrado, arrastado pelas águas.

Joel, o vizinho malogrado, arrastado pelas águas.

Aconteceu igualmente com a senhora que na imagem abaixo se confunde com qualquer resto de lixo arrastado pelas correntezas pluviais. Ambulância e polícia, solicitados para remover o cadáver, ao constatarem o estado de putrefação do mesmo, se retiraram do local como se não fizesse isso parte da sua ingrata tarefa profissional. A senhora aí ficou, a definhar, até que cidadãos com estômago de aço inox a fossem retirando aos pedaços.

Tanto a senhora como o cão confundem-se com o lixo que se acumulou em seu redor.

Tanto a senhora como o cão confundem-se com o lixo que se acumulou em seu redor.

Estas mortes não fazem notícia, não escandalizam, não criam campanhas de solidariedade, não chamam a atenção, são, quando muito, estatísticas!

Àqueles que gostam de sempre atribuir a culpa ao cidadão angolano por ser preguiçoso e não gostar de trabalhar, por ser bêbado e provocar todos os acidentes na via pública, por ser armado em chico esperto e construir onde não deve, não pode, por ser mal educado e analfabeto justificando a sua submissão perante líderes arrogantes que os espezinham, basicamente, culpando-o de tudo, gostaria que me respondessem se isto também é culpa do cidadão?

Por Luaty Beirão e Bitão Holua

Acerca da tragédia humana precipitada pela incomum pluviosidade na província de Benguela, fomos parar ao mural de facebook de André Silva, natural do Lobito e cidadão preocupado que, com auxílio de imagens aéreas do google maps, partilha com os seus seguidores um ponto de vista sustentado, aguardando contraditório. O Sr. André assevera que já tinha emitido vários alertas às autoridades acerca da configuração deficitária da drenagem de águas pluviais, avisos esse sucessivamente ignorados, com as consequências que todos agora testemunhamos. 

Partilhamos ipsis verbis os dois posts de André Silva, um de 23 e outro de 26 de Março, pontuados pelas imagens que foram usadas para os ilustrar nos artigos originais, começando pela sua imagem de capa.

Imagem google earth ilustrando parte da rede de drenagem da cidade do Lobito

Imagem google earth ilustrando parte da rede de drenagem da cidade do Lobito

23/3

Regressei a Luanda, depois de uma breve visita ao Lobito, para fazer um levantamento, que brevemente, seguirá. Entre as muitas barbaridades encontradas, vou publicar uma, A SAÍDA DAS ÁGUAS PLUVIAIS entre a Caponte e a Canata, estrada Obelisco (operativa) Bombeiros e o seu problema desde a Sbell e a Toyota. Outrora, tinha uma vala com alguns metros de largura. hoje tem uma galeria com cerca de um metro de largura. O meu espanto (fiquei mesmo de boca aberta). A galeria, sendo só para essas águas, até que seria suficiente, mas, o espanto dos espantos, é que A SUPREMA INTELIGÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL DO LOBITO. selou a saída! Estas fotos, são de domingo 22-03-2015. Ao lado, estão duas pontes paralelas com cerca de 50 metros, para dar escoamento a 5 tubos de cerca de 1 metro de diametro (Ponte da Caponte), que faz a ligação aos mangais da Caponte e Compão. Imaginem, quanto custou toda aquela estrutura (a ponte nova) para 5 tubos a montante e 3 tubos e 3 comportas a jusante! E, não há dinheiro para valas de drenagem. SÓ PODE SER BRINCADEIRA DE MAU GOSTO!!!!

Galeria de escape das águas pluviais entre Caponte e Canata, incompreensivelmente selada pela Administração

Galeria de escape das águas pluviais entre Caponte e Canata, incompreensivelmente selada pela Administração

26/03

Esta vala, da ex Salineira, a qual servia para abastecer a Salineira de água salgada, é hoje, a ÚNICA SAÍDA DAS ÁGUAS PLUVIAIS desde a Catumbela até à estrada para a Bela Vista (Africano). A PONTE da foto sobre DOIS TUBOS MEIO ENTUPIDOS,é a da estrada que vai para a LOBINAVE. A anterior vala, com grande dimensão e sem obstáculos, estrava bo mangal, entre a Canata e o Liro. Hoje, ocupados por aterro. Lamentável, que ontem, 2 semanas depois, morreram mais pessoas e ouve iguais ou piores cheias, motivadas pela mesma causa. É sacanagem colectiva! Porque será, que a tal coragem, que dizem ser patente no Sr. Governador, Camarada Isaac dos Anjos, ficou no saco e NÃO EXONEROU O COLECTIVO ADMINISTRATIVO da Administração Municipal do LOBITO????? Será falta de poder?????

André Silva post 1

O desafio para um debate lançado pelo Secretário Provincial da JMPLA, Tomás Bica Muambundo, visando conhecer o fundamento da luta dos chamados jovens activistas cívicos, conhecidos por revolucionários ou revús, foi contraposto nesta terça-feira, 16 de Dezembro de 2014, num encontro de cerca de 40 minutos, que teve lugar na CASA 70, bairro Vila Alice, em Luanda.

Dois incidentes marcantes nas últimas 48 horas determinaram a posição dos jovens revús: a inviabilização, por parte da Polícia Nacional de Angola, de uma reunião interna dos jovens que visava reflectir em torno do desafio feito; E a tentativa de imposição de temas para o debate por parte da JMPLA de Luanda.

O DESAFIO

Pág. 9 do Semanário Manchete, contendo a entrevista à Nito Alves

Pág. 9 do Semanário Manchete, contendo a entrevista à Nito Alves

O secretário da JMPLA de Luanda, Tomás Bica Muambundo, lançou o desafio recentemente, com recurso a um órgão de imprensa pública, onde afirmou, conforme reportado pelo Semanário Manchete, aos 12 de Dezembro de 2014: “queremos um debate, uma reunião com estes jovens que, efectivamente dizem ser revolucionários, porque queremos perceber qual é o fundamento dessa revolução”, referindo-se a constantes realizações de manifestações públicas em Angola desde 7 de Março de 2011.

Em resposta, na mesma edição (nº. 88) do Manchete, o activista Manuel Nito Alves indagado sobre o seu posicionamento acerca do convite lançado por Bica, respondeu que aceitaria, mediante determinadas condições inegociáveis.

No sábado, 13 de Dezembro de 2014, os jovens activistas cívicos mantiveram o primeiro contacto telefónico com o secretário da JMPLA de Luanda, onde se acordou na realização de um encontro preliminar para se abordar o assunto, marcado para às 12 horas de terça-feira, 16 de Dezembro de 2014, na Casa 70, mas que só teve início às 13h00, uma hora depois do combinado, por atraso injustificado dos representantes da JMPLA.

PRIMEIRO INCIDENTE: Polícia inviabiliza encontro interno

Em jeito de concertação, na segunda-feira, 15 de Dezembro de 2014, juntaram-se no Largo do Amor, Vila Alice, representantes dos vários movimentos de activistas cívicos existentes, para abordar a conveniência e a utilidade de tal debate com um quadro júnior do partido que não exerce influência sobre aquela sombra a quem todos se referem temerosamente como “ordens superiores”.

Enquanto se procurava um consenso acerca do posicionamento a ser tomado em relação a esse convite, cerca de uma hora após o início da conversa, os jovens foram surpreendidos pela chegada de um patrulheiro com um oficial da 3ª Esquadra, Miguel Luís de seu nome, fazendo-se acompanhar de 4 homens de metralhadora em riste que rapidamente se colocaram em posição circular em redor dos jovens, enquanto o comandante da mesma operação, Joaquim Jordão, se manteve no carro, rodopiando pelo largo.

De forma inicialmente apologética e escudando-se na impossibilidade de recusa de uma “ordem superior” (de novo ela), o agente da Polícia rogou aos jovens que saíssem do Largo do Amor pois ali não poderiam estar.

Estranho, pois tratava-se de um parque e como tal, lugar público onde a todo o momento tem pessoas sentadas, a andar ou engajados em qualquer outra actividade lícita. E lá estava a nossa polícia a mais uma vez a discriminar, segundo um conceito muito seu e seguramente anti-constitucional, o direito à vida pública normal de um específico grupo de indivíduos.

Estes factos, que o líder provincial do braço juvenil do MPLA parece ignorar, por si só deveriam explicar o fundamento das acções daqueles que reivindicam nada mais do que direitos elementares de qualquer Estado Democrático e de Direito.

Depois de um pequeno quid pro quo, foi solicitado pelos activistas que lhes fosse indicado então um sítio apropriado para continuarem a sua conversa. Em resposta, o oficial Miguel Luís sugeriu-lhes o Largo da Independência, certamente em forma de piada de mau gosto, apesar do seu tom sério.

O Comandante Joaquim Jordão, da 3ª Esquadra, estacionando finalmente a viatura, entrou no Largo, sem que no entanto se dignasse a dirigir a palavra aos activistas mesmo quando tal lhe foi solicitado. Manteve-se fixo, mudo e trombudo aguardando que os seus capatazes concluíssem a tarefa que lhes foi encomendada.

Comandante Joaquim Jordão, entrou mudo e saíu calado

Comandante Joaquim Jordão, entrou mudo e saíu calado

E foi desta forma que a reunião de concertação de ideias dos jovens activistas foi inviabilizada pela Polícia Nacional, que ameaçou usar a força, caso os jovens não obedecessem à “ordem superior” de se retirarem do referido largo.

SEGUNDO INCIDENTE: JMPLA não quer debater os fundamentos das manifestações

Perante a postura da Polícia Nacional, os activistas passaram a falar em uníssono: “Não há condições para debate algum, queremos debater com quem vos manda”. Ao interpor-se a interrupção policial, foi o único consenso possível e foi esse consenso que os activistas transmitiram hoje, 16 de Dezembro, na conversa que tiveram com Tomás Bica e seus séquitos, na Casa 70.

No entanto, os jovens activistas acrescentaram que estariam abertos a um debate, desde que este trouxesse à mesa de discussão altos representantes do Estado, que devem justificar as suas acções à luz da Constituição da República e sob condição inegociável que essa discussão fosse feita em directo na Televisão Pública de Angola após o Telejornal.

Perante esta contraproposta, Tomás Bica, tal como poderão constatar no áudio registado na reunião, quis condicionar o debate em torno do tema principal “A Juventude e a Política”, um tema vago e já amiúde abordado, excluindo deliberadamente qualquer abordagem que especifique as sevícias às quais os jovens manifestantes têm sido vítimas pelo regime do MPLA desde 2011, sugerindo que isso é competência dos tribunais.

Para os jovens activistas cívicos, é nítida a manietação do debate e defendem ser inaceitável que os seus moldes sejam impostos pela camarilha dos jotinhas, recusando à priori todo o debate que exclua as violações dos seus direitos fundamentais às quais têm sido sistematicamente sujeitos.

Para que conste, todavia, os activistas afirmaram o compromisso com a liberdade de escolha individual, notando que este posicionamento não constitui um vínculo ao qual todos os activistas devam obedecer e que, não se sentindo representados, não se iriam opor à opção de alguém, em seu nome próprio, aceitar o desafio. É portanto um posicionamento que se limita àqueles que nele se revejam.

Precisamos de um herói

Posted: December 16, 2014 in Argumentos, Opinião

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Valha-nos Deus! Precisamos de um herói a sério, antigo e grego, daqueles que vinham do Olimpo. Não pode ser um herói por acaso, à procura do primeiro emprego, nem um que tenha uma bandolete a prender os caracóis, como nas novelas brasileiras.

Tem que ser um herói com poderes excepcionais, que descenda de uma família onde o heroísmo seja inato e não conseguido porque alguém meteu uma cunha. Um herói que sobre tudo e sobre todos, nutra o maior respeito pelo Bom Povo, nunca olhando para ele como o retrato da pobreza, como um humilhante impedimento a uma governação que devia ser feita em seu nome, no primado pelo respeito de que o Estado Somos Todos Nós!

Um herói cujo único objectivo fosse defender os pobres que nunca rezam ao mesmo deus dos “ricos”. Mas antes a um Deus de compaixão que conhece o sofrimento das almas desafortunadas.

Um herói que nos proteja da intransigência das elites minoritárias, que nos ampare nos dias em que a chuva nos rouba as bacias e a vida, que nos dê coragem quando as nossas crianças morrem vítimas de negligência institucional e que nos oiça quando rezamos pelos angolanos que continuam a desaparecer sem rasto.

Não sei se valerá a pena colocar um anúncio no jornal, pois nos dias que correm o mundo tem tido um enorme défice de heróis. Mas o caso é de urgência, é mesmo preciso resgatar o país para o domínio da ética e da inclusão.

É imperativo que quem pensa diferente não seja sempre apelidado de incompetente, analfabeto e sem obra que sustente a sua credibilidade, como um bando de oposicionistas sem qualquer resquício de inteligência, insusceptívies de compreender quão valorosa é a actual caminhada rumo a um patamar que tornará Angola num “exemplo” para África e para o mundo.

O povo não é o inimigo. Os jovens não são o inimigo, nunca serão. O verdadeiro inimigo é a pobreza sustentada pela corrupção e pelo egoísmo que não aceita investir na seriedade de uma distribuição equitativa e sustentada da riqueza nacional.

O grande inimigo é a ausência de uma postura de seriedade que invista tudo o que temos numa educação primária de qualidade. O perigoso inimigo está na incapacidade de alguns herdeiros do poder popular perceberem que a motivação dos verdadeiros nacionalistas de ontem , de todos os lados, que defenderam uma Pátria Nossa, é a mesma que hoje é expressa por jovens, músicos, homens e mulheres de todas as crenças, jornalistas, escritores, economistas e advogados, engenheiros, funcionários, taxistas e quitandeiras e por todos os mais velhos que já não podem mais ser reféns de um compromisso histórico que abandonou o seu ideal “científico” e rumou para um estado de “social porreirismo”.

O inimigo está, definitivamente, na miopia de alguns dirigentes que teimam em acreditar qua a cegueira da Lei da Probidade é o mais eficiente mecanismo para transformarem os seus filhos em respeitáveis empresários e cidadãos empreendedores.

As sociedades hoje vivem de empréstimos, que ninguém duvide disto!

Por Alexandra Simeão (excerto extraído de Kalucinga)

Nuno Álvaro Dala, o autor

Nuno Álvaro Dala, o autor

ANGOLA precisa de salvação. O estado social apocalíptico em que se encontra a vasta maioria dos angolanos, fruto em grande medida da fundação tirânico-ditatorial do estado e da implantação e manutenção de um regime cleptocrático, corrupto e violador dos direitos, liberdades e garantias dos cidadão conformam o fundo justificacional de salvação de Angola.

Tal como temos afirmado persistentemente, os angolanos estão certamente diante de um grande dilema, um quadro de duas opções, segundo o qual: ou continuam a ser (des)governados pelo regime tirânico- ditatorial e cleptocrático de José Eduardo dos Santos, ou se revoltam contra este regime, levando a cabo um processo de mudança ou reforma no sentido da implantação de um estado democrático e de bem-estar social.

A primeira opção é insatisfatória, pois ela implica a resignação e a manutenção da inaceitável situação em que José Eduardo dos Santos e seu regime continuarão a urinar sobre o rosto depauperado dos angolanos, rosto surrado pela fome, pobreza, exclusão socioeconómica e política e violência policial, fazendo com que os outros povos duvidem seriamente da lucidez e sentido de dignidade dos angolanos. Questiona-se: Será que os angolanos já perderam amor-próprio? Será que os angolanos acreditam mesmo que nasceram para sofrer? Será que os angolanos não estão preocupados com Angola e com as futuras gerações?

Quanto à segunda opção, esta consiste em enveredar pelo caminho da REVOLTA, e isto tem custos, ou seja, o preço da revolução. Mas é a melhor das duas opções, por ser um processo de eliminação do mal pela raiz.

O Manifesto das organizações que mais tarde se fundiram e formaram o MPLA afirma o seguinte: “O colonialismo não cairá sem luta. É por isso que o Povo angolano só se poderá libertar pela guerra revolucionária. E esta apenas será vitoriosa com a realidade de uma frente de unidade de todas as forças anti-imperialistas de Angola que não esteja ligada à cor, à situação social, a credos religiosos e tendências individuais; será vitoriosa graças à formação de um vasto MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA.”

De facto, há mais de 50 anos, os revolucionários angolanos compreendiam, entre outras questões, que: (1) O fim da colonização portuguesa apenas seria uma realidade com recurso à luta permanente; (2) Tal luta permanente assumiria a forma de guerra revolucionária; (3) A guerra revolucionária apenas seria eficiente e eficaz se os angolanos revoltados se reunissem em FRENTE ÚNICA, regidos por uma visão e uma estratégia de luta que estivesse acima de questões subjectivas como a cor da pele, os credos religiosos e as tendências individuais; (4) O processo de luta seria possível com a adesão popular, ou seja, milhares de angolanos!

Um grande erro foi a criação de vários movimentos de libertação, com visões e estratégias dissonantes tanto sobre a luta como sobre o projecto de tornar Angola num estado independente. Durante a guerra de libertação nacional, lamentavelmente, as questões subjectivas acabaram criando conflitos entre os próprios movimentos, que foram incapazes de fazer uma frente única como a descrita acima.

O resultado da ausência de uma frente única foi a fundação desastrosa do estado angolano. Angola nasceu num acto de proclamação da independência marcado pela divisão, ambição pelo poder, ataques mútuos e guerra fracticida!

Os angolanos travaram entre si uma guerra que durou quase 3 décadas, deixando o país de rastos!

Mais de 10 anos depois do alcance da paz, os angolanos levam uma vida de proporções apocalípticas. O regime eduardino transformou o país na sua quinta! A pobreza, a corrupção quase antropológica, o tráfico de influências, o esbulho de terras, o saque do erário público, o nepotismo, o sistema educativo deformador, o sistema precário de saúde, a bajulação, etc. são as marcas, as características de um país cujo regime é ambiforme e inviabilizador do estado de democrático de bem-estar social.

Efectivamente, não há dúvidas de que os chamados Libertadores da Pátria fizeram de Angola refém das suas visões auto-excludentes por meio de uma ditadura cujo cabeça, José Eduardo dos Santos, não está realmente preocupado com a construção de uma Angola para todos. Ele e seus acólitos transformaram Angola na sua mina privada.

Há mais de 40 os agentes do mal [colonos] eram portugueses. Hoje, os agentes do mal são angolanos, ou seja, os “libertadores da pátria” instalaram um regime prejudicial tão iníquo ou pior que o colonial, que maltrata sistematicamente seus próprios irmãos. Os governantes angolanos não estão preocupados com Angola e os angolanos e muito menos trabalham para a realização social dos angolanos. São um grupo de delinquentes disfarçados em Governo!

Ora, na Angola do século XXI, verifica-se que: “O regime eduardino do MPLA não cairá sem luta. É por isso que o Povo angolano só se poderá libertar pela revolução nas ruas, num processo de contestação política permanente de erosão do regime. E esta revolução apenas será vitoriosa com a realidade de uma frente de unidade de todas as forças contra o regime eduardino do MPLA, uma frente que não esteja ligada à cor, à situação social, a credos religiosos e tendências individuais; será vitoriosa graças à formação de um vasto MOVIMENTO POPULAR DE REMOÇÃO DO PODER DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS E SEU MPLA.

Na verdade, Angola já é palco de um processo revolucionário, que encontra nos jovens activistas o rosto de uma geração da mudança que diz basta à José Eduardo dos Santos e seu regime. Uma geração que não se revê nos partidos políticos nem na chamada sociedade civil, grande parte da qual é mera extensão do regime!

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Os jovens activistas, genericamente designados por “Jovens Revús”, têm persistentemente demonstrado que Angola está no mau caminho, por culpa da geração dos que lutaram pela independência. Seus muitos erros levaram Angola ao desastre! ANGOLA FOI SEQUESTRADA E ESTÁ APRISIONADA POR ESTA GERAÇÃO. Esta geração chegou à direcção do país sem projecto político à altura dos desafios. Esta “geração dos libertadores” continua a digladiar-se entre si para sua própria acomodação. É gente que não tem projecto credível para Angola.

O MPLA, a UNITA e a moribunda FNLA são dirigidos pela “geração dos libertadores”, que insistem em manter Angola prisioneira dos seus caprichos!

Os jovens activistas, ou revús, sabem que para a salvação de Angola, mais do que ter este desejo, há que possuir uma visão assente no facto de que ‘o regime eduardino do MPLA não cairá sem luta. É por isso que o Povo angolano só se poderá libertar pela revolução nas ruas, num processo de contestação política permanente de erosão do regime. E esta revolução apenas será vitoriosa com a realidade de uma frente de unidade de todas as forças contra o regime eduardino do MPLA, uma frente que não esteja ligada à cor, à situação social, a credos religiosos e tendências individuais ou seja, que não seja obstaculizada pelo racismo, pelas sectarismo grupal por tipos sociais, pelas particularidades religiosas prejudiciais pelas tendências individuais antagónicas aos objectivos da luta. A vitória apenas será realidade graças à formação de um vasto MOVIMENTO POPULAR DE REMOÇÃO DO PODER DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS E SEU MPLA – UMA FRENTE ÚNICA!’

Para os jovens revús, a união, uma visão e uma estratégia de luta construídas democraticamente e a contínua aprendizagem são essenciais para a mudança em Angola – para a salvação de Angola!

Compreendem que sua luta não se rege por agendas egotistas, as mesmas que levaram Angola ao desastre actual. A luta pela erosão do regime actual, a transição e o processo fundacional de uma nova Angola, em que o poder volte a ser do povo, para o povo e pelo povo, são questões que norteiam toda uma luta que só está no começo!

 

Por Nuno Álvaro Dala

An article (for subscribers only) by Louise Redvers sheds light on the permanent violence exerted upon peaceful protesters by the savage police forces under the command of the regime.

 

Peace abroad, but not necessarily at home

Another heavy-handed shutdown of an attempted anti-government protest has stirred anger in Angola, where people are becoming increasingly concerned about the government’s apparently growing intolerance to criticism. The ruling MPLA accuses its detractors of trying to subvert democracy, but opposition parties claim this obsession with maintaining the peace is only serving to stir up more political intolerance.

Angola is working overtime to promote itself abroad as a vibrant economic success story and a beacon of regional stability. In October it won a seat on the UN Security Council, and in January it will take over the presidency of the Kimberly Process, the international body set up to counter the trade in so-called blood diamonds. Meanwhile, local venture funds regularly appear in the international media proclaiming the country’s tantalising investment opportunities. However, although the government pours money into polishing up its external image, domestic tensions are rising. People are increasingly unhappy with how the authorities are reacting to the actions of youth groups and opposition parties that are critical of the ruling Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) and the president of 35 years, José Eduardo dos Santos.

Events in Burkina Faso, where hundreds of thousands of people took to the streets and forced the removal of the long-serving president, Blaise Compaoré, prompted a handful of political activists to give media interviews warning that Mr dos Santos could meet a similar fate. In response, a number of leading MPLA figures spoke out, calling on people to keep the peace and maintain order. More controversially, the main opposition party, the União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), was accused of inciting violence through public protest, and in mid-November the state-owned Jornal de Angola ran a front-page story in which the interior minister, Ângelo de Barros Veiga Tavares, warned of “veiled efforts” to overthrow the democratic regime. Mr Veiga Tavares also called on the security services to “intensify their surveillance” and ensure law and order were maintained.

This is not the first time the government has adopted a highly defensive tone against its critics, and nor was the heavy-handed shutdown of youth protests in late November the first of its kind. However, the cumulative effect of the threatening language and growing catalogue of allegations of police cruelty is to provoke new tensions that could, if left unchecked, lead to more sustained social unrest.

Security services on trial?
Another headache for the government is the resumption in November of the criminal trial of seven security agents accused of killing two activists who went missing after an anti-government protest in May 2012. For 17 months the authorities denied any knowledge of the whereabouts of Isaias Cassule and António Alves Kamulingue, but in November 2013, following sustained civil society pressure, the attorney-general finally admitted the pair had been kidnapped and probably murdered.

Local media have devoted substantial space to pouring over the details of the case, including claims from within the State Intelligence and Security Service that one of activists had been recorded meeting with a supposed agent from the US’s Central Intelligence Agency, who it later transpired was a Human Rights Watch researcher of Swiss nationality. The trial is a major embarrassment for Angola’s security services and for the country generally and it jars with the glossy promotional videos shown at “invest in Angola” roadshows.

November was also the first anniversary of the death in custody of Manuel Ganga, a member of the country’s third-largest party, the Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral (CASA-CE). Mr Ganga was detained by presidential guards after distributing posters advertising a protest march reacting to the admission from the attorney-general that Mr Cassule and Mr Kamulingue were dead. Mr Ganga was, it was reported, shot, because he tried to escape detention.

To mark Mr Ganga’s death—for which no-one has yet been charged—CASA-CE and his family members led a procession through the capital, Luanda, on November 22nd. This passed off peacefully, but later that day riot police detained a group of youths who tried to stage a protest calling for the resignation of Mr dos Santos. Officers locked down part of the city centre to prevent their passage and there are claims—apparently backed by photographs on social media—that some young people were beaten while in detention.

This seemingly disproportionate response to a small group of placard-carrying young people reveals a nervousness, even a paranoia, on the part of the authorities. No-one, not least the young people themselves, expects these demonstrations to start an Egypt-style revolution; rather, their protests have become about the principle of exercising their constitutional right to freedom of expression and assembly.

For several months, different members of the loose group calling itself the Movimento Revolucionário Angolano have been staging “pop-up” protests to test the reactions of the authorities, who have on the whole taken the bait and made arrests. Every detention is more grist to the mill for lobby groups like Human Rights Watch and Amnesty International, both of whom have in recent months issued damning appraisals of the Angolan government.

The MPLA’s hegemonic grip on Angola’s economy, middle classes, cultural sector and religious movements means that any sort of Burkina Faso-style “African Spring” is highly unlikely. However, anger is fermenting, and with the continuing falling oil price likely to lead to cuts in public spending over the coming year, the government is going to have to work twice as hard to win the confidence of its population. Being so prickly about criticism is not the best way to do so.