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O Futuro da Nação

Posted: January 14, 2014 in Argumentos, Opinião
Não podemos confirmar que esta foto seja de uma criança angolana

Não podemos confirmar que esta foto seja de uma criança angolana

É frequente escutarmos a expressão “futuro da nação ou o futuro da nação ” nos programas que são apresentados nos canais da TPA com o intuito de promover a imagem do Executivo e mostrar as suas realizações. Pergunto-me se realmente os políticos e governantes da nossa terra têm feito o necessário para garantir um futuro risonho para o futuro da nação. Será que têm?

Como forma de comparar com o que tem sido feito pelo Executivo angolano, tentei enumerar alguns pontos que, na minha óptica, são importantíssimos na concepção, preparação e realização do futuro da nação.

O futuro da nação é termos creches comunitárias para que as mamãs zungueiras possam ganhar a vida sem expor as crianças ao sol, à poeira, ao lixo e outras intempéries. Com isso, desde logo, protegendo o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos governantes que dizem que as crianças são o futuro da nação (e elas o são), mas não garantem as escolas de qualidade e professores bem remunerados para o futuro da nação e não fazem um investimento sério neste sector estratégico do país, exactamente para garantir o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos governantes, feitos milionários, sabe Deus como, mesmo depois da declarada e publicitada “Tolerância Zero”, que insistem em usar o erário público como a sua maior fonte de receitas, quando a maioria dos angolanos aufere salários magros, prejudicando o futuro da nação.

O futuro da nação é termos um Tribunal de Contas e uma Procuradoria-Geral da República, e todo o sistema judicial angolano, actuantes e com resultados palpáveis. O sentido de justiça deve fazer parte do quotidiano dos angolanos, desde o angolano que se encontra nas zonas rurais e nas miseráveis zonas urbanas até aqueles que estando nos escritórios “intocáveis” sintam que em Angola, HÁ REGRAS, e que se elas não forem cumpridas, alguém “assumirá o barulho”. Portanto, uma Angola sem “ordens superiores” que violem os postulados constitucionais e as demais leis do ordenamento jurídico angolano. Esse é o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos o Estado a gastar milhões de dólares todos os anos para oferecer carros topo de gama a deputados, ministros, directores e chefes de departamento, quando continuamos com um débil sistema de transportes públicos, atrasando o futuro da nação.

O futuro da nação é, nesta fase do processo de desenvolvimento de Angola, dar subsídio de combustíveis aos candongueiros (taxistas) e aos kupapatatas, porque, na verdade, são eles que muito ajudam na deslocação de grande parte dos trabalhadores da nossa terra para os seus postos de trabalho, contribuindo desta forma para o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos cidadãos angolanos com carros de alta cilindrada que não pagam as suas contas de gasolina ou de gasóleo, porque o Estado é que as paga. Isto é o futuro da nação?

O futuro da nação são e serão dirigentes e governantes com os pés bem assentes na terra angolana. Indivíduos conectados à realidade angolana, ao sofrimento e ao clamor da Angola profunda, quer nas zonas rurais quer nas zonas urbanas. Cidadãos angolanos altamente preparados e disponíveis para o “establishment”, no seu sentido mais abstracto, dum verdadeiro e funcional programa nacional de desenvolvimento, rumo ao futuro da nação.

O futuro da nação é Angola, sendo multi-étnica, multipartidária, multirracial, multi-cultural, longe dos “paradigmas africanos” de países que volta e meia estão em conflitos sangrentos e irracionais, engasgando e armadilhando o futuro dos seus países. Angola pode ser, se quiser, um paradigma social, cultural e político, se calhar até económico, diferente do que temos visto em África, diferente da imagem que tem sido propagada e propalada no Ocidente. Angola pode ser o futuro do continente. No que a nós nos diz respeito, aí está o futuro da nação.

O futuro da nação é Angola tipo Noruega: Mentalidade “Crystal Clear” com o objectivo máximo de cuidar, educar e maximizar as potencialidades da pessoa humana em Angola. Sendo que, nós, angolanos, sobretudo os decisores políticos, devemos estar altamente conscientes de que a nossa maior riqueza é, definitivamente, o ser humano, longe de preconceitos e discriminações e outros quesitos que atentam contra a dignidade humana. Esse é o futuro da nação.

O futuro da nação é garantirmos efectivamente que Angola, sendo um país fundamentalmente financiado pelo dinheiro do petróleo, nossa riqueza natural, não permitisse de maneira nenhuma que os seus filhos morressem de fome. Isto é o futuro da nação.

Mas esta sim. Gambos, Huíla, 2012. Foto de João Stattmiler

Mas esta sim. Gambos, Huíla, 2012. Foto de João Stattmiler

Por Kady Mixinge

Recuperámos este texto de um post facebook do nosso kota Marcolino Moco e pareceu-nos pertinente o suficiente para merecer ser o post inaugural deste ano que começou há alguns minutos. Outros textos igualmente interessantes podem ser lidos no blog do Marcolino aqui. Segue na íntegra:

Marcolino Moco

“No outro dia, cruzei-me acidentalmente com alguns “mais novos” da comunicação social pública, e, para a minha agradável surpresa, contrariando a habitual fuga às “minhas chagas de sarna”, mostraram-se muito simpáticos e conversadores. E, entre as conversas, para uns eu tinha razão, nas críticas que faço, não a eles, mas ao sistema que os coloca, a eles, numa condição de “escravos” de ideias dos que se acham insubstituíveis no poder angolano, mas outros, naquela conversa aparentemente descontraída, achavam que eu andava adiantado demais porque “isso é um processo”, diziam.

É a propósito desse encontro fortuito que me ocorreu dirigir algumas palavras, especialmente aos “os mais novos” deste país, nesta espécie de “mensagem de Ano de Novo” de um informal Senador da Nação que sou (como alguém agradavelmente me chamou, só que este tal acha que os senadores devem estar calados e não se dirigir a “pessoal menor” mas para mim “pessoal menor” só são as crianças – menores de 18 anos – mas mesmo para estas eu falo; senador não é para só fazer “banga” com o título e “ver a banda passar”, não).

Para a minha opinião, nascida de uma longa reflexão, em que nunca me descalcei das minhas responsabilidades no passado e no presente, mas não aceitando participação num contínuo “empurrar as coisas com a barriga”, os angolanos, especialmente a sua juventude, não devem deixar-se embalar nessa ideia de que “estamos num processo” (estamos numa transição) e é preciso ter paciência, debaixo das ideias de um grupo minoritário que não sabe fazer outra coisa senão gerir a manutenção do poder, pisando todas as normas éticas, jurídicas e ate das nossas respeitadas religiões, que devem contribuir para a harmonização e contínua pacificação da sociedade. São eles que falam de “lavar roupa suja em casa”, quando não se coíbem de fabricar sujeira na rua, sem qualquer escrúpulo. Como lavar roupa suja em casa se a sujeira já está na rua?

A transição, no desenvolvimento das sociedades, é uma constante que não pára e é geralmente do inferior para o superior. O que é que se está passar em Angola, no plano das instituições que é algo que deve preocupar a elite angolana que queira conscientemente contribuir para um “processo” de passagem do inferior para o superior?

Claramente um retrocesso. É evidente que se tivermos em conta que cada fenómeno se apresenta com duas faces, esse “retrocesso” significa um franco “progresso” em relação à construção de uma “monarquia republicana” que foi academicamente anunciada pelo Professor Doutor Araújo, no livro do seu doutoramento publicado em 2009.

Sintomaticamente, o Professor Araújo é hoje venerando juiz de um Tribunal Constitucional que com os seus acórdãos 233 e 319 do ano que termina, continuou a contribuir para a formalização de uma realidade de facto, imposta de forma cobarde e inaceitável a todos os títulos, e que está na base das tensões que o país tem vivido, paradoxalmente, com maior intensidade, desde o fim da guerra civil, em 2002.

Com aqueles acórdãos e, com todas as urdiduras a que temos assistido, com declarações que só deixam dúvidas a quem não faz a ligações necessárias dos fenómenos actuais com os seus precedentes, o Presidente José Eduardo quer: ser reconduzido em 2017 para umas funções em que andará já há 38 anos cansados anos, tendo ele, nessa altura, os seus pesados 75 anos. Em 2022, o nosso compatriota Zénu, hoje Presidente do Fundo Soberano de Angola, de que põe e dispõe, sendo nomeado o para o cargo sorrateiramente, na mesma semana das reuniões com a juventude, deverá “estar apto” a receber o ceptro do poder. E todos aqueles que reclamarem deste inusitado nepotismo, serão declarados invejosos e frustrados, se não lhes acontecer pior.

A verdade é que as tensões irão desenvolver-se num crescendo inaudito e a repressão, que no ano que termina já atingiu o ponto de transformar o Ministério do Interior e a Polícia em instituições superiores à Constituição e o direito à manifestação no “direito à pena de morte”, alcançarão níveis impossíveis de imaginar.

Mas nem tudo foi negativo no ano que termina. Os partidos políticos conseguiram um consenso, pela primeira vez, a volta a volta da solidariedade contra o assassinato político e os direitos humanos, com a UNITA a cumprir o seu papel de maior partido da oposição.

O meu amigo, outro Senador da virtual República, o Dr. Makuta Nkondo, outra voz que como a minha não poder ser ouvida no sistema de vergonhoso apartheid imposto na comunicação social, exprimiu de forma clara, numa TV de rede social, o que muitas pessoas que radicalizam as suas posições à custa da insensatez do poder actual em Angola pensam. Acham que estamos a ser governado por estrangeiros, quando não é assim. É isso. Os extremos geram outros extremos.

Entretanto, continuo a pedir daqui que o Senhor Presidente reveja as suas posições, porque poucos e cada vez menos, numa Angola tão culturalmente variada, irão aceitar pacificamente este projecto que nos está a impor sorrateiramente, com um discurso de “morde sopra”.

Boas saídas e boas entradas
Luanda, 31 de Dezembro de 2013″

Por Marcolino Moco

JES en decadência

O discurso com cerca de 15 minutos que gasta uma resma de papel (font size:48?) do Senhor José Eduardo dos Santos poderia até arrancar elogios aos mais incautos que gostam de ser feitos de trouxas, aqueles que não se cansam de ver aquela cara de mendigo desgraçado inspirando piedade e aquele tom de voz de Maria Madalena entristecida e continuam, já adultos, a atribuir-lhe algum tipo de seriedade/credibilidade/honestidade.

Desde sempre que este indivíduo que foge a entrevistas, debates, olhares indiscretos (fugou no funeral do Mandela) e eleições diretas nos habituou a palavras com aspeto de rosas e cheiro de fossa, pois deve ter aprendido que a arte da política é apenas ser convincente ao prometer e das promessas nos alimentaremos até a sua aparição seguinte. Isso pode até ser verdade durante um certo número de anos (julgando pelas democracias maduras entre 4 e 6 anos), mas o JEScaré já terá esticado por demais a corda, tendo quase conseguido a proeza de meter em questão a máxima do Abraham Lincoln mais tarde musicada pelo lendário Bob Marley: “You can fool all the people some of the time, and some of the people all the time, but you cannot fool all the people all the time”. Infelizmente para ele, uma fatia considerável de angolanos cansou-se de lhe outorgar esse kilapi e já não está mais para falinhas-mansas… 34 anos depois!

As fugazes referências aos “cidadãos que muito ainda tinham para dar à Nação” e à abolição da pena de morte e que “o Estado não mata” são de dar a volta ao estômago, sobretudo quando no dia seguinte o miúdo Nito Alves, o Emiliano Catombela e o Alemão foram perseguidos à tiro pelos becos de Viana pelos mal-encarados da PIR pelo simples facto de estarem nas imediações da Comarca de Viana enquanto decorria o motim que deixou 4 mortos.

Não escondemos que ficámos muito intrigados com a frase: “que os seus bons exemplos sejam seguidos pelas novas gerações”. Estará ele a encorajar outros jovens a promover manifestações e a colar cartazes com mensagens políticas
que lhe sejam adversas? Terá finalmente percebido que democracia só o é se houver quem o conteste? Ou estava a ter o seu (falso) momento Mandela?

A última frase no discurso mostra bem quão enraizado está o narcisismo desse mais-velho, mandando uma mensagem de solidariedade para os enfermos que não conseguirão disfrutar da quadra festiva com a saúde e alegria que o momento pede. Basta ver a imagem no cabeçalho e ouvir a voz lânguida reveladora de uma língua preguiçosa e com preguiça de articular, para nos apercebermos que ele está a mandar uma mensagem para si próprio, uma espécie de auto-consolo pelo estado frágil que tem se tornado demasiadamente óbvio e que nos força a pensar com uma seriedade reforçada na nossa Angola pós-JES.

Longe de nós desejarmos que perca o pulso definitivamente, não somos dessa estirpe. Somos antes daqueles que fazem figas para que ele esteja bem vivo para sentar no banco dos réus e responder por todos os crimes cometidos pelo “seu” estado e que ele, enquanto garante da CRA e responsável máximo da Nação, não foi capaz ou não
quis impedir.

Longa vida ao Rei que, coitado, já vai nú!

Abaixo algumas das brincadeiras que protagonizámos com a sua debilitada figura ao longo deste ano de 2013 e que ficaram-se essencialmente pelo facebook.

Zé Kitumba em BCN

JES Fernando NoronhaJES Cabobo BCNJEScaré 01 TSHIRT MPLA LACOSTE MPLA Bandeira NOVA

A série JES’u Superstar: Cap.I; Cap.II; Cap.III; Cap.IV; Cap.V; Cap.VI; Cap.VII;

“NO MOMENTO DE SER admitido como membro da profissão médica:
EU JURO SOLENEMENTE consagrar a minha vida a serviço da humanidade;
EU DAREI aos meus professores o respeito e a gratidão que lhes são devidos;
EU PRATICAREI a minha profissão com consciência e dignidade;
A SAÚDE DE MEU PACIENTE será minha primeira consideração;
EU RESPEITAREI os segredos confiados a mim, mesmo depois que o paciente tenha morrido;
EU MANTEREI por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica;
MEUS COLEGAS serão minhas irmãs e irmãos;
EU NÃO PERMITIREI que concepções de idade, doença ou deficiência, religião, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, condição social ou qualquer outro fator intervenham entre o meu dever e meus pacientes;
EU MANTEREI o máximo respeito pela vida humana;
EU NÃO USAREI meu conhecimento médico para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
EU FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e pela minha honra.”
Juramento de Hipócrates (Revisão ao original de 1771 aprovada pela Convenção de Genebra em 1983)

Angolacharge-saude-oproximo

Aqui em Angola todos já fomos vítimas ou conhecemos alguém que tenha sido directamente vítima de negligência médica, casos que muitas vezes redundam em morte e que mantêm Angola em alguns tops tenebrosos como é o das várias taxas de mortalidade (infantil; materna; geral), esperança de vida e o da percentagem de pessoas vivendo abaixo do nível da pobreza (2$/dia segundo os padrões estipulados pelo world bank e usados como uma das referências do teto da pobreza extrema).

Se a classe dos mais desfavorecidos é a mais negligenciada, vulnerável e sujeita ao “desleixo” criminoso dos “médicos”, as outras não estão ao abrigo da letargia do deixa-andar, da conformação à perpetuidade da pertença aos dados estatísticos mais deprimentes do mundo. A morte é natural, mas a ciência tem sido aperfeiçoada para a adiar. Infelizmente, neste nosso país, o problema não é a tecnologia de ponta (que já existe em algumas unidades hospitalares privadas), não é só a falta de condições técnicas e de salubridade, não! O problema reside grandemente no profundo desumanismo que se semeou desde que se declarou necessária a criação de uma burguesia nacional, da qual fazem hoje parte até aqueles que preconizavam que a esses era “preciso é partir-lhes o focinho”. O que colhemos hoje são os seus ácidos e indigestos frutos.

Vamos referir-nos a 4 casos relativamente recentes todos ocorridos em Luanda (os nomes são fictícios):

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Caso 1

Filomena não tendo posses para fazer o seu parto numa clínica privada sempre onerosa, escolhe a maternidade Augusto Ngangula para trazer ao mundo o seu primeiro filho. Algumas complicações que nunca se explicam em condições à parturiente desesperada ocorreram e o bebé teve de ser incubado. No dia seguinte, ao pedir para ver o seu filho, lhe foi comunicado que o bebé tinha falecido durante à noite. Razão: falta de energia e gerador avariado, sistema de ventilação da incubadora não funciona sem corrente e o bebé morreu então asfixiado.

Caso 2

Maria, 33 anos, estava grávida de gémeos. Teve uma gravidez perfeitamente normal, acompanhada pela Ginecologista Obstetra, que terá sido escolhida por já ter acompanhado outras gravidezes de meninas da família, granjeando assim a confiança desta.

Prematuramente e de forma inadvertida começou a sentir contracções. Ligou à médica que estava de serviço na Maternidade Augusto Ngangula. Já tinha programado ter na Clínica da Endiama, mas dado que nasceram antes da data prevista, foi levada a Maternidade onde estava a médica que a assistiu  em toda a fase pré-natal.

Chegando a Maternidade, entrou sem delongas para a sala de parto que terá corrido bem. O problema apresentou-se no pós-parto: perdeu sangue profusamente, pelo que lhe deveria ter sido administrada uma transfusão sanguínea faseada em duas doses separadas por um intervalo de 6 horas.

Deu-se a primeira dose, mas quando a equipa médica voltou ao quarto, encontraram Maria já morta. Razão? Esqueceram-se (!) de administrar a segunda dose dentro do prazo previsto, tendo deixado passar 10 horas ao invés de 6.

Caso 3

Eliana é menina de berço de ouro, pertencendo a classe mui exclusiva de ricos de Angola.

Escolheu ter o bebé no país para ficar mais próximo do marido e da família. Sendo portadora de VIH, tomou todas as precauções para que não transmitisse a doença ao filho.

Neste tipo de casos, geralmente o parto é provocado e programado, sendo que deveria ser submetida a uma cesariana.

Infelizmente, às 35 semanas a bolsa rebentou e teve um parto normal, transmitindo assim ao seu filho o VIH.

O Parto ocorreu na Clínica da Endiama e os médicos garantiram que nada poderiam fazer uma vez que a bolsa rebentou em casa.

O pós-parto foi tranquilo, sendo que receberam todos os cuidados que poderiam ter na condição de mãe e filho portadores de VIH.

A sua pediatra aconselhou-a a todos os medicamentos necessários para um bebé portador de VIH e a criança foi crescendo de forma saudável.

Aos 8 meses de idade, a criança chorava e diagnosticou-se uma otite. Eliana levou a filha à Clínica Multi-Perfil, hospital mais próximo da sua zona de residência e explica ao médico de plantão a condição do filho.

O médico confirma tratar-se de uma otite , prescreve uma receita e dá uma injecção ao bebé que nunca souberam o que era.

De facto passado 18h a criança acalmou. A mãe deitou-a no berço e 40min depois a criança parou de respirar e morreu.

Tentaram fazer o rastreio da causa da morte prematura e foi de um dos medicamentos que o médico prescreveu que são incompatíveis a crianças ou adultos portadores de VIH.

Caso 4

Relato de uma mãe na primeira pessoa:

“Ontem fui à Cligest (Clinica Vida) por volta das 21:30, porque a minha filha estava constipada e não estava a conseguir respirar muito bem. Então, super aflita, lá corri para a clínica…
Chegando lá, disseram-me que a pediatria fechava às 21:30, então corri para a ver se ainda apanhava a médica…
A minha filha fez a triagem, e quando a enfermeira foi ter com a médica para ver se ainda a podia atender, ela recusou-se porque estava na hora de sair… PODE????? Era uma urgência, a minha filha estava com dificuldades para respirar, e ela diz que não pode atender mais????!!!!!
Mas que médica é essa? Onde está o profissionalismo? Salvar uma vida deve ser mais importante que tudo, certo?? Que juramento é esse que os médicos fazem??
Cada vez mais desmoralizada com a saúde em Angola!!
Graças a Deus, as enfermeiras da mesma clínica foram super prestáveis e encaminharam-nos para a médica de clínica geral que atendeu-nos com eficácia e amabilidade!!! A minha filha está bem!”

Não é por acaso que o JEScaré foge a correr do país para ir tratar de uma “dor de dente”.

Temos recebido várias histórias macabras que envolvem os nossos serviços de saúde. Tens uma? Partilha-a connosco e vamos continuar a denunciar as más práticas que arrastam o nosso país para as mais lastimáveis posições nos rankings mundiais de direitos elementares como é o direito à vida.

Se temos de nos fazer evacuar a cada vez que temos uma dor-de-cabeça, não são só os nossos bolsos que entrarão em greve, serão também os nossos postos de trabalho que ficam comprometidos pois nem todos conseguem isenção laboral de 3 meses por ano para ir arranjar a cornadura, oops, desculpem, a dentadura!

Mario Lunga Ballot Box

Não obstante a comunidade internacional ter vendido alguns elogios ao MPLA para felicita-lo aquando do resultado das últimas eleições em Angola, uma vez mais, as mesmas têm sido lembradas pelas batotas e demais práticas costumeiras como a corrupção ou suborno aos massivos grupos estratégicos, devidamente identificados pelos profissionais de Marketing político orientados para o efeito. Os grupos corrompidos, normalmente atendem pelos líderes religiosos da igreja católica que, representa ainda a religião com maior densidade populacional e por isso mesmo o foco sobre esses, demais igrejas cristãs, pela permissividade exploratória aos fieis no território angolano, igrejas essas que mobilizam multidões de homens e mulheres, ensuma fidelizar servos religiosos pois quase nunca criticam ou analisam a sociedade fora do olhar religioso. Líderes tradicionais, a massa populacional periférica e muito recentemente os estudantes universitários, estando esses também entre as suas presas prediletas, razão pela qual o número de vagas de acesso á universidade Agostinho Neto no último ano, aumentou consideravelmente pouco antes do período eleitoral, com a depreciação significativa da pontuação exigida para a aptidão dos estudantes. Tais vagas são na sua essência, um artifício político para o favorecimento eleitoral desses, pois como sabemos via da regra, as vagas na universidade estatal são partículas atómicas no universo da demanda pelo ensino superior. Fala-se por exemplo, em 200 vagas para 9000 candidatos, comportando em muitas áreas como engenharia, direito ou ciências, 25 vagas para 300 candidatos, estando dentre as 25, já alguns lugares preenchidos pelo tráfico de influência. Ou seja, sem haver antes qualquer preocupação evidente por parte das autoridades, no que concerne a massificação do acesso a educação, atende-se agora sem antecedentes, senão em virtude da campanha, um anseio jovial no que toca suas aspirações na sociedade, a medida em que relacionam de forma fantástica, o nome Agostinho Neto (Imagem de Marketing do partido) ao voto para o MPLA, pois entender-se-á que foi a Universidade do MPLA no nome do seu herói, quem ofereceu a oportunidade de realização profissional. Em muitos casos esses aspectos são relembrados nos discursos, dizendo por exemplo que o MPLA, preocupa-se com a educação da população sobretudo dos jovens. Se nos atentarmos ás rádios e televisões, passará alguma notícia a esse respeito: …A universidade Agostinho Neto, formou X quadros esse ano, ou admitiu Y estudantes. Tudo isso, sem falar dos outros malabarismos como o crédito eleitoral, a doação sazonal dessa época, a reabilitação urbanística fictícia nos centros de grande afluência populacional, as maratonas, bebedeiras e etc.

Em última linha, o período que antecede qualquer campanha eleitoral, é marcado pela fabricação de uma propositada escassez e de uma mesma debilidade, para subsequentemente a quando da véspera eleitoral, apegarem-se á mesma escassez e transformarem-na na realização ilusória do anseio ou de um sonho dos súbditos, com o fim único de converter esses sonhos em votos.

Para os profissionais de Marketing político, em toda parte do mundo seus papeis se limitam a identificar as necessidades e carências do eleitor, entender a sua mentalidade e, dialogar com os mesmos com projectos ou propostas de resolução; Entender quais as demandas sociais emergentes e atentá-las, ou seja, o que é que o povo quer (ouvir) no momento? Emprego? Liberdade de expressão? Igualdade? Fim da corrupção? Melhoria na saúde? Erradicar ou diminuir a violência? Mais educação como vimos acima? Cumprimento da lei? Mais entretenimento? etc. Ensuma, na pior das hipóteses não passa de uma simulação astuta, de um embuste ou  parlapatice, responder ao anseio do povo. Esses profissionais, cuidam também da imagem dos seus representantes bem como do partido interna e externamente, elaboram seus discursos, cuidam da sua retórica, da postura ante os microfones, até dos seus tons de vozes e gestos para subsidiar a oratória. Muitas vezes também, são eles quem na companhia dos relações públicas, gerenciam na imprensa, as crises do partido a quando de algum escândalo político. Por exemplo, quando se tornou pública a apreensão ilegal do menor Nito Alves, foram eles quem ocuparam as rádios, as televisões e os jornais com o silêncio e, quando não mais puderam ficar calados pela repercussão do caso, foram aos meios públicos de comunicação tentar justificar contra-argumentando. Caso não houvesse repercussão, esses profissionais prefeririam silenciar o caso até conduzi-lo ao esquecimento, como sempre fazem ou como apesar da repercussão que também teve, farão agora com Cassule, Kamulingue e Wilbert Ganga ou qualquer outra vítima da situação.

Os profissionais de Marketing político como todo profissional de Marketing, estão sempre antenados com a dinâmica social, acompanhando suas tendências, de forma a alinhar a mesma aos interesses isolados do partido que defendem. Assim, se o povo estiver tendente a valorização da cultura ou da moda, serão esses os aspectos aos quais os mesmos irão se apegar para aplicar a sua jogada de Marketing, podendo por exemplo, abrir escolas de línguas nacionais, promover debates na televisão, ou no caso da moda, promover  o acesso à moda do momento e enfatizar os “eventos” nesse âmbito, tal como aproveitam o apetite alcoólico dos jovens para asfixiar a sociedade com bebidas dessa estirpe. Esses eventos, são normalmente acompanhados por figuras de relevo do partido, inaugurando-o com os cortes de laço, champanhes, etc. ou em patrocínios, utilizados como  pano de fundo da propaganda do partido. Convenhamos que o patrocínio é uma das técnicas sublimares mais eficazes em matéria de promoção de venda e propaganda, visando  apenas memorizar no participante o nome da marca em causa, de forma a não se esquecer ou lembrar-se facilmente da mesma, conhecido em Marketing como Share of mind e, associar essa, a uma causa nobre na óptica do participante. Por essa razão (causa nobre), o conceito de responsabilidade social por exemplo, tem sido fortemente utilizado pelas instituições financeiras. Nessa perspectiva, se toda empresa que preconiza a lucratividade é uma instituição financeira, o MPLA, não é um partido político é sim uma empresa ou se melhor, uma instituição financeira. Observemos sem os vícios da simplicidade analítica que, o partido no poder não tem um carácter inferior à qualquer instituição financeira ou capitalista, ou mais concretamente, é ele próprio no seu âmago uma instituição capitalista. Não passa disso. A pretensão da conquista do poder político para alcançar o enriquecimento ainda que ilícito, é a mais alta confirmação do seu carácter empresarial.

Ainda nos patrocínios, a bandeira do partido e o nome dos seus líderes, são subtilmente ostentados. Esses nomes, são subliminar e inconscientemente memorizados  e reconhecidos pelos ouvintes, sobretudo pelo público alvo do evento, pois são eles quem mais darão importância ao mesmo, como consequentemente serão eles quem no acto eleitoral  lembrarão mais do partido  que atendeu os seus anseios e objectivos.

Falarmos em bandeira Nacional,  não líderes mas líderes históricos, hino Nacional e toda genealogia dessa semiótica, é falarmos no que os profissionais de Marketing chamam de Share of heart. Uma vez mentalizada a marca, a ideia agora é mexer com o coração do eleitor, não é por acaso que o hino Nacional quando entoado tem a função de arrepiar e atribuir ao cidadão o espírito patriótico, o verdadeiro ufanismo, ou por outro lado, não foi por acaso que o MPLA se apropriou das cores e do design da bandeira nacional. É para fundamentalmente, associar a lembrança (mind) da bandeira nacional e o amor (heart) à mesma, ao próprio MPLA. Vale lembrar que, todos os artifícios do Marketing político, acontecerão ainda que nunca  yenham estado presentes nas suas pretensões para com o povo. Tudo visará apenas e unicamente, a conservação nos lugares do dinheiro, partindo de um voto inconsciente e muitas das vezes de um voto corrompido pelo medo.

A partir do que trataremos por Subjectividade discursiva, esses profissionais, grosso modo, são orientados para homogeneizar  o discurso do partido aos olhos e aos ouvidos dos diferentes segmentos em que lançam suas armadilhas. Repare por exemplo no discurso de  Barack  Obama no slogan YES WE CAN. Sim, nós podemos. Nós, negros, podemos chegar ao poder, nós negros norte americanos podemos, nós norte americanos podemos sair da crise, nós democratas podemos mudar a vida do norte americano, nós descendentes de africanos podemos e, outras infinitas interpretações incluem-se aqui. Lula da Silva, com o PT (Partido dos Trabalhadores) propalou: BRASIL UM PAÍS DE TODOS. Aqui a mesma técnica entra em acção, Brasil um país de todos, negros, índios, mestiços e brancos, ricos e pobres, nacionais e estrangeiros (esses sentem-se pertencentes ao lugar), heterossexuais e homossexuais, esses últimos hoje muito importantes numa fase em que buscam a liberdade e igualdade de direitos nesse país, etc.

Na técnica da subjectividade discursiva que, visa homogeneizar e acolher todos ou vários segmentos sociais, o individuo se vê como parte integrante do mesmo e a massa é igualmente seduzida á essa compreensão, pois contempla todos. O nosso DE CABINDA AO CUNENE UM SÓ POVO UMA SÓ NAÇÃO, não foge dessa mesma técnica, mas com honestidade  sabemos que na prática trata-se de uma grande mentira. ANGOLA FAZ ANGOLA FAZ, como é cantado na publicidade do governo de Angola. Mais uma vez usa-se a subjectividade do discurso para ao atribuir-se uma culpa de pertença, acorrentar a diversidade dos públicos a um sentimento homogéneo. É como se todos angolanos se revissem  a fazer Angola crescer,  ainda que diante de tanta opressão,  desemprego, exclusão social, fome, poucas escolas etc. Essa falácia, atribui ao cidadão angolano, uma falsa responsabilidade de contribuição e participação ou culpa nos resultados do país, quando na verdade nem ao orçamento do Estado esse tem acesso ou sequer entende, mal sabe qual a verba disponibilizada para  a sua construção intelectual como cidadão, mal é contemplado pelos resultados dos superavits do país, não sabe o que é um PIB e principalmente desconhece a Lei que os seus semelhantes fizeram no país que Deus lhes ofereceu a vida.

O segundo ponto, assenta no medo com que o eleitor se confronta diante da urna. Na sociedade das ameaças,  do sequestro, dos assassinatos, das perseguições e auscultações com que  fomos habituados a conviver, merecerá á discussão, um cuidado especial para compreendermos até aonde a população se vê ameaçada para exercer a sua cidadania em liberdade e pleno juízo.

Consideremos que um eleitor medroso é um eleitor corrompido, pois acaba agindo como todos aqueles que recebendo um bem, trocam o seu voto pelo valor do bem, mais ou menos como trocar 5000 dólares de um crédito bancário, pelo desvio de milhões inexplicáveis, por um partido ou por meia dúzia de homens e famílias. Ensuma vender o país por 5000 dólares. Para o marketing político e para os financeiros, financiar créditos bancários não passa de um investimento político para garantir os seus roubos infinitamente superiores.

Muitos  eleitores sentem-se assim, em risco diante da urna, tal como se estivessem a ser filmados secretamente e portanto, sendo observado o viés do seu voto, o que poderia justificar uma perseguição por oposição ao partido do poder. Existe agora um clima de tensão, desde olhares, vozes, sigilo e suspense, cercado por homens feios de cara grande que, induz o individuo a crer que o seu voto não é numa realidade secreto, o que nesse país poderá não vir a ser. Alguém está a vê-lo e nessa perspectiva o melhor é votar para quem não lhe oferece perigo ou se melhor, lhe protegera, pois sendo  partido do poder, votar contra a oposição não representará algum perigo. Esse cenário, envolvido por um atemorizante jogo psicológico, visa descartar o lado racional do indivíduo para  faze-lo migrar para o plano emocional, ou vice versa, a ideia  é impelir o individuo ao sentimento do medo. É uma estratégia utilizada pelos maestros da ditadura de todos  países. Portanto, o eleitor não deve ser corrompido pelo medo, deve ser original, corajoso e acima de tudo votar com a consciência de que o seu voto poderá numa milimétrica diferença,  mudar o seu curso assim como do país e, não votar por medo, sobe pena de perpetuar no medo. O voto como se costuma dizer, é a sua arma ou a sua razão contra os políticos. Relembrar nessa ordem de ideias que, o medo que o mesmo cidadão leva às urnas, traz desde já, nos traumas da guerra, da violência civil e sectária que se pratica todos os dias contra os vários opositores ao regime de José Eduardo dos Santos. Dizer, que até o acto do eleitor votar,  sustenta-se a esse, o  mesmo sentimento já patente no quotidiano quando o assunto é política, visando bloqueá-lo mentalmente.

Assim, Batota, Corrupção e Medo, três armas bélicas para a garantia e conservação do MPLA no poder, razão para dizer que  a estratégia política de intimidação, transcende os limites habituais já conhecidos no dia a dia. Ainda assim, o povo responde por dois dos três elementos que atendem e sustentam o falso sufrágio (corrupção e o medo), quais pode combater exercitando a cidadania com as suas liberdades civis.

Por Mário Lunga

Título completo:

Governantes perversos recriam racismo em Angola, enquanto

o silêncio controla a luta pro Descolonização da Lei

Recordar é Viver a servidão

Mario Lunga 02

O fundamento do racismo, é a hierarquização infundada entre as relações multirraciais, tendo como premissa substancial as distorções  socioeconómicas entre elas. Em outros termos, é basicamente uma raça sobrepor economicamente a outra, sem que exista um único fundamento racional para além da coloração da pele dos homens. Isto é, por você ser negro ou mestiço por exemplo, deverá ser subalterno aos brancos na escala onde se concentra o poder, ou como por exemplo figura-se em novelas brasileiras, os negros na condição única de empregados domésticos, motoristas ou criminosos, veiculando nesse último, a ideia estereotipada e racista de que os criminosos  ali, são exclusiva e essencialmente negros e favelados, se justificando para tal, a violência social e a discriminação para com esse grupo específico, conquistando-se assim, a anuência e o voto internacional nas práticas de repúdio aos negros.

Em síntese, o racismo é a determinação da condição económica dos homens a partir da cor da pele, tidas como inferiores ou superiores. É a raça ou se melhor a cor da pele dos homens, o elemento criterioso para se atribuir lugares sociais.

Assim sendo,  a problemática do racismo não repousa na ordem do emocional, onde normalmente o senso comum pretende cuidar o caso como um mero problema  afectivo ou de desafecto entre pessoas de diferentes raças, ou ainda como em alguns países  de gritante racismo, se instiga ou se convida a compreensão do fenómeno, partindo do olhar Marxista que responsabiliza a desigualdade social unicamente á luta de classes económicas , ignorando  o factor  raças nessas sociedades, sendo que nelas, a desigualdade social está atrelada a desigualdade racial. Assim, a condição sine quo non do racismo, é a diminuição ou anulação de direitos e recursos essencialmente económicos,  a um grupo  racial considerado como inferior. Em tese:/ Weederburn Moore / Munanga Kambenguele » Racismo e Sociedade.

Tal como a homossexualidade, a homofobia, o sexismo,  o etnocentrismo, o tribalismo, a igualdade de género, a violência doméstica, o feminismo, a intolerância religiosa, a exploração de menores, etc. que por sua vez consubstanciam-se na mesma discussão da democracia e ou liberdade de expressão e da garantia dos direitos humanos que todos os opositores de Angola buscam, em detrimento da ditadura imposta aos angolanos, normalmente e, por se camuflar sempre a realidade do nosso país, não existe em Angola, a produção de um discurso académico e ou científico que,  discuta também de forma inteligente e aberta, as questões de ordem rácicas, restando para o senso comum sobretudo no exterior, a ideia ingénua e hipócrita de que na nossa terra Angola não existem homossexuais, intolerância religiosa ou no caso concreto, afirmarem que  não existe racismo em Angola, ou ainda  a nível interno ouvir-se  fluentemente que, os negros são os principais racistas do país.

Em todos os casos é apenas mais uma aldrabice dos que ainda preferem raciocinar nesse formato de ideias, perspectivando que  Angola seria talvez melhor segregando-se dos demais grupos que integram e interagem na sociedade.

No entanto, o artigo não pretende argumentar de forma vil e sem nexo quem são os protagonistas ou os mais racistas de Angola, mas provocar alguma reacção contrária a que os  nossos  vaidosos senhores da corte, em função dos seus cegos interesses, têm a nível do convívio profissional e social, determinado e imposto aos angolanos na actual Angola e, de certa forma impulsionar também, a abrangência da discussão ao verdadeiro sentido da democracia (liberdade e igualdade), a medida que não faz sentido algum, ou mesmo chega a ser contraditório os angolanos discutirem liberdade de expressão/direitos humanos, quando aparte à oposição ao MPLA, conservam por outro lado, a opressão e a intolerância com os demais grupos existentes em todas as sociedades efectivamente democráticas, cabendo-nos questionar, se estamos de facto dispostos a mergulhar para a materialização da democracia plena ou se apenas utilizamos a palavra, clamando por ela quando canonizados à política parlamentar, aos partidos políticos, a gestão pública dos recursos, a corrupção e etc., enfim, até onde for a nossa área de interesse e de conforto dialéctico  e social, o que de certa forma patenteia a preocupação e o clamor à democracia, à transparência ou à liberdade, quando nos referimos essencialmente à equitatividade da riqueza ou bens de natureza económica( o núcleo de todos os  problemas, inclusive do racismo que discutimos agora) , razão pela qual, a discussão da melhor distribuição do bem público ou a luta contra a corrupção, são alguns dos pontos sonantes na temática da democracia que se busca em Angola. Apenas para repensarmos.

Os historiadores afirmam, que um povo que não conhece a sua história, está preparado para reviver todo seu passado, por mais cruel que ele seja. É com essa abordagem que  à partida, nos convidamos a observar sem minúcia, pela própria transparência dos factos, o dia a dia do país(Luanda), no que toca a relação poder/cor da pele, (ignoremos raça). Para tal, a pergunta de ordem é Onde está concentrado o poder em Angola? Como sabemos, o poder está claramente concentrado numa única família negra que com a sua anuência, redistribui a toda casta da sua intimidade criminosa, nomeadamente compadres políticos, capangas e agora as magnificas cooperações estratégicas (que pouco têm a haver com a pretensão viciada dos seus crimes), os mesmos haveres, sendo essa última o foco e a razão do presente artigo.

A título de exemplo, é comum ouvirmos de estrangeiros residentes em Angola que, os governantes/empresários angolanos não gostam de trabalhar com os angolanos porque os vêem como burros e incapacitados, mesmo sem se analisar na matriz, a qualidade do investimento que se faz ao homem angolano. É ainda comum vermos os mesmos estrangeiros serem atraídos para Angola com propostas de enriquecimento, bem como é comum vermos e ouvirmos reclamações de funcionários nacionais, enquanto vítimas de discriminação racial por parte de angolanos mestiços ou brancos, bem como principalmente de estrangeiros brancos, comportando na maior parte dos casos, cidadãos de nacionalidade portuguesa. Vale dizer que, nessa terra é também gritante a forma como muitos negros com alguma predisposição rancorosa, violentam verbalmente os mestiços ou brancos sem razão de ser, na mesma proporção ou talvez maior que, vemos aqueles que vivem nos arredores baldios do complexo de inferioridade racial só por serem negros.

A observação assenta nos Outsourcings ou nos contratos de modo geral, estabelecidos entre Angola  e governos de certos países sobretudo europeus que, para além de trazerem para o país a mão de obra qualificada que é necessária ainda, trazem consigo também, o preconceito mais qualificado ainda para discriminarem  racialmente os autóctone de Angola, muitas vezes convidados e autorizados directa ou  indirectamente por angolanos a agirem como apresentado.Esse factor, juntamente a condição de poder e de admiração por parte dos angolanos que encontram apenas em Angola, seja no sector privado como no público, atendem as condições necessárias para oxigenar a procriação e a sustentação do racismo no país. Isto é,  a conjugação de poder e a questão racial conflituosa que é marginalizada. Assim, os nossos senhores do governo, não estando ignorantes da situação, apenas silenciam ou normalizam-na ante esse quadro desestabilizador, razão pela qual não sendo ignorância, só se pode entender como perversidade, para além de estarem vendidos culturalmente com as ilusões de civilizacionismo.

É mais ou menos como se estivessem  de camarote a recordar aos jovens de hoje, a servidão que viveram na época Salazariana, sendo eles dessa vez, a conferirem com autonomia, o poder aos estrangeiros para  também recordarem seus ancestrais em Angola, subalternizando de forma racista o povo, o que faz com que voltemos a questionar-nos: Onde anda a nossa constituição, se até os dias de hoje,  por incrível que pareça,  existem em Angola tratamentos diferenciados  a nível  da cor da pele em certos  estabelecimentos  e lugares sociais?

Na ocasião de se tratar de uma sociedade educada para a mudez, surdez e o olhar silencioso , todo o horror é naturalizado e assimilado como parte de nós.  Sim, é pois essa a grande questão, pois o facto de não tratar-se de uma constituição ou de uma Lei angolana, mas uma cábula, vergonhosa réplica da constituição portuguesa, onde não se prevê a discriminação racial como crime inafiançável por exemplo, ou que acarreta  ao arguido, um dano significativo e talvez irreversível, o nosso dia a dia continua a ser regido e agredido com esse tipo de conduta abusiva,  atrasada e desrespeitosa para a humanidade, tal como se estivéssemos em países mais organizados, onde porém, discriminar a raça outra não é crime.

Com isso, queremos dizer, que há uma urgente necessidade de descolonizar-se radicalmente a Lei vigente, sobe pena de perenemente não prevermos na mesma, circunstâncias concretas da nossa cultura e sociedade e permitirmos assim que, o cidadão comum seja desrespeitado na própria casa, diminuído a luz do silenciamento dos que detendo o poder, não vivendo as mesmas agruras, abandalham o caso.

Por Mário Lunga

Lamentavelmente, a ditadura atingiu o extremo. Como é possível ser barrado um cortejo fúnebre sob a ameaça da polícia de intervenção rápida (PIR), helicópteros, cavalos, viaturas para lançamento de água quente e gás lacrimogénio?

Agentes da PIR lançaram gás lacrimogéneo contra os acompanhantes de Hilbert de Carvalho Ganga. Até os polícias normais fugiram e outros se protegeram do gás. Quase 45 minutos parados em frente à paragem do Jumbo com mais de duas mil pessoas à espera de uma decisão para continuar o trajecto em marcha com destino ao cemitério Santa Ana.

Mas lá no Santa Ana já estavam presentes largas centenas de pessoas, entre elas altos dirigentes da UNITA e do Bloco Democrático. Mesmo no cemitério os helicópteros da policia estavam presentes sobrevoando permanentemente em círculo com atiradores especiais armados.

A imprensa estrangeira e nacional cobria o acontecimento, mas a televisão do regime, a TPA, foi expulsa pelos acompanhantes de Hilbert Ganga. Se a policia ordenou que as pessoas fossem de autocarro até ao cemitério Santa Ana, só uns subiram mas a maioria preferiu mesmo marchar com os slogans ‘Zé Dú ASSASSINO’, ‘QUEM MATOU? MPLA ASSASSINO’, ‘EXIGIMOS JUSTIÇA’.

O líder da CASA- CE Abel Chivukuvuku, marchou mesmo até ao Santa Ana, e durante o discurso fúnebre, o politico garantiu apoio institucional e pessoal ao filho de 2 anos do malogrado, Hilbert Carvalho Ganga de 32 anos de idade, natural de Luanda, engenheiro civil, professor, membro do conselho nacional deliberativo da CASA-CE, e que deixa um filho órfão e uma noiva.

Por Telmo Vaz Pereira