Archive for the ‘Luanda’ Category

O mercado do Tchioco, também tratado como “bolsa de valores da região sul”, foi destruído há quatro anos para projectos indefinidos, sendo os vendedores que ali operavam mandados para o mercado do Mutundo cerca de 16 Km fora da cidade do Lubango, precisamente como aconteceu com o Roque Santeiro – Panguila, em Luanda.

Sem as condições de transladação adequadas e seriamente prejudicadas, boa parte das vendedoras voltou a erguer barracas temporárias no mesmo local de onde tinham sido despejadas o que criou tensões permanentes com as autoridades.

Na semana passada a PNA começou a demolir as barracas com Caterpillars, deixando as vendedoras sem alternativas, uma vez que os incentivos para o Mutundo continuam a não se fazer sentir. A menos que chamemos ameaças de incentivos.

Hoje, após outro raid policial ao Tchioco, as vendedoras fartaram-se e resolveram dirigir-se em protesto à portaria da TPA para exporem as suas preocupações.

A TPA não maiou e chamou a poliangui que fica a 50m (Comando Municipal).

Tão logo chegaram, os agentes da polícia começaram a fazer tiros, criando o pânico para dispersar as indefesas lutadoras. Esqueceram-se que estavam defronte a uma escola do I primeiro ciclo em pleno horário lectivo.

Com o susto dos tiros, desmaiaram 3 alunos e uma professora gestante acabou caindo também e não se sabe qual é o seu estado de saúde neste momento.

Apesar de fugirem dali, as vendedoras enveredaram imediatamente para as “cenas dos próximos capítulos”, dirigindo-se ao Comité Provincial do MPLA onde deram continuidade aos seus gritos implorando atenção.

De tanto ser empurrado e espremido contra as paredes da marginalidade e da indiferença, o povo angolano começa a ter pouco ou nada a perder e, quando isso sucede, o medo também desvanece.

Já faltou mais…

O cidadão e também Ministro do MAT, Bornito de Sousa, partilhou este post da Central no seu próprio mural de facebook com os seguintes dizeres:

“Vários cidadãos manifestaram preocupação sobre o comunicado da Direccao Municipal da Educação, da Administração Municipal de Cacuaco.
Três comentários:
1. Não é o MAT a instituição que solicitou a recolha dos dados a que se refere o comunicado.
2. Não existe aliás algum “Ministério da Administração do Território e Urbanismo”.
3. A instituição que solicitou os dados terá suas razões para listar os documentos referidos.”

De tudo o que ocorreu ao estimado Ministro comentar em reação a esta denúncia, parece ter esquecido de pelo menos fingir que lhe conferia alguma gravidade, o que podia ter sido feito com um comentário mais na linha do: “o Ministério vai tratar este assunto com a máxima seriedade e solicitar investigação à DNIC, pois tudo indica tratar-se de uma ação fraudulenta e criminosa por parte de indivíduos de má índole que pretendem assim manchar o bom nome dos auxiliares do titular do poder executivo. O Ministério pronunciar-se-á pronta e publicamente sobre este caso”.

Nada disso, parece simplesmente sacudir a água do capote, dizendo que “a instituição que solicitou os dados terá as suas razões para listar os documentos referidos”, mesmo depois de sugerir no ponto anterior que, ao introduzir-se indevidamente o termo “e Urbanismo” no nome do Ministério que tutela, o documento só poderia ser fraudulento.

Que displicência, não?

Entretanto, soubemos que depois da nossa denúncia algumas diligências terão sido tomadas, julgando pelo súbito esmorecimento da “urgência” que era atribuída no documento e pela convocatória para reunião por parte do chefe de pelo menos uma das repartições aos diretores de escola que tinha como ponto único de discussão “o documento que caíu nas redes sociais” onde, entre outras bacoradas se lamentou:  “Como é assim então, pequena coisa já foi nas redes sociais, assim vamos trabalhar mais como?”

Segundo nos foi confiado, o chefe tentou uma última advertência/ameaça: “depois não se arrependam aqueles que não fizerem esse cadastro”.

Em momento algum terá contestado a resposta de Bornito de Sousa, ficando então por explicar quem teve a iniciativa e com que intuito.

As eleições são em 2017.

Post do Ministro Bornito no seu mural de facebook

Post do Ministro Bornito no seu mural de facebook

O Comunicado em anexo, emanado do Gabinete do Director Municipal da Educação, comunica a todos funcionários (incluindo directores, subdirectores, auxiliares de limpeza e seguranças) das escolas do ensino primário, e Iº Ciclo a contactarem a Repartição dos Recursos Humanos da Direcção Municipal de Cacuaco (para Cacuaco), Cazenga (para Cazenga), Viana (para Viana) e outras Repartições de Luanda, para o cadastramento do Ministério da Administração do Território e Urbanismo, até 5 de Junho e para tal devem fazer-se acompanhar dos seguintes documentos:

– TERMO DE INÍCIO DE FUNÇÕES
– ASSENTO DE NASCIMENTO
– CÉDULA PESSOAL
– BILHETE DE IDENTIDADE
– CARTÃO DA SEGURANÇA SOCIAL
– CARTÃO DE CONTRIBUINTE
– PASSAPORTE (facultativo)

A inquietação é:
– Não se explica para que finalidade é esse cadastramento conduzido pelo MAT;
– Não se explica por que o MAT não recorreu a Base de Dados do Ministério da Educação;
– Onde, diabos já se solicitou 4 documentos uns sobrepondo outros (pois, uma vez conseguido o BI, o assento – que não é um documento de identificação – e a cédula perdem validade para identificação).
– Como o MAT explica, a solicitação do Assento, da Cédula Pessoal, do Bilhete de Identidade e do Passaporte de cidadão (quando inúmeras vezes o passaporte é rejeitado quando se quer beneficiar de um serviço, inclusive nos bancos) para um cadastramento não esclarecido?

Muitos professores em muitas escolas, sem ao mínimo questionarem já procederam a entrega desses documentos. Uma vez que o MAT está a solicitar esses documentos para fins inconfessos, vimos por meio desta denunciar esse acto para que se lhe ponha cobro e se esclareçam os factos!

É preocupante que o nosso Estado haja de forma tão desdenhosa com a identificação dos seus cidadãos. Já imaginaram o que poderá ser essa pilha de documentos na mão de um malfeitor? Nem o MAT nem o Ministério da Educação prestaram esclarecimentos aos visados apenas exigem compulsiva e nesciamente documentos controversos e em prazos de enjoar, sobretudo quando é sobejamente conhecida a dificuldade de se tratar de documentos nesta pátria que nos pariu.

Exigências controversas feitas aos professores pelo MED.

Exigências controversas feitas aos professores pelo MED.

Na base de tudo, a absurda exigência feita pelos funcionários dos dois postos de identificação aos quais Mbanza acorreu para tratar do seu BI: “documento da cultura autorizando o cabelo”.

Mbanza perguntou em que lei vinha referido esse documento da cultura como pressuposto legal a cumprir antes de lhe ser concedido o direito a auferir do seu documento identificativo. Infelizmente, os nossos funcionários não gostam de falar de coisas que não dominam e quando são confrontados com a Constituição da República, parecem super-homens confrontados com a kryptonite, puxam o Hulk dentro de si e tornam-se violentos, como podemos constatar no audio do post anterior aqui.

No mesmo post, lê-se a missiva que o Mbanza dirigiu ao Delegado Provincial da Justiça e Direitos Humanos, o superior hierárquico imediato do chefe do posto de identificação.

À boa maneira dos camaradas dirigentes, esta carta do Mbanza foi ignorada durante 20 dias, não se importando o Delegado com as implicações desse silêncio e os transtornos do cidadão que ficaria assim barrado de auferir do seu BI com as chipalas invasoras de Manguxi e Kitumba. Provavelmente o Delegado terá pensado algo do género: “ah, mas este rapaz vem me importunar com um assunto desta índole? Epá, se não quer tratar do documento, então que corte o cabelo que até fica mais bonito e apresentável”.

Mas o Mbanza não é de deixar barato e no dia 25 de Maio, deixou uma segunda carta com um ultimato, oferecendo os últimos quatro dias de tolerância para o Sr. Delegado responder, preferencialmente positivamente, caso contrário iria subir na hierarquia e denunciá-lo também por incumprimento das suas obrigações laborais de funcionário público.

Não foram precisos 4 dias. O Delegado, Délio Perdigal, muito apologético, ligou as 7h50 do dia 26, direccionando o Mbanza para um Posto de Identificação dos Combatentes e perguntar pelo Sr. Cazanga, que já teria sido contactado por ele para dar atendimento devido ao queixoso cidadão. Reiterou o seu pedido de desculpas, pediu para registar o seu número de telefone e não hesitar em contactá-lo se não estivesse a ser adequadamente tratado.

O resultado da luta aqui está, o cidadão novamente devidamente documentado, com o BI emitido aos 27 de Maio pelas 15h00.

O que para a maior parte das pessoas significaria o fim do processo, não é ainda satisfatório para Mbanza Hamza e ele quer agora voltar a falar com o Delegado para que essa aberração de diretiva omissa seja definitivamente abolida e nenhum cidadão tenha de voltar a sujeitar-se a cortar o seu cabelo ou juntar-se à comunidade rasta para que possa tirar o seu BI.

Esta novela tem “cenas dos próximos capítulos”.

BI de Mbanza, com locks e sem documento da cultura.

BI de Mbanza, com locks e sem documento da cultura.

Mbanza tem o seu BI caducado e foi tentar renová-lo. Em dois postos de identificação distintos no Município de Cacuaco ouviu a mesma resposta: “vai na Cultura tratar do documento do cabelo”.

Contestou, bradindo a constituição e alegando discriminação, mas acabou removido à força do local.

A conversa que vão ouvir é absolutamente surreal e mete a nú uma denúncia antiga que nunca foi devidamente abordada pelas autoridades: a falsa questão do documento do cabelo, sentida de forma bem real, sobretudo pela comunidade Rastafari.

Abaixo o áudio (carregue na imagem) e, um pouco mais abaixo, a carta que o Mbanza remeteu ao Delegado Provincial da Justiça e DH (leitura muito aconselhável)

Mbanza Mixcloud
AO

EXMO SENHOR DELEGADO PROVINCIAL DA JUSTIÇA E DOS DIREITOS HUMANOS DE LUANDA

LUANDA

Assunto: Solicitação de acção imediata

Saudações,

Solicito a atenção de V.Excia para o assunto que passo a expor:

Sou o Afonso Matias, também conhecido por “M’banza Hamza” e “Prof. John”, cidadão angolano, residente na província de Luanda, município de Cacuaco, comuna da Funda;

No dia 23 de abril de 2015, pelas 6 horas desloquei-me à Repartição do Registo Civil da Vidrul em Cacuaco. Depois dos procedimentos bancários, concluídos as 8h20 numa das dependências do Banco BPC na Vila de Cacuaco, fiz-me novamente a referida Repartição para a renovação do meu Bilhete de Identidade caducado desde setembro de 2014. Contextualização:

Desde fins de 2013 que decidi não cortar o meu cabelo com o fito de deixa-lo crescer em dreadlocks (cabelos longos, encachados, deixados crescer naturalmente), mais vulgarmente conhecido como cabelo rasta;

Levo a vida exercendo a minha profissão de professor primário, bem como a de ativista cívico e defensor de direitos humanos. Entre a indignação de alguns e a curiosidade de outros vou fazendo o meu percurso, esclareço a quem mo solicita e defendo-me ante críticas, quase todas baseadas em preconceitos e desinformação sobre os dreadlocks.

De volta ao dia 23 de abril;

Depois da recolha dos BIs que iam para renovação, fui chamado e à porta, o funcionário (que mais tarde vim a saber chamar-se Cândido) perguntou-me se eu ‘tinha o documento da cultura para o cabelo’ eu disse que não tinha e que não era necessário. Ele pediu que o acompanhasse até a um gabinete para ir esclarecer-se com o seu superior (que vim igualmente a saber tratar-se do chefe de Repartição local);

No gabinete o superior disse, ao lhe ser solicitado se eu podia ou não renovar o meu bilhete com o cabelo que tinha:

– O senhor não sabe que tem que ter o documento da cultura para tratar o bilhete com cabelo? Eu perguntei se me podiam mostrar alguma lei ou uma nota escrita que afirmasse tal.

– Mas você não está escrito no ministério da Cultura, não sabes que para teres o cabelo assim tens que estar escrito no Ministério da Cultura? – continuou o chefe de Repartição.

– Vou estar escrito por quê? Como? O ministério da Cultura pelo que sei é um ministério que lida com instituições e agentes que promovem a cultura – disse eu. Eu não sei se há lá um gabinete para atender pessoas que mudem a fisionomia como dizeis.

– Tem! – responderam unanimemente todos.

– Como se chama esse gabinete? – perguntei a eles.

– Vai lá, vão te informar – respondeu o chefe de Repartição.

– Não! Vocês têm que me dizer – repliquei.

– Podes me deixar trabalhar? Ou então procura outro posto e vai lá tratar – foi o ultimato do chefe de Repartição. Eu disse que não iria a outro posto, era aqui onde tinha de ser atendido ou que ao menos me esclarecessem. Peguei na constituição para ler o artigo 23º e o 41º, não adiantou em nada. O Cândido teve a luz verde para protagonizar a sua arrogância e incompetência autoritária. Começou a empurrar-me para abandonar o gabinete, eu ofereci resistência e continuei a falar e a tentar abrir a lei, ai, o chefe de Repartição e mais um funcionário juntaram-se ao “empurra esse gajo.”

– Mostrem-me uma lei! Eu estou a ser discriminado! Que lei é maior que esta [a constituição]? Foi o que fui clamando enquanto empurravam-me do gabinete para a sala de tratamento e renovação de BI. Os empurrões tornaram-se mais violentos e por duas vezes os meus óculos caíram por efeito da agressividade com que estive a ser tratado, protagonizados pelo Cândido, chefe de Repartição e um funcionário. O chefe de Repartição havia pedido paz para trabalhar, pois eu estava a ser uma espécie de incomodo, só não sei se essa paz era para energicamente se engajar no teatro do “empurra esse gajo”.

Eles queriam humilhar-me em hasta pública, levar-me aos empurrões até fora da sala de renovação de BI, mas eu mostrei-lhes que se insistissem na intentona, só podiam é piorar as coisas e o alvoroço seria maior. O Cândido ameaçou bater-me e tudo. Continuei a gritar que estava a ser discriminado e ser agredido, algo que eu não esperava numa instituição do Ministério da Justiça. Aos poucos os empurrões foram acalmando e não insistiram na minha expulsão. O chefe de Repartição voltou a falar da necessidade de legalização da mudança de aparência, com os mesmos argumentos anteriores. As minhas questões mantiveram-se e ele acabou por retirar-se. Veio um funcionário que começou a falar calmamente comigo e a tentar esclarecer o motivo por detrás da suposta rejeição. Fomos falando amigavelmente e saímos para o pátio e até à rua. Pela conversa, percebe-se claramente a desinformação e, o pior, a falta de capacidade para perceberem que a sua atitude como instituição foi discriminatória. Em suma, eis o que estive a exigir:

  • Que me mostrassem uma lei a informar que cidadãos que tenham mudado a aparência careçam de autorização do Ministério da Cultura;
  • Ou em alternativa que me mostrassem pelo menos uma nota escrita, presente na Repartição a informar que casos de alteração da aparência, ou casos de uso de dreadlocks careçam de autorização do Ministério da Cultura e afiliação à Comunidade Rasta;
  • Procurei saber porque tenho de ir ao ministério da Cultura para fins de legalidade quando estes aspectos são da tutela do Ministério da Justiça? O que é isso de tão complexo que escapa as competências do Ministério da Justiça, para se socorrer do Ministério da Cultura? É um procedimento de cuja justeza e legalidade não consigo compreender;
  • Pedi para que me deixassem ler-lhes o que a lei magna, a Constituição da República de Angola nos seus artigos 23º e 41º diz; mas se há alergia dos nossos servidores públicos, é a de ouvirem o que a lei diz. A minha tentativa a isso valeu-me ser arrastado e empurrado que nem um porco, acção protagonizada inclusive pelo chefe da Repartição do Registo.

Depois de estar fora da Repartição (com o funcionário Farias) e ter esgrimido os argumentos legais que queria poder fazer perante o chefe de Repartição, um outro funcionário, solícito, e que me esteve a ouvir, recomendou-me fazer um recurso hierárquico, começando com o chefe de Repartição. Foi essa recomendação que ajudou-me a saber que um dos sujeitos que me esteve a empurrar era justamente o chefe de Repartição. Quando voltei a solicitá-lo, os seus argumentos não mudaram, apenas o temperamento. Conversamos amigavelmente desta vez, mas para ele só havia duas saídas: 1. Cortar o cabelo ou 2. Registar-se numa comunidade rasta e com o parecer positivo do Ministério da Cultura. A tão solicitada fundamentação legal dessas condições, ficou para segredo dos deuses.

Neste dia, entrei para o gabinete do chefe de Repartição 3 vezes. A primeira que resultou no teatro “empurra esse gajo”; a segunda para falar com o chefe de Repartição e a terceira foi quando voltei para ir buscar o borderô do depósito bancário que havia esquecido. O funcionário Farias (não estou muito certo quanto ao nome) ao qual apresentara a argumentação legal fora da Repartição, e que antes havia negado o meu professorado (por causa do meu comportamento – entenda-se, por reclamar um direito que me cabe), depois dos argumentos e conversa na rua, é provável que tenha mudado de opinião e quando me viu no pátio, chamou-me:

  • Senhor Professor, Senhor Professor, vem. Olha, está ai um outro funcionário no gabinete do chefe de Repartição, vamos tentar novamente. Vamos lá e explica o teu caso calmamente a ele, quem sabe ele te atende.

Mas não adiantou em nada. O Cândido quando me viu ficou indignado por estar novamente naquele gabinete e já esteve a ranger os dentes. Expliquei a minha situação e rejeição que sofrera no período da manhã. Ele não foi diferente na argumentação, “documento da cultura!”. Perguntei-lhe, se uma senhora viesse de postiço ou tissagem na cabeça, careceria igualmente da autorização do Ministério da Cultura? Disse Não! Perguntei se estava a par do princípio da igualdade enunciado artigo 23º da CRA (o Cândido já estava a mofar nesta altura), do apelo a “não ser prejudicado, privado ou isento de um direito em razão de religião, convicções políticas, ideológicas ou filosóficas”? Os rostos franziram e os dentes rangeram.

Reforcei dizendo que o postiço e a tissagem além de figurarem na lista de acessórios que alteram a aparência, são acessórios artificiais, que podem ser trocados ou removidos ao cabo de uma semana, já os meus dreads, além de 100% naturais, constituem-se num look (visual) que vai manter-se por uma longura de anos. Ninguém cria dreads para cortá-los uma semana, ou mês após consegui-lo.

O absurdo é a resposta vinda do outro lado, que nega-se redondamente a admitir que postiços e tissagens alteram a aparência, justifica tudo como sendo “elas [as mulheres] o fazem para realçar a sua beleza”. Mas realçar a beleza altera ou não a aparência? Quanto a questão da igualdade mencionada no artigo 23º, este funcionário defendeu que ‘nós não somos iguais, ou se é que eu achasse que somos iguais, que viesse tratar o BI de vestido e fio dental.’

Em 2011 quando fui registar a minha filha, vivi um incidente similar. O gabinete de registo civil do Centro Materno Infantil da Funda tinha (não sei se continua tendo) uma lista com os nomes “oficialmente” permitidos para nomes próprios a atribuir aos filhos, realçar que não consta nenhum nome de origem africana nesta lista, são todos nomes de origem portuguesa e ocidental. Dois casais que presenciei, acabaram por mudar os nomes aos filhos (nomes africanos para nomes portugueses) porque não constavam naquela lista. Eu por pouco não registava a filha, pois o nome “Leonor” que dei, a senhora não encontrava na lista, eu insisti que ela lesse bem, Leonor é um nome português, tinha certeza que estava na lista, depois de mais uma lida, ela achou o nome e aceitou registar a filha.

Eu me pergunto, afinal, o que valeu-nos a independência? Grande parte do que se constitui em nossos valores e princípios éticos hoje, foram exigências do colonizador para nos aculturar, assimilar, fazer-nos negar a nossa identidade e nos tornarmos portugueses. O rapar obrigatório do cabelo, a imposição de nomes portugueses, a obrigatoriedade de ter-se mais de um nome (antes da colonização os africanos podiam ter um nome só, exemplo: Mandume, Ekwikwi, Ngola-Kilwanji, Nzinga-Mbandi, Shaka-Zulu, Asantewaa, Nanny (rainha, Ghana), Rahmzés, Imohtep, etc.) são apenas alguns exemplos. 40 anos depois da independência, ainda não traçamos o nosso próprio rumo, não há flexibilidade para esses assuntos? Continuamos na mesma imposição colonial? Será que Nzinga-Nkuvu, Mandume, Ekwikwi, Nimi-a-Lukeny e muitos outros usavam cabelo escovinho?

Outro aspecto que também me deixa inquieto é o facto de que deixei igualmente crescer a barba e as unhas das mãos. Durante toda essa fanfarrice em volta da alteração da aparência, ninguém mencionou o factor barba longa, muito menos as unhas compridas, será que elas não abrangem na famigerada “alteração da fisionomia”? Se sim, onde irei conseguir legalização para eles, será também no Ministério da Cultura? Ou terei que igualmente afiliar-me a uma comunidade qualquer de barbudos e unheiros com o parecer positivo do Ministério da Cultura? Careço de informações a respeito para que se não me ponha novamente impedimento em renovar o BI por causa da barba e das unhas. Um segundo aspecto que não quero deixar de parte são os óculos. Tenho recomendação e prescrição médica para usar óculos permanentemente por causa do problema de visão. Tem sido embaraçoso removê-los sempre, pois “não estás assim no BI e nem no passaporte”. Não sei se haverá objeção para que no meu novo BI esteja de óculos ou se precisa igualmente de um recurso legalizador.

Excelência, é por esses factos que lhe escrevo, solicitando a sua intervenção para o meu caso. Eu preciso renovar o meu Bilhete de Identidade, já recorri ao chefe de Repartição local, os seus argumentos são os já apresentados acima. Fui para o Posto de Identificação de Cacuaco na vila municipal em cumprimento do “procura outro posto e vai lá tratar” do chefe de Repartição da Vidrul, o cenário foi o mesmo, mal informei a situação, a resposta dos funcionário foi “documento da cultura.”

Por isso me dirijo a si senhor Delegado, para a solução do meu caso e quiçá de muitos milhares de angolanos amordaçados e discriminados sem fundamentação; mas por todo amor à pátria que se possa ter, não me peça por favor para ir registar-me ao Ministério da Cultura que não irei, muito menos em filiar-me a uma Comunidade Rasta, pois eu não posso entrar numa associação, comunidade ou ONG cujo objecto social seja criar cabelo, não faz o mínimo de sentido para mim. Por outra, associar-se a uma organização, não importa que fim prossiga é um acto voluntário e de consciência, não pode ser imposto ou compulsivo.

Quanto aos funcionários (Chefe de Repartição do Registo Civil da Vidrul, seu auxiliar e o funcionário Cândido) que me maltrataram e agrediram verbal e fisicamente, solicito uma acção disciplinar exemplar e à medida.

Levo igualmente ao seu conhecimento senhor Delegado que, assim que tiver a acusação de recepção desta carta, levarei a público o que me sucedeu assim como as diligências perante o senhor Delegado.

Sem mais nada a expor, despeço-me na expectativa de breves notícias da vossa parte.

Luanda, 04 de Maio de 2015.

Atenciosamente

_____________________________

Afonso Matias “M’banza Hamza”

Contactos:

Telm.: +244 937 775 616

e-mail: mbanza.hamza@gmail.com

Mbanza Hamza em 2007 (esquerda) e 2014 (direita)

Mbanza Hamza em 2007 (esquerda) e 2014 (direita)

1397412555

Os moradores do Bº Chimuco, Viana, Km 12-B, reuniram-se na manhã de Domingo, 26 de Abril, para traçar estratégias de como estancar a onda dos assaltos à mão armada praticados pelos amigos do alheio.

Segundo o senhor Joaquim, que presidiu a reunião devido a ausência irresponsável do Coordenador do Bairro, os moradores pretendem substituir-se à Polícia Nacional por esta não estar a cumprir com a sua missão de proteger e servir, defraudando as expectativas dos munícipes.

Minutos antes da reunião, os moradores contactaram o comandante de uma das esquadras locais para também participar no encontro, mas este alegou não poder fazê-lo por não ter sido devidamente notificado pelos anfitriões.

Nas intervenções dos munícipes, houve um coro unânime que versava: “Já que a polícia nada faz, então nós vamos assumir tudo o que vier. Vamos nos armar na medida do possível e agiremos em auto-defesa.”

Ainda na mesma senda, um dos intervenientes, identificado apenas por Vicesse, assinalou que os marginais estão identificados, tendo mesmo citado alguns nomes: “Neste preciso momento estão identificados dois mandantes. Sendo os mesmo conhecidos do bairro, são eles que indicam as zonas e residências para serem assaltadas. Os informantes não penetram no interior das casas para não serem reconhecidos. Um deles foi enviado na manhã de hoje pela mãe, para o Huambo, enquanto que o outro vagueia no bairro. Um chama-se Kangoxi e o outro chama-se Quim Ribeiro.”

Retomando a palavra, o senhor Joaquim conclui dizendo que vão se criar grupos de actuação na zona composta pelos moradores, maioritariamente agentes da polícia e das forças armadas angolanas e que: “Vamos queimar os que forem apanhados com gasolina em asta pública (na pracinha do bairro) para dar exemplo aos demais. Ao longo desta semana iremos escrever para o novo comandante de Viana para vir ter connosco ou delegar alguém para o efeito.”

Na ocasião, um dos moradores afirmou ser agente da autoridade e “por isso estes jovens não podem brincar connosco desta forma”, rematou. Um outro participante enfurecido adiantou que “vamos fotografar os danos e mostrá-los ao comandante”.

A reunião terminou quando eram 11:h45 minutos com aplausos e abraços a mistura.

Por Alemão Francisco

Em tempos celebrámos com alegria o facto de um jovem com o perfil do Pedrowski, ativista e abertamente crítico do regime de JES, pudesse conseguir um lugar no que foi, até ao passamento físico de Aguiar dos Santos, um dos últimos bastiões da imprensa independente em Angola: o Semanário Agora, tendo acabado por tombar, sucumbindo à pressão das leis de mercado e indo para as mãos dos suspeitos do costume.

Agora liderado por Ramiro Aleixo, o jornal começou a surpreender com algumas capas (1,2) que quebravam com a postura generalizada de uma falta de interesse doméstica na juventude apartidária e contestatária, facto que despertou uma ingénua ponta de esperança que estaríamos a lidar com angolanos de outro calibre.

Hoje o Pedrowski publicou uma surpreendente denúncia no seu mural que faz luz sobre uma realidade mais tenebrosa dos bastidores, pois parece que o rapaz esteve a trabalhar à borliú e metendo inclusivé dinheiro do próprio bolso para conseguir ir fazer as suas matérias. A pedido do próprio iremos partilhar, na esperança que esta singela contribuição e demonstração de solidariedade possa servir para adicionar o nosso quinhão de pressão social para que este caso se esclareça e se resolva de uma vez por todas.

Segue então na íntegra o post de facebook do Pedrowski, com adição de fotos da nossa parte:

Pedrowski Teca no antigo local de trabalho, o Semanário Agora

Pedrowski Teca no antigo local de trabalho, o Semanário Agora

“Ponderando levar o jornal AGORA à justiça

Hoje contactei os advogados da associação Mãos Livres afim de intentar uma ação judicial contra o jornal semanário AGORA, propriedade da empresa Nova Vaga (Score Media), e especificamente contra o seu director Ramiro Aleixo.

Passaram-se um mês e meio desde que me auto-demiti do mesmo jornal semanário, isto após ter trabalhado por 5 meses sem ver a cor do meu salário, num jogo de desonestidade e má fé do director do jornal, Ramiro Aleixo.

Eu respeito o senhor Ramiro Aleixo por ser, na minha opinião, um excelente profissional e experiente jornalista, e director de um órgão de comunicação social respeitável; infelizmente é tido por vários jornalistas como um líder sem peito para defender os direitos dos seus subordinados diante da entidade patronal do jornal, chegando até a ser considerado uma pessoa que explora, burla, mente e frustra vários jornalistas, sobre tudo jovens inexperientes e desesperados (para um primeiro emprego).

Ramiro Aleixo, Diretor do Semanário Agora

Ramiro Aleixo, Diretor do Semanário Agora

Passado 5 meses, trabalhando em cima de promessas do senhor Ramiro Aleixo, decidi abandonar o jornal, deixando uma carta de demissão a 3 de Março de 2015, solicitando que resolvessem a dívida no período de um mês.

Na quarta-feira, 8 Abril de 2015, regressei ao jornal e o director Aleixo continuava com o mesmo discurso de que não havia resolvido a situação. Daí que afirmei que passavam-se 6 meses, que o director não foi capaz de defender os meus direitos perante os donos da empresa, e que chegara a hora de eu usar os meus métodos para pressiona-los a pagarem o que me devem. Subitamente o rosto do director Ramiro Aleixo ficou roxo e indignado, afirmando que era desnecessário eu contactar um advogado ou ir ao tribunal. Saí do escritório dele, com a promessa de contactar um advogado.

No entanto, pela primeira vez decidi contactar a senhora Sónia, chefe do departamento dos recursos humanos da empresa proprietária do jornal AGORA e fui informado que apesar de ela conhecer o meu nome, nunca recebeu nenhum documento ou solicitação para a minha efectivação e que eu não existia naquela empresa.

Algumas das capas conquistadas pelas matérias do Pedrowski

Algumas das capas conquistadas pelas matérias do Pedrowski

Apresentei à ela a minha declaração de trabalhador assinada e carimbada pelo director Ramiro Aleixo, e adicionalmente a minha carta de demissão, onde o director acusa a recepção e mais uma vez promete resolver a situação. A senhora Sónia ficou chocada com a declaração, revelando que somente os recursos humanos tinha o direito de passar declarações aos trabalhadores. Acrescentou que tudo aquilo era um acto de má fé por parte do director Ramiro Aleixo, sendo também que eu não era o primeiro jornalista a ser vítima do mesmo, passando pela mesma situação.

A senhora Sónia fez cópias dos documentos que apresentei e prometeu apresentá-los aos donos da empresa.

No mesmo dia, quando eram 20h21, o director Ramiro Aleixo ligou-me solicitando que eu fosse devolver a declaração de trabalhador que outrora emitiu para eu exercer o meu trabalho, justificando que o mesmo documento “não tinha nada a ver” com a situação a ser resolvida. Retorqui que não tinha a mínima intenção de manter a mesma declaração em minha posse e que faria a devolução, tão logo ele resolvesse a minha situação. Ramiro Aleixo bravou, numa conversa que durou 7 minutos, chegando a ameaçar-me de que se eu não fosse devolver a declaração, usaria outros métodos para me forçar a fazê-lo. Disse também que recebeu um e-mail da dona Sónia e que deu a devida resposta, sendo que ela não era a pessoa indicada para resolver os actuais problemas dos trabalhadores. Mantive-me firme em minha posição e ele terminou a conversa dizendo que nunca mais iria me ligar, e que qualquer comunicação seria feita por escrito.

Para mim, aquilo foi uma tentativa de me receber a única prova que tenho, onde o director afirmou que eu era trabalhador do jornal Agora, exercendo a função de jornalista.

Posto esta publicação porque sinto-me muito injustiçado pelos actos de desonestidade e má fé por parte do director do jornal AGORA, Ramiro Aleixo, que perdeu a minha consideração pela desonestidade.
Alguns jornalistas perguntaram-me se aquilo não era um acto do MPLA para me inviabilizar a vida, encurralando-me na impossibilidade financeira. Não sabia o que responder. Apenas sei que tive muita paciência e fui muito compreensível com ele, até descobrir que eu sou apenas mais um de vários casos perpetrados pelo mesmo.

Sendo assim, informo que hoje apresentei o caso (com as provas) aos advogados das Mãos Livres e estou decidido, se for possível, a ir ao tribunal.”