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Elinga 02

Não quero fazer deste artigo um texto meramente pessoal, devaneando sobre a importância do espaço Elinga na minha juventude e na formação do adulto que sou hoje. É muito difícil encontrar a bitola a usar para medir a proporção de Elinga que jorra no meu sangue a cada ribombear do meu coração e por isso irei reduzir-me à insignificância da contemporaneidade que represento e mergulhar nas páginas de História que os interesses representados pelos “acumuladores primitivos de capital” querem rasgar deste livro chamado Angola, como já fizeram com tantas outras, deixando-o mutilado na sua incompletude, irremediavelmente, permanentemente mutilado.

Nos pequenos retalhos que fui recuperando dessas páginas ao longo dos últimos anos com o pessoal da Campanha Reviver levada à cabo pela Associação Kalu, apercebi-me da enormidade que podem representar algumas paredes gastas e escadarias periclitantes, e do quanto prescindimos ao reduzi-las a um monte de entulho. Não falo só do Elinga, eventualmente o lugar mais transversal de Luanda, o único onde podem coabitar os empertigados com os maltrapilhos, os da urbe com os mussekados, os locais e os estrangeiros, os artistas e os banqueiros, enfim, o mosaico completo de todas as classes e subclasses que constituem a nossa sociedade, mas também do Challet, da Biker, da Casa do Óculo, da Fortaleza de S. Miguel, do Palácio de Ferro, da Casa de Alfredo Troni, da Livraria Lello, da Estação de Caminhos-de-ferro da Cidade Alta, do Grande Hotel, da Rua dos Mercadores, dos 14 sobrados que ainda não foram vítimas da fúria demolidora do mercado imobiliário (sorte que não teve o Mercado do Kinaxixi) e de todos os outros edifícios e sítios que foram classificados por alguma razão. Sobre cada um desses edifícios se poderiam contar inúmeras “coisas de sonho e de verdade” e essas “coisas” têm um outro efeito quando são contadas dentro dos próprios espaços que as albergam.

Vou no entanto cingir-me ao Elinga que me parece, de todos, ser o mais consensual no que concerne ao sentimento de perda, pelo simples facto de termos construído ao longo dos anos uma ligação emocional íntima (pois vivida na primeira pessoa) com essa magnífica peça do nosso património histórico. Mais facilmente seremos movidos a esboçar um gesto de resistência que seja para salvar o Elinga do que para salvar o Challet que certamente a esmagadora maioria dos kaluandas nunca sequer ouviu falar, apesar de ser o edifício adjacente ao Elinga.

A análise resumir-se-á por isso à argumentação da lógica (?) por detrás da desclassificação e alienação do edifício que pertence à memória coletiva do povo angolano, protagonizada pelo Ministério de “tutela”, justamente aquele cuja missão é zelar por ele.

Antes de apresentar a documentação que irá expôr o desrespeito da Ministra da Cultura pel@s cidad@s que pretende representar, permitam-me que lhes introduza a uma proposta de projeto alternativo para o reaproveitamento do espaço tal qual ele está, ou seja, sem violar a integridade física do edifício, submetendo-o, no máximo, a obras de restauro. Ela foi desenhada por Luca, um arquiteto italiano, professor e funcionário das Nações Unidas em Angola, chegou à mesa da Ministra, foi conscientemente ignorado em benefício do da Imogestin, um edifício ultra-moderno segundo a maquete, mas incapaz de conviver com a História.

Elinga_space Luca 01Elinga_space Luca 02Elinga_space Luca 03

Esta maquete é partilhada para calar aquelas vozes que dizem que os detratores só sabem criticar, não sabem edificar. Para aqueles que argumentando que o Elinga se tornou um antro de drogas e que atrai os putos de má índole que pululam ali à volta, agitam a bandeira da proposta da Imogestin como a única alternativa viável para a inversão do quadro, minimizando debilmente a validade histórica do edifício.

A incompreensível inversão de prioridades

Houve tempos em que os pelouros da Cultura foram ocupados por pessoas que, mal ou bem, usaram dos meios e poderes ao seu dispor para proteger e promover a nossa História e Cultura. O FENACULT no tempo do partido único chegou a ser mais plural e diversificado do que o sem número de festivais que temos hoje cujos cartazes são invariavelmente iguais e perfeitamente previsíveis.

 Em 1981, o Secretário de Estado da Cultura, Boaventura Cardoso assina um despacho onde classifica 42 edifícios como Património Histórico, dentre os quais consta o nosso Elinga, que também já foi um Colégio (Colégio das Beiras) e onde “amarraram” ilustres figuras da nossa História contemporânea, algumas delas ainda vivas, apesar de silenciosas: Nito Alves, Cónego Manuel das Neves, Mário Pinto de Andrade, Hoji-ya-Henda, França Van-Dúnem, Garcia Bires, Manuel Pedro Pacavira.

Em 1992, José Mateus Peixoto, Secretário de Estado da Cultura de então, exara um despacho onde é brevemente narrada a História da cidade de Luanda para justificar a proposta do mapeamento de uma zona “protegida” denominada de “Zona Histórica”, como se pode ver nas imagens abaixo.

 

Despacho 51-91 01 Despacho 51-91 02 Despacho 51-91 03 Luanda HISTÓRICA

Aos 7 de Outubro de 2005 é aprovada a  Lei do Património Cultural, completa e satisfatória, mas como a maior parte delas, meramente decorativa.

Em 2009, já depois de iniciado o boom imobiliário e na tentativa de salvaguardar o que já estava classificado e supostamente blindado pela lei, a então Governadora Francisco Espírito Santo e a já Ministra da Cultura Rosa Cruz e Silva, assinaram (mais) um memorando onde voltam a reafirmar a vontade de proteger o património Histórico sob a mira dos grandes interesses económicos que se agigantavam. Comprometem-se ainda a dar formação e a divulgar amplamente a informação acerca dos monumentos protegidos (alguém alguma vez viu alguma?) e formam uma comissão de avaliação coordenada pelo IPGUL e que inclui representantes dos Ministérios da Cultura, do Urbanismo e Ambiente, da Direção Provincial da Cultura, da Ordem dos Arquitetos e dos Engenheiros e que nenhuma obra na baixa de Luanda (zona histórica) poderia ser adjudicada ou validada sem o parecer favorável desta comissão.

MINCULT e GPL - PAtrimónio no JA peq

A Ministra Rosa Cruz e Silva era tida por muitos como um quadro competente com profundo respeito pelo património histórico, deixando nelas o sentimento de estupor e desalento. Provavelmente a Srª será mesmo “apaixonada” pela História e pelo património, mas sucumbiu a pressão do que o Mena Abrantes (Diretor do Elinga) referiu como sendo “poder superior” e comprometeu o seu nome e reputação subscrevendo a este “culturicídio” ignóbil, com o despacho que podem ver na imagem abaixo.

DESCLASSIFICAÇÃO ELINGA c sublinhados (peq)

Será que poderia ter sido mais vaga do que “as razões deixaram de subsistir”? A minha dúvida mesmo é que “razões” históricas podem “deixar de subsistir”? Não estamos perante uma inconsistência cronológica? Ou será que a Rosa entrou no Delorean com o Michael J. Fox e voltou no tempo para mudar a história, evitar o contacto com o colono e a construção dos sobrados? Da última vez que eu olhei, ainda me pareceu estar lá o telhadito em forma triangular.

Tenho outra questão e esta prende-se com a legitimidade da Ministra fazer esta desclassificação de sua auto-recreação, depois de assinar o memorando acima referido. Terá a tal de “comissão de avaliação” dado luz verde à Ministra para desclassificar o património e outorgá-la a uma entidade privada que declaradamente não irá preservar uma única pedra do edifício, alienando-o assim da memória coletiva do povo angolano a quem pertence por direito?

Perante isto, não temos como perdoar a Ministra, nem sentir pena dela, pois se fosse uma Srª de convicção recusar-se-ia a fazer parte desta fantochada e metia o seu lugar à disposição.

O MINCULT não tem sequer o decoro de apagar da lista de monumentos classificados que alberga no seu site os edifícios que já desclassificou abusivamente.

Recentemente se voltou a falar na demolição do Elinga depois de, pela segunda vez, se ter dado ordem de despejo aos seus atuais ocupantes, ordem essa que vencia no final do pretérito mês de Março.

Felizmente parece haver uma sacudidela nos diversos setores da sociedade civil e, para além da petição online que muitos já subscreveram, foi depositada uma providência cautelar no MINJUS esta segunda-feira, 7 de Abril, com intuito de impugnar o ato administrativo que muitos, dentre os quais me incluo, consideram ilegal e abusivo.

O capitalismo selvagem só consegue existir onde o povo é dócil como uma mula de carga cujos olhos tristes revelam o peso de uma vida de vergastadas no lombo. Os “intelectuais” também são culpados nisto tudo, pois só sabem chorar nos ombros uns dos outros, sem força anímica para se levantarem em uníssono e resistir à bravata dos arrogantes que se escudam nos seus cargos políticos como se estes lhes pertencessem por direito.

Recuso-me a adotar o discurso derrotista, saudosista e fúnebre de quem já considera que o Elinga não pode ser salvo. Enquanto ele ali estiver é meu (nosso) dever, desenvolver técnicas de resistência aos avanços da “gang do Betão” (expressão biznada do kota Reginaldo Silva).

Vamos à luta

Por Luaty Beirão

Artigos que vale a pena ler sobre este assunto: 1, 2, 3, 4

Em Novembro do ano passado, o Club-k conseguiu um incrível furo com o “leak” de uma informação sigilosa acerca dos desaparecimentos de Cassule e Kamulingue (1 e 2) . Depois de um ano e meio a debater-nos para que os nomes destes pacatos cidadãos e ilustres desconhecidos não caíssem no esquecimento surtiu finalmente efeito e o desfecho das investigações não podia ter sido mais macabro: Cassule morto à pancada e o seu corpo atirado aos jacarés e Kamulingue executado sumariamente com um tiro na cabeça! De deixar nauseado o mais impassível dos seres humanos.

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

Na narração detalhada do que se tinha passado, o Club-k revela que Cassule tinha sido atraído por um telefonema de alguém que se chamava “Tunga”. Na altura rimo-nos e fomos gozar com o nosso mano Medil Campos que no facebook se chamava Tunga Né, a dizer que afinal era por isso que ele já não aparecia mais e outros gracejos de mau gosto do género.

Uns dias mais tarde, é a vez de William Tonet publicar um artigo com ainda mais detalhes, alguns, como é de seu apanágio, parecendo exagerados demais com contornos de filme hollywoodiano de classe B, cheios de reviravoltas improváveis e pouco lógicas, exagerando o número do espetáculo.

Chegámos a partilhar neste blog esse artigo pois nele se refere que foi encontrado no computador de um dos implicados no assassinato uma lista de alvos à abater que incluía alguns centraleiros e ignorámos totalmente o facto dele citar um Tucayanu como sendo o agente do SINSE que fez a tal chamada (não “Tunga”, mas “Tuka”).

Tendo entre nós um Tukayano, deveríamos se calhar ter ficado com a pulga atrás da orelha, mas os factos narrados eram de tal maneira grotescos que nunca iríamos considerá-lo mais do que uma infeliz coincidência. Ledo engano.

No dia 1 de Março o F8 traz como estampa na sua primeira página: PGR SOLTA UM DOS ASSASSINOS DE KAMULINGUE E CASSULE. Trata-se do tal agente Benilson Bravo da Silva, nome de código “Tucayanu”. A cara colada noutro corpo numa daquelas montagens algo toscas é a do nosso parceiro e amigalhaço a quem chamávamos Tukayano Rosalino, crendo ser este o seu nome verdadeiro.

FOLHA 8 - Tukayano CAPA

Incrédulos e apanhados totalmente desprevenidos a nossa primeira reação foi: “O William enganou-se, está a fazer confusão, certamente que se precipitou porque ele conhecia o nosso Tuka então ao ouvir que é agente Tucayanu deduziu que era ele e pegou uma foto dele qualquer e atirou só assim.”

Começou assim a missão “limpar o nome do mano Tuka”.

O Pedrowski Teca teve a amabilidade de nos enviar a edição online do F8 pelo email e lendo a matéria toda encontrámos típicos Willianismos que nos faziam crer mais ardentemente na hipótese da confusão de identidades e começámos a dedicar-nos à tarefa de o provar.

De todas as diligências, a que nos deu mais esperança foi quando falámos com a mulher e lhe perguntámos pelo nome completo do marido. Ela respondeu meio gaguejante: “Tukayano Benin”. “Ó? E então o Rosalino?”. “É o segundo nome dele, Tukayano Rosalino Benin” corrigiu, meio atrapalhada. Não estranhámos. Sentimo-nos esperançosos que estaríamos a andar no bom sentido, apesar de termos achado o nome Benin extremamente parecido com o nome Benilson, mais uma coincidência a somar à todas que já empilhávamos. Exibimos-lhe a cópia do F8 e ela pareceu perder as forças, garantindo que não podia ser, porque o marido não tinha sido preso e estaria a trabalhar na plataforma, que ela própria o tinha deixado no aeroporto na sexta-feira anterior à nossa conversa (isto foi na terça-feira de Carnaval).

Perguntámos em que empresa ele trabalhava e ela não sabia dizer, só que era na Base Sonils, em que plataforma ele estava e não sabia dizer, só que era no Soyo, como fazia para contactar, que só ele o poderia fazer quando estivesse na base do Kwenda o que acontecia duas vezes por semana, que nos arranjasse uma cópia do BI dele para provarmos que o nome dele não tinha nada a ver com o anunciado no F8 e garantiu-nos que no dia seguinte o faria porque não tinha ali os documentos uma vez que estavam apenas a acabar de se mudar. Deixamos-lhe 3 números de telefone e rogámos para que ela nos ligasse assim que tivesse o dito BI e, se recebesse chamada do marido, lhe dissesse o que estaria a passar-se e para ele nos contactar imediatamente.

Tukayano o Assassino

A verdade é que o dia seguinte inteiro se passou sem que a Lídia, ou pelo menos assim disse chamar-se, tivesse sentido a urgência de contactar os amigos que queriam ajudar a ilibar o seu marido de tão nefasta ocorrência.

Pela urgência do assunto, voltámos lá para tentar encontrá-la, não fosse ela ter perdido o papelinho com os números e não saber como nos contactar. A hora já ia avançada (21h40) e nós subimos com esperança dessa ser a explicação. Batemos a porta ligeiramente. A primeira sem resposta, a segunda com uma moça a responder-nos por detrás da porta num tom de urso acordado em época de hibernação: “mas quem é a esta hora?” . Apresentámo-nos. “Já estivemos aqui ontem para falar consigo…”. “Aqui não mora nenhuma Lídia; Aqui não mora nenhum Tuchinho”. Congelámos! Daí a moça ameaçou que ia chamar a polícia e nós deixámos de a importunar.

No dia anterior, um primo do Tuka que funciona na UPIP tinha-nos garantido que tinha o tinha avistado e cumprimentado um dia antes (segunda-feira), o que era incompatível com a história do “levei-o ao aeroporto na sexta-feira”.

Sem cópia do BI, sem sabermos a plataforma onde estava (já tinhamos arranjado maneira de chegar até ele, só faltava o nome da plataforma), os números de telefone verificados na UNITEL e desligados há meses, a notícia tendo saído no dia 1 de Março, a família já tendo conhecimento e ninguém reagir, começámos a render-nos às evidências, perdendo as esperanças, pois, nem que estivesse num programa espacial da NASA em Marte, o Tukayano já haveria de ter sabido da sua imagem a ser usada indevidamente e associada a um crime de extrema gravidade e já teria contactado alguém para desmentir e teria chegado até nós. Se não o estava a fazer é porque tinha culpa no cartório e todas estas “coincidências” narradas pela mulher para explicar a longa ausência do marido, provavam o axioma que se parece demasiado conveniente para ser coincidência, provavelmente é porque o é. Eram coincidências a mais e factos a menos. Chega um momento em que temos de baixar a guarda e render-nos às evidências.

O golpe de graça foi dado quando o José Gama, usando de suas fontes nos confirmou que a imagem do Jornal correspondiam a de um agente do SINSE que vive no Alvalade e que é conhecido pelo nome de Tuchinho. Tudo se encaixa, o que não pertence se separa, água para baixo e azeite para cima… o Tuka era mesmo o Benilson Bravo da Silva, nosso companheiro durante quase 3 anos, grande amigo, hiper-divertido, sempre disponível, um ser humano comum com as suas bravuras e covardias, não um “assassino 5 estrelas de sangue-frio e calculista que já matou empresários e algoz de Mfulupinga Landu Víctor”. Eis um dos Willianismos que pôs em causa a seriedade do artigo e que nos deu esperanças de ser uma confusão.

Logo a seguir, detetámos a presença do Tukayano na nossa sala privada de ativistas, da qual sempre fez parte, mas na qual tinha deixado de interagir há meses. Discutíamos maneiras de conseguir chegar à fala de viva voz com o próprio quando damos conta que ele está a ler as mensagens, sem nunca responder, mesmo vendo a nossa aflição. Foi o fim.

Tukayano Lê Mensagens na Sala Privada

Acho que nos resta, num gesto de fairplay depois da goleada, parabenizar o Benilson por nos ter iludido tão bem a todos, por ter conseguido levar à bom termo a missão que lhe foi incumbida, de ganhar a nossa confiança, de participar nos nossos espaços reservados, de se emocionar, de ser companheiro de todos os momentos, mas também aos seus patrões do SINSE porque afinal também conseguem dar uma formação de alto nível aos seus quadros.

Tukayano

Gostaríamos de lembrar que no decorrer da sua espinhosa missão, o agente Tucayanu apanhou ferros do Godzila, narrou em pormenor minucioso ao ponto de ser difícil imaginar que seja fantasia uma porrada que terá apanhado em companhia do jovem Mário no dia 3 de Dezembro de 2012, assinou cartas para o GPL e apareceu em vídeos (ver aos 5:16 e digam-nos que não é convincente. Assustadoramente, hoje parece que aquelas palavras eram dirigidas aos presentes na sala e não ao regime sanguinolento do MPLA) nos quais mostramos a tortura a que somos submetidos. O que ele não se deve ter divertido.

Mas agora vamos nós divertir-nos e fazer com que ele desejasse não ter sido solto, pois escória desta estirpe que é cúmplice de homicídios de concidadãos, se lhes é devolvida a liberdade, merecem viver com medo eterno de aparecer alguém vingativo para lhes fatigar. Por isso, vamos tratar de divulgar a imagem deste traste por todos os meios que nos forem possíveis e revelar também a sua morada para que ele possa sentir o desconforto de estar exposto e vulnerável.

TUKAYANO KUBICO ALVALADE

Recuperámos este texto de um post facebook do nosso kota Marcolino Moco e pareceu-nos pertinente o suficiente para merecer ser o post inaugural deste ano que começou há alguns minutos. Outros textos igualmente interessantes podem ser lidos no blog do Marcolino aqui. Segue na íntegra:

Marcolino Moco

“No outro dia, cruzei-me acidentalmente com alguns “mais novos” da comunicação social pública, e, para a minha agradável surpresa, contrariando a habitual fuga às “minhas chagas de sarna”, mostraram-se muito simpáticos e conversadores. E, entre as conversas, para uns eu tinha razão, nas críticas que faço, não a eles, mas ao sistema que os coloca, a eles, numa condição de “escravos” de ideias dos que se acham insubstituíveis no poder angolano, mas outros, naquela conversa aparentemente descontraída, achavam que eu andava adiantado demais porque “isso é um processo”, diziam.

É a propósito desse encontro fortuito que me ocorreu dirigir algumas palavras, especialmente aos “os mais novos” deste país, nesta espécie de “mensagem de Ano de Novo” de um informal Senador da Nação que sou (como alguém agradavelmente me chamou, só que este tal acha que os senadores devem estar calados e não se dirigir a “pessoal menor” mas para mim “pessoal menor” só são as crianças – menores de 18 anos – mas mesmo para estas eu falo; senador não é para só fazer “banga” com o título e “ver a banda passar”, não).

Para a minha opinião, nascida de uma longa reflexão, em que nunca me descalcei das minhas responsabilidades no passado e no presente, mas não aceitando participação num contínuo “empurrar as coisas com a barriga”, os angolanos, especialmente a sua juventude, não devem deixar-se embalar nessa ideia de que “estamos num processo” (estamos numa transição) e é preciso ter paciência, debaixo das ideias de um grupo minoritário que não sabe fazer outra coisa senão gerir a manutenção do poder, pisando todas as normas éticas, jurídicas e ate das nossas respeitadas religiões, que devem contribuir para a harmonização e contínua pacificação da sociedade. São eles que falam de “lavar roupa suja em casa”, quando não se coíbem de fabricar sujeira na rua, sem qualquer escrúpulo. Como lavar roupa suja em casa se a sujeira já está na rua?

A transição, no desenvolvimento das sociedades, é uma constante que não pára e é geralmente do inferior para o superior. O que é que se está passar em Angola, no plano das instituições que é algo que deve preocupar a elite angolana que queira conscientemente contribuir para um “processo” de passagem do inferior para o superior?

Claramente um retrocesso. É evidente que se tivermos em conta que cada fenómeno se apresenta com duas faces, esse “retrocesso” significa um franco “progresso” em relação à construção de uma “monarquia republicana” que foi academicamente anunciada pelo Professor Doutor Araújo, no livro do seu doutoramento publicado em 2009.

Sintomaticamente, o Professor Araújo é hoje venerando juiz de um Tribunal Constitucional que com os seus acórdãos 233 e 319 do ano que termina, continuou a contribuir para a formalização de uma realidade de facto, imposta de forma cobarde e inaceitável a todos os títulos, e que está na base das tensões que o país tem vivido, paradoxalmente, com maior intensidade, desde o fim da guerra civil, em 2002.

Com aqueles acórdãos e, com todas as urdiduras a que temos assistido, com declarações que só deixam dúvidas a quem não faz a ligações necessárias dos fenómenos actuais com os seus precedentes, o Presidente José Eduardo quer: ser reconduzido em 2017 para umas funções em que andará já há 38 anos cansados anos, tendo ele, nessa altura, os seus pesados 75 anos. Em 2022, o nosso compatriota Zénu, hoje Presidente do Fundo Soberano de Angola, de que põe e dispõe, sendo nomeado o para o cargo sorrateiramente, na mesma semana das reuniões com a juventude, deverá “estar apto” a receber o ceptro do poder. E todos aqueles que reclamarem deste inusitado nepotismo, serão declarados invejosos e frustrados, se não lhes acontecer pior.

A verdade é que as tensões irão desenvolver-se num crescendo inaudito e a repressão, que no ano que termina já atingiu o ponto de transformar o Ministério do Interior e a Polícia em instituições superiores à Constituição e o direito à manifestação no “direito à pena de morte”, alcançarão níveis impossíveis de imaginar.

Mas nem tudo foi negativo no ano que termina. Os partidos políticos conseguiram um consenso, pela primeira vez, a volta a volta da solidariedade contra o assassinato político e os direitos humanos, com a UNITA a cumprir o seu papel de maior partido da oposição.

O meu amigo, outro Senador da virtual República, o Dr. Makuta Nkondo, outra voz que como a minha não poder ser ouvida no sistema de vergonhoso apartheid imposto na comunicação social, exprimiu de forma clara, numa TV de rede social, o que muitas pessoas que radicalizam as suas posições à custa da insensatez do poder actual em Angola pensam. Acham que estamos a ser governado por estrangeiros, quando não é assim. É isso. Os extremos geram outros extremos.

Entretanto, continuo a pedir daqui que o Senhor Presidente reveja as suas posições, porque poucos e cada vez menos, numa Angola tão culturalmente variada, irão aceitar pacificamente este projecto que nos está a impor sorrateiramente, com um discurso de “morde sopra”.

Boas saídas e boas entradas
Luanda, 31 de Dezembro de 2013″

Por Marcolino Moco

“NO MOMENTO DE SER admitido como membro da profissão médica:
EU JURO SOLENEMENTE consagrar a minha vida a serviço da humanidade;
EU DAREI aos meus professores o respeito e a gratidão que lhes são devidos;
EU PRATICAREI a minha profissão com consciência e dignidade;
A SAÚDE DE MEU PACIENTE será minha primeira consideração;
EU RESPEITAREI os segredos confiados a mim, mesmo depois que o paciente tenha morrido;
EU MANTEREI por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica;
MEUS COLEGAS serão minhas irmãs e irmãos;
EU NÃO PERMITIREI que concepções de idade, doença ou deficiência, religião, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, condição social ou qualquer outro fator intervenham entre o meu dever e meus pacientes;
EU MANTEREI o máximo respeito pela vida humana;
EU NÃO USAREI meu conhecimento médico para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
EU FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e pela minha honra.”
Juramento de Hipócrates (Revisão ao original de 1771 aprovada pela Convenção de Genebra em 1983)

Angolacharge-saude-oproximo

Aqui em Angola todos já fomos vítimas ou conhecemos alguém que tenha sido directamente vítima de negligência médica, casos que muitas vezes redundam em morte e que mantêm Angola em alguns tops tenebrosos como é o das várias taxas de mortalidade (infantil; materna; geral), esperança de vida e o da percentagem de pessoas vivendo abaixo do nível da pobreza (2$/dia segundo os padrões estipulados pelo world bank e usados como uma das referências do teto da pobreza extrema).

Se a classe dos mais desfavorecidos é a mais negligenciada, vulnerável e sujeita ao “desleixo” criminoso dos “médicos”, as outras não estão ao abrigo da letargia do deixa-andar, da conformação à perpetuidade da pertença aos dados estatísticos mais deprimentes do mundo. A morte é natural, mas a ciência tem sido aperfeiçoada para a adiar. Infelizmente, neste nosso país, o problema não é a tecnologia de ponta (que já existe em algumas unidades hospitalares privadas), não é só a falta de condições técnicas e de salubridade, não! O problema reside grandemente no profundo desumanismo que se semeou desde que se declarou necessária a criação de uma burguesia nacional, da qual fazem hoje parte até aqueles que preconizavam que a esses era “preciso é partir-lhes o focinho”. O que colhemos hoje são os seus ácidos e indigestos frutos.

Vamos referir-nos a 4 casos relativamente recentes todos ocorridos em Luanda (os nomes são fictícios):

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Caso 1

Filomena não tendo posses para fazer o seu parto numa clínica privada sempre onerosa, escolhe a maternidade Augusto Ngangula para trazer ao mundo o seu primeiro filho. Algumas complicações que nunca se explicam em condições à parturiente desesperada ocorreram e o bebé teve de ser incubado. No dia seguinte, ao pedir para ver o seu filho, lhe foi comunicado que o bebé tinha falecido durante à noite. Razão: falta de energia e gerador avariado, sistema de ventilação da incubadora não funciona sem corrente e o bebé morreu então asfixiado.

Caso 2

Maria, 33 anos, estava grávida de gémeos. Teve uma gravidez perfeitamente normal, acompanhada pela Ginecologista Obstetra, que terá sido escolhida por já ter acompanhado outras gravidezes de meninas da família, granjeando assim a confiança desta.

Prematuramente e de forma inadvertida começou a sentir contracções. Ligou à médica que estava de serviço na Maternidade Augusto Ngangula. Já tinha programado ter na Clínica da Endiama, mas dado que nasceram antes da data prevista, foi levada a Maternidade onde estava a médica que a assistiu  em toda a fase pré-natal.

Chegando a Maternidade, entrou sem delongas para a sala de parto que terá corrido bem. O problema apresentou-se no pós-parto: perdeu sangue profusamente, pelo que lhe deveria ter sido administrada uma transfusão sanguínea faseada em duas doses separadas por um intervalo de 6 horas.

Deu-se a primeira dose, mas quando a equipa médica voltou ao quarto, encontraram Maria já morta. Razão? Esqueceram-se (!) de administrar a segunda dose dentro do prazo previsto, tendo deixado passar 10 horas ao invés de 6.

Caso 3

Eliana é menina de berço de ouro, pertencendo a classe mui exclusiva de ricos de Angola.

Escolheu ter o bebé no país para ficar mais próximo do marido e da família. Sendo portadora de VIH, tomou todas as precauções para que não transmitisse a doença ao filho.

Neste tipo de casos, geralmente o parto é provocado e programado, sendo que deveria ser submetida a uma cesariana.

Infelizmente, às 35 semanas a bolsa rebentou e teve um parto normal, transmitindo assim ao seu filho o VIH.

O Parto ocorreu na Clínica da Endiama e os médicos garantiram que nada poderiam fazer uma vez que a bolsa rebentou em casa.

O pós-parto foi tranquilo, sendo que receberam todos os cuidados que poderiam ter na condição de mãe e filho portadores de VIH.

A sua pediatra aconselhou-a a todos os medicamentos necessários para um bebé portador de VIH e a criança foi crescendo de forma saudável.

Aos 8 meses de idade, a criança chorava e diagnosticou-se uma otite. Eliana levou a filha à Clínica Multi-Perfil, hospital mais próximo da sua zona de residência e explica ao médico de plantão a condição do filho.

O médico confirma tratar-se de uma otite , prescreve uma receita e dá uma injecção ao bebé que nunca souberam o que era.

De facto passado 18h a criança acalmou. A mãe deitou-a no berço e 40min depois a criança parou de respirar e morreu.

Tentaram fazer o rastreio da causa da morte prematura e foi de um dos medicamentos que o médico prescreveu que são incompatíveis a crianças ou adultos portadores de VIH.

Caso 4

Relato de uma mãe na primeira pessoa:

“Ontem fui à Cligest (Clinica Vida) por volta das 21:30, porque a minha filha estava constipada e não estava a conseguir respirar muito bem. Então, super aflita, lá corri para a clínica…
Chegando lá, disseram-me que a pediatria fechava às 21:30, então corri para a ver se ainda apanhava a médica…
A minha filha fez a triagem, e quando a enfermeira foi ter com a médica para ver se ainda a podia atender, ela recusou-se porque estava na hora de sair… PODE????? Era uma urgência, a minha filha estava com dificuldades para respirar, e ela diz que não pode atender mais????!!!!!
Mas que médica é essa? Onde está o profissionalismo? Salvar uma vida deve ser mais importante que tudo, certo?? Que juramento é esse que os médicos fazem??
Cada vez mais desmoralizada com a saúde em Angola!!
Graças a Deus, as enfermeiras da mesma clínica foram super prestáveis e encaminharam-nos para a médica de clínica geral que atendeu-nos com eficácia e amabilidade!!! A minha filha está bem!”

Não é por acaso que o JEScaré foge a correr do país para ir tratar de uma “dor de dente”.

Temos recebido várias histórias macabras que envolvem os nossos serviços de saúde. Tens uma? Partilha-a connosco e vamos continuar a denunciar as más práticas que arrastam o nosso país para as mais lastimáveis posições nos rankings mundiais de direitos elementares como é o direito à vida.

Se temos de nos fazer evacuar a cada vez que temos uma dor-de-cabeça, não são só os nossos bolsos que entrarão em greve, serão também os nossos postos de trabalho que ficam comprometidos pois nem todos conseguem isenção laboral de 3 meses por ano para ir arranjar a cornadura, oops, desculpem, a dentadura!

Um artigo publicado recentemente no periódico Folha8, dá conta de pormenores muito detalhados acerca dos bastidores do caso Cassule e Kamulingue. Esse artigo foi copiado textualmente e reproduzido na íntegra em algumas páginas do facebook, incluindo na de um grupo de ativistas que divulgam incessantemente denúncias sobre o que se passa na nossa Angola chamado “Free Mind Free World”. A página de onde copiámos o texto abaixo, para quem tenha facebook, pode ser acedido clicando aqui.

Segundo o mesmo artigo, foi encontrada no computador de um dos algozes de Cassule e Kamulingue, uma lista de alvos a abater pelo SINSE. Felizmente e à exceção dos próprios irmãos catapuldados à mártires, nenhum dos nomes citados foi ainda “visado” pelos seus algozes, não letalmente pelo menos. Fica no entanto o aviso.

Segue-se o texto:

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

“Vamos à história contada na primeira pessoa por um dos algozes.

No dia 27 de Maio de 2012, pelas 14h00, o agente secreto Tucayano, do SINSE, liga para Alves Kamulingue, propondo-lhe um encontro para uma suposta entrevista nas bombas de combustível da Sonangol junto aos Bombeiros, por detrás do Hospital Militar de Luanda. Kamulingue aceita e aí chegado, surge uma viatura Chevrolet Spark, com elementos no interior que o chamam e ele, ao aproximar-se, é empurrado rapidamente para o interior da viatura, que arranca de imediato em alta velocidade.

Os raptores são António Manuel Gamboa Vieira Lopes, delegado do SINSE em Luanda, Paulo Mota, delegado adjunto do SINSE Luanda, Comissário Dias do Nascimento, 2.º comandante provincial de Luanda, Manuel Miranda, chefe de Investigação Criminal da Ingombota, Luís Miranda, chefe dos Serviços Sectores do Comando de Divisão da Ingombota ; a viatura seguiu em direcção ao Km 44, zona da Barra do Kwanza e, pelo caminho, ligaram para o agente, Francisco Pimentel Tenda Daniel, tcp Kiko, que deveria juntar-se a eles, o que ele fez no meio do percurso, já mata adentro. O qual, como veremos, também caiu numa armadilha. Sigam-nos!

Postos no local combinado, os agentes do SINSE e da DNIC empreendem uma acalorada discussão sobre quem deveria fuzilar Alves Kamulingue. Depois de algum tempo escolheram o oficial operativo da DPIC, Kiko, tendo este sido obrigado, enquanto inferior hierárquico, a cumprir a ordem de disparar para matar a vítima. Ligeiramente contrariado, lê-se no documento em nossa posse, o agente cumpriu, tendo logo depois todos os presentes abandonado o local, deixando o corpo estendido no solo, à mercê de animais predadores.

No dia 29.05.12, isto é, dois dias mais tarde, o mesmo agente Tucayanu liga por volta das 18h00 para Isaías Cassule, alegando ter informações sobre o Kamulingue e uma gravação em vídeo da última manifestação, pelo que deveriam encontrar-se defronte ao fontanário da Escola Angola e Cuba, no Cazenga. Cassule, talvez na ânsia de obter informações, sobre o amigo e colega, vai ao encontro na companhia de Alberto António dos Santos, mecânico da UGP. Mas, postos no local, este último apercebe-se de que o encontro é uma cilada e empreende uma repentina fuga, coisa que Cassule não conseguiu, ficando à mercê dos assassinos, que o levaram, naquela mesma noite, para uma zona afastada do Rio Dande, a bordo de uma viatura Hilux de cor preta, conduzida pelo agente Tcheu, chefe de escolta do governador e secretário provincial do MPLA de Luanda.

Faziam ainda parte dos raptores, Lourenço Sebastião, chefe do SINSE de Viana, Fragoso, agente do SINSE de Luanda e mais três elementos, cujos nomes constam na documentação que os identifica apenas como agentes 020, 030, 060, sendo, em todo o caso, esta operação apenas efectuada por agentes do SINSE.

Entretanto, depois do cometimento do crime, o agente Kiko, inconformado com a decisão de o terem empurrado para o papel de “matador”, para além de lamentar cabisbaixo nos corredores da DPIC e DNIC, também desabafou com familiares e com Tucayanu, agente do SINSE, que não deixou de comentar a informação. Neste percurso, sem ordem judicial, tal como acontece muitas vezes com as operações comandadas pela DNIC, eis que esta instituição, em colaboração com a PGR, inicia o rastreio telefónico deste agente, conseguindo obter mais elementos sobre quem e como foram raptados Cassule e Kamulingue.

Em virtude deste acervo judicial, Tucayanu foi preso e o ministro do Interior comunicou os factos ao Presidente da República, que, na sua qualidade de Comandante em Chefe, deu ordens expressas no sentido de a DNIC, em conjunto com a PGR, desencadear diligências para o esclarecimento dos factos.

Com base nessas requisitadas diligências, no dia 05.11.13, processaram-se as primeiras detenções de Lourenço Sebastião, chefe do SINSE/Viana, Paulo Mota, delegado adjunto do SINSE/Luanda e Loy, agente do SINSE/Luanda. nas suas primeiras declarações, em acto de interrogatório, na PGR, todos foram unânimes em acusar Sebastião Martins e António Manuel Gamboa Vieira Lopes, como mandantes dos assassinatos.

Provas do crime

Os investigadores já realizaram diligências de busca e captura nas residências de Francisco Pimentel Tenda Daniel tcp Kiko, para recolher a arma que disparou contra Alves Kamulingue, tendo a mesma sido entregue pela mulher deste a Manuel Miranda, chefe da Investigação Criminal da Ingombota, um dos que também participou no assassinato.

Na casa de Paulo Mota foi apreendido o seu computador, com um volume de informação invejável, pois tinha planos operativos sobre a actividade de inteligência do SINSE, realizada ao longo dos últimos anos contra elementos da oposição e da sociedade civil. Foi encontrada, por exemplo uma lista de elementos a abater, destacando-se o mecânico da UGP, Alberto António dos Santos, Luaty Beirão, Nito Alves, Brigadeiro 10 pacotes, entre outros, cuja lista divulgaremos mais tarde.

Neste momento, já foram ouvidos Vieira Lopes, Dias do Nascimento, Manuel Miranda, Luís Miranda e, muito provavelmente Sebastião Martins, exonerado no 14.11, todos já constituídos arguidos, segundo fonte operativa, mas continuando em liberdade pese a sua implicação nos horrendos e cobardes assassinatos.

Muito provavelmente, poderá também vir a ser ouvido, o governador provincial de Luanda, Bento Bento.

QUEM ESTÁ DETIDO

Neste momento encontram-se já detidos os seguintes elementos:
1- Tcheu – ex-chefe de escolta do governador de Luanda, Bento Bento,
2 – Paulo Mota, delegado adjunto do SINSE/Luanda;
3 – Francisco Pimentel Tenda Miguel, tcp Kiko, agente DPIC
4 – A.Loy, agente SINSE/Luanda; Todos os acima mencionados encontram-se na cadeia do São Paulo, em Luanda
5 – Lourenço Sebastião, chefe do SINSE/Viana
6 – Tucayanu, agente SINSE/Luanda
7 – Fragoso, agente SINSE/Luanda; todos estes encontram-se na cadeia do Supremo Tribunal Militar

Uma das mais antigas e odientas tradições de alguns chefes guerrilheiros e novatos bajuladores do MPLA é matar para reinar, como foram os casos de Alves Kassulingue e Isaias Sebastião Cassule, antigos militares da UGP (Unidade da Guarda Presidencial) e, anteriormente, no caso abafado do suicídio do engenheiro António Belarmino Brito no, dia 22 de Fevereiro de 2012, quando foi encontrado morto no novo edifício sede da SONANGOL.

A questão que se pôs então e se põe ainda até hoje, é de saber como pôde um funcionário superior da petrolífera estatal, inspector de projectos, sucumbir subitamente “em plena luz do dia”, no seu próprio local de trabalho, sem que alguém fosse ao seu socorro? Correram várias versões sobre o local exacto onde a vítima foi encontrada morta na sede da empresa. A esse respeito, o Prof Ngola Kiluange diz ter sido encontrado no seu próprio escritório.

Por outro lado, segundo a mesma fonte, «durante o funeral, três funcionários da Sonangol, que se identificaram como colegas da vítima, terão aparecido em tempos alternados, o primeiro dizendo que o engenheiro foi encontrado morto no elevador, o segundo afirmando ter visto Berlarmino morto num outro andar, e o terceiro confessou ter tentado ajudar e levá-lo para a clínica do edifício, mas “acabou por morrer quando chegou à clínica Girassol”.
Estranho, não?

Este é um sistema de assassinato clássico no que toca aos métodos do MPLA. O fuzilamento de Sotto Mayor, no campo da Revolução, em Luanda, nos anos 80 e em tempos mais recentes, os assassinatos de Adão da Silva, Ricardo de Melo, Mfulumpinga Landu Victor e tantos outros pelos esquadrões de morte, que ensombram a imagem de qualquer regime.

Assassinatos em cadeia contínua no tempo

Desgraçadamente, a realidade que será legada pelo desempenho do MPLA será prenhe de uma sucessão de variantes de um só tema, que regularmente, vem à tona: os crimes cometidos pelos sucessivos governos sob sua liderança, seja antes da tomada do poder com os assassinatos, entre muitos outros, de Matias Miguéis, enterrado vivo e deixado dois dias com a cabeça de fora, a mando de Agostinho Neto, tal como a do comandante Paganini, na Frente Leste, acusado de feitiçaria e tentativa de golpe a Neto, foi atirado vivo, numa fogueira em 1966. Houve ainda a tragédia do 27 de Maio de 1977, onde cerca de 80.000 mil jovens, foram assassinados sem julgamento, por Neto não “querer perder tempo com julgamentos”. Temos ainda os assassinatos que brotaram do nada em 1992 e se multiplicaram por trás de sucessivas máscaras de uma democracia sui generis num palco altamente inclinado, no qual o MPLA acabou por manter o seu lugar avassalador, lá em cima, num festivo ambiente de multipartidarismo falsíssimo e mais que balofo.

São de relembrar casos que nem sequer são ocultos (o mais curioso é que ninguém os comenta), como, por exemplo, a morte de Serra Van Dunem, os acidentes armadilhados por homens da Secreta, alegadamente sob controlo dos kaenches do Palanca que já mataram religiosos, milícias ao serviço da própria secreta para se eliminar possíveis testemunhas do massacre contra Filomeno V. Lopes, a eliminação de certos quadros nacionais e estrangeiros por envenenamento, isto sem esquecer a morte de Nelson, pessoa querida do antigo ministro das relações exteriores, Paulo Jorge, por envenenamento no MIREX pelos próprios colegas, depois de este ter discutido com um camarada de partido que o tinha ameaçado de prisão… ao que podemos juntar o já aqui mencionado pseudo-suicídio do engenheiro Bernardino Brito, discretamente seguido de ordens superiores para queimarem o vídeo que retratava o acto criminoso por ordens supostamente de Manuel Vicente, que temia que os segredos em posse de Brito sobre os seus negócios com a China e outros países viessem à luz do dia; a eliminação de dirigentes da UNITA já depois dos acordos de paz, na sua maioria por envenenamento dentro de suas próprias casas e em hospitais dentro e fora do país…. e tutti quanti amarfanhado, ocultado e evaporado pelo regime. Que nos ecrãs da TPA só comunica ao povo de Angola lisura, civismo e honestidade!
Cinismo puríssimo.

Desrespeito dos Direitos Humanos é recorrente no candidato

Dizer que Angola chegou mesmo a pagar e a fazer corredores para estar na Comissão de Direitos Humanos da ONU dá vontade de rir às gargalhadas. Nem que seja apenas para escorraçar da nossa mente o medo de ver o poder do dinheiro a violentar a ONU, fazendo nela entrar o nosso país, cujo “governo” atípico, a que de dá, por atavismo, o nome de Executivo, diariamente, comete crimes contra os direitos humanos, que assim serão, doravante, perpetrados sob cumplicidade desta prestigiosa organização. Esperemos que não, que isso nunca possa acontecer”.

Lamentavelmente, a ditadura atingiu o extremo. Como é possível ser barrado um cortejo fúnebre sob a ameaça da polícia de intervenção rápida (PIR), helicópteros, cavalos, viaturas para lançamento de água quente e gás lacrimogénio?

Agentes da PIR lançaram gás lacrimogéneo contra os acompanhantes de Hilbert de Carvalho Ganga. Até os polícias normais fugiram e outros se protegeram do gás. Quase 45 minutos parados em frente à paragem do Jumbo com mais de duas mil pessoas à espera de uma decisão para continuar o trajecto em marcha com destino ao cemitério Santa Ana.

Mas lá no Santa Ana já estavam presentes largas centenas de pessoas, entre elas altos dirigentes da UNITA e do Bloco Democrático. Mesmo no cemitério os helicópteros da policia estavam presentes sobrevoando permanentemente em círculo com atiradores especiais armados.

A imprensa estrangeira e nacional cobria o acontecimento, mas a televisão do regime, a TPA, foi expulsa pelos acompanhantes de Hilbert Ganga. Se a policia ordenou que as pessoas fossem de autocarro até ao cemitério Santa Ana, só uns subiram mas a maioria preferiu mesmo marchar com os slogans ‘Zé Dú ASSASSINO’, ‘QUEM MATOU? MPLA ASSASSINO’, ‘EXIGIMOS JUSTIÇA’.

O líder da CASA- CE Abel Chivukuvuku, marchou mesmo até ao Santa Ana, e durante o discurso fúnebre, o politico garantiu apoio institucional e pessoal ao filho de 2 anos do malogrado, Hilbert Carvalho Ganga de 32 anos de idade, natural de Luanda, engenheiro civil, professor, membro do conselho nacional deliberativo da CASA-CE, e que deixa um filho órfão e uma noiva.

Por Telmo Vaz Pereira

wilganga

O que se temia aconteceu, novamente de forma bárbara, sem o mais elementar respeito pela vida humana. Manuel Hilberto Carvalho “Ganga”, dirigente da ala juvenil do partido CASA-CE, foi abatido a tiro quando colava cartazes com o seu grupo, sábado, quando a manifestação programada ainda não tinha saído à rua. Leram bem: QUANDO COLAVA CARTAZES !

Cassule Kamulingue Panfleto CARTAZ CASA-CE

Os cartazes que a PNA considerou motivo de sobra para o cidadão merecer a morte

Não se sabe ainda quantas mais pessoas foram assassinadas pela polícia em outras cidades e vilas pelo país onde se realizaram manifestações pacíficas, assim como quantas centenas de pessoas estão detidas e desaparecidas. Até este momento, a polícia confirma que deteve 292 pessoas. Lembro que a manifestação de sábado, tinha como objectivo repudiar e protestar pelo assassinato por agentes dos Serviços Secretos (SINSE), dos activistas Kamulingue e Cassule, e exigir que TODOS os culpados fossem julgados, e à qual aderiram outros partidos, além de organizações cívicas.

Um desses partidos, o BD-Bloco Democrático, no seu comunicado de 20.Novembro, referia que a sua decisão de se juntar à manifestação, tem como fim «pretender salvaguardar o processo democrático, a pureza das instituições do Estado de Direito, a solidariedade activa com os familiares directos das vítimas e estancar definitivamente o vício dos assassinatos e perseguições políticas.» Leram bem: ESTANCAR DEFINITIVAMENTE O VÍCIO DE MATAR ! No mesmo comunicado, o BD concluía que «atento ao que se tem passado em manifestações anteriores, adverte que o facto do Presidente da República não estar no país, não retira ao mesmo a responsabilidade dos distúrbios, normalmente provocados pelas forças policiais e suas milícias à civil».

Além disso, vários líderes políticos foram interceptados pela polícia e foi-lhes lançado gás lacrimogéneo, como aconteceu a Samakuva ou Abel Chivukuvuku da CASA-CE e também, entre outros, a David Mendes, antigo presidente da Associação Mãos Livres e líder do Partido Popular que se fundiu com o Bloco Democrático, da oposição extraparlamentar e liderado por Justino Pinto de Andrade.

Mas também activistas cívicos sem nenhuma ligação à política foram perseguidos, como por exemplo o advogado da associação ‘Mãos Livres’, Alberto Zola, que foi interceptado pela polícia, espancado publicamente e levado para uma unidade de polícia. Horas depois de ser solto, voltou a ser interceptado por um polícia que dizia “ter ordens superiores para o deter” e levado para as instalações da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) onde, como habitualmente, foi torturado pelos gorilas do regime.

Porém, já se sabe quem foi que executou a sangue frio o jovem Manuel Hilberto Carvalho “Ganga”, que colava cartazes para a manifestação. O crime foi praticado pela Guarda Presidencial de Eduardo dos Santos. Leram bem: GUARDA PRESIDENCIAL Testemunhas revelam também como o seu companheiro “Ganga” foi abatido, desmentindo a versão da polícia. O deputado da CASA-CE, Lionel Gomes, desmentiu os pronunciamentos públicos da Polícia Nacional segundo os quais não deteve nenhum deputado: “A polícia mente muito. Eu estive detido na 9ª Esquadra das 22h00 às 16h17”.

O país acordou em Estado de sitio, este sábado, depois de a Policia através do seu porta-voz Aristófanes dos Santos ter ameaçado impedir qualquer manifestação. Verificou-se também uma acção altamente bélica com helicópteros da Polícia e da Força Aérea no ar, além dos tanques-blindados das FAA e da PIR no solo, com ordens para atirar em tudo o que mexe. Não parece haver dúvidas de que o Governo da ditadura parece que tem saudades da guerra. Tudo isto por causa da anunciada manifestação pacífica ! Hoje percebemos bem o que significavam as ameaças proferidas dias antes pelo MPLA, ao declarar que a manifestação é uma «aventura irresponsável e de consequências imprevisíveis». Aí estão os resultados dessas ameaças, com a invasão a tiros de sedes de partidos, prisões arbitrárias e assassinatos. ESTA É A VELHA MARCA DO REGIME DO MPLA E DE ZÉ KITUMBA DOS SANTOS, há 34 anos consecutivos no poder, um regime protofascista com métodos de terrorismo de Estado, que permanentemente cala a voz do povo com violência.

Para o regime de assassinos chefiado por Zé Kitumba dos Santos, as únicas manifestações autorizadas são aquelas “espontâneas” organizadas pelo MPLA em apoio ao ‘querido líder’, tal como acontece noutros regimes semelhantes. As manifestações organizadas pelos partidos da oposição ou de associações cívicas – cujo direito está consagrado na Constituição angolana -, para reclamar da má governação, protestar contra o roubo, a corrupção e o crime, são na óptica do bárbaro regime para “desestabilizar” e proibidas, “argumento” muito comum entre os antigos e actuais piores ditadores tais como Pinochet no Chile, Ceausescu na Roménia, Thein Sein em Myanmar (antiga Birmânia), Teodoro O. Mbasongo da Guiné Equatorial e muito amigo de Eduardo dos Santos, Sharif Ahmed na Somália, Kim Jong-un da Coreia do Norte e outros.

Uma coisa é certa: este hediondo regime instalado e chefiado por Eduardo dos Santos há 34 anos, deve e tem de ser levado ao Tribunal Penal Internacional, pelos antigos e actuais crimes que tem praticado ao longo dos anos, que inclui o assassinato de mais de 20 jornalistas nas duas últimas décadas.

Por Telmo Vaz Pereira

Isabel João foi até a Comarca Central de Luanda, pagou 500 Kwanzas para visitar o prisioneiro (sem julgamento) menor de idade Manuel Nito Alves que descreve as condições pestilentas em que é mantido, numa cela com 200 outros, só toma banho uma vez por semana, caga no saco e, derivado dessa situação contraiu sarna, sem que lhe seja prestada assistência médica.

Acompanhe a totalidade da entrevista nas imagens abaixo:

Nito Alves Entrevista NJ pg.1 Nito Alves Entrevista NJ pg.2

Relato #1, por Hitler Samussuku

BI Hitler

Quando achámos que havia escassa polícia  no largo 1º de maio, estávamos todos iludidos. Mais uma vez o sistema usou uma estratégia maquiavélica para embaçar os manifestantes.

Às 13h00 horas marcadas para o dar início a mais uma manifestação, o largo estava todo mudo, não se sentia nem ouvia aquela opressão (polícias da ordem pública, brigada canina, brigada anti-crime e anti-motim que sempre se fazem presentes de forma ostensiva em manifestações), apenas havia uma viatura denfronte a estátua, no seu lugar habitual (*), as outras estavam escondidas: havia uma viatura defronte ao IMEL (1), uma no Chamavo (2), outra no beco do Nzinga(3) e mais uma na entrada do Cine Atlântico (4).

Mapa Manif artigo Itler com Carros

Nota do revisor: Antes da chegada do Hitler, havia igualmente uma carrinha da brigada canina estacionada no Largo que depois se retirou, como poderão comprovar na imagem abaixo que um internauta nos enviou ainda pela manhã. O mesmo internauta identificou outras viaturas para “contenção” concentradas defronte ao Cemitério Sant’Ana. Ao entrarem em função os Kaenches, a viatura notada com * no mapa acima, que costuma estar todos os dias no semáforo do largo, retirou-se do local, deixando os manifestantes entregues à uma batalha campal com os kaenches.

Até 13h30 o largo continuava calmo, jovens e crianças brincavam no jardim e nos arredores do largo havia muitos senhores sentados nas cadeiras, bem vestidos, os mais velhos com fato e gravata, calças e camisa à preceito e os jovens bastante diversificados mas todos com um ar limpo e polido. Um deles, vi mais tarde, conduzia um jeep Tundra que tinha deixado estacionado à frente da César e filhos. Menciono esta gente neste relato porque, veio a revelar-se, eram todos bófias.

Cinco minutos depois, fui abordado por 3 agentes com farda azul escura reforçada (tipo PIR) e metralhadora, mandaram abrir a mochila para verificar o material que eu levava e suspeitaram que eu era um dos que estava a ser procurado para ser travado.  Depois de um breve interrogatório (de onde vens, para onde vais, perguntas de rotina), já estavam a me levar, depois me soltaram. Dei meia volta, troquei de camisola e bazei no cyber.

Àss 14 horas liguei para o Mbanza e ele disse-me: “não vou aparecer aí agora, aponta o numero do Mandela…”. Apontei e liguei ao Mandela:

- Onde posso te encontrar?

- Estou a descair a partir do Zé Pirão

- Nos encontramos no Chamavo?

- Pode ser.

Posto lá, não consegui lhe reconhecer, tendo decidido então voltar para o largo 1º maio com a hipótese de ter havido um desencontro entre nós…

Cheguei à entrada da Praça da Independência, encontrei o Jang Nómada, lhe dei um toque e ele não me reconheceu, aproximei-me dele e lhe perguntei: é como, o mambo sai ou não sai? Ele, nem com isso me reconheceu. Uns bófias que estavam sentados levantaram para ouvir a nossa conversa e eu puxei o Jang para o lado, disfarcei uma conversa de rap, daí ele reconheceu-me e disse: baza, esses wís (sinfos) estão a nos seguir.

Me afastei aos poucos e vi o mandela a entrar no largo, atravessei a estrada nas calmas e juntei-me aos outros.

Apanhámos o ângulo ideal para começar com os protestos e daí começaram os primeiros gritos de revolta: ”libertem o nito, libertem o nito!”.

Em menos de 5 minutos um grupo de jovens e senhores civis  fez um cerco em direção ao largo, aproximando-se em grande velocidade o que terá criado pânico entre nós.

Aí começámos a nos espalhar: uns correram em direcção à multidão que passava no largo para conseguir fugir, outros sairam rápido correndo em direcção ao Hospital Militar.

Eu e outros saímos em direcção ao Nzinga e aí registei a primeira detenção: um jovem com uma t-shirt preta,calças jeans pretas e chinelas amarelas, foi apanhado por 2 jovens civis que usavam trajes normais (um de camisola azul e umas calças pretas outro com uma camisola olímpica branca calções jeans curto) agarraram nele e levaram-no. Um jovem, aparentemente com uns 23 anos, trajando fato preto, gravata vermelha (DNIC, concerteza) apareceu e começou a ajudar os 2 bofias. Até que um polícia que esteve com o carro estacionado quase ao Nzinga desceu e lhe levou em direcção à unidade dos ex.combatentes.

Fiquei lá até ele ser levado e depois fiz uma ligação para saber o destino do mandela:

-  Wí aqui é o Hitler estás aonde?

- Estou a ser presseguido pelos sinfos.

- Viste o jovem que foi apanhado?

- Nada, não vi.

Enquanto falava, uns gajos estavam atrás de mim e depois de terminar disseram-me: “Hitler afinal é você?”. Eu nem respondi, comecei a marchar e logo surgiram 3 polícias e o jovem SINFO de camisola olímpica me identificou gritando: “esse também!”. Nem deu mais para correr, me levaram nos becos do Nzinga onde havia 2 carros da polícia que almejavam ansiosos os manifestantes.

Tiraram-me do carro, exigiram que subisse noutro (Iveco da PIR), o que obedeci. Estava já todo cabisbaixo a pensar que poderiam me levar na unidade, mas acabámos por ficar por ali mesmo o tempo todo.

Eles conversavam dicas deles, falavam sobre Quim Ribeiro, se contavam de damas até que um deles veio ter comigo.

- Ele: qual é a maka?

- Eu: nada

- Ele: nada puto? Vieste fazer o quê aqui no largo?

- Eu: estava a sair da escola e fui surpreendido pelos polícias.

- Ele: (risos) nós vimos todos que estavam aí, não pegamos em vão, você estava na manifestação, diz a verdade pá.

- Eu: estava mesmo na manifestação mas não fizemos nada de mal, até mal começou e já foi destroçada.

- Ele: quem permitiu? Há uma mão-invisivel no vosso meio e nós vamos achar um dia. Qual é o tema dessa vossa manifestação?

- Eu: viemos protestar a favor do Nito Alves, jovem de 17 anos detido há um mês.

- Ele: hahahahahhaha é verdade puto, esse Nito Alves é mais fudido que vocês né? Diz lá, ele e o Luaty quem é mais mau?

Achei graça, não disse nada e ele voltou ao debate com outros polícias, tendo o assunto de debate se voltado para o Nito Alves.

As horas foram passando e outro gajo voltou, fez-me  algumas perguntas, recebeu meu telefone tirou o cartão de memória e disse: “vai directo para casa. Pela próxima vais mamar!”.

 

Relato #2, por Makita Kuvula

Makita Pausado Diploma

A minha história começou dias antes (da manifestação): ligações por telefone, ameaças, diziam-me a todo o momento que se eu fosse para o local da manifestação poderia ser o último dia da minha vida. Mas eu ignorei e fui.

Posto no local encontrei-me com os outros manos a escrever os dísticos dentro do largo. Pouco depois, aproximaram-se dois homens com óculos escuros e perguntaram-nos: o que estão a fazer aqui? Pegaram nos dísticos e levaram-nos.

Aí, comecamos a gritar “SOLTEM O MENOR NITO ALVES!!!” e imediatamente o cenário mudou: Kaenches entraram em acção com ferros, paus, até arma de fogo, uma pistola de marca “STAR”.

Os manos com quem estava correram e eu estava a sair do largo a passos, tendo sido por isso agarrado por 3 kaenches vestidos com camisolas do Kabuscorp que queriam arrastar-me, mas como sou de estatura média, ofereci resistência e dificultei-lhes a tarefa de me sacudirem e levar para o outro lado do largo. Em seu socorro vieram meia-dezena de indivíduos, também à paisana que me despiram as calças, encheram-me de pontapés e bateram a minha cabeça nos ferros que se colocam em volta do largo, sobretudo em dias de manifestação. Ameaçaram-me várias vezes com “vamos dar-te um tiro na cabeça!”.

Levantaram-me e atiraram-me para as traseiras de um Land Cruiser policial, conduzindo-me até à 3ª Esquadra, atirado para uma cela onde fui agredido com dois socos no peito pelos outros detidos depois de me terem pedido dinheiro.

Depois desse episódio dois agentes investigadores retiraram-me da cela e meteram-me num gabinete onde depois me interrogaram com as mesmas e já gastas questões:

1- moço bonito a se estragar so à toa.
2- quanto te pagaram?
3- quem te mandou?
4- conheces Makuta Nkondo?
5- e se nós precisarmos de ti para uma conversa aceitas?

Volvidas duas horas e meia após a detenção e todo o calvário que se seguiu, devolveram-me os pertences e voltei à pé, inflamado e cheio de escoriações para casa, no meu Sambizanga.