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Elinga 02

Não quero fazer deste artigo um texto meramente pessoal, devaneando sobre a importância do espaço Elinga na minha juventude e na formação do adulto que sou hoje. É muito difícil encontrar a bitola a usar para medir a proporção de Elinga que jorra no meu sangue a cada ribombear do meu coração e por isso irei reduzir-me à insignificância da contemporaneidade que represento e mergulhar nas páginas de História que os interesses representados pelos “acumuladores primitivos de capital” querem rasgar deste livro chamado Angola, como já fizeram com tantas outras, deixando-o mutilado na sua incompletude, irremediavelmente, permanentemente mutilado.

Nos pequenos retalhos que fui recuperando dessas páginas ao longo dos últimos anos com o pessoal da Campanha Reviver levada à cabo pela Associação Kalu, apercebi-me da enormidade que podem representar algumas paredes gastas e escadarias periclitantes, e do quanto prescindimos ao reduzi-las a um monte de entulho. Não falo só do Elinga, eventualmente o lugar mais transversal de Luanda, o único onde podem coabitar os empertigados com os maltrapilhos, os da urbe com os mussekados, os locais e os estrangeiros, os artistas e os banqueiros, enfim, o mosaico completo de todas as classes e subclasses que constituem a nossa sociedade, mas também do Challet, da Biker, da Casa do Óculo, da Fortaleza de S. Miguel, do Palácio de Ferro, da Casa de Alfredo Troni, da Livraria Lello, da Estação de Caminhos-de-ferro da Cidade Alta, do Grande Hotel, da Rua dos Mercadores, dos 14 sobrados que ainda não foram vítimas da fúria demolidora do mercado imobiliário (sorte que não teve o Mercado do Kinaxixi) e de todos os outros edifícios e sítios que foram classificados por alguma razão. Sobre cada um desses edifícios se poderiam contar inúmeras “coisas de sonho e de verdade” e essas “coisas” têm um outro efeito quando são contadas dentro dos próprios espaços que as albergam.

Vou no entanto cingir-me ao Elinga que me parece, de todos, ser o mais consensual no que concerne ao sentimento de perda, pelo simples facto de termos construído ao longo dos anos uma ligação emocional íntima (pois vivida na primeira pessoa) com essa magnífica peça do nosso património histórico. Mais facilmente seremos movidos a esboçar um gesto de resistência que seja para salvar o Elinga do que para salvar o Challet que certamente a esmagadora maioria dos kaluandas nunca sequer ouviu falar, apesar de ser o edifício adjacente ao Elinga.

A análise resumir-se-á por isso à argumentação da lógica (?) por detrás da desclassificação e alienação do edifício que pertence à memória coletiva do povo angolano, protagonizada pelo Ministério de “tutela”, justamente aquele cuja missão é zelar por ele.

Antes de apresentar a documentação que irá expôr o desrespeito da Ministra da Cultura pel@s cidad@s que pretende representar, permitam-me que lhes introduza a uma proposta de projeto alternativo para o reaproveitamento do espaço tal qual ele está, ou seja, sem violar a integridade física do edifício, submetendo-o, no máximo, a obras de restauro. Ela foi desenhada por Luca, um arquiteto italiano, professor e funcionário das Nações Unidas em Angola, chegou à mesa da Ministra, foi conscientemente ignorado em benefício do da Imogestin, um edifício ultra-moderno segundo a maquete, mas incapaz de conviver com a História.

Elinga_space Luca 01Elinga_space Luca 02Elinga_space Luca 03

Esta maquete é partilhada para calar aquelas vozes que dizem que os detratores só sabem criticar, não sabem edificar. Para aqueles que argumentando que o Elinga se tornou um antro de drogas e que atrai os putos de má índole que pululam ali à volta, agitam a bandeira da proposta da Imogestin como a única alternativa viável para a inversão do quadro, minimizando debilmente a validade histórica do edifício.

A incompreensível inversão de prioridades

Houve tempos em que os pelouros da Cultura foram ocupados por pessoas que, mal ou bem, usaram dos meios e poderes ao seu dispor para proteger e promover a nossa História e Cultura. O FENACULT no tempo do partido único chegou a ser mais plural e diversificado do que o sem número de festivais que temos hoje cujos cartazes são invariavelmente iguais e perfeitamente previsíveis.

 Em 1981, o Secretário de Estado da Cultura, Boaventura Cardoso assina um despacho onde classifica 42 edifícios como Património Histórico, dentre os quais consta o nosso Elinga, que também já foi um Colégio (Colégio das Beiras) e onde “amarraram” ilustres figuras da nossa História contemporânea, algumas delas ainda vivas, apesar de silenciosas: Nito Alves, Cónego Manuel das Neves, Mário Pinto de Andrade, Hoji-ya-Henda, França Van-Dúnem, Garcia Bires, Manuel Pedro Pacavira.

Em 1992, José Mateus Peixoto, Secretário de Estado da Cultura de então, exara um despacho onde é brevemente narrada a História da cidade de Luanda para justificar a proposta do mapeamento de uma zona “protegida” denominada de “Zona Histórica”, como se pode ver nas imagens abaixo.

 

Despacho 51-91 01 Despacho 51-91 02 Despacho 51-91 03 Luanda HISTÓRICA

Aos 7 de Outubro de 2005 é aprovada a  Lei do Património Cultural, completa e satisfatória, mas como a maior parte delas, meramente decorativa.

Em 2009, já depois de iniciado o boom imobiliário e na tentativa de salvaguardar o que já estava classificado e supostamente blindado pela lei, a então Governadora Francisco Espírito Santo e a já Ministra da Cultura Rosa Cruz e Silva, assinaram (mais) um memorando onde voltam a reafirmar a vontade de proteger o património Histórico sob a mira dos grandes interesses económicos que se agigantavam. Comprometem-se ainda a dar formação e a divulgar amplamente a informação acerca dos monumentos protegidos (alguém alguma vez viu alguma?) e formam uma comissão de avaliação coordenada pelo IPGUL e que inclui representantes dos Ministérios da Cultura, do Urbanismo e Ambiente, da Direção Provincial da Cultura, da Ordem dos Arquitetos e dos Engenheiros e que nenhuma obra na baixa de Luanda (zona histórica) poderia ser adjudicada ou validada sem o parecer favorável desta comissão.

MINCULT e GPL - PAtrimónio no JA peq

A Ministra Rosa Cruz e Silva era tida por muitos como um quadro competente com profundo respeito pelo património histórico, deixando nelas o sentimento de estupor e desalento. Provavelmente a Srª será mesmo “apaixonada” pela História e pelo património, mas sucumbiu a pressão do que o Mena Abrantes (Diretor do Elinga) referiu como sendo “poder superior” e comprometeu o seu nome e reputação subscrevendo a este “culturicídio” ignóbil, com o despacho que podem ver na imagem abaixo.

DESCLASSIFICAÇÃO ELINGA c sublinhados (peq)

Será que poderia ter sido mais vaga do que “as razões deixaram de subsistir”? A minha dúvida mesmo é que “razões” históricas podem “deixar de subsistir”? Não estamos perante uma inconsistência cronológica? Ou será que a Rosa entrou no Delorean com o Michael J. Fox e voltou no tempo para mudar a história, evitar o contacto com o colono e a construção dos sobrados? Da última vez que eu olhei, ainda me pareceu estar lá o telhadito em forma triangular.

Tenho outra questão e esta prende-se com a legitimidade da Ministra fazer esta desclassificação de sua auto-recreação, depois de assinar o memorando acima referido. Terá a tal de “comissão de avaliação” dado luz verde à Ministra para desclassificar o património e outorgá-la a uma entidade privada que declaradamente não irá preservar uma única pedra do edifício, alienando-o assim da memória coletiva do povo angolano a quem pertence por direito?

Perante isto, não temos como perdoar a Ministra, nem sentir pena dela, pois se fosse uma Srª de convicção recusar-se-ia a fazer parte desta fantochada e metia o seu lugar à disposição.

O MINCULT não tem sequer o decoro de apagar da lista de monumentos classificados que alberga no seu site os edifícios que já desclassificou abusivamente.

Recentemente se voltou a falar na demolição do Elinga depois de, pela segunda vez, se ter dado ordem de despejo aos seus atuais ocupantes, ordem essa que vencia no final do pretérito mês de Março.

Felizmente parece haver uma sacudidela nos diversos setores da sociedade civil e, para além da petição online que muitos já subscreveram, foi depositada uma providência cautelar no MINJUS esta segunda-feira, 7 de Abril, com intuito de impugnar o ato administrativo que muitos, dentre os quais me incluo, consideram ilegal e abusivo.

O capitalismo selvagem só consegue existir onde o povo é dócil como uma mula de carga cujos olhos tristes revelam o peso de uma vida de vergastadas no lombo. Os “intelectuais” também são culpados nisto tudo, pois só sabem chorar nos ombros uns dos outros, sem força anímica para se levantarem em uníssono e resistir à bravata dos arrogantes que se escudam nos seus cargos políticos como se estes lhes pertencessem por direito.

Recuso-me a adotar o discurso derrotista, saudosista e fúnebre de quem já considera que o Elinga não pode ser salvo. Enquanto ele ali estiver é meu (nosso) dever, desenvolver técnicas de resistência aos avanços da “gang do Betão” (expressão biznada do kota Reginaldo Silva).

Vamos à luta

Por Luaty Beirão

Artigos que vale a pena ler sobre este assunto: 1, 2, 3, 4

Sabes quem eu sou?

Alguns filósofos têm apontado a exclusão do outro como uma das formas mais eficazes para a deturpação do real em prol do interesse daquele que acusa e exclui o outro. Outros justificam com o “como enganar o povo”? seria basicamente atribuir um absurdo nesse outro e seguidamente reiterar o absurdo ao limite, um lugar tal de ilusões em que as pessoas acreditem cegamente no absurdo do outro e de forma deturpada fazerem um julgamento recheado de calúnias, inverdades, ignorâncias e preconceitos, em muitos casos justificando até mesmo a violência.

Michael Foucault traz com o conceito de exclusão¹ o que seria criar uma realidade irreal, viciando as pessoas à crença da mesma irrealidade. “O Alberto fuma liamba. É por fumar liamba que fala o que fala, pensa o que pensa e veste como veste” (exemplo análogo ao de Foucault, razão/loucura, adaptado à Angola atual) . Tal facto que só assenta na aparência, é consigo mesmo o único motivo para se excluir esse ser diferente de um mesmo espaço em que o interesse é comum, senão social.

Foto de noite angolana tirada da internet

Foto de noite angolana tirada da internet

Tudo isso somente para dizer que quando começamos de forma reiterada a escrever e a provocar discussões, na nossa opinião indispensáveis para a saúde de qualquer nação, uma classe privilegiada ou que não se sinta representada nem afectada pelo acto como sempre acontece, sairá com alguns argumentos lógicos mais quase nunca factuais nem consentâneos, tal pouco coerentes nem amparados na cientificidade, assim como posso conjecturar, para acusar-me de racista as avessas, problemático ou complexado. Essas acusações são a chave mestra para iniciar o jogo da inversão da culpa, delegação de valores, formalização da exclusão e daí direccionar o caso a banalidade ou a uma categoria inferior da discussão social.

Outros ao lerem o artigo poderão chamar-me de controverso porque ataco o racismo que se cria não apenas nas madrugadas Caluandas como á luz do seu dia, mas cito autores brancos como referência retórica, mas isso seria o não mais importante, a medida que o argumento é transvalorativo inclusive para o próprio branco racista, onde pode espelhar-se no desenvolvimento e não onde reverbera o retrocesso tal como faz o racismo; o racista.

O que trago aqui não apenas como reflexão mas como ataque a conduta rasteira que a psique colectiva normalizou em Angola, é a incitação á discussão que os angolanos não suportam discutir desde que me percebi em Angola e conduzir essa discussão á criação de políticas próprias de conscientização e sobretudo rigorosas que proíbam essas instituições a reiterarem tais práticas, e lhes apresentarem medidas que as sancionem aquando de tal prática.
Crente de que a música e a dança são representações culturais, tal como o teatro, o cinema e etc. qualquer discoteca é portanto, também um espaço cultural, onde as pessoas não mais se dirigem ali senão para se divertir com vista desanuviar o stress do dia, da semana, do mês ou do ano ou simplesmente porque gostam.

Certamente algumas pessoas se auto convenceram de que o dono de um estabelecimento privado está no direito de privá-lo da entrada na medida que o investimento é próprio. Não! Tal como o polícia que forja na sua cabeça e com sua vontade a sua lei na estrada na ausência de uma justiça, muitos empresários em Angola criam nas suas cabeças as suas leis noturnas jamais inerentes à constituição do país.

Por outro lado, o mais grave é que essas pessoas não sabem que o regulamento interno de qualquer investimento privado deve pautar-se na lei mãe, reguladora das leis do país e não isolada desse contexto jurídico.

Se um proprietário ou proprietária, alega que um ou outro consumidor não pode frequentar a sua discoteca porque não atende aos padrões estéticos recomendados, deve-se à partida contemplar todo e qualquer cidadão de uma ou de outra cor de pele, para além de representar-se na lei mãe do país, como citei anteriormente.

A nosso ver, o que acontece, é que muitos angolanos negros e outros (imaginemos os zairenses) são embargados à porta de casas noturnas e não só, por supostamente estarem vestidos inadequadamente, num mesmo momento em que estrangeiros brancos ou angolanos mais claros (mulatos, fulos etc.) entram para os mesmos espaços não se lhes exigindo o mesmo rigor estético².

As pessoas têm acesso a esses espaços, na verdade pela aparência que carregam no fenótipo e não porque existe uma ou outra lei reguladora. Razão para pensar que as ordens de embargar as pessoas possa surgir de um negro como de um branco que não queira aparecer para não ser acusado de racista. Aí seria um negro embargando outro negro, e o problema escaparia da questão racial aparentemente.

Outrossim, diz respeito aos negros que ali acedem, comportarem-se como os escravos da casa grande em relação os escravos da Sanzala. Os de dentro seriam os privilegiados e sentiriam-se vangloriados em relação os de fora. A era do VIP, vem agora para estratificar não apenas o negro de fora ao de dentro, mas como os poucos negros de dentro, assim estariam duas vezes separados. O de fora e o dentro, e o de dentro com o VIP. Esses não têm qualquer sensibilidade que os leva a crer que os seus semelhantes de fora estão ali porque têm a mesma cor da pele que ele e não é por ele ser melhor que está dentro, mas porque cumpre as exigências estéticas e agora financeiras que o preconceito decretou, daí o negrito nas expressões: exclusão, aparência, estética e diferente.

Nessa perspectiva, não sendo da competência jurídica do Mincult (Ministério da Cultura), censurar o investimento privado, é pelo menos da sua competência moral e a nível da sua responsabilidade social , manifestar uma nota de repúdio, a um comportamento criminal já amadurecido na sociedade angolana. É o Mincult, juntamente a outras instituições de direito que dialogam sobretudo as problemática dos direitos humanos tal como a própria sociedade civil, quem tem o dever e o direito de alertar a sociedade de um mal que viola aquilo que são os valores culturais angolanos.

E se pensarmos na Exclusão de Foucault, um trocadilho pode ser feito agora. Se ali o liambeiro é o excluído porque mal se veste, pensa e fala diferente, aqui o excluído é o negro angolano ou qualquer outro quando for diferente na aparência, falar e pensar diferente.
Finalmente devo esforçar a responsabilização do Mincult porque sabemos que é o órgão ou a instituição maior dentro do quadro cultural do país. E se como bem sabemos, for o dono do investimento o jurisconsulto ou se aquele que cria as leis é seu familiar, tudo torna-se mais difícil para o cidadão comum lutar contra a realidade do “sabes quem eu sou?”, onde a guerra das influências ditam as regras do jogo.

Daí que a sociedade precisa de uma mão, senão uma testa de ferro para juntamente começarmos a corrigir e ou reparar todos aqueles erros históricos que nos legou a consciência do auto desprezo e da inferiorização.

Por: Mário Lunga

 

1. Michael Foucault – “Ordem do Discurso”, pág 10.
2.O estético não diz respeito unicamente ao que pessoa vestiu ou calçou, mais do que isso o estético é fenótipico; é o que a pessoa é morfologicamente.  

 

 

Tirado do mural de facebook de um utilizador que ali se chama “Steven Lincoln” e trata-se de um relato detalhado do calvário que teve de passar para conseguir tratar do seu BI. Vamos respeitar a integridade do relato e mantê-lo tal qual foi redigido pelo autor.

É mais simples tratar deste BI do que daquele emitido pelos serviços de identificação

É mais simples tratar deste BI do que daquele emitido pelos serviços de identificação

“Por volta das 23h de ontém, fui ao Posto de Identificaçao da minha Zona, que fica a 1,8kms da casa do meu Avô. E posto lá, pus-me a falar com o segurança sobre a hora que deveria chegar para ser um dos primeiros. O segurança disse-me que a partir das 3H, 3h40 ja começam aparecer as pessoas. Entao implorei que colocasse o meu nome na lista visto que ja estava ali.

Por volta das 4h30, eu ja estva acordado e 5h03 minutos quando cheguei ao local ja encontrei perto de 50 pessoas. O segurança pediu-me entao que continuasse a fazer inscriçao dos que vinham aos poucos. E aos poucos a amanhecer, o numero foi crescendo. Antes mesmo das 8horas, ja estavamos em 137 pessoas.

As 7h50, o chefe do Posto( que para o meu espanto era meu amigo), foi o primeiro a aparecer e abriu logo as porto e demais funcionários foram aparecendo.
Dei a lista ao funcionário responsável pelo atendimento Externo e este fez questao de nos esclarecer que por razoes de por ordem de chegada, atenderiam primeiro os suplentes da lista do dia anterior, portanto 2-Feira( que eram ja 52 pessoas) e que, da lista de hoje, tirariam 91 individuos.

E o trabalho deles começou por volta das 8h10. Deu-se prioridade as senhoras com bebés, idosos, diminuídos físicos e alguns idosos. Depois de terem atendido toda essa gente + os da lista anterior, foi a minha de entregar o documento para análise.

As 11h passei para outro lado onde aguardava para tratar o GOLDEN B.I( fazer foto, tirar impressao e assinar)…outra fila.

Nao obstante ter observado muitas irregularidades como, pessoas que chegavm, faziam telefonemas e entravam pelas traseiras, mais de 5 computadores ligados mais apenas um indivíduo a atender e este, mesmo com o aviso de proibiçao do uso do telemovel, nao o largava!

Bom… ja cansado de tanto estar em pé ( a partir da 5h) exposto ao sol porque nao nao ha sequer algum tipo sombra, vejo um grupo de perto de 10 pessoas que eu inscrevi e que estavam num fim da lista, a serem chamados.

Fiquei passado! Invadi a sala e comecei a falar alto… chamei nomes… disse-lhes que eram eles que incentivavam desorganizaçao porque era absurdo que eu como a primeira pessoa estava ali sem ter sido atendido, ja passaram para numeros do fundo! Fiz cena…nao me importei com o meu facto e gravata, nao me importei com olhares…!
Pasme-se que só depois disso é que um funcionario de categoria veio ter comigo, com desculpas esfarrapadas e tentar argumentar o absurdo.

Fiz mais uns 4 a 6 minutos e o processo estava concluido( aguardando 1 semana para levantar).

Para dizer meus caros concidadãos, é este o terrivel sacrificio que as massas passam para ser apenas ANGOLANO! Isto sem mencionar a parte do Assento de Nascimento e depósito de emolumentos no banco atóa BPC.

Quando eu critico, faço-o com propriedade porque é realidade que vivo. Tenho tambem amigos em muitos sectores mas, ainda nao sou um sem-carácter para passar pelas traseiras ou tratar documentos de utilidade pública em casas daqueles que sao meros servidores público.

O pior que este sofrimento das massas, é o facto de nao haver imprensa para reportar, Inadec para se queixar/lamentar nem OPOSIÇÃO para fiscalizar e denúnciar!

Irmãos, estamos tramados!”

“NO MOMENTO DE SER admitido como membro da profissão médica:
EU JURO SOLENEMENTE consagrar a minha vida a serviço da humanidade;
EU DAREI aos meus professores o respeito e a gratidão que lhes são devidos;
EU PRATICAREI a minha profissão com consciência e dignidade;
A SAÚDE DE MEU PACIENTE será minha primeira consideração;
EU RESPEITAREI os segredos confiados a mim, mesmo depois que o paciente tenha morrido;
EU MANTEREI por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica;
MEUS COLEGAS serão minhas irmãs e irmãos;
EU NÃO PERMITIREI que concepções de idade, doença ou deficiência, religião, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, condição social ou qualquer outro fator intervenham entre o meu dever e meus pacientes;
EU MANTEREI o máximo respeito pela vida humana;
EU NÃO USAREI meu conhecimento médico para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
EU FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e pela minha honra.”
Juramento de Hipócrates (Revisão ao original de 1771 aprovada pela Convenção de Genebra em 1983)

Angolacharge-saude-oproximo

Aqui em Angola todos já fomos vítimas ou conhecemos alguém que tenha sido directamente vítima de negligência médica, casos que muitas vezes redundam em morte e que mantêm Angola em alguns tops tenebrosos como é o das várias taxas de mortalidade (infantil; materna; geral), esperança de vida e o da percentagem de pessoas vivendo abaixo do nível da pobreza (2$/dia segundo os padrões estipulados pelo world bank e usados como uma das referências do teto da pobreza extrema).

Se a classe dos mais desfavorecidos é a mais negligenciada, vulnerável e sujeita ao “desleixo” criminoso dos “médicos”, as outras não estão ao abrigo da letargia do deixa-andar, da conformação à perpetuidade da pertença aos dados estatísticos mais deprimentes do mundo. A morte é natural, mas a ciência tem sido aperfeiçoada para a adiar. Infelizmente, neste nosso país, o problema não é a tecnologia de ponta (que já existe em algumas unidades hospitalares privadas), não é só a falta de condições técnicas e de salubridade, não! O problema reside grandemente no profundo desumanismo que se semeou desde que se declarou necessária a criação de uma burguesia nacional, da qual fazem hoje parte até aqueles que preconizavam que a esses era “preciso é partir-lhes o focinho”. O que colhemos hoje são os seus ácidos e indigestos frutos.

Vamos referir-nos a 4 casos relativamente recentes todos ocorridos em Luanda (os nomes são fictícios):

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Caso 1

Filomena não tendo posses para fazer o seu parto numa clínica privada sempre onerosa, escolhe a maternidade Augusto Ngangula para trazer ao mundo o seu primeiro filho. Algumas complicações que nunca se explicam em condições à parturiente desesperada ocorreram e o bebé teve de ser incubado. No dia seguinte, ao pedir para ver o seu filho, lhe foi comunicado que o bebé tinha falecido durante à noite. Razão: falta de energia e gerador avariado, sistema de ventilação da incubadora não funciona sem corrente e o bebé morreu então asfixiado.

Caso 2

Maria, 33 anos, estava grávida de gémeos. Teve uma gravidez perfeitamente normal, acompanhada pela Ginecologista Obstetra, que terá sido escolhida por já ter acompanhado outras gravidezes de meninas da família, granjeando assim a confiança desta.

Prematuramente e de forma inadvertida começou a sentir contracções. Ligou à médica que estava de serviço na Maternidade Augusto Ngangula. Já tinha programado ter na Clínica da Endiama, mas dado que nasceram antes da data prevista, foi levada a Maternidade onde estava a médica que a assistiu  em toda a fase pré-natal.

Chegando a Maternidade, entrou sem delongas para a sala de parto que terá corrido bem. O problema apresentou-se no pós-parto: perdeu sangue profusamente, pelo que lhe deveria ter sido administrada uma transfusão sanguínea faseada em duas doses separadas por um intervalo de 6 horas.

Deu-se a primeira dose, mas quando a equipa médica voltou ao quarto, encontraram Maria já morta. Razão? Esqueceram-se (!) de administrar a segunda dose dentro do prazo previsto, tendo deixado passar 10 horas ao invés de 6.

Caso 3

Eliana é menina de berço de ouro, pertencendo a classe mui exclusiva de ricos de Angola.

Escolheu ter o bebé no país para ficar mais próximo do marido e da família. Sendo portadora de VIH, tomou todas as precauções para que não transmitisse a doença ao filho.

Neste tipo de casos, geralmente o parto é provocado e programado, sendo que deveria ser submetida a uma cesariana.

Infelizmente, às 35 semanas a bolsa rebentou e teve um parto normal, transmitindo assim ao seu filho o VIH.

O Parto ocorreu na Clínica da Endiama e os médicos garantiram que nada poderiam fazer uma vez que a bolsa rebentou em casa.

O pós-parto foi tranquilo, sendo que receberam todos os cuidados que poderiam ter na condição de mãe e filho portadores de VIH.

A sua pediatra aconselhou-a a todos os medicamentos necessários para um bebé portador de VIH e a criança foi crescendo de forma saudável.

Aos 8 meses de idade, a criança chorava e diagnosticou-se uma otite. Eliana levou a filha à Clínica Multi-Perfil, hospital mais próximo da sua zona de residência e explica ao médico de plantão a condição do filho.

O médico confirma tratar-se de uma otite , prescreve uma receita e dá uma injecção ao bebé que nunca souberam o que era.

De facto passado 18h a criança acalmou. A mãe deitou-a no berço e 40min depois a criança parou de respirar e morreu.

Tentaram fazer o rastreio da causa da morte prematura e foi de um dos medicamentos que o médico prescreveu que são incompatíveis a crianças ou adultos portadores de VIH.

Caso 4

Relato de uma mãe na primeira pessoa:

“Ontem fui à Cligest (Clinica Vida) por volta das 21:30, porque a minha filha estava constipada e não estava a conseguir respirar muito bem. Então, super aflita, lá corri para a clínica…
Chegando lá, disseram-me que a pediatria fechava às 21:30, então corri para a ver se ainda apanhava a médica…
A minha filha fez a triagem, e quando a enfermeira foi ter com a médica para ver se ainda a podia atender, ela recusou-se porque estava na hora de sair… PODE????? Era uma urgência, a minha filha estava com dificuldades para respirar, e ela diz que não pode atender mais????!!!!!
Mas que médica é essa? Onde está o profissionalismo? Salvar uma vida deve ser mais importante que tudo, certo?? Que juramento é esse que os médicos fazem??
Cada vez mais desmoralizada com a saúde em Angola!!
Graças a Deus, as enfermeiras da mesma clínica foram super prestáveis e encaminharam-nos para a médica de clínica geral que atendeu-nos com eficácia e amabilidade!!! A minha filha está bem!”

Não é por acaso que o JEScaré foge a correr do país para ir tratar de uma “dor de dente”.

Temos recebido várias histórias macabras que envolvem os nossos serviços de saúde. Tens uma? Partilha-a connosco e vamos continuar a denunciar as más práticas que arrastam o nosso país para as mais lastimáveis posições nos rankings mundiais de direitos elementares como é o direito à vida.

Se temos de nos fazer evacuar a cada vez que temos uma dor-de-cabeça, não são só os nossos bolsos que entrarão em greve, serão também os nossos postos de trabalho que ficam comprometidos pois nem todos conseguem isenção laboral de 3 meses por ano para ir arranjar a cornadura, oops, desculpem, a dentadura!

Título completo:

Governantes perversos recriam racismo em Angola, enquanto

o silêncio controla a luta pro Descolonização da Lei

Recordar é Viver a servidão

Mario Lunga 02

O fundamento do racismo, é a hierarquização infundada entre as relações multirraciais, tendo como premissa substancial as distorções  socioeconómicas entre elas. Em outros termos, é basicamente uma raça sobrepor economicamente a outra, sem que exista um único fundamento racional para além da coloração da pele dos homens. Isto é, por você ser negro ou mestiço por exemplo, deverá ser subalterno aos brancos na escala onde se concentra o poder, ou como por exemplo figura-se em novelas brasileiras, os negros na condição única de empregados domésticos, motoristas ou criminosos, veiculando nesse último, a ideia estereotipada e racista de que os criminosos  ali, são exclusiva e essencialmente negros e favelados, se justificando para tal, a violência social e a discriminação para com esse grupo específico, conquistando-se assim, a anuência e o voto internacional nas práticas de repúdio aos negros.

Em síntese, o racismo é a determinação da condição económica dos homens a partir da cor da pele, tidas como inferiores ou superiores. É a raça ou se melhor a cor da pele dos homens, o elemento criterioso para se atribuir lugares sociais.

Assim sendo,  a problemática do racismo não repousa na ordem do emocional, onde normalmente o senso comum pretende cuidar o caso como um mero problema  afectivo ou de desafecto entre pessoas de diferentes raças, ou ainda como em alguns países  de gritante racismo, se instiga ou se convida a compreensão do fenómeno, partindo do olhar Marxista que responsabiliza a desigualdade social unicamente á luta de classes económicas , ignorando  o factor  raças nessas sociedades, sendo que nelas, a desigualdade social está atrelada a desigualdade racial. Assim, a condição sine quo non do racismo, é a diminuição ou anulação de direitos e recursos essencialmente económicos,  a um grupo  racial considerado como inferior. Em tese:/ Weederburn Moore / Munanga Kambenguele » Racismo e Sociedade.

Tal como a homossexualidade, a homofobia, o sexismo,  o etnocentrismo, o tribalismo, a igualdade de género, a violência doméstica, o feminismo, a intolerância religiosa, a exploração de menores, etc. que por sua vez consubstanciam-se na mesma discussão da democracia e ou liberdade de expressão e da garantia dos direitos humanos que todos os opositores de Angola buscam, em detrimento da ditadura imposta aos angolanos, normalmente e, por se camuflar sempre a realidade do nosso país, não existe em Angola, a produção de um discurso académico e ou científico que,  discuta também de forma inteligente e aberta, as questões de ordem rácicas, restando para o senso comum sobretudo no exterior, a ideia ingénua e hipócrita de que na nossa terra Angola não existem homossexuais, intolerância religiosa ou no caso concreto, afirmarem que  não existe racismo em Angola, ou ainda  a nível interno ouvir-se  fluentemente que, os negros são os principais racistas do país.

Em todos os casos é apenas mais uma aldrabice dos que ainda preferem raciocinar nesse formato de ideias, perspectivando que  Angola seria talvez melhor segregando-se dos demais grupos que integram e interagem na sociedade.

No entanto, o artigo não pretende argumentar de forma vil e sem nexo quem são os protagonistas ou os mais racistas de Angola, mas provocar alguma reacção contrária a que os  nossos  vaidosos senhores da corte, em função dos seus cegos interesses, têm a nível do convívio profissional e social, determinado e imposto aos angolanos na actual Angola e, de certa forma impulsionar também, a abrangência da discussão ao verdadeiro sentido da democracia (liberdade e igualdade), a medida que não faz sentido algum, ou mesmo chega a ser contraditório os angolanos discutirem liberdade de expressão/direitos humanos, quando aparte à oposição ao MPLA, conservam por outro lado, a opressão e a intolerância com os demais grupos existentes em todas as sociedades efectivamente democráticas, cabendo-nos questionar, se estamos de facto dispostos a mergulhar para a materialização da democracia plena ou se apenas utilizamos a palavra, clamando por ela quando canonizados à política parlamentar, aos partidos políticos, a gestão pública dos recursos, a corrupção e etc., enfim, até onde for a nossa área de interesse e de conforto dialéctico  e social, o que de certa forma patenteia a preocupação e o clamor à democracia, à transparência ou à liberdade, quando nos referimos essencialmente à equitatividade da riqueza ou bens de natureza económica( o núcleo de todos os  problemas, inclusive do racismo que discutimos agora) , razão pela qual, a discussão da melhor distribuição do bem público ou a luta contra a corrupção, são alguns dos pontos sonantes na temática da democracia que se busca em Angola. Apenas para repensarmos.

Os historiadores afirmam, que um povo que não conhece a sua história, está preparado para reviver todo seu passado, por mais cruel que ele seja. É com essa abordagem que  à partida, nos convidamos a observar sem minúcia, pela própria transparência dos factos, o dia a dia do país(Luanda), no que toca a relação poder/cor da pele, (ignoremos raça). Para tal, a pergunta de ordem é Onde está concentrado o poder em Angola? Como sabemos, o poder está claramente concentrado numa única família negra que com a sua anuência, redistribui a toda casta da sua intimidade criminosa, nomeadamente compadres políticos, capangas e agora as magnificas cooperações estratégicas (que pouco têm a haver com a pretensão viciada dos seus crimes), os mesmos haveres, sendo essa última o foco e a razão do presente artigo.

A título de exemplo, é comum ouvirmos de estrangeiros residentes em Angola que, os governantes/empresários angolanos não gostam de trabalhar com os angolanos porque os vêem como burros e incapacitados, mesmo sem se analisar na matriz, a qualidade do investimento que se faz ao homem angolano. É ainda comum vermos os mesmos estrangeiros serem atraídos para Angola com propostas de enriquecimento, bem como é comum vermos e ouvirmos reclamações de funcionários nacionais, enquanto vítimas de discriminação racial por parte de angolanos mestiços ou brancos, bem como principalmente de estrangeiros brancos, comportando na maior parte dos casos, cidadãos de nacionalidade portuguesa. Vale dizer que, nessa terra é também gritante a forma como muitos negros com alguma predisposição rancorosa, violentam verbalmente os mestiços ou brancos sem razão de ser, na mesma proporção ou talvez maior que, vemos aqueles que vivem nos arredores baldios do complexo de inferioridade racial só por serem negros.

A observação assenta nos Outsourcings ou nos contratos de modo geral, estabelecidos entre Angola  e governos de certos países sobretudo europeus que, para além de trazerem para o país a mão de obra qualificada que é necessária ainda, trazem consigo também, o preconceito mais qualificado ainda para discriminarem  racialmente os autóctone de Angola, muitas vezes convidados e autorizados directa ou  indirectamente por angolanos a agirem como apresentado.Esse factor, juntamente a condição de poder e de admiração por parte dos angolanos que encontram apenas em Angola, seja no sector privado como no público, atendem as condições necessárias para oxigenar a procriação e a sustentação do racismo no país. Isto é,  a conjugação de poder e a questão racial conflituosa que é marginalizada. Assim, os nossos senhores do governo, não estando ignorantes da situação, apenas silenciam ou normalizam-na ante esse quadro desestabilizador, razão pela qual não sendo ignorância, só se pode entender como perversidade, para além de estarem vendidos culturalmente com as ilusões de civilizacionismo.

É mais ou menos como se estivessem  de camarote a recordar aos jovens de hoje, a servidão que viveram na época Salazariana, sendo eles dessa vez, a conferirem com autonomia, o poder aos estrangeiros para  também recordarem seus ancestrais em Angola, subalternizando de forma racista o povo, o que faz com que voltemos a questionar-nos: Onde anda a nossa constituição, se até os dias de hoje,  por incrível que pareça,  existem em Angola tratamentos diferenciados  a nível  da cor da pele em certos  estabelecimentos  e lugares sociais?

Na ocasião de se tratar de uma sociedade educada para a mudez, surdez e o olhar silencioso , todo o horror é naturalizado e assimilado como parte de nós.  Sim, é pois essa a grande questão, pois o facto de não tratar-se de uma constituição ou de uma Lei angolana, mas uma cábula, vergonhosa réplica da constituição portuguesa, onde não se prevê a discriminação racial como crime inafiançável por exemplo, ou que acarreta  ao arguido, um dano significativo e talvez irreversível, o nosso dia a dia continua a ser regido e agredido com esse tipo de conduta abusiva,  atrasada e desrespeitosa para a humanidade, tal como se estivéssemos em países mais organizados, onde porém, discriminar a raça outra não é crime.

Com isso, queremos dizer, que há uma urgente necessidade de descolonizar-se radicalmente a Lei vigente, sobe pena de perenemente não prevermos na mesma, circunstâncias concretas da nossa cultura e sociedade e permitirmos assim que, o cidadão comum seja desrespeitado na própria casa, diminuído a luz do silenciamento dos que detendo o poder, não vivendo as mesmas agruras, abandalham o caso.

Por Mário Lunga

Kady Mixinge, na Manifestação de 2 de Abril de 2011

Kady Mixinge, na Manifestação de 2 de Abril de 2011

Há uns dias atrás, fui convocado para uma reunião familiar. A reunião, que foi solicitada por uma das minhas irmãs mais-velhas, tinha como pano de fundo o meu activismo ou o facto de eu estar a exercer a minha cidadania na terra dos meus ancestrais, no país onde nasci, na terra que amo.Não acreditei no que estava a acontecer.

Bom… Afinal, o que aconteceu na verdade? Um antigo colega da minha irmã, no tempo em que eram estudantes em Cuba, foi contactado por um bófia que lhe disse o seguinte:

- Aquele puto Kady, irmão da X, está na lista numa lista negra e se ele não parar, vai desta para melhor. Avisa só a família dele.

O antigo colega da minha kota ligou para ela e transmitiu a informação.

Resultado: Reunião familiar.

Como é evidente, até porque ainda vivemos numa sociedade na qual o medo de se expressar faz moradia, aquela informação não caiu bem na família. Os nervos ficaram à flor da pele, os ânimos exaltaram-se e, pronto, o caldo entornou.

No dia da reunião, fiquei calado, tranquilo, mas com muita raiva do ex-colega da minha irmã e do bófia. Os meus povos desbobinaram todas as críticas e comentários possíveis. Eu sou fiquei a “curtir” o cenário. Quando chegou a minha vez, disse:

- Mana ****, podes dizer ao teu antigo colega e ao bófia para irem tomar banho. Esse país também é meu. Eu sou tão angolano quanto ele. Os meus avós nasceram aqui. Quem é que disse que exercer cidadania é crime? Desde quando? Quando um cidadão exige mais e melhor governação é porque alguma coisa não vai bem. Isso é crime? Portanto, diga a estes senhores para tomarem banho. Se eles tiverem algum problema comigo, que me digam directamente.

A reunião terminou com este recado.

Quem me conhece, sabe que eu sou um tipo moderado. Sou da paz e pela paz, mas não admito porcarias. Assim que gostaria de dizer o seguinte a estes dois senhores e aos seus chefes:

O medo aqui não pega. VOCÊS PODEM IR PARA A PUTA QUE VOS PARIU. ESTOU PRONTO PARA VOCÊS. Têm algum problema comigo? Venha ter comigo. Não envolvam os meus parentes nisto, porque, tal como o Cristiano Ronaldo, EU ESTOU AQUI.

Por Kady Mixinge

Um artigo publicado recentemente no periódico Folha8, dá conta de pormenores muito detalhados acerca dos bastidores do caso Cassule e Kamulingue. Esse artigo foi copiado textualmente e reproduzido na íntegra em algumas páginas do facebook, incluindo na de um grupo de ativistas que divulgam incessantemente denúncias sobre o que se passa na nossa Angola chamado “Free Mind Free World”. A página de onde copiámos o texto abaixo, para quem tenha facebook, pode ser acedido clicando aqui.

Segundo o mesmo artigo, foi encontrada no computador de um dos algozes de Cassule e Kamulingue, uma lista de alvos a abater pelo SINSE. Felizmente e à exceção dos próprios irmãos catapuldados à mártires, nenhum dos nomes citados foi ainda “visado” pelos seus algozes, não letalmente pelo menos. Fica no entanto o aviso.

Segue-se o texto:

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

“Vamos à história contada na primeira pessoa por um dos algozes.

No dia 27 de Maio de 2012, pelas 14h00, o agente secreto Tucayano, do SINSE, liga para Alves Kamulingue, propondo-lhe um encontro para uma suposta entrevista nas bombas de combustível da Sonangol junto aos Bombeiros, por detrás do Hospital Militar de Luanda. Kamulingue aceita e aí chegado, surge uma viatura Chevrolet Spark, com elementos no interior que o chamam e ele, ao aproximar-se, é empurrado rapidamente para o interior da viatura, que arranca de imediato em alta velocidade.

Os raptores são António Manuel Gamboa Vieira Lopes, delegado do SINSE em Luanda, Paulo Mota, delegado adjunto do SINSE Luanda, Comissário Dias do Nascimento, 2.º comandante provincial de Luanda, Manuel Miranda, chefe de Investigação Criminal da Ingombota, Luís Miranda, chefe dos Serviços Sectores do Comando de Divisão da Ingombota ; a viatura seguiu em direcção ao Km 44, zona da Barra do Kwanza e, pelo caminho, ligaram para o agente, Francisco Pimentel Tenda Daniel, tcp Kiko, que deveria juntar-se a eles, o que ele fez no meio do percurso, já mata adentro. O qual, como veremos, também caiu numa armadilha. Sigam-nos!

Postos no local combinado, os agentes do SINSE e da DNIC empreendem uma acalorada discussão sobre quem deveria fuzilar Alves Kamulingue. Depois de algum tempo escolheram o oficial operativo da DPIC, Kiko, tendo este sido obrigado, enquanto inferior hierárquico, a cumprir a ordem de disparar para matar a vítima. Ligeiramente contrariado, lê-se no documento em nossa posse, o agente cumpriu, tendo logo depois todos os presentes abandonado o local, deixando o corpo estendido no solo, à mercê de animais predadores.

No dia 29.05.12, isto é, dois dias mais tarde, o mesmo agente Tucayanu liga por volta das 18h00 para Isaías Cassule, alegando ter informações sobre o Kamulingue e uma gravação em vídeo da última manifestação, pelo que deveriam encontrar-se defronte ao fontanário da Escola Angola e Cuba, no Cazenga. Cassule, talvez na ânsia de obter informações, sobre o amigo e colega, vai ao encontro na companhia de Alberto António dos Santos, mecânico da UGP. Mas, postos no local, este último apercebe-se de que o encontro é uma cilada e empreende uma repentina fuga, coisa que Cassule não conseguiu, ficando à mercê dos assassinos, que o levaram, naquela mesma noite, para uma zona afastada do Rio Dande, a bordo de uma viatura Hilux de cor preta, conduzida pelo agente Tcheu, chefe de escolta do governador e secretário provincial do MPLA de Luanda.

Faziam ainda parte dos raptores, Lourenço Sebastião, chefe do SINSE de Viana, Fragoso, agente do SINSE de Luanda e mais três elementos, cujos nomes constam na documentação que os identifica apenas como agentes 020, 030, 060, sendo, em todo o caso, esta operação apenas efectuada por agentes do SINSE.

Entretanto, depois do cometimento do crime, o agente Kiko, inconformado com a decisão de o terem empurrado para o papel de “matador”, para além de lamentar cabisbaixo nos corredores da DPIC e DNIC, também desabafou com familiares e com Tucayanu, agente do SINSE, que não deixou de comentar a informação. Neste percurso, sem ordem judicial, tal como acontece muitas vezes com as operações comandadas pela DNIC, eis que esta instituição, em colaboração com a PGR, inicia o rastreio telefónico deste agente, conseguindo obter mais elementos sobre quem e como foram raptados Cassule e Kamulingue.

Em virtude deste acervo judicial, Tucayanu foi preso e o ministro do Interior comunicou os factos ao Presidente da República, que, na sua qualidade de Comandante em Chefe, deu ordens expressas no sentido de a DNIC, em conjunto com a PGR, desencadear diligências para o esclarecimento dos factos.

Com base nessas requisitadas diligências, no dia 05.11.13, processaram-se as primeiras detenções de Lourenço Sebastião, chefe do SINSE/Viana, Paulo Mota, delegado adjunto do SINSE/Luanda e Loy, agente do SINSE/Luanda. nas suas primeiras declarações, em acto de interrogatório, na PGR, todos foram unânimes em acusar Sebastião Martins e António Manuel Gamboa Vieira Lopes, como mandantes dos assassinatos.

Provas do crime

Os investigadores já realizaram diligências de busca e captura nas residências de Francisco Pimentel Tenda Daniel tcp Kiko, para recolher a arma que disparou contra Alves Kamulingue, tendo a mesma sido entregue pela mulher deste a Manuel Miranda, chefe da Investigação Criminal da Ingombota, um dos que também participou no assassinato.

Na casa de Paulo Mota foi apreendido o seu computador, com um volume de informação invejável, pois tinha planos operativos sobre a actividade de inteligência do SINSE, realizada ao longo dos últimos anos contra elementos da oposição e da sociedade civil. Foi encontrada, por exemplo uma lista de elementos a abater, destacando-se o mecânico da UGP, Alberto António dos Santos, Luaty Beirão, Nito Alves, Brigadeiro 10 pacotes, entre outros, cuja lista divulgaremos mais tarde.

Neste momento, já foram ouvidos Vieira Lopes, Dias do Nascimento, Manuel Miranda, Luís Miranda e, muito provavelmente Sebastião Martins, exonerado no 14.11, todos já constituídos arguidos, segundo fonte operativa, mas continuando em liberdade pese a sua implicação nos horrendos e cobardes assassinatos.

Muito provavelmente, poderá também vir a ser ouvido, o governador provincial de Luanda, Bento Bento.

QUEM ESTÁ DETIDO

Neste momento encontram-se já detidos os seguintes elementos:
1- Tcheu – ex-chefe de escolta do governador de Luanda, Bento Bento,
2 – Paulo Mota, delegado adjunto do SINSE/Luanda;
3 – Francisco Pimentel Tenda Miguel, tcp Kiko, agente DPIC
4 – A.Loy, agente SINSE/Luanda; Todos os acima mencionados encontram-se na cadeia do São Paulo, em Luanda
5 – Lourenço Sebastião, chefe do SINSE/Viana
6 – Tucayanu, agente SINSE/Luanda
7 – Fragoso, agente SINSE/Luanda; todos estes encontram-se na cadeia do Supremo Tribunal Militar

Uma das mais antigas e odientas tradições de alguns chefes guerrilheiros e novatos bajuladores do MPLA é matar para reinar, como foram os casos de Alves Kassulingue e Isaias Sebastião Cassule, antigos militares da UGP (Unidade da Guarda Presidencial) e, anteriormente, no caso abafado do suicídio do engenheiro António Belarmino Brito no, dia 22 de Fevereiro de 2012, quando foi encontrado morto no novo edifício sede da SONANGOL.

A questão que se pôs então e se põe ainda até hoje, é de saber como pôde um funcionário superior da petrolífera estatal, inspector de projectos, sucumbir subitamente “em plena luz do dia”, no seu próprio local de trabalho, sem que alguém fosse ao seu socorro? Correram várias versões sobre o local exacto onde a vítima foi encontrada morta na sede da empresa. A esse respeito, o Prof Ngola Kiluange diz ter sido encontrado no seu próprio escritório.

Por outro lado, segundo a mesma fonte, «durante o funeral, três funcionários da Sonangol, que se identificaram como colegas da vítima, terão aparecido em tempos alternados, o primeiro dizendo que o engenheiro foi encontrado morto no elevador, o segundo afirmando ter visto Berlarmino morto num outro andar, e o terceiro confessou ter tentado ajudar e levá-lo para a clínica do edifício, mas “acabou por morrer quando chegou à clínica Girassol”.
Estranho, não?

Este é um sistema de assassinato clássico no que toca aos métodos do MPLA. O fuzilamento de Sotto Mayor, no campo da Revolução, em Luanda, nos anos 80 e em tempos mais recentes, os assassinatos de Adão da Silva, Ricardo de Melo, Mfulumpinga Landu Victor e tantos outros pelos esquadrões de morte, que ensombram a imagem de qualquer regime.

Assassinatos em cadeia contínua no tempo

Desgraçadamente, a realidade que será legada pelo desempenho do MPLA será prenhe de uma sucessão de variantes de um só tema, que regularmente, vem à tona: os crimes cometidos pelos sucessivos governos sob sua liderança, seja antes da tomada do poder com os assassinatos, entre muitos outros, de Matias Miguéis, enterrado vivo e deixado dois dias com a cabeça de fora, a mando de Agostinho Neto, tal como a do comandante Paganini, na Frente Leste, acusado de feitiçaria e tentativa de golpe a Neto, foi atirado vivo, numa fogueira em 1966. Houve ainda a tragédia do 27 de Maio de 1977, onde cerca de 80.000 mil jovens, foram assassinados sem julgamento, por Neto não “querer perder tempo com julgamentos”. Temos ainda os assassinatos que brotaram do nada em 1992 e se multiplicaram por trás de sucessivas máscaras de uma democracia sui generis num palco altamente inclinado, no qual o MPLA acabou por manter o seu lugar avassalador, lá em cima, num festivo ambiente de multipartidarismo falsíssimo e mais que balofo.

São de relembrar casos que nem sequer são ocultos (o mais curioso é que ninguém os comenta), como, por exemplo, a morte de Serra Van Dunem, os acidentes armadilhados por homens da Secreta, alegadamente sob controlo dos kaenches do Palanca que já mataram religiosos, milícias ao serviço da própria secreta para se eliminar possíveis testemunhas do massacre contra Filomeno V. Lopes, a eliminação de certos quadros nacionais e estrangeiros por envenenamento, isto sem esquecer a morte de Nelson, pessoa querida do antigo ministro das relações exteriores, Paulo Jorge, por envenenamento no MIREX pelos próprios colegas, depois de este ter discutido com um camarada de partido que o tinha ameaçado de prisão… ao que podemos juntar o já aqui mencionado pseudo-suicídio do engenheiro Bernardino Brito, discretamente seguido de ordens superiores para queimarem o vídeo que retratava o acto criminoso por ordens supostamente de Manuel Vicente, que temia que os segredos em posse de Brito sobre os seus negócios com a China e outros países viessem à luz do dia; a eliminação de dirigentes da UNITA já depois dos acordos de paz, na sua maioria por envenenamento dentro de suas próprias casas e em hospitais dentro e fora do país…. e tutti quanti amarfanhado, ocultado e evaporado pelo regime. Que nos ecrãs da TPA só comunica ao povo de Angola lisura, civismo e honestidade!
Cinismo puríssimo.

Desrespeito dos Direitos Humanos é recorrente no candidato

Dizer que Angola chegou mesmo a pagar e a fazer corredores para estar na Comissão de Direitos Humanos da ONU dá vontade de rir às gargalhadas. Nem que seja apenas para escorraçar da nossa mente o medo de ver o poder do dinheiro a violentar a ONU, fazendo nela entrar o nosso país, cujo “governo” atípico, a que de dá, por atavismo, o nome de Executivo, diariamente, comete crimes contra os direitos humanos, que assim serão, doravante, perpetrados sob cumplicidade desta prestigiosa organização. Esperemos que não, que isso nunca possa acontecer”.

Lamentavelmente, a ditadura atingiu o extremo. Como é possível ser barrado um cortejo fúnebre sob a ameaça da polícia de intervenção rápida (PIR), helicópteros, cavalos, viaturas para lançamento de água quente e gás lacrimogénio?

Agentes da PIR lançaram gás lacrimogéneo contra os acompanhantes de Hilbert de Carvalho Ganga. Até os polícias normais fugiram e outros se protegeram do gás. Quase 45 minutos parados em frente à paragem do Jumbo com mais de duas mil pessoas à espera de uma decisão para continuar o trajecto em marcha com destino ao cemitério Santa Ana.

Mas lá no Santa Ana já estavam presentes largas centenas de pessoas, entre elas altos dirigentes da UNITA e do Bloco Democrático. Mesmo no cemitério os helicópteros da policia estavam presentes sobrevoando permanentemente em círculo com atiradores especiais armados.

A imprensa estrangeira e nacional cobria o acontecimento, mas a televisão do regime, a TPA, foi expulsa pelos acompanhantes de Hilbert Ganga. Se a policia ordenou que as pessoas fossem de autocarro até ao cemitério Santa Ana, só uns subiram mas a maioria preferiu mesmo marchar com os slogans ‘Zé Dú ASSASSINO’, ‘QUEM MATOU? MPLA ASSASSINO’, ‘EXIGIMOS JUSTIÇA’.

O líder da CASA- CE Abel Chivukuvuku, marchou mesmo até ao Santa Ana, e durante o discurso fúnebre, o politico garantiu apoio institucional e pessoal ao filho de 2 anos do malogrado, Hilbert Carvalho Ganga de 32 anos de idade, natural de Luanda, engenheiro civil, professor, membro do conselho nacional deliberativo da CASA-CE, e que deixa um filho órfão e uma noiva.

Por Telmo Vaz Pereira

wilganga

O que se temia aconteceu, novamente de forma bárbara, sem o mais elementar respeito pela vida humana. Manuel Hilberto Carvalho “Ganga”, dirigente da ala juvenil do partido CASA-CE, foi abatido a tiro quando colava cartazes com o seu grupo, sábado, quando a manifestação programada ainda não tinha saído à rua. Leram bem: QUANDO COLAVA CARTAZES !

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

Os cartazes que a PNA considerou motivo de sobra para o cidadão merecer a morte

Não se sabe ainda quantas mais pessoas foram assassinadas pela polícia em outras cidades e vilas pelo país onde se realizaram manifestações pacíficas, assim como quantas centenas de pessoas estão detidas e desaparecidas. Até este momento, a polícia confirma que deteve 292 pessoas. Lembro que a manifestação de sábado, tinha como objectivo repudiar e protestar pelo assassinato por agentes dos Serviços Secretos (SINSE), dos activistas Kamulingue e Cassule, e exigir que TODOS os culpados fossem julgados, e à qual aderiram outros partidos, além de organizações cívicas.

Um desses partidos, o BD-Bloco Democrático, no seu comunicado de 20.Novembro, referia que a sua decisão de se juntar à manifestação, tem como fim «pretender salvaguardar o processo democrático, a pureza das instituições do Estado de Direito, a solidariedade activa com os familiares directos das vítimas e estancar definitivamente o vício dos assassinatos e perseguições políticas.» Leram bem: ESTANCAR DEFINITIVAMENTE O VÍCIO DE MATAR ! No mesmo comunicado, o BD concluía que «atento ao que se tem passado em manifestações anteriores, adverte que o facto do Presidente da República não estar no país, não retira ao mesmo a responsabilidade dos distúrbios, normalmente provocados pelas forças policiais e suas milícias à civil».

Além disso, vários líderes políticos foram interceptados pela polícia e foi-lhes lançado gás lacrimogéneo, como aconteceu a Samakuva ou Abel Chivukuvuku da CASA-CE e também, entre outros, a David Mendes, antigo presidente da Associação Mãos Livres e líder do Partido Popular que se fundiu com o Bloco Democrático, da oposição extraparlamentar e liderado por Justino Pinto de Andrade.

Mas também activistas cívicos sem nenhuma ligação à política foram perseguidos, como por exemplo o advogado da associação ‘Mãos Livres’, Alberto Zola, que foi interceptado pela polícia, espancado publicamente e levado para uma unidade de polícia. Horas depois de ser solto, voltou a ser interceptado por um polícia que dizia “ter ordens superiores para o deter” e levado para as instalações da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) onde, como habitualmente, foi torturado pelos gorilas do regime.

Porém, já se sabe quem foi que executou a sangue frio o jovem Manuel Hilberto Carvalho “Ganga”, que colava cartazes para a manifestação. O crime foi praticado pela Guarda Presidencial de Eduardo dos Santos. Leram bem: GUARDA PRESIDENCIAL Testemunhas revelam também como o seu companheiro “Ganga” foi abatido, desmentindo a versão da polícia. O deputado da CASA-CE, Lionel Gomes, desmentiu os pronunciamentos públicos da Polícia Nacional segundo os quais não deteve nenhum deputado: “A polícia mente muito. Eu estive detido na 9ª Esquadra das 22h00 às 16h17”.

O país acordou em Estado de sitio, este sábado, depois de a Policia através do seu porta-voz Aristófanes dos Santos ter ameaçado impedir qualquer manifestação. Verificou-se também uma acção altamente bélica com helicópteros da Polícia e da Força Aérea no ar, além dos tanques-blindados das FAA e da PIR no solo, com ordens para atirar em tudo o que mexe. Não parece haver dúvidas de que o Governo da ditadura parece que tem saudades da guerra. Tudo isto por causa da anunciada manifestação pacífica ! Hoje percebemos bem o que significavam as ameaças proferidas dias antes pelo MPLA, ao declarar que a manifestação é uma «aventura irresponsável e de consequências imprevisíveis». Aí estão os resultados dessas ameaças, com a invasão a tiros de sedes de partidos, prisões arbitrárias e assassinatos. ESTA É A VELHA MARCA DO REGIME DO MPLA E DE ZÉ KITUMBA DOS SANTOS, há 34 anos consecutivos no poder, um regime protofascista com métodos de terrorismo de Estado, que permanentemente cala a voz do povo com violência.

Para o regime de assassinos chefiado por Zé Kitumba dos Santos, as únicas manifestações autorizadas são aquelas “espontâneas” organizadas pelo MPLA em apoio ao ‘querido líder’, tal como acontece noutros regimes semelhantes. As manifestações organizadas pelos partidos da oposição ou de associações cívicas – cujo direito está consagrado na Constituição angolana -, para reclamar da má governação, protestar contra o roubo, a corrupção e o crime, são na óptica do bárbaro regime para “desestabilizar” e proibidas, “argumento” muito comum entre os antigos e actuais piores ditadores tais como Pinochet no Chile, Ceausescu na Roménia, Thein Sein em Myanmar (antiga Birmânia), Teodoro O. Mbasongo da Guiné Equatorial e muito amigo de Eduardo dos Santos, Sharif Ahmed na Somália, Kim Jong-un da Coreia do Norte e outros.

Uma coisa é certa: este hediondo regime instalado e chefiado por Eduardo dos Santos há 34 anos, deve e tem de ser levado ao Tribunal Penal Internacional, pelos antigos e actuais crimes que tem praticado ao longo dos anos, que inclui o assassinato de mais de 20 jornalistas nas duas últimas décadas.

Por Telmo Vaz Pereira

JEs maquilhado

«Partido no poder em Angola avisa que manifestação convocada para Sexta-feira é “aventura irresponsável e de consequências imprevísiveis”.»

Os jacarémes chefiados pelo ditador Zé Kitumba dos Santos estão a muscular-se e a ameaçar, sedentos de sangue. Sempre que se anuncia uma manifestação, os jacarémes abrem a boca e mostram os seus terríveis dentes. Eles sabem que são detestados pelo povo de Luanda que não tem água e luz – a suposta ‘Roma’ do regime -, e espumam-se de ódio quando fica demonstrado de forma aberta e publicamente que o povo esclarecido está farto deles, e que é justamente o contrário do que eles dizem na sua fétida propaganda. Não admitem nem consentem ver as ruas transformadas num mar de gente a protestar contra a ditadura, a corrupção, o roubo, o crime, a má governação. Se necessário for, retaliam e esmagam o povo que dizem defender, como fizeram aos dois activistas por eles assassinados – Kamulingue e Cassule, e tantos tantos outros desde Maio de 1977.

Os jacarémes desempenham bem a sua tão velha tática, igual a de todas as ditaduras e de que eles são mestres: criar um prévio ambiente de grande tensão, com ameaças constantes e antecipadas que vão subindo de tom para aumentar o clima de medo e de terror, numa tentativa de desmobilizar o povo para que a manif não se realize, ejaculando para o efeito declarações claramente intimidatórias.


É nestas ocasiões que a máscara dos jacarémes “democratas” lhes cai até ao chão. Até se “esquecem” que a Constituição que eles aprovaram mas não respeitam porque é só para ‘inglês ver’, consagra o direito de o povo se manifestar… Democracia ? O que é isso ?

O MPLA nunca se converteu à democracia, porque mantêm o espírito de movimento armado que obteve uma vitória militar. Na sua óptica arrogante, todos os partidos se devem submeter ao seu poderio e ‘não fazer ondas’, visto que entendem que são donos do país, como se da sua coutada privada se tratasse. A UNITA hoje, nada tem a ver com a UNITA de Savimbi em que este teimosamente voltou à guerra após as eleições interrompidas de 1992. A UNITA hoje, apesar de todas as tentativas de o MPLA diabolizar, é um partido desarmado e derrotado militarmente, e que se adaptou aos desafios democráticos como partido civil e com uma nova direcção, até porque contrariamente aos quadros do MPLA que viveram e se formaram nos piores regimes ditatoriais comunistas, eles sempre tiveram a experiência democrática vivida em países ocidentais que os apoiavam. Quanto ao MPLA, mantém-se armado porque controla as Forças Armadas e a Polícia que governamentalizou, num regime construído na esteira do modelo de partido único, onde Partido e Governo se misturam sem fronteiras, não se sabendo onde acaba o Partido e onde começa o Governo.

O facto é que o MPLA já se desmascarou, ao proferir ameaças com antecedência, demonstrando a sua prévia vontade em reprimir violentamente e tal como dizem, com «consequências imprevisíveis», deixando transparecer de que são capazes de tudo. Como anteriormente tem acontecido, irão infiltrar os seus gorilas na manifestação como provam as fotos e os vídeos de manifestações anteriores – e desta vez provavelmente armados para iniciarem um tiroteio no meio dos manifestantes, que “justifique” uma acção armada de envergadura que irá certamente provocar alguns mortos e, posteriormente, acusar a UNITA de ser o causador das mortes. O grande sonho do MPLA, é arranjar pretextos para excluir o maior partido da oposição do processo democrático, ilegalizando-o, por forma a que continuem com a corrupção, com o roubo, com o crime e a má governação, sem o empecilho de uma oposição forte que exerça uma firme vigilância.


A sociedade angolana quer a verdadeira Justiça contra os assassinos de Isaías Sebastião Cassule e Alves Kamulingue, os que os executaram a sangue frio e, principalmente os que mandaram matar e estão escondidos na sombra do hediondo regime. E é para isso que a manifestação foi organizada e serve: para que se exija em voz alta a condenação de todos os culpados, e não apenas dos ‘bodes expiatórios’ como o regime se prepara para fazer.

Por Telmo Vaz Pereira