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MVP o Papoite

A captura de mais uma dezena de jovens angolanos pela polícia, desta vez por assumirem a sua solidariedade para com professores em luta na Huíla, revela, mais uma vez, que a nossa juventude precisa – e como! – de quem goste dela, sem ser para sacrifícios piores do que parecia estar destinado a Isaac, filho de Abraão.

Diz o dito popular que “quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.” E veste pele de lobo, tão bem assente como o mais caro dos seus smokings, o poder instituído que, dantes, acumulou, a meias, as medalhas da monstruosa guerra civil, onde ambos os contendores não olhavam a meios para a luta de poder, mobilizando coercivamente jovens para a morte. Medalhas acrescidas do holocausto dos idos 70. Galões dos esquemas que criaram a classe, por cima da dos órfãos, das viúvas e dos mutilados de guerra, dos bilionários de guerra. Esquemas esses que alicerçaram a lógica do “salve-se quem puder”, transformando Angola jovem numa legião de bufarinheiros em que se vende e compra bugigangas ao vizinho, sem perspectivas claras de formação e de trabalho.

Com um sorriso farisaico nos lábios, os muatas dizem àcerca disto: “O angolano é desenrascado!”

Alanzoam igualmente aos quatro ventos que a contestação juvenil vem de meninos cábulas que não tiram boas notas, desdenhando do facto de as causas dos protestos estarem na luta pelo passe social ou por mudanças profundas na ordem política.

Os jovens capturados perto do Ministério da Educação, como não davam azo a nenhuma acusação plausível, foram mais uma vez um alvo de sequestro-relâmpago para abandono em lugar ermo.

Ao mesmo tempo, pairava e ainda paira hoje a ameaça de despedimento de milhares de jovens professores, que ainda estão debaixo de regime probatório como funcionários, pois têm menos de 5 anos ao serviço do Ensino Público. Se a ameaça se efectivar, não será pela avaliação da qualidade do seu desempenho, como prevê a lei. Será – isso sim- como retaliação a uma defesa de direitos que passou pelo recurso legal à greve.

Todas estas realidades revelam a política anti-juvenil do regime, para quem jovens exemplares são somente os ociosos e apaparicados moços moças do “Big Brother” Esses, sim, gozam de toda a notoriedade e destaque público, como se a sua postura alienada e alienante fosse a trave mestra de um sistema educacional a seguir.

Chefias, é esse o relacionamento que pretendem manter com a juventude angolana? Com todo o respeito, ponham a mão na consciência e, depois, lavem-na com água e sabão, como o Pedrito do Bié, não como o (de má memória) Pôncio Pilatos!

Manuel Victória Pereira

 

 

Pedrowski Teca

 

Pretória, África do Sul – O Continente Africano foi pela primeira vez o anfitrião da “plataforma de inovação digital” do maior jornal inglês, The Guardian, designado ACTIVATE, onde vários jornalistas, editores, analistas/colunistas, políticos, bloggers, actores, empresários e muitos outros profissionais influentes e de calibre mundial, reuniram-se para debaterem e trocarem experiências sobre como as novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) têm mudado o mundo.

Foi de certeza um grande privilégio, sendo um modesto jovem activista cívico Angolano formado em Jornalismo e Tecnologias de Comunicação, poder participar e partilhar a experiência Angolana numa plataforma onde grandes personagens do jornalismo mundial, como o Alan Rusbridger, editor-chefe do jornal The Guardian News & Media, e muitos outros profissionais do Continente Africano e do mundo, que reuniram-se em torno da análise de vários aspectos e impactos mundiais da mídia e da internet aberta.

A conferência “Activate”, sendo uma “plataforma de inovação digital” do The Guardian News & Media, tem sido organizado em vários continentes e pela primeira vez, realizou-se uma versão Africana.

O acto ocorreu das 8 horas às 18 horas da Quinta-feira, 26 de Junho de 2014, no centro de convenções “The Forum – Turbine Hall”, localizado na rua Ntemi Piliso, 65, na cidade de Johannesburg, República da África do Sul.

CASOS PERTINENTES

Dando um carácter Africano ao acto, o evento foi moderado pela jornalista de difusão e colunista sul-africana, Nikiwe Bikitsha, e teve como orador principal o Dr. Bitange Ndemo, ex-Secretário Permanente do Ministério da Informação e Comunicação do Quênia e actual director da Aliança para Internet Accessível (Alliance for Affordable Internet).

O Dr. Bitange Ndemo partilhou com os presentes os desafios que teve, como membro do governo queniano, em garantir a accessibilidade e o uso da internet e das novas TICs naquele país à ponto de ser considerado o melhor no Continente Africano e um grande competidor à nível mundial.

Para Ndemo, o maior obstáculo em África quanto às novas TICs, são as legislações e a falta de vontade política dos vários líderes Africanos, porque “inexplicavelmente, o know-how” é adquirido naturalmente pelos usuários que sem treinamentos formais, o Continente testemunhou um aumento inimaginável de número de usuários de novas TICs.

A ocasião foi recheada de várias sessões de paineis de debates intercaladas, apresentacões de projectos inovadores que involviam o uso das novas TICs, tendo a moderadora Nikiwe Bikitsha, realizada a grande entrevista com o editor-chefe do The Guardian News & Media, Alan Rusbridger, sobre a sua experiência no contacto directo com o ex-consultor da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA), o jovem Edward Snowden, que vazou milhares de informações confidenciais ao seu jornal, especificamente em como os EUA espiavam os países à nível mundial, incluindo os seus presidentes, empresários e milhares de pessoas influentes.

De facto, foi um grande privilégio ouvir a experiência e os desafios do The Guardian, em como as grandes potências mundial, EUA e Reino Unido, tentaram censurar, intimidar o jornal e influenciar as suas fontes de financiamente afim de impedir a publicação das informações vazadas por Edward Snowden.

Alan Rusbridger revelou que ao entregar-lhes as informações, Edward Snowden não solicitou nenhuma compensação monetária, mas que preocupava-se somente em ter a garantia de que as informações seriam divulgadas porque tivera comprometido a sua liberdade e a própria vida em prol da divulgação de uma verdade de carácter mundial.

Rusbridger acrescentou que o jornal The Guardian e a maior preocupação de Snowden foram protegidas e satisfeitas pelo facto do jovem ter difundido as mesmas informações em maiores órgãos de comunicação social em três continentes, tornando inútil a actuação de censura e intimidação ao maior jornal inglês.

Para além do caso Snowden, a entrevista também tocou na diferença entre jornalistas e activistas cívicos, tendo Rusbridger esclarecido a incompatibilidade das duas funções, sendo que um jornalista é um mediador que deve aderir a ética da profissão, como a isenção e a publicação de factos verificados, enquanto um activista cívico encontra-se sempre num extremo, defendendo uma causa e acrescentando pontos de vista (opinões) à factos ou situações.

Os palestrantes apresentaram vários projectos inovadores ligados às novas TICs, tendo se destacado o projecto de uso de drones (aviões espiões pequenos) para a cobertura de eventos em grandes ângulos, como no caso de desastres naturais e manifestações populares; O projecto de um jovem sul-africano que grava contéudos (livros) escolares em cartões SIM usados e que permite a leitura de matérias em telemóveis por parte de alunos e estudantes; O projecto dos fârmacos que situam-se num centro onde através da internet (website e redes sociais) e telemóveis (chamadas de voz e SMS) ajudam as populacões quando ao devido uso de receitas ou prescripções médicas.

CASOS: ANGOLA E MOÇAMBIQUE

Antes do começo na conferência, tive a oportunidade de interagir com vários jornalistas e activistas cívicos que mostraram-se interessados em saber sobre o exercício do jornalismo e activismo cívico em Angola. No entanto, os profissionais de vários países admitiram saber “muito pouco” sobre o que tem acontecido em Angola por falta de plataformas de comunicação social Angolanas que divulgam informações nas línguas inglesa e francesa.

Durante a conferência, no painel que debateu sobre os novos modelos de jornalismo e mudanças nas formas de consumo de informações, encontrava-se o jornalista Moçambicano, Erik Charas, fundador e director da Charas LDA, propritária do jornal “Verdade” naquele país.

Entusiasmado, Erik Charas partilhou com a audiência em como as novas TICs são usadas em Moçambique e os desafios que os jornalistas e activistas enfrentam naquele país.

Charas falou de como em muitos países as legislações estão a ser actualizadas afim de garantirem a censura e criminalização das actividades de usuários de novas TICs. Acrescentou também que actualmente intensificaram-se as intercepções ilegais em contas de usuários de internet e telefones; Em defesa do regime em Moçambique, criou-se um grupo de usuários anónimos com o propósito de desinformarem as pessoas e desviarem os debates de assuntos importantes para assuntos banais que não constituem críticas ao regime Moçambicano.

O jornalista lamentou que o seu país está em ameaça de uma outra guerra civil e nota-se um distanciamente da mídia internacional neste facto.

Foi durante o painel de Charas que eu, Pedrowski Teca, intervi concordando com o Charas de que os maiores órgãos de comunicação social do mundo fazem pouca cobertura noticiosa das situações que realmente ocorrem em países de expressão da língua portuguesa, principalmente países Africanos.

No olhar de Erik Charas, notei um sorriso de satisfação quando interrompeu-me confirmando a irmandade e a similaridade de acontecimentos nos nossos países.

Concordando com o Dr. Bitange Ndemo do Quênia, sobre as legislações sendo um dos maiores desafios das novas TICs, dirigi-me ao jornalista que apresentou o projecto de uso de drones para a cobertura de eventos em grandes ângulos, perguntando-o se no seu país a legislação previa tais actos por parte de jornalistas e quais eram as implicações na possível violação da privacidade de indivíduos ou colectivos e na possível ameaça de segurança nacional no uso de drones domésticos.

Aproveitando a oportunidade, expliquei à audiência de que em 2011, inspirados pelos protestos no norte de África através das novas TICs, a juventude Angolana levantou-se protestando contra a longividade do ditador José Eduardo dos Santos no poder, e que mesmo naquela altura, o regime Angolano tentou impor uma lei que criminalizava as mais básicas liberdades de expressão dos cidadãos na internet. Acrescentei que o actual Código Penal Angolano está a ser revisado e actualizado afim de penalizar muitas das actividades de usuários das novas TICs.

A conferência “Activate Johannesburg 2014”, sendo a primeira do género no Continente Africano, provou ser uma plataforma importante e eficaz de interação dos jornalistas do Continente Berço, com profissionais de outros continentes.

MINHAS CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

De certeza que a iniciativa do jornal The Guardian é de louvar, mas os profissionais do Continente Africano devem cessar do perpétuo hábito de esperar com que “os outros” sejam sempre os pioneiros de tais iniciativas no Continente. A questão é quê reações surgiriam se Angola realizasse um “Fórum do Jornal de Angola” na Inglaterra? Isto é para dizer que para alcansarmos a união e inclusividade genuina no Continente Africano, temos de ser os pioneiros das nossas acções.

- Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), particularmente Angola e Moçambique, têm regimes políticos que se empenham numa luta árdua de branqueamente da realidade dos seus respectivos países, manipulando as informações, dando a impressão de que são “países das maravilhas” com as “economias que mais crescem à nível mundial”, enquanto as realidades são totalmente opostas no terreno. Há a necessidade urgente de criação de plataformas de divulgação de notícias em línguas mais faladas mundialmente, porque o mundo não faz ideia do que realmente acontece nos PALOP.

 

Pedrowski Teca é um dos rostos mais visíveis no denominado MRA (Movimento Revolucionário Angolano) e desde o seu regresso da Namíbia tem estado muito empenhado na luta pelos direitos e liberdades civis fundamentais. Foi um dos proponentes da manifestação (abortada… de novo!) do pretérito 27 de Maio e fez uma narração excelente e minuciosa no detalhe acerca do sucedido nesse dia. O Makaangola já publicou um artigo acerca da manif e o Jornal Agora voltou a dar-lhe destaque de capa, como já tinha feito com a manif do dia 19 de Setembro de 2013.

O texto do Pedrowski foi publicado em forma de nota na sua página de facebook e com a sua anuência o reproduzimos aqui no blog da Central, retirando-lhe apenas o capítulo inicial, intitulado “Bastidores”, no qual aborda algumas quezílias internas que quase comprometeram a manifestação. O autor assentiu à “tesourada”, mas quem quiser ter acesso ao texto completo pode fazê-lo através dos links 1 ou 2.

A narração é tão arrepiante que quase consegue colocar o leitor na pele do autor e fazer com que sinta na sua própria carne cada golpe desferido contra estes lutadores da liberdade.

Reproduzimos então o texto a partir do dia da Manif:

O dia 27 de Maio de 2014

No dia anterior, dormi preocupado porque numa clara indicação de que haveriam de reprimir a manifestação, a Polícia Nacional de Angola vedou o Largo da Independência, e quando acordei, as notícias e comentários nas redes sociais, principalmente no Facebook, transmitiam medo e covardia pelo forte aparato de agentes da polícia, PIR, SINSE, milícias e agentes à paisana fortemente armados e ordenados a reprimirem qualquer concentração de pessoas no local.

Tive que reiterar no Facebook que aquela não era a primeira vez que aquilo tivera ocorrido connosco e que sem falta estaríamos dentro do Largo da Independência às 15 horas e ponto.

Cedo, o meu mano Adolfo Campos ligou-me propondo que nos desdobrassemos já para fazer o reconhecimento da área, para além do “team” que já estava no local desde as primeiras horas do dia. Horas depois, estavamos no Primeiro de Maio e rondamos cerca de duas vezes em volta do Largo da Independência, indo depois para a zona do Mercado do São Paulo.

Realmente o forte aparato policial no Largo da Independência era de arrepiar cabelos mas para um revolucionário, promessa feita, é promessa cumprida.

No São Paulo, estacionamos o carro e também deu para notar agentes à paisana (milícias?), o que nos forçou a desviar do percurso até encontrarmos um “cybercafé”, onde denunciamos a tentativa de aliciamento dos agentes do regime que tudo faziam para abortarmos a manifestação, e postamos o seguinte: “Foi com grande choque que um tal de senhor Jelson, usando o número +244 946 387 495 ligou-nos dizendo que há VAGAS na SONANGOL para os membros do Movimento Revolucionário que falam as línguas inglesa e francesa. Acrescentou que o salário a ser pago será de U$D15.000.00 à U$D18.000.00 (quinze à dezoito mil dólares) por mes (…)”.

Passada uma hora no cybercafé, voltamos ao carro pensativos sobre onde iriamos guardar o carro, sendo que de certeza seriamos detidos por um periodo que nos era incerto. Fomos ao centro da cidade onde encontramos um amigo do Adolfo Campos, com quem decidimos deixar o carro, mas antes, ele teve que nos levar até o Largo da Independência para a manifestação.

O jovem Manuel Nito Álves vinha do Município de Viana com o seu grupo e ligava constantemente para saber onde estavamos e se assegurava de que estaríamos no local às 15 horas e ponto.

Após ter feito um compasso de espera pela hora da manifestação, demos umas voltas e quando faltam cerca de 20 minutos, começamos a nos dirigir em direcção ao Largo, quando notamos que a polícia de trânsito esteve a impeder com que todos os táxis se aproximassem do local da manifestação. Concluimos que as autoridades pensavam que os manifestantes viriam de táxis e que impedindo-os, evitaria a chegada dos mesmos ao Largo, e se arriscassem a descer pelo menos à 100 metros do Largo, os agentes à paisana, milícias e policiais iriam prontamente actuar contra eles.

Não se permitia que as pessoas parassem, muito menos se aglumerassem nos arredores do Largo da Independência, e todo jovem que carregava pastas era revistado, na tentativa de se encontrar qualquer material de propaganda de protesto. Os álvos fáceis eram os jovens que vestiam tshirts conotados com os manifestantes.

Chegamos ao Largo da Independência e fizemos quatro voltas ao mesmo enquanto esperavamos pelo grupo do Manuel Nito Álves que vinha de um mini-autocarro em direcção ao local. A situação estava extremamente tensa e felizmente os agentes da polícia e outros estavam a procura de manifestantes peões e nem sequer deram conta do carro onde estavamos, que fez quatro voltas ao Largo, e graças aos semáforos que nos auxiliaram no compasso de tempo.

Eu ficava desesperado e queria logo sair do carro e invadir o Largo mas o Adolfo Campos pediu que eu tivesse calma e minutos depois, isto na quarta volta ao Largo, Manuel Nito Álves confirmou que haviam chegado e que podiamos agir em conjunto.

O assalto ao Largo da Independência

O clima estava muitíssimo tenso no Largo e a tensão e as expectativas aumentavam quando eram 15 horas porque era a hora marcada para a concentração.

Tendo se esgotado a minha paciência, com a confirmação da chegada dos manos de Viana, mandei parar o carro em direcção ao braço direito da estátua de Agostinho Neto. Numa total distração da Polícia Nacional e outros agentes da segurança, Adolfo Campos e eu saímos do carro e pulamos o certo, entrando assim no Largo da Independência. Trouxemos connosco um megaphone e pedi ao Adolfo para que usásse-o para chamar o chefe daquela operação policial no local.

O nosso rompimento da barreira policial no Largo da Independência conduziu todas as atenções à nós, desde os peões aos automobilistas. Muitos admirados e outros gritando pela nossa coragem em desafiar os agentes da Polícia Nacional, que por sinal eram fisicamente mais altos e grandes que nós.

As primeiras palavras de Adolfo Campos no megaphone atraiu a atenção do “Comandante Frank” da Polícia de Intervenção Rápida, que é um agente que marca sempre presença nas manifestações,  veio correndo ao nosso encontro, dando sinal aos seus colegas para que lhe auxiliassem a nos retirar do Largo. Enquanto o Frank aproximava-se de nós, eu gritei para ele que estavamos na paz e que queriamos falar com o chefe da mesma operação. Frank chegou perto pegando Adolfo e eu dizendo: “olha, podemos conversar mas tem de ser fora do Largo”. Enquanto insistiamos que não iriamos sair do Largo para conversarmos, o grupo de Viana de Manuel Nito Álves invadiu o Largo a partir do lado da mão esquerda da estátua de Agostinho Neto, e do mesmo modo, muitos agentes da polícia e não só, cairam violentamente por cima de nós. Seguramo-nos uns aos outros enquanto eles batiam-nos com porretes (bastões) e havia trocas de palavras enquanto muitos de nós gritavam: “violência não! violência não!”.

Foi naquele primeiro ataque violento da polícia que o nosso mano David Saley  (na foto) sofreu um golpe brutal nas costelas e que o impossibilitava daí em diante a mobilidade normal.

Após cerca de 10 minutos de resistência pacífica, enquanto a polícia brutalmente nos espancava, fomos arrastados com purretes, pontapés, socos, chapadas e todo tipo de agressões físicas possíveis, para dentro de um carro da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) de marca IVECO. Empurraram-nos para dentro do carro e eramos 15 jovens. Pela janela, vimos outros jovens a serem espancados, inclusive o jornalista da Rádio Despertar que estava a fazer o seu trabalho no local. Dentro do carro, gritavamos palavras de protesto quando um outro grupo de jovens invadiu o Largo gritando: “libertem os nossos irmãos”, mas que também foi brutalmente expulso.

Era desnecessário e impensável o uso de gás lacrimogênio ou mesmo de armas ou pistolas num espaço que se pareceu pequeno pelo número elevado de agentes da segurança que se misturaram com os jovens manifestantes e os populares que apenas assistiam a cena passando. Mas um policial disparou gás lacrimogênio no veículo em que nos encontravamos. A situação parecia sair fora de control e deram ordens para que nos levassem para longe do Largo. Assim sendo, asfixiados com alguns policiais de intervenção rápida naquele IVECO fechado, fomos levados até à Unidade da Polícia de Intervenção Rápida. Ao longo do caminho, gritamos pelas janelas atraindo pessoas: “Zé Dú fora”. Postos dentro da unidade da PIR, começassamos a gritar: “a polícia ganha mal, UGP (Unidade da Guarda Presidencial) ganha bem”.

Sessão de tortura na unidade da Polícia de Intervenção Rápida

Estavamos inconsoláveis e revoltados. Gritavamos e discutiamos com os policiais, repudiando a violência com que fomos submetidos e da ilegalidade das detenções. Com ameaças e mais espancamentos, tentavam em vão nos fazer calar. O jovem Raúl Lindo Mandela acabou por desmaiar dentro do carro. Vendo isso, gritavamos que precisavamos de água para ressuscitar o companheiro. Notando o jovem desmaiado, vi o medo na cara dos policiais da PIR, que negaram providenciar água. Ouvi um deles a dizer que por estarmos asfixiados, o jovem iria piorar caso o atirássemos água.

Eu estava de pé trocando palavras com o policial motorista que simplesmente afirmava que apenas estavam a cumprir ordens. Sentado atrás do motorista, estava o David Saley reclamando das costelas, dizendo que estavam partidas pela imensa dor que sentia e que mal conseguia sentar.

O carro onde estavamos tivera estacionado exactamente frente à uma parada de aproximadamente 300 ou mais agentes da PIR em pronta prevenção. Pelas janelinhas vimos eles a nos observarem. Haviam fileiras de polícias de choque (anti-manifestações), caninas, polícias montados a cavalos e outros que em prenvenção na unidade, aguardavam ordens para sairem às ruas e reinforçassem a segurança monstruosa que já se encontrava no Largo da Independência para reprimir a manifestação. Perguntamo-nos como é que jovens indefesos e pacíficos eram tão temidos por um regime que tem tudo para elimanar-nos num piscar de olhos.

Estando no carro, de repente surgiram novas ordens superiores para nos retirarem os telemóveis. Subiram ao carro vários agentes da PIR que obrigaram-nos com chapadas e purretadas a entregarmos os telemóveis, insistindo primeiro que retirássemos as baterias. Feita a recolha dos telemóveis, decidiram revistar os bolsos de todos, retirando tudo. Após a revista dos bolsos, sempre com purretadas e bofatadas, decidiram que deviam também revistar os nossos calçados, meias e as partes íntimas. Alguns sem darem importância, pisavam e revistavam o Raúl Mandela que se encontrava caido dentro do carro. David Saley angustiadamente se contorcia de dores e viu-se revistado brutalmente e lançou algumas palavras aos agentes que sem pena começaram a golpeá-lo enquanto eu tentava impedi-los defendendo que ele estava com as costelas partidas. Não tive êxitos e os agentes da PIR investiram vários golpes directamente nas costelas de David Saley. Terminada a revista, sairam do carro, trancando-nos naquele sufoco e indo se reunir no lado de fora, recebendo mais ordens superiores pelo telefone. Enquanto isso, eu insistia na troca de palavras com o motorista e os outros jovens discutiam com os agentes que estavam por fora do carro.

Passados alguns minutos, vieram chamar o motorista, que alegou que não devia sair do carro porque ali haviam duas armas. Disseram-lhe para pegar as armas e foi juntar-se aos seus colegas. Uma equipa de agentes civis nos filmavam e tiravam fotografias.

Após a saída do motorista, começaram a fechar todas as janelas e portas do carro e apercebemo-nos que iriam nos intoxicar com gás pimenta.

Vieram dois agentes com frascos de gás pimenta e aproveitando-se de algumas aberturas na porta traseira do veículo, começaram a nos intoxicar. O outro abriu a janela na lateral, de onde eu estava e pôs-se a esvaziar o gás em nós. Começamos a gritar, chorar e tossir enquanto eles fechavam a porta e as janelas para que ninguém apanhasse ar fresco. Para além de causar tosse, o gás pimenta ardia nos olhos e na pele, principalmente por eu estar em contacto com raios solares que reflectiam do vidro da janela fechada.

O jovem Manuel Nito Álves teve a ideia de que deviamos urinar em nossas camisolas e inalar o cheiro da urina, cujo ácido iria neutralizar o efeito do gás pimenta. Alguns seguiram o conselho e outros mais tarde vestiram as máscaras de gás que os agentes haviam abandonado dentro do carro.

Diante de gritos e choros, os policiais olhavam para nós pelas janelinhas do carro proferindo ameaças de que seriamos fuzilados.

O efeito do gás pimenta começou a passar mas o calor era infernal e os nossos olhos ficaram avermelhados enquanto transpirávamos no sufoco. O gás pimenta serviu para nos neutralizarem.

A porta traseira do carro, onde nos encontravamos, estava danificada a ponto que havia sempre um agente da PIR a forçá-la a fechar. Notamos que trouxeram um outro carro idêntico e deduzimos que a intenção era de nos transferir para aquele carro que tinha uma porta em melhores condições. Estavamos errados porque logo que  abriram o carro, trouzeram duas pessoas barbaramente espancadas e com os rostos vendados com as suas próprias camisolas. O primeiro foi trazido à pancadas e forçado a entrar no carro com os olhos vendados. Assim que retiraram-lhe a camisola do rosto, alguns reconheceram-lhe como sendo um jovem do braço juvenil (JPA) da coligação política CASA-CE. O segundo a ser trazido foi o mais velho Manuel de Vitória Pereira, dirigente do partido político, Bloco Democrático.

Consternados, gritavamos para pararem de bater neles e de rosto vendado, o mais velho Pereira não conseguia subir no carro à porrada, de modos que os agentes decidiram dar-lhe choques eléctricos sucessivos até que alguns jovens que estavam perto da porta traseira do carro decidiram pegar os braços do mais velho e auxiliá-lo a entrar no carro. Gritavamos: “vão matar o mais velho! Não façam isso, ele é doutor”. Nem com isso eles pararam a tortura.

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Lamentei e me questionei como era possível o mais velho ser detido e confundido com jovens manifestantes pela segunda vez. Ele foi detido e julgado connosco aos 19 de Setembro de 2013 quando tentamos realizar uma manifestação “contra as injustiças sociais em Angola”, um dia antes do começo do Mundial de Hóquei em Patíns em Angola (Luanda e Namibe).

Voltaram a trancar a porta e com o rosto desvendado, o jovem da JPA informou-nos que estava simplesmente a passar quando, indo buscar o carro dele nas bombas, os manifestantes invadiram o Largo e foi espancado e detido por tentar fotografar o acto de violência.

A viagem forçada para Catete, Província do Bengo

Depois de terem trazido os dois detidos, o número aumentou para 17 pessoas. A sessão de torturas na PIR durou quase duas horas e finalmente decidiram levar-nos para um outro local.

Pensavamos que seriamos levados para uma das comarcas penitenciárias ou para sermos fuzilados, quando trouxeram um caminhão da PIR coberto com uma lona azul. Fizeram com que o caminhão estacionasse reversamente em direcção à porta traseira do veículo onde nos encontravamos. Munidos de purretes (bastões), vários agentes da PIR abiram a porta do veículo e forçaram-nos a sairmos um-por-um para subirmos ao caminhão.

Com insultos e ameaças, obrigaram-nos a sair do carro, e cada um que saía tinha de se apressar a subir no caminhão porque naquele pequeno trajecto, os agentes da PIR brutalmente batiam-nos até conseguirmos subir ao caminhão. A distância era pequena mas tornava-se longa pela “surra” dada pela PIR. Alguns sofreram mais porque estavam gravemente magoados.

Dentro do caminhão, obrigaram-nos a deitar no chão com barrigas e rostos para o chão afim de não identificarmos os agentes que nos estavam a bater. O sol que fazia aquecia a lona azul do caminhão e o sufoco parecia ter piorado porque desta vez, obrigaram-nos a nos amontoar uns por cima de outros como se fóssemos cadáveres.

Foi desumano viajar para uma outra provincial em tais condições e imposições desumanas. No caminho, fizeram várias paragens. Voltaram a nos revistar os bolsos e encontraram alguns dinheiros. Receberam até os aneis, afirmando que onde iamos, aquelas coisas não seriam necessárias.

Por ordens superior, o mais velho Pereira foi abandonado com os seus pertences na ”Ponte Amarela” do Município de Viana, enquanto nós fomos levados para a outra província (Bengo).

Um dos aspectos mais marcantes na negativa foi que ninguém devia ousar tossir, caso contrário era espancado com purretes e pontapés. Um dos manifestantes que estava gravemente golpeado, insistentemente pedia água e batiam nele a ponto de ele afirmar que “podem me matar mas eu quero água”. Disseram nele para urinar nas mãos e beber o seu próprio “mijo” para saciar a cede. Eu estava deitado ao lado de um dos agentes que passou a viagem toda com os pés (botas) pisadas nas minhas costas e a cerca de cada dez minutos batia-me nas costas com purrete.

Houve várias paragens e um outro grupo de jovens manifestantes foi acrescido ao nosso pelo caminho e ficamos mais de vinte jovens detidos.

Chegando em Catete, a PIR chamou a polícia local. Ainda de barrigas e rostos para baixo, tentaram nos contar mas não conseguiam porque estavamos amontoados uns-aos-outros, a ponto que nos obrigaram, na mesma posição, levantarmos as mãos para uma nova contagem.

Terminada a contagem, mandaram-nos sair um-por-um e fomos novamente fotografados e filmados cada um com a sua camisola ou material de propaganda de protesto. Receberam todas as camisolas de protesto e decidiram devolver-nos os nossos telemóveis mas não conseguiram fazer a devolução do dinheiro apreendido.

O nosso abandono pela PIR em Catete foi chefiado pelo Comandante “Pombal”, o mesmo agente da Polícia Nacional que me havia detido na marcha que pretendiamos realizar a partir do Cemitério da Sant’Ana, em Luanda, aos 30 de Março de 2013. Coincindentemente, voltamos a nos encontrar no funeral do nacionalista Uanhenga Xitu em Calomboloca, Bengo, onde convencidamente tentou me influenciar a deixar de participar em manifestações, alegando que alguém nos pagava e mandava-nos protestar.

Sem sabermos o paradeiro do nosso dinheiro, o comandante Pombal, já com pressa para regressar para Luanda, incumbiu a responsabilidade de anotar as queixas à um dos oficiais da Polícia Nacional de Catete. Gesto que achamos desnecessário e perda de tempo.

Abandonados às 20 horas, fomos até às bombas de combustível de Catete onde uma senhora solidarizou-se connosco e comprou-nos algumas garrafas de água.

Ligamos os telemóveis e começamos a fazer chamadas para o nosso auxílio. Graças à Deus apareceu um senhor que conduzia uma carrinha, e que resolveu nos levar até Luanda.

Em Luanda, fizemos os contactos e levamos o mano David Saley, que se encontrava muito grave, reclamando sobre fortes dores nas costelas e não conseguia andar. Fomos em várias clínicas mas não tinham como ajudar porque não haviam os serviços de ontologia (?) para a realização de raio-x ao paciente. Felizmente dirigimo-nos para uma clínica nos Congolenses onde o David Saley foi assistido com urgência e recuperou de maneiras que já conseguia caminhar sozinho após cerca de duas ou três horas.

Para socorrer o David, tivemos o apoio da liderança da JPA e da CASA-CE pela pessoa de William Tonet, que ouvindo o nosso apelo, dirigiu-se ao nosso encontro.

Enquanto na clínica, os manos Mabiala Kienda, Carbono Casimiro, Rui Manuel “Shorty” e Mona Dya Kidi compareçeram com farneis para os manifestantes.

Assim sendo, desdobramo-nos na transportação de todas as pessoas até as suas residências, e eu apenas cheguei em casa quando já passavam das duas horas da madrugada do dia 28 de Maio de 2014.”

 

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Elinga 02

Não quero fazer deste artigo um texto meramente pessoal, devaneando sobre a importância do espaço Elinga na minha juventude e na formação do adulto que sou hoje. É muito difícil encontrar a bitola a usar para medir a proporção de Elinga que jorra no meu sangue a cada ribombear do meu coração e por isso irei reduzir-me à insignificância da contemporaneidade que represento e mergulhar nas páginas de História que os interesses representados pelos “acumuladores primitivos de capital” querem rasgar deste livro chamado Angola, como já fizeram com tantas outras, deixando-o mutilado na sua incompletude, irremediavelmente, permanentemente mutilado.

Nos pequenos retalhos que fui recuperando dessas páginas ao longo dos últimos anos com o pessoal da Campanha Reviver levada à cabo pela Associação Kalu, apercebi-me da enormidade que podem representar algumas paredes gastas e escadarias periclitantes, e do quanto prescindimos ao reduzi-las a um monte de entulho. Não falo só do Elinga, eventualmente o lugar mais transversal de Luanda, o único onde podem coabitar os empertigados com os maltrapilhos, os da urbe com os mussekados, os locais e os estrangeiros, os artistas e os banqueiros, enfim, o mosaico completo de todas as classes e subclasses que constituem a nossa sociedade, mas também do Challet, da Biker, da Casa do Óculo, da Fortaleza de S. Miguel, do Palácio de Ferro, da Casa de Alfredo Troni, da Livraria Lello, da Estação de Caminhos-de-ferro da Cidade Alta, do Grande Hotel, da Rua dos Mercadores, dos 14 sobrados que ainda não foram vítimas da fúria demolidora do mercado imobiliário (sorte que não teve o Mercado do Kinaxixi) e de todos os outros edifícios e sítios que foram classificados por alguma razão. Sobre cada um desses edifícios se poderiam contar inúmeras “coisas de sonho e de verdade” e essas “coisas” têm um outro efeito quando são contadas dentro dos próprios espaços que as albergam.

Vou no entanto cingir-me ao Elinga que me parece, de todos, ser o mais consensual no que concerne ao sentimento de perda, pelo simples facto de termos construído ao longo dos anos uma ligação emocional íntima (pois vivida na primeira pessoa) com essa magnífica peça do nosso património histórico. Mais facilmente seremos movidos a esboçar um gesto de resistência que seja para salvar o Elinga do que para salvar o Challet que certamente a esmagadora maioria dos kaluandas nunca sequer ouviu falar, apesar de ser o edifício adjacente ao Elinga.

A análise resumir-se-á por isso à argumentação da lógica (?) por detrás da desclassificação e alienação do edifício que pertence à memória coletiva do povo angolano, protagonizada pelo Ministério de “tutela”, justamente aquele cuja missão é zelar por ele.

Antes de apresentar a documentação que irá expôr o desrespeito da Ministra da Cultura pel@s cidad@s que pretende representar, permitam-me que lhes introduza a uma proposta de projeto alternativo para o reaproveitamento do espaço tal qual ele está, ou seja, sem violar a integridade física do edifício, submetendo-o, no máximo, a obras de restauro. Ela foi desenhada por Luca, um arquiteto italiano, professor e funcionário das Nações Unidas em Angola, chegou à mesa da Ministra, foi conscientemente ignorado em benefício do da Imogestin, um edifício ultra-moderno segundo a maquete, mas incapaz de conviver com a História.

Elinga_space Luca 01Elinga_space Luca 02Elinga_space Luca 03

Esta maquete é partilhada para calar aquelas vozes que dizem que os detratores só sabem criticar, não sabem edificar. Para aqueles que argumentando que o Elinga se tornou um antro de drogas e que atrai os putos de má índole que pululam ali à volta, agitam a bandeira da proposta da Imogestin como a única alternativa viável para a inversão do quadro, minimizando debilmente a validade histórica do edifício.

A incompreensível inversão de prioridades

Houve tempos em que os pelouros da Cultura foram ocupados por pessoas que, mal ou bem, usaram dos meios e poderes ao seu dispor para proteger e promover a nossa História e Cultura. O FENACULT no tempo do partido único chegou a ser mais plural e diversificado do que o sem número de festivais que temos hoje cujos cartazes são invariavelmente iguais e perfeitamente previsíveis.

 Em 1981, o Secretário de Estado da Cultura, Boaventura Cardoso assina um despacho onde classifica 42 edifícios como Património Histórico, dentre os quais consta o nosso Elinga, que também já foi um Colégio (Colégio das Beiras) e onde “amarraram” ilustres figuras da nossa História contemporânea, algumas delas ainda vivas, apesar de silenciosas: Nito Alves, Cónego Manuel das Neves, Mário Pinto de Andrade, Hoji-ya-Henda, França Van-Dúnem, Garcia Bires, Manuel Pedro Pacavira.

Em 1992, José Mateus Peixoto, Secretário de Estado da Cultura de então, exara um despacho onde é brevemente narrada a História da cidade de Luanda para justificar a proposta do mapeamento de uma zona “protegida” denominada de “Zona Histórica”, como se pode ver nas imagens abaixo.

 

Despacho 51-91 01 Despacho 51-91 02 Despacho 51-91 03 Luanda HISTÓRICA

Aos 7 de Outubro de 2005 é aprovada a  Lei do Património Cultural, completa e satisfatória, mas como a maior parte delas, meramente decorativa.

Em 2009, já depois de iniciado o boom imobiliário e na tentativa de salvaguardar o que já estava classificado e supostamente blindado pela lei, a então Governadora Francisco Espírito Santo e a já Ministra da Cultura Rosa Cruz e Silva, assinaram (mais) um memorando onde voltam a reafirmar a vontade de proteger o património Histórico sob a mira dos grandes interesses económicos que se agigantavam. Comprometem-se ainda a dar formação e a divulgar amplamente a informação acerca dos monumentos protegidos (alguém alguma vez viu alguma?) e formam uma comissão de avaliação coordenada pelo IPGUL e que inclui representantes dos Ministérios da Cultura, do Urbanismo e Ambiente, da Direção Provincial da Cultura, da Ordem dos Arquitetos e dos Engenheiros e que nenhuma obra na baixa de Luanda (zona histórica) poderia ser adjudicada ou validada sem o parecer favorável desta comissão.

MINCULT e GPL - PAtrimónio no JA peq

A Ministra Rosa Cruz e Silva era tida por muitos como um quadro competente com profundo respeito pelo património histórico, deixando nelas o sentimento de estupor e desalento. Provavelmente a Srª será mesmo “apaixonada” pela História e pelo património, mas sucumbiu a pressão do que o Mena Abrantes (Diretor do Elinga) referiu como sendo “poder superior” e comprometeu o seu nome e reputação subscrevendo a este “culturicídio” ignóbil, com o despacho que podem ver na imagem abaixo.

DESCLASSIFICAÇÃO ELINGA c sublinhados (peq)

Será que poderia ter sido mais vaga do que “as razões deixaram de subsistir”? A minha dúvida mesmo é que “razões” históricas podem “deixar de subsistir”? Não estamos perante uma inconsistência cronológica? Ou será que a Rosa entrou no Delorean com o Michael J. Fox e voltou no tempo para mudar a história, evitar o contacto com o colono e a construção dos sobrados? Da última vez que eu olhei, ainda me pareceu estar lá o telhadito em forma triangular.

Tenho outra questão e esta prende-se com a legitimidade da Ministra fazer esta desclassificação de sua auto-recreação, depois de assinar o memorando acima referido. Terá a tal de “comissão de avaliação” dado luz verde à Ministra para desclassificar o património e outorgá-la a uma entidade privada que declaradamente não irá preservar uma única pedra do edifício, alienando-o assim da memória coletiva do povo angolano a quem pertence por direito?

Perante isto, não temos como perdoar a Ministra, nem sentir pena dela, pois se fosse uma Srª de convicção recusar-se-ia a fazer parte desta fantochada e metia o seu lugar à disposição.

O MINCULT não tem sequer o decoro de apagar da lista de monumentos classificados que alberga no seu site os edifícios que já desclassificou abusivamente.

Recentemente se voltou a falar na demolição do Elinga depois de, pela segunda vez, se ter dado ordem de despejo aos seus atuais ocupantes, ordem essa que vencia no final do pretérito mês de Março.

Felizmente parece haver uma sacudidela nos diversos setores da sociedade civil e, para além da petição online que muitos já subscreveram, foi depositada uma providência cautelar no MINJUS esta segunda-feira, 7 de Abril, com intuito de impugnar o ato administrativo que muitos, dentre os quais me incluo, consideram ilegal e abusivo.

O capitalismo selvagem só consegue existir onde o povo é dócil como uma mula de carga cujos olhos tristes revelam o peso de uma vida de vergastadas no lombo. Os “intelectuais” também são culpados nisto tudo, pois só sabem chorar nos ombros uns dos outros, sem força anímica para se levantarem em uníssono e resistir à bravata dos arrogantes que se escudam nos seus cargos políticos como se estes lhes pertencessem por direito.

Recuso-me a adotar o discurso derrotista, saudosista e fúnebre de quem já considera que o Elinga não pode ser salvo. Enquanto ele ali estiver é meu (nosso) dever, desenvolver técnicas de resistência aos avanços da “gang do Betão” (expressão biznada do kota Reginaldo Silva).

Vamos à luta

Por Luaty Beirão

Artigos que vale a pena ler sobre este assunto: 1, 2, 3, 4

Em Novembro do ano passado, o Club-k conseguiu um incrível furo com o “leak” de uma informação sigilosa acerca dos desaparecimentos de Cassule e Kamulingue (1 e 2) . Depois de um ano e meio a debater-nos para que os nomes destes pacatos cidadãos e ilustres desconhecidos não caíssem no esquecimento surtiu finalmente efeito e o desfecho das investigações não podia ter sido mais macabro: Cassule morto à pancada e o seu corpo atirado aos jacarés e Kamulingue executado sumariamente com um tiro na cabeça! De deixar nauseado o mais impassível dos seres humanos.

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

Na narração detalhada do que se tinha passado, o Club-k revela que Cassule tinha sido atraído por um telefonema de alguém que se chamava “Tunga”. Na altura rimo-nos e fomos gozar com o nosso mano Medil Campos que no facebook se chamava Tunga Né, a dizer que afinal era por isso que ele já não aparecia mais e outros gracejos de mau gosto do género.

Uns dias mais tarde, é a vez de William Tonet publicar um artigo com ainda mais detalhes, alguns, como é de seu apanágio, parecendo exagerados demais com contornos de filme hollywoodiano de classe B, cheios de reviravoltas improváveis e pouco lógicas, exagerando o número do espetáculo.

Chegámos a partilhar neste blog esse artigo pois nele se refere que foi encontrado no computador de um dos implicados no assassinato uma lista de alvos à abater que incluía alguns centraleiros e ignorámos totalmente o facto dele citar um Tucayanu como sendo o agente do SINSE que fez a tal chamada (não “Tunga”, mas “Tuka”).

Tendo entre nós um Tukayano, deveríamos se calhar ter ficado com a pulga atrás da orelha, mas os factos narrados eram de tal maneira grotescos que nunca iríamos considerá-lo mais do que uma infeliz coincidência. Ledo engano.

No dia 1 de Março o F8 traz como estampa na sua primeira página: PGR SOLTA UM DOS ASSASSINOS DE KAMULINGUE E CASSULE. Trata-se do tal agente Benilson Bravo da Silva, nome de código “Tucayanu”. A cara colada noutro corpo numa daquelas montagens algo toscas é a do nosso parceiro e amigalhaço a quem chamávamos Tukayano Rosalino, crendo ser este o seu nome verdadeiro.

FOLHA 8 - Tukayano CAPA

Incrédulos e apanhados totalmente desprevenidos a nossa primeira reação foi: “O William enganou-se, está a fazer confusão, certamente que se precipitou porque ele conhecia o nosso Tuka então ao ouvir que é agente Tucayanu deduziu que era ele e pegou uma foto dele qualquer e atirou só assim.”

Começou assim a missão “limpar o nome do mano Tuka”.

O Pedrowski Teca teve a amabilidade de nos enviar a edição online do F8 pelo email e lendo a matéria toda encontrámos típicos Willianismos que nos faziam crer mais ardentemente na hipótese da confusão de identidades e começámos a dedicar-nos à tarefa de o provar.

De todas as diligências, a que nos deu mais esperança foi quando falámos com a mulher e lhe perguntámos pelo nome completo do marido. Ela respondeu meio gaguejante: “Tukayano Benin”. “Ó? E então o Rosalino?”. “É o segundo nome dele, Tukayano Rosalino Benin” corrigiu, meio atrapalhada. Não estranhámos. Sentimo-nos esperançosos que estaríamos a andar no bom sentido, apesar de termos achado o nome Benin extremamente parecido com o nome Benilson, mais uma coincidência a somar à todas que já empilhávamos. Exibimos-lhe a cópia do F8 e ela pareceu perder as forças, garantindo que não podia ser, porque o marido não tinha sido preso e estaria a trabalhar na plataforma, que ela própria o tinha deixado no aeroporto na sexta-feira anterior à nossa conversa (isto foi na terça-feira de Carnaval).

Perguntámos em que empresa ele trabalhava e ela não sabia dizer, só que era na Base Sonils, em que plataforma ele estava e não sabia dizer, só que era no Soyo, como fazia para contactar, que só ele o poderia fazer quando estivesse na base do Kwenda o que acontecia duas vezes por semana, que nos arranjasse uma cópia do BI dele para provarmos que o nome dele não tinha nada a ver com o anunciado no F8 e garantiu-nos que no dia seguinte o faria porque não tinha ali os documentos uma vez que estavam apenas a acabar de se mudar. Deixamos-lhe 3 números de telefone e rogámos para que ela nos ligasse assim que tivesse o dito BI e, se recebesse chamada do marido, lhe dissesse o que estaria a passar-se e para ele nos contactar imediatamente.

Tukayano o Assassino

A verdade é que o dia seguinte inteiro se passou sem que a Lídia, ou pelo menos assim disse chamar-se, tivesse sentido a urgência de contactar os amigos que queriam ajudar a ilibar o seu marido de tão nefasta ocorrência.

Pela urgência do assunto, voltámos lá para tentar encontrá-la, não fosse ela ter perdido o papelinho com os números e não saber como nos contactar. A hora já ia avançada (21h40) e nós subimos com esperança dessa ser a explicação. Batemos a porta ligeiramente. A primeira sem resposta, a segunda com uma moça a responder-nos por detrás da porta num tom de urso acordado em época de hibernação: “mas quem é a esta hora?” . Apresentámo-nos. “Já estivemos aqui ontem para falar consigo…”. “Aqui não mora nenhuma Lídia; Aqui não mora nenhum Tuchinho”. Congelámos! Daí a moça ameaçou que ia chamar a polícia e nós deixámos de a importunar.

No dia anterior, um primo do Tuka que funciona na UPIP tinha-nos garantido que tinha o tinha avistado e cumprimentado um dia antes (segunda-feira), o que era incompatível com a história do “levei-o ao aeroporto na sexta-feira”.

Sem cópia do BI, sem sabermos a plataforma onde estava (já tinhamos arranjado maneira de chegar até ele, só faltava o nome da plataforma), os números de telefone verificados na UNITEL e desligados há meses, a notícia tendo saído no dia 1 de Março, a família já tendo conhecimento e ninguém reagir, começámos a render-nos às evidências, perdendo as esperanças, pois, nem que estivesse num programa espacial da NASA em Marte, o Tukayano já haveria de ter sabido da sua imagem a ser usada indevidamente e associada a um crime de extrema gravidade e já teria contactado alguém para desmentir e teria chegado até nós. Se não o estava a fazer é porque tinha culpa no cartório e todas estas “coincidências” narradas pela mulher para explicar a longa ausência do marido, provavam o axioma que se parece demasiado conveniente para ser coincidência, provavelmente é porque o é. Eram coincidências a mais e factos a menos. Chega um momento em que temos de baixar a guarda e render-nos às evidências.

O golpe de graça foi dado quando o José Gama, usando de suas fontes nos confirmou que a imagem do Jornal correspondiam a de um agente do SINSE que vive no Alvalade e que é conhecido pelo nome de Tuchinho. Tudo se encaixa, o que não pertence se separa, água para baixo e azeite para cima… o Tuka era mesmo o Benilson Bravo da Silva, nosso companheiro durante quase 3 anos, grande amigo, hiper-divertido, sempre disponível, um ser humano comum com as suas bravuras e covardias, não um “assassino 5 estrelas de sangue-frio e calculista que já matou empresários e algoz de Mfulupinga Landu Víctor”. Eis um dos Willianismos que pôs em causa a seriedade do artigo e que nos deu esperanças de ser uma confusão.

Logo a seguir, detetámos a presença do Tukayano na nossa sala privada de ativistas, da qual sempre fez parte, mas na qual tinha deixado de interagir há meses. Discutíamos maneiras de conseguir chegar à fala de viva voz com o próprio quando damos conta que ele está a ler as mensagens, sem nunca responder, mesmo vendo a nossa aflição. Foi o fim.

Tukayano Lê Mensagens na Sala Privada

Acho que nos resta, num gesto de fairplay depois da goleada, parabenizar o Benilson por nos ter iludido tão bem a todos, por ter conseguido levar à bom termo a missão que lhe foi incumbida, de ganhar a nossa confiança, de participar nos nossos espaços reservados, de se emocionar, de ser companheiro de todos os momentos, mas também aos seus patrões do SINSE porque afinal também conseguem dar uma formação de alto nível aos seus quadros.

Tukayano

Gostaríamos de lembrar que no decorrer da sua espinhosa missão, o agente Tucayanu apanhou ferros do Godzila, narrou em pormenor minucioso ao ponto de ser difícil imaginar que seja fantasia uma porrada que terá apanhado em companhia do jovem Mário no dia 3 de Dezembro de 2012, assinou cartas para o GPL e apareceu em vídeos (ver aos 5:16 e digam-nos que não é convincente. Assustadoramente, hoje parece que aquelas palavras eram dirigidas aos presentes na sala e não ao regime sanguinolento do MPLA) nos quais mostramos a tortura a que somos submetidos. O que ele não se deve ter divertido.

Mas agora vamos nós divertir-nos e fazer com que ele desejasse não ter sido solto, pois escória desta estirpe que é cúmplice de homicídios de concidadãos, se lhes é devolvida a liberdade, merecem viver com medo eterno de aparecer alguém vingativo para lhes fatigar. Por isso, vamos tratar de divulgar a imagem deste traste por todos os meios que nos forem possíveis e revelar também a sua morada para que ele possa sentir o desconforto de estar exposto e vulnerável.

TUKAYANO KUBICO ALVALADE

Recuperámos este texto de um post facebook do nosso kota Marcolino Moco e pareceu-nos pertinente o suficiente para merecer ser o post inaugural deste ano que começou há alguns minutos. Outros textos igualmente interessantes podem ser lidos no blog do Marcolino aqui. Segue na íntegra:

Marcolino Moco

“No outro dia, cruzei-me acidentalmente com alguns “mais novos” da comunicação social pública, e, para a minha agradável surpresa, contrariando a habitual fuga às “minhas chagas de sarna”, mostraram-se muito simpáticos e conversadores. E, entre as conversas, para uns eu tinha razão, nas críticas que faço, não a eles, mas ao sistema que os coloca, a eles, numa condição de “escravos” de ideias dos que se acham insubstituíveis no poder angolano, mas outros, naquela conversa aparentemente descontraída, achavam que eu andava adiantado demais porque “isso é um processo”, diziam.

É a propósito desse encontro fortuito que me ocorreu dirigir algumas palavras, especialmente aos “os mais novos” deste país, nesta espécie de “mensagem de Ano de Novo” de um informal Senador da Nação que sou (como alguém agradavelmente me chamou, só que este tal acha que os senadores devem estar calados e não se dirigir a “pessoal menor” mas para mim “pessoal menor” só são as crianças – menores de 18 anos – mas mesmo para estas eu falo; senador não é para só fazer “banga” com o título e “ver a banda passar”, não).

Para a minha opinião, nascida de uma longa reflexão, em que nunca me descalcei das minhas responsabilidades no passado e no presente, mas não aceitando participação num contínuo “empurrar as coisas com a barriga”, os angolanos, especialmente a sua juventude, não devem deixar-se embalar nessa ideia de que “estamos num processo” (estamos numa transição) e é preciso ter paciência, debaixo das ideias de um grupo minoritário que não sabe fazer outra coisa senão gerir a manutenção do poder, pisando todas as normas éticas, jurídicas e ate das nossas respeitadas religiões, que devem contribuir para a harmonização e contínua pacificação da sociedade. São eles que falam de “lavar roupa suja em casa”, quando não se coíbem de fabricar sujeira na rua, sem qualquer escrúpulo. Como lavar roupa suja em casa se a sujeira já está na rua?

A transição, no desenvolvimento das sociedades, é uma constante que não pára e é geralmente do inferior para o superior. O que é que se está passar em Angola, no plano das instituições que é algo que deve preocupar a elite angolana que queira conscientemente contribuir para um “processo” de passagem do inferior para o superior?

Claramente um retrocesso. É evidente que se tivermos em conta que cada fenómeno se apresenta com duas faces, esse “retrocesso” significa um franco “progresso” em relação à construção de uma “monarquia republicana” que foi academicamente anunciada pelo Professor Doutor Araújo, no livro do seu doutoramento publicado em 2009.

Sintomaticamente, o Professor Araújo é hoje venerando juiz de um Tribunal Constitucional que com os seus acórdãos 233 e 319 do ano que termina, continuou a contribuir para a formalização de uma realidade de facto, imposta de forma cobarde e inaceitável a todos os títulos, e que está na base das tensões que o país tem vivido, paradoxalmente, com maior intensidade, desde o fim da guerra civil, em 2002.

Com aqueles acórdãos e, com todas as urdiduras a que temos assistido, com declarações que só deixam dúvidas a quem não faz a ligações necessárias dos fenómenos actuais com os seus precedentes, o Presidente José Eduardo quer: ser reconduzido em 2017 para umas funções em que andará já há 38 anos cansados anos, tendo ele, nessa altura, os seus pesados 75 anos. Em 2022, o nosso compatriota Zénu, hoje Presidente do Fundo Soberano de Angola, de que põe e dispõe, sendo nomeado o para o cargo sorrateiramente, na mesma semana das reuniões com a juventude, deverá “estar apto” a receber o ceptro do poder. E todos aqueles que reclamarem deste inusitado nepotismo, serão declarados invejosos e frustrados, se não lhes acontecer pior.

A verdade é que as tensões irão desenvolver-se num crescendo inaudito e a repressão, que no ano que termina já atingiu o ponto de transformar o Ministério do Interior e a Polícia em instituições superiores à Constituição e o direito à manifestação no “direito à pena de morte”, alcançarão níveis impossíveis de imaginar.

Mas nem tudo foi negativo no ano que termina. Os partidos políticos conseguiram um consenso, pela primeira vez, a volta a volta da solidariedade contra o assassinato político e os direitos humanos, com a UNITA a cumprir o seu papel de maior partido da oposição.

O meu amigo, outro Senador da virtual República, o Dr. Makuta Nkondo, outra voz que como a minha não poder ser ouvida no sistema de vergonhoso apartheid imposto na comunicação social, exprimiu de forma clara, numa TV de rede social, o que muitas pessoas que radicalizam as suas posições à custa da insensatez do poder actual em Angola pensam. Acham que estamos a ser governado por estrangeiros, quando não é assim. É isso. Os extremos geram outros extremos.

Entretanto, continuo a pedir daqui que o Senhor Presidente reveja as suas posições, porque poucos e cada vez menos, numa Angola tão culturalmente variada, irão aceitar pacificamente este projecto que nos está a impor sorrateiramente, com um discurso de “morde sopra”.

Boas saídas e boas entradas
Luanda, 31 de Dezembro de 2013″

Por Marcolino Moco