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O Rap e os Direitos Humanos em Angola

Posted: February 4, 2014 in Opinião

Este será sem sombra de dúvidas o artigo mais “rechonchudo” que aqui já colocámos. É um bebuxo de 14 páginas da autoria de uma investigadora brasileira chamada Susan de Oliveira, tendo sido apresentado no I Encontro da AFROLIC – Associação Internacional de Estudos Literários e Culturais Africanos, realizado em Porto Alegre, RS, Brasil, em Novembro de 2013 e gentilmente cedido pela autora para publicação no nosso site. Faz uma análise acerca da influência da música rap nos movimentos sociais que têm despontado desde 2011, protagonizando manifestações e outros fatos políticos. O único reparo que fizémos à autora foi o de meter todos esses fragmentos de movimentos sob o título simples e conveniente de Movimento Revolucionário Angolano que é um rótulo que surge oficial e assumidamente apenas no decorrer do ano 2013 e do qual não fazem parte os citados neste texto. Lapso menor que é amplamente compensado pela profundidade revelada no exercício analítico proposto pela nossa irmã transatlântica. Segue então o artigo emagrecido do seu Abstrato.

Susan Oliveira, a autora

Susan Oliveira, a autora

Entre os anos 2011 e 2013, surgiu em Angola o Movimento Revolucionário da geração dos jovens que soma a herança de duas guerras, a de Independência (1962-1974) e a Civil (1975-2002) e que estão, portanto, vivendo em um recentíssimo período de paz. Eles são filhos e netos de revolucionários que apostaram no atual regime, o qual se anunciava democrático, mas enfrentam as mazelas de um país que prospera financeiramente e cultiva, a despeito disso, um caos social decorrente da falta de políticas sociais e do ataque sistemático aos direitos humanos promovidos pelo atual governo de José Eduardo dos Santos que assumiu o poder em 1979, sucedendo a Agostinho Neto (1974-1979), então falecido. O MPLA que governa desde 1974, sendo José Eduardo dos Santos o presidente nos últimos 34 anos, enfrenta por seu turno a indignação de opositores, entre os quais os partidos históricos UNITA e FNLA, e os mais recentes BD (Bloco Democrático), CASA-CE (Convergência Ampla da Salvação de Angola), PDP/ANA (Partido Democrático para o Progresso/ Aliança Nacional de Angola), e esse jovem Movimento Revolucionário apartidário que expressa a revolta social com mais veemência que os cinco partidos políticos juntos.

O Movimento Revolucionário Angolano composto por jovens, na maioria estudantes que têm organizado manifestações por direitos humanos e justiça social, possui pauta própria, organização e direção coletivas e ações que visam conscientizar o povo da necessidade de mudanças profundas na sociedade angolana, todas vinculadas à destituição de José Eduardo dos Santos. No cerne dessa proposta apoiada na transformação cultural e política dos jovens angolanos estão vários rappers que, em suas letras e vídeos e em suas participações ativas, produzem um discurso de forte impacto e penetração social sobre a violência policial e os ataques aos direitos humanos do governo de Angola e promovem através dessa poética os valores dos jovens das periferias angolanas.

Nas palavras do rapper Luaty Beirão, conhecido como Ikonoklasta, podemos ter ideia do histórico dessa ligação dos rappers com o ativismo social. Diz ele:

Tu vens do Hip-Hop, daquilo a que se pode chamar o Hip-Hop verdadeiro, underground por natureza. O Hip-Hop é político, foi assim que surgiu, como uma arma, um meio para expressar a revolta.  Desde Dead Prez, passando por Chullage, até ao Mc K, são vários os mc’s e os temas que nos fizeram pensar, que nos despertaram a consciência para problemas urgentes da sociedade.  A cena em Angola pareceu-me ser bastante interessante e original. Num concerto em que estive, a sala estava cheia de pessoal atento às letras e havia vários rappers a rimarem sobre o quotidiano e a vida do povo, o que só por si já é uma denúncia da pobreza em que as pessoas vivem. Estarei a romantizar? Ou poderá o movimento de Hip-Hop angolano ser também um movimento de resistência? O movimento Hip Hop angolano é a força motriz por detrás desta juventude que agora começa a rasgar a manta do medo e a gritar a plenos pulmões JOSÉ EDUARDO FORA! […] Aqui em Angola o Hip Hop consciente, vulgo underground, vulgo revolucionário, é sem sombra de dúvida a banda sonora desta juventude que está nas ruas e isso digo-o porque o testemunhei de forma inequívoca. (Jornal Mapa, 28/09/2012)

Muitos fatos ligados às manifestações organizadas pelo Movimento Revolucionário têm repercutido na sociedade angolana desde 2011, e mais especialmente desde maio de 2012, quando em uma manifestação pacífica do Movimento Revolucionário, em Luanda, a polícia angolana interviu e reprimiu violentamente a ação dos manifestantes culminando no desaparecimento de Alves Kamulingue e Isaías Cassule. Em 22 de dezembro de 2012, o Movimento convocou uma nova manifestação para cobrar providências legais sobre o caso. Antes da manifestação, se dirigiu ao ministro do Interior, Ângelo Tavares, uma comissão composta por familiares dos manifestantes desaparecidos e os representantes do Movimento Revolucionário, os rappers Luaty Beirão, Carbono Casimiro e Mbanza Hamza e o ativista Nito Alves.

Conforme o “Jornal Angonotícias”, de 21/12/2012, Ângelo Tavares afirmou que a justiça angolana não tinha nenhuma denúncia formal e que mesmo com as várias diligências as investigações não avançaram na descoberta do paradeiro dos ativistas. Na ocasião, o rapper Luaty Beirão disse estar “decepcionado quando nos dizem que não seguem a imprensa privada e não são obrigados a saber. Ninguém é. Portanto alegam isso para não terem conhecimento do caso […]”. Nito Alves posicionou-se ceticamente em relação ao encontro: “No mínimo foi tudo uma bajulação política, eles queriam apenas conhecer quem são esses jovens. Esses dirigentes não vão resolver o problema”, disse ele ao mesmo Jornal.  O jovem ativista Nito Alves, então com seus 16 anos, teve razão em afirmar que a justiça e a polícia angolana ao receberem os representantes do Movimento Revolucionário pretendiam apenas identificar seus membros, pois ele próprio foi vítima de uma perseguição em dezembro de 2012 e outra, por ocasião da manifestação marcada para o dia 19 de setembro de 2013. Essa última manifestação pretendia, além de continuar exigindo respostas sobre o desaparecimento de Kamolingue e Cassule e outras violências policiais como a tortura aos presos na cadeia de Viana (região de Luanda), a perseguição e espancamento das “zungueiras” (vendedoras ambulantes) e também cobrar a responsabilidade social sobre as demolições e despejos violentos em Mayombe, bairro de Cacuaco (região próxima à Luanda) e providências em relação aos quase um milhão de famintos da região sul de Angola, Huíla e Namibe, vítimas da maior seca em 35 anos naquela área.

Antes dessa manifestação de 19 de setembro, precisamente no dia 12, o jovem ativista Nito Alves, então com 17 anos, cursando o 9o ano escolar e filho único, foi preso ao transportar as camisetas que seriam usadas no protesto. O “crime” alegado foi difamação do presidente da República por estas frases estampadas nas camisetas: “José Eduardo fora! Ditador nojento” e “Povo angolano, quando a guerra é necessária e urgente”. Essa última frase é o título de um artigo e do livro do jornalista Domingos da Cruz, publicados em 2009. O jornalista também foi acusado do crime de incitação à violência e à desobediência coletiva, mas foi absolvido pelo Tribunal Provincial de Luanda. O juiz confirmou a inexistência de tal crime no ordenamento jurídico angolano. Nito Alves, nesse caso, não teria possibilidade de acusação formal contra ele porque o crime de que o acusou a polícia angolana não existe. Mas, obviamente, o crime real do jovem estaria na sua disposição revolucionária. Nos dias que decorreram da sua prisão, […] durante o seu interrogatório e na cela da esquadra do Capalanca, onde passou a primeira noite, antes de ser transferido para as celas da Direcção Provincial de Investigação Criminal (DPIC), Nito Alves revelou os seus dons de mobilização. Politizou os outros detidos sobre o regime e os seus actos e juntos fizeram coro contra as injustiças, para irritação dos seus guardas. O adolescente foi transferido da Direcção Provincial de Investigação Criminal de Luanda onde se encontrava em cela solitária para “lugar incerto” no dia 04 de outubro de 2013 e os advogados informaram que se encontrava adoentando mas que não tinham detalhes. (Jornal Maka Angola, 14/10/13)

Não se pode deixar de pensar no fantasma que o nome do menino Nito Alves evoca, sendo esse nome uma homenagem dos seus pais ao revolucionário comunista Nito Alves, morto em 1977, a mando de Agostinho Neto após uma tentativa fracassada de golpe pela facção chamada de “Fraccionista”, organizada por Nito contra Neto, o que deu origem ao massacre de maio de 1977 no qual foram torturados, exilados e mortos milhares de angolanos tidos como traidores do regime. O expurgo realizado naquela época e o silenciamento posterior imposto sobre ele pelo regime de Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos é hoje um assunto que revive traumas e grandes tensões entre governistas e opositores.

Uma matéria no “Jornal Maka Angola”, publicada em 15 de setembro de 2013, nos oferece um pequeno relato sobre as atividades antecedentes do menino revolucionário Nito Alves vistas como tão ameaçadoras pelo governo angolano e que influenciaram na sua prisão:

Aos 15 anos, Nito Alves teve uma ideia simples e generosa: a de partilhar informação crítica sobre o quotidiano do país, com os seus vizinhos e transeuntes. Desde o início da primavera árabe, em 2011, Nito Alves tem realizado o seu projecto através de um mural móvel que exibe frente à porta da sua residência, em Viana, Luanda. Semanalmente, o jovem seleciona algumas páginas dos semanários, com matérias críticas, e cola-as num grande placar de madeira, o seu mural. A sua ideia gerou dezenas de leitores diários, entre vizinhos e transeuntes, que se detêm à sua porta para se informarem. Por essa iniciativa e pela sua participação em manifestações anti-regime, Nito Alves tornou-se uma figura de referência no Bairro do Chimuco, no município de Viana, onde reside. […] (Maka Angola, 14/10/13)

Nito Alves havia iniciado uma greve de fome no dia 03 de novembro em protesto contra as condições da sua detenção e foi libertado em 07 de novembro de 2013 sob a condição de se apresentar quinzenalmente ao Tribunal Provincial de Luanda, segundo o “Jornal Maka Angola”, de 08/11/13. A liberdade de Nito Alves ocorreu em meio ao escândalo da confirmação do assassinato dos ativistas Cassule e Kamulingue pelo qual se realizou um grande protesto em Luanda, organizado pela UNITA com o apoio dos partidos de oposição e do MRA, com o objetivo de exigir justiça aos ativistas brutalmente mortos.

Num relatório confidencial da autoria do Ministério do Interior entregue recentemente ao Presidente José Eduardo dos Santos, as autoridades assumem a morte dos activistas Alves Kamulingue e Isaías Cassule, desaparecidos desde o dia 27 de Maio de 2012. O ministro explicou que a DNIC moveu uma investigação e esta descobriu que os dois activistas foram mortos por operativos do SINSE e que os seus cadáveres foram atirados no rio Dande, no Bengo, numa área onde habitam jacarés que os terão devorados. (Clube-K-Net, 09/11/13)

No dia 23 de novembro, data do protesto por Cassule e Kamulingue, Luanda foi cenário de mais uma repressão violenta da polícia angolana que teve como principal consequência a morte do ativista e militante da CASA-CE, Manuel de Carvalho Hilberto Ganga, executado com um tiro nas costas enquanto colava pacificamente cartazes da mobilização.

Nas primeiras horas da madrugada do dia 23, o jovem encontrava-se a colar panfletos políticos no Estádio dos Coqueiros, que se situa numa zona residencial, na zona baixa da cidade, com vários edifícios altos. Do outro lado da estrada, a partir do portão principal do Estádio, há uma saída alternativa do Palácio Presidencial, situado no topo da colina, na Cidade Alta. Ironicamente, os panfletos pediam justiça para os assassinatos de Alves Kamulingue e Isaías Cassule, desaparecidos há mais de um ano, pelo seu envolvimento numa tentativa de manifestação de centenas de ex-membros da Unidade de Guarda Presidencial (UGP). (Maka Angola, 26/11/13)

O funeral de Ganga tornou-se um momento simbólico de demonstração de força, resistência, união e revolta da população que acompanhou o cortejo e foi impedida pela polícia armada – que parou a caminhada por duas horas nas imediações do cemitério alegando uma insólita justificativa de “falta de autorização” – de prestar ao militante essa última homenagem, estando Nito Alves e outros ativistas do Movimento Revolucionário carregando à frente do cortejo a fotografia de Ganga.

DVD CAPA

Capa do DVD “Geração da Mudança” (2013), produzido pelos jovens do MRA e distribuído gratuitamente à população. Também disponível para download no Blog “Central Angola 7311”.

O Movimento Revolucionário, além de organizar atividades realizadas diretamente nas ruas, como as manifestações e a distribuição de um DVD intitulado “A Geração da Mudança”, com diversas matérias de utilidade pública sobre a história e posições políticas do Movimento, também está fortemente apoiado nas redes sociais facebook e twitter e possui o blog “Central Angola 7311”, sendo este número uma referência à data de 07/03/2011, ocasião da primeira manifestação pacífica organizada pelo MRA que foi impedida pela prisão dos manifestantes e cuja música oficial do evento seria o rap “Estado da Nação” (Rap revolucionista) que faz parte do álbum “Ditadura da Pedra” (2011), do rapper Brigadeiro Dez Pacotes, o qual dirige uma incisiva e direta denúncia do governo de José Eduardo dos Santos. O rapper adota um tom de discurso falado intercalando o refrão: “A faca que mataram com ela teu irmão, não pendure no pescoço. Já nos comeram a carne e também estão a nos comer o osso. Exigimos o dinheiro do petróleo. É nosso. O meu povo está morrendo”. A letra relata os crimes cometidos a mando do regime angolano e pelos seus governantes da qual destaco os seguintes versos: “A pior arma que mata em Angola é a corrupção”, “Dirigentes canalhas, eles pensam que o país é deles”, “Miúdos em idade escolar a vender coca-cola para sobreviver”, “A arrogância da farda prevalece”, “Mamá zungueira é brutalmente espancada”, “Angola está entre os maiores produtores do petróleo mundial, não se justifica as constante subida do combustível”, “Este regime é pior que o colono, só não se deu conta quem ainda está no sono”, “Em cada mil crianças, duzentos e trinta e quatro morrem antes de completar um ano de vida”, “A verdade revela: bairros que vivem há anos à luz de velas”.

O blog “Central Angola 7311” é destinado a divulgar textos e eventos, sendo dele organizadores vários rappers e ativistas. Numa visita ao blog, observa-se que a conexão do Movimento com o rap é intensa. Os rappers Sanguinário e Kallisto aparecem destacados nesse veículo em duas músicas nele publicadas, entre elas “Deixem-nos em paz” que foi, inclusive, slogan da manifestação de março de 2013 e veiculado também no seu panfleto de divulgação. Frases como “É o meu filho que morreu por negligência médica. Não se vive do salário, que se foda a ética!”, “Calar é consentir e eu não calo, mando lixar a profissão que exerço e falo!”, “Venham insultos e ameaças eu não me abalo. Há um segredo por trás da cortina, vou revelá-lo”, “Deixem-nos em paz, somos só 20%”, “Justiça parcial? Isso é ditadura!”, “Queremos algo para além da roupa que vestimos” e “Talvez um dia eu seja expulso, mas até lá, eu não mudo o meu discurso!”, foram extraídas da letra do rap para a apresentação dos vídeos no blog, o que nos mostra pelo conteúdo direto e pelo destinatário explícito – o governo angolano – que as frases escolhidas representam palavras de ordem do Movimento Revolucionário. Interessante é a seguinte nota no blog “Central Angola 7311” sobre os vídeos de rap nele apresentados e sobre o vínculo identitário do rap com o discurso de uma nova angolanidade:

Em Angola não há um género musical na atualidade que faça mais honra à memória da música angolana de intervenção social dos anos 60/70 do que o hip hop. Se outrora se musicava a angolanidade que ia do folclore à condição social de colonizado, hoje em dia, alguns rappers mantêm-se fiéis a esse espírito, e o que perdem pelo parco uso das línguas nacionais, compensam no facto de chamar os bois pelos nomes abdicando de metáforas para identificar o neo-colono que agravou ainda mais a condição social do “libertado”.

O rap é, por tal compromisso explícito, a música e a voz que reivindica a nova angolanidade pelo posicionamento cultural e político revolucionário dessa que é a “Geração da Mudança” à semelhança da “Geração de Vamos Descobrir Angola” da década de 1950, geração que forjou a ideia de angolanidade a qual, por sua vez, conforme declarou Viriato da Cruz, estabelecia uma continuidade com a Geração de “Voz de Angola clamando no deserto”, de 1900.

Queremos reavivar o espírito combatente dos escritores e africanos do século XIX, de Fontes (José da Fontes Pereira – 1823-1891), e dos homens que compuseram A voz de Angola clamando no deserto. Os poetas devem escrever acerca dos interesses reais dos africanos e da natureza social da vida africana, sem nada concederem à sede do exotismo colonial, ao turismo intelectual e emocional do prurido e curiosidade dos europeus (CRUZ, apud ANDRADE, 1975, p.6).

A nova geração revolucionária apresenta-se utilizando a crítica ao colonialismo e a afirmação de uma identidade angolana pautada tanto nas cobranças e dívidas com as gerações passadas quanto nas lutas contemporâneas contra o atual regime. Temos, portanto, a possibilidade de reinvenção da revolução, talvez mais proeminente que seu aspecto vanguardista de novidade, embora a contemporaneidade seja imperiosa em produzir rapidamente a transversalidade ou globalidade das manifestações populares.

Mas, seria a revolução reivindicada por esse jovem Movimento uma possível reapropriação do projeto nacionalista angolano e da angolanidade sonhada e preconizada pelas duas gerações revolucionárias que a antecederam no século XX? Haveria, junto às lutas atuais, a permanência de valores a serem cobrados na conta de uma revolução iniciada na Guerra de Independência Colonial e interrompida pela Guerra Civil? Essa é uma pergunta que ficará em aberto enquanto durar a efetividade das manifestações e até que a transição governamental seja feita.

Em favor do caráter cultural que aproximaria os três projetos, constata-se que ao longo de pouco mais de um século as três gerações – a de Fontes, a de Viriato e a de Luaty – autointituladas revolucionárias empunharam primeiramente a arma do discurso e da poesia para mobilizar a sociedade diante das injustiças sociais decorrentes dos planos econômicos coloniais e neocoloniais. Por outro lado, o que impediria de imediato uma visão aproximadora do processo revolucionário contemporâneo com os demais é que entre a segunda geração revolucionária e a atual ocorreram as duas guerras, a Guerra de Independência e a Civil, sendo a segunda geração a que deflagrou ambas e expôs a fratura interna do movimento independentista e da sua formulação nacionalista. A consolidação da Independência Colonial foi marcada pela Guerra Civil originada na cisão da legitimidade e confiabilidade da condução hegemônica disputada entre MPLA e UNITA no governo de Angola. A guerra vencida pelo MPLA está longe de ter consolidado a hegemonia e realizado a sutura necessária à democracia e ao socialismo prometidos pelos agentes que fundaram o partido no final da década de 1950.

No período pós-guerra, Angola tornou-se, nas mãos do MPLA, uma economia poderosa no cenário mundial, cobiçada por investidores estrangeiros. Um país emergente economicamente, mas com uma desigualdade social brutal e alto índice de violação de direitos humanos. Hoje, cerca de 25% dos angolanos não tem o que comer, cerca de cinco milhões de pessoas, praticamente a população de Luanda em termos comparativos. No entanto, a região sul de Angola, Huíla e Namibe, mostram que o contorno do rosto da fome é abrangente. O sul de Angola registra, em 2013, a maior seca em trinta e cinco anos e cerca de quase um milhão de pessoas na região sofrem seus efeitos sendo socorridas, sobretudo, pela ajuda humanitária de Ongs. No litoral predominam as terras mais caras e disputadas de Angola, prioritariamente dominadas pelos investimentos imobiliários que usam a força de trabalho local mesclada a de operários estrangeiros, como é o caso dos imigrantes chineses que ocupam cargos de comando e administração enquanto aos angolanos cabe realizar serviços subalternos com força de trabalho mal remunerada ou mesmo escrava. Em qualquer caso, a miséria impera seja pelos salários baixíssimos, pelo abandono ou pelos despejos forçados em terrenos de interesse comercial para os novos condomínios, despejos nos quais a violência policial é empregada de forma impiedosa, como ocorreu na localidade de Cacuaco, em fevereiro de 2013, provocando grande preocupação das Ongs Anistia Internacional e Human Rights Watch, conforme foi veiculado à época no próprio blog dessa Organização. Os baixos níveis de investimentos públicos em reassentamentos, em saneamento básico e políticas de emprego e assistência social para socorrer a fome, o desemprego e a falta de habitações dignas em contraste com a elitização dos espaços em Luanda, que tem hoje um dos metros quadrados mais caros do mundo, somados à violação de direitos humanos e repressão aos protestos são os estopins da revolta social em Angola.

O rapper MC Kappa (MCK) é uma voz que fala diretamente aos angolanos pobres e excluídos. Suas letras são carregadas de interpelações aos cidadãos e ao governo, fazendo denúncias das injustiças sociais e da violência policial.  Um trecho da biografia de MCK, no blog “MCK…Respeita”, nos informa da sua visão sobre o caráter do rap: “‘A música é um instrumento de luta’, prega na abertura do álbum “Nutrição Espiritual” (2006), o segundo da sua carreira. Nela, defende ainda que o rap angolano tem de trazer a própria identidade, a própria cara, ‘a fotografia da voz'”. (“MCK…Respeita”, 2008)

Uma das músicas do primeiro álbum de MCK, “Trincheira de Ideias”, foi o estopim da agressão e morte de um jovem de vinte e sete anos, Arsénio Sebastião, conhecido como “Cherokee”, lavador de carros e pai de dois filhos. Ele foi abordado por militares angolanos que o espancaram em plena rua enquanto cantava o rap de MCK, “A Téknika, as kausas e as konsekuências”. Os militares, em seguida, amarraram suas mãos e o afogaram no embarcadouro do Mussulo, em 26 de novembro de 2003. A criminalização da livre expressão de MCK – que compôs – e de “Cherokee” – que cantava o rap – é, por sua vez, emblemática do estado de exceção que se impôs no ano seguinte ao fim da Guerra Civil, ocorrido em 2002, e que pretendeu manter uma ordem arbitrária sem suspender formalmente os direitos civis recém afirmados, mas que na prática não entraram em vigor junto com o acordo de paz. Ao autorizar a polícia a instalar o terror e calar com repressão e violência as vozes dos manifestantes, e fundamentalmente impedir a interlocução e a reunião entre os cidadãos, o estado democrático de direito estaria anulado.

A letra do rap que foi censurado aos ouvidos e vozes dos angolanos, no entanto, corresponde a uma dupla recepção do público – os que o ouvem e também os que o leem – a começar pelo título que, ao ser lido, causa estranhamento pela troca das consoantes – c e q pelo k – sendo este um dado estético que, ao subverter a norma padrão da língua como é comum no rap, dissemina significados políticos e cognitivos importantes. Nos seguintes versos, o rap apela primeiramente ao ouvir do cidadão: “Cidadão angolense acorda antes que o sono t’enterra/ se deres ouvido a minha poesia conhecerás/ a cara e o nome do mosquito que nos ferra/ saberás que a causa do caos do povo não foi apenas a guerra.” Os versos abrem um discurso que apela ao ouvir e à dúvida sobre os males de Angola serem justificados unicamente pela guerra. Por isso, na sequência, os versos ganham um potencial de apelo à decodificação política da situação e à decodificação da própria técnica da escrita enquanto ao mesmo tempo propõe que nela se encontra a dominação e decifrá-la tem poder emancipatório:

A inocência fabrica e multiplica as vítimas da escravidão moderna/ Como a massa desconhece a técnica da/ M.anipulação P.opular de L.ixamento A.ngolense/ ninguém sente o peso da algema./ Cultivam em ti o medo que semearam nos teus pais/ As tuas atitudes dependem da rádio e da televisão/ já sei que não vais compreender o refrão/ isto é uma figura de estilo irónica, pede explicação.

O “estilo irônico” se reflete precisamente na ressignificação da sigla MPLA e da ideia de que a escrita manipula as opiniões especialmente de quem não a domina e que a televisão e o rádio, principais meios de difusão da informação em Angola, iludem o cidadão, por isso o refrão apela a um questionamento do conhecimento prévio e a uma crítica da técnica e da tecnologia a serviço do poder: “Seilaquê uauê/ Tira a poeira das vistas/ abre o olho mano, desliga a televisão/ rasga o jornal e analisa o quotidiano/ vai em busca da realidade do modo de vida angolano.” Assim, a letra afirma que é a análise da própria condição do cidadão angolano que precisa ser lida e entendida estando nela a verdade da situação na qual o cidadão se encontra:

Irmãos, qual é a liberdade que nos deram/ se a arrogância política não cessa?/Quem fala a verdade vai p’ó caixão/ que raio de democracia é essa?/ Nos livramos dos 500 anos de chicote/ mas não utilizamos a cabeça / depois da queda do colono/ em vez de uma independência/deram-nos quase meio século de má governação.

A ironia de que nos fala o rapper se assemelha a uma formulação maiêutica (socrática) de descoberta da verdade que se encontra no próprio indivíduo e na sua condição existencial. A ideia fundamental é produzir um ponto de vista voltado para a situação em que os cidadãos angolanos vivem, uma população de “deslocados nas curvas” e “mutilados” que só o são porque “os políticos querem assim”:

Somos os maiores importadores de pares de muletas/ dentro e fora do mundo luso, as vacinas da pólio/ não reduzem o elevado número em uso/ Dizem querer desenvolvimento p’rá Nação/ com 1 médico p’a mais de 90 pacientes/ e 1 mina p’rá cada cidadão?/ Indústrias paradas, 4º lugar da corrupção/ Ganhámos o prémio Nobel do paludismo e da malária/ gastámos o dinheiro na compra d’Audis recentes/ e comemos o arroz estragado das ajudas humanitárias.

O rap de MCK conclui-se com a ideia ainda mais irônica de que a informação foi dada, mas que mesmo conhecendo a verdade o próprio povo autoriza a sua exploração ao não protestar: “o povo conhece a verdade mas cala/  o velho ditado diz: ‘O Silêncio também fala’!” Nesse verso se coloca o silêncio como eloquente em si mesmo, denunciante tanto do consentimento ao discurso da subserviência como também do efeito repressor do discurso do medo ratificado pela violência, o que corrobora a necessária intervenção do rapper e do próprio Movimento Revolucionário para darem palavras e voz a esse silêncio.

A letra de “Nzala”, um rap do útimo álbum de MCK, “Proibido ouvir isto” (2013), título dado por causa do fato ocorrido com “Cherokee” há dez anos, interpretada por MCK e Paulo Flores, ganhou versão de animação com efeitos de desenhos a lápis dos renomados cartunistas angolanos do Olindomar Estúdio no videoclipe homônimo. Os dois músicos são personagens da animação, sendo que MCK aparece como o narrador que é, inicialmente olhando-se no espelho cercado por várias fotos de um menino cuja história irá contar e identificando-se desta forma com este personagem. Paulo Flores aparece sentado sobre a parte de cima de um tanque de guerra tocando melancolicamente o seu violão. “Nzala” é uma palavra em quimbundo que significa fome, e tanto a letra quando a animação dos cartuns conta-nos a história de um miúdo que se torna um peregrino da fome assolado por todos os males já antes denunciados no rap “A Téknika, as kausas e as konsekuências”: um menino fica órfão após sua família ser massacrada pelos soldados angolanos na Guerra Civil, o verde das fardas e o vermelho do sangue predomina na cena da chacina da família presenciada pela criança. Depois disso, ele se torna um “deslocado” saindo do Bié: “chegou em Luanda mutilado, sem a perna”. Vitimado por uma bomba subterrânea – segundo a letra de “A Téknika, as kausas e as konsekuências”, há uma mina para cada cidadão angolano – passa a viver como miserável nas ruas, disputando comida no lixo com animais e sobrevivendo de serviços subalternos que não lhe dão nenhuma dignidade para sair da situação em que se encontra: “Transformou-se em puto de rua aos olhos do governo/ dorme debaixo da ponte de inverno a inverno/ sem calor materno/ divorciado do caderno/ Parece eterno o sofrimento do pequeno/ Escravo moderno do mercedes e do terno.”

O rap nos mostra que o menino órfão é o retrato da “nzala”, da fome que em Angola é uma das grandes catástrofes do interior do país às periferias de Luanda, mas que essa é, sobretudo, uma consequência histórica da intervenção violenta do Estado e da Guerra que destruiu a vida familiar do menino, pois é somente depois da morte dos pais, ao deslocar-se do Bié para Luanda, que ele conhece a fome, condição gerada pela ação humana que deveria lhe atender as necessidades básicas. Também o lugar comum da ajuda social não aparece em socorro do menino, sequer como aquele “arroz estragado das ajudas humanitárias”, pois nenhuma redenção para tamanho crime é possível. E é justamente na pressão contra meros paliativos de consciência que reside a força do rap como apelo à garantia dos direitos humanos que abrange mais que negociar as migalhas do sistema na forma da oferta de comida e abrigo às crianças órfãs, porque defende com mais profundidade uma transformação social contra uma cidadania no limite da exclusão postulando o que para muitos angolanos pode mesmo ser impensável hoje: o direito à dignidade de cada um, de cada criança de crescer e viver com a família, com o amor dos pais e irmãos, de ir à escola e ter escolhas, um direito fundamental que tem sido usurpado às gerações que passaram pelas duas guerras sucedendo-se à elas uma verdadeira população de órfãos, de irmãos que criaram irmãos ou de crianças que se criaram sozinhas percorrendo a trajetória da orfandade familiar à orfandade social e política, o que nos leva ao reconhecimento de que é dessa trajetória que surge um Movimento Revolucionário tão jovem, uma “frátria órfã” (KEHL, 2008) composta por irmãos, os “manos” a falar com uma linguagem penetrante sobre a realidade de todos os filhos de Angola.

Por Susan A. de Oliveira (Universidade Federal de Santa Catarina)

O Futuro da Nação

Posted: January 14, 2014 in Argumentos, Opinião
Não podemos confirmar que esta foto seja de uma criança angolana

Não podemos confirmar que esta foto seja de uma criança angolana

É frequente escutarmos a expressão “futuro da nação ou o futuro da nação ” nos programas que são apresentados nos canais da TPA com o intuito de promover a imagem do Executivo e mostrar as suas realizações. Pergunto-me se realmente os políticos e governantes da nossa terra têm feito o necessário para garantir um futuro risonho para o futuro da nação. Será que têm?

Como forma de comparar com o que tem sido feito pelo Executivo angolano, tentei enumerar alguns pontos que, na minha óptica, são importantíssimos na concepção, preparação e realização do futuro da nação.

O futuro da nação é termos creches comunitárias para que as mamãs zungueiras possam ganhar a vida sem expor as crianças ao sol, à poeira, ao lixo e outras intempéries. Com isso, desde logo, protegendo o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos governantes que dizem que as crianças são o futuro da nação (e elas o são), mas não garantem as escolas de qualidade e professores bem remunerados para o futuro da nação e não fazem um investimento sério neste sector estratégico do país, exactamente para garantir o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos governantes, feitos milionários, sabe Deus como, mesmo depois da declarada e publicitada “Tolerância Zero”, que insistem em usar o erário público como a sua maior fonte de receitas, quando a maioria dos angolanos aufere salários magros, prejudicando o futuro da nação.

O futuro da nação é termos um Tribunal de Contas e uma Procuradoria-Geral da República, e todo o sistema judicial angolano, actuantes e com resultados palpáveis. O sentido de justiça deve fazer parte do quotidiano dos angolanos, desde o angolano que se encontra nas zonas rurais e nas miseráveis zonas urbanas até aqueles que estando nos escritórios “intocáveis” sintam que em Angola, HÁ REGRAS, e que se elas não forem cumpridas, alguém “assumirá o barulho”. Portanto, uma Angola sem “ordens superiores” que violem os postulados constitucionais e as demais leis do ordenamento jurídico angolano. Esse é o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos o Estado a gastar milhões de dólares todos os anos para oferecer carros topo de gama a deputados, ministros, directores e chefes de departamento, quando continuamos com um débil sistema de transportes públicos, atrasando o futuro da nação.

O futuro da nação é, nesta fase do processo de desenvolvimento de Angola, dar subsídio de combustíveis aos candongueiros (taxistas) e aos kupapatatas, porque, na verdade, são eles que muito ajudam na deslocação de grande parte dos trabalhadores da nossa terra para os seus postos de trabalho, contribuindo desta forma para o futuro da nação.

O futuro da nação não é termos cidadãos angolanos com carros de alta cilindrada que não pagam as suas contas de gasolina ou de gasóleo, porque o Estado é que as paga. Isto é o futuro da nação?

O futuro da nação são e serão dirigentes e governantes com os pés bem assentes na terra angolana. Indivíduos conectados à realidade angolana, ao sofrimento e ao clamor da Angola profunda, quer nas zonas rurais quer nas zonas urbanas. Cidadãos angolanos altamente preparados e disponíveis para o “establishment”, no seu sentido mais abstracto, dum verdadeiro e funcional programa nacional de desenvolvimento, rumo ao futuro da nação.

O futuro da nação é Angola, sendo multi-étnica, multipartidária, multirracial, multi-cultural, longe dos “paradigmas africanos” de países que volta e meia estão em conflitos sangrentos e irracionais, engasgando e armadilhando o futuro dos seus países. Angola pode ser, se quiser, um paradigma social, cultural e político, se calhar até económico, diferente do que temos visto em África, diferente da imagem que tem sido propagada e propalada no Ocidente. Angola pode ser o futuro do continente. No que a nós nos diz respeito, aí está o futuro da nação.

O futuro da nação é Angola tipo Noruega: Mentalidade “Crystal Clear” com o objectivo máximo de cuidar, educar e maximizar as potencialidades da pessoa humana em Angola. Sendo que, nós, angolanos, sobretudo os decisores políticos, devemos estar altamente conscientes de que a nossa maior riqueza é, definitivamente, o ser humano, longe de preconceitos e discriminações e outros quesitos que atentam contra a dignidade humana. Esse é o futuro da nação.

O futuro da nação é garantirmos efectivamente que Angola, sendo um país fundamentalmente financiado pelo dinheiro do petróleo, nossa riqueza natural, não permitisse de maneira nenhuma que os seus filhos morressem de fome. Isto é o futuro da nação.

Mas esta sim. Gambos, Huíla, 2012. Foto de João Stattmiler

Mas esta sim. Gambos, Huíla, 2012. Foto de João Stattmiler

Por Kady Mixinge

Recuperámos este texto de um post facebook do nosso kota Marcolino Moco e pareceu-nos pertinente o suficiente para merecer ser o post inaugural deste ano que começou há alguns minutos. Outros textos igualmente interessantes podem ser lidos no blog do Marcolino aqui. Segue na íntegra:

Marcolino Moco

“No outro dia, cruzei-me acidentalmente com alguns “mais novos” da comunicação social pública, e, para a minha agradável surpresa, contrariando a habitual fuga às “minhas chagas de sarna”, mostraram-se muito simpáticos e conversadores. E, entre as conversas, para uns eu tinha razão, nas críticas que faço, não a eles, mas ao sistema que os coloca, a eles, numa condição de “escravos” de ideias dos que se acham insubstituíveis no poder angolano, mas outros, naquela conversa aparentemente descontraída, achavam que eu andava adiantado demais porque “isso é um processo”, diziam.

É a propósito desse encontro fortuito que me ocorreu dirigir algumas palavras, especialmente aos “os mais novos” deste país, nesta espécie de “mensagem de Ano de Novo” de um informal Senador da Nação que sou (como alguém agradavelmente me chamou, só que este tal acha que os senadores devem estar calados e não se dirigir a “pessoal menor” mas para mim “pessoal menor” só são as crianças – menores de 18 anos – mas mesmo para estas eu falo; senador não é para só fazer “banga” com o título e “ver a banda passar”, não).

Para a minha opinião, nascida de uma longa reflexão, em que nunca me descalcei das minhas responsabilidades no passado e no presente, mas não aceitando participação num contínuo “empurrar as coisas com a barriga”, os angolanos, especialmente a sua juventude, não devem deixar-se embalar nessa ideia de que “estamos num processo” (estamos numa transição) e é preciso ter paciência, debaixo das ideias de um grupo minoritário que não sabe fazer outra coisa senão gerir a manutenção do poder, pisando todas as normas éticas, jurídicas e ate das nossas respeitadas religiões, que devem contribuir para a harmonização e contínua pacificação da sociedade. São eles que falam de “lavar roupa suja em casa”, quando não se coíbem de fabricar sujeira na rua, sem qualquer escrúpulo. Como lavar roupa suja em casa se a sujeira já está na rua?

A transição, no desenvolvimento das sociedades, é uma constante que não pára e é geralmente do inferior para o superior. O que é que se está passar em Angola, no plano das instituições que é algo que deve preocupar a elite angolana que queira conscientemente contribuir para um “processo” de passagem do inferior para o superior?

Claramente um retrocesso. É evidente que se tivermos em conta que cada fenómeno se apresenta com duas faces, esse “retrocesso” significa um franco “progresso” em relação à construção de uma “monarquia republicana” que foi academicamente anunciada pelo Professor Doutor Araújo, no livro do seu doutoramento publicado em 2009.

Sintomaticamente, o Professor Araújo é hoje venerando juiz de um Tribunal Constitucional que com os seus acórdãos 233 e 319 do ano que termina, continuou a contribuir para a formalização de uma realidade de facto, imposta de forma cobarde e inaceitável a todos os títulos, e que está na base das tensões que o país tem vivido, paradoxalmente, com maior intensidade, desde o fim da guerra civil, em 2002.

Com aqueles acórdãos e, com todas as urdiduras a que temos assistido, com declarações que só deixam dúvidas a quem não faz a ligações necessárias dos fenómenos actuais com os seus precedentes, o Presidente José Eduardo quer: ser reconduzido em 2017 para umas funções em que andará já há 38 anos cansados anos, tendo ele, nessa altura, os seus pesados 75 anos. Em 2022, o nosso compatriota Zénu, hoje Presidente do Fundo Soberano de Angola, de que põe e dispõe, sendo nomeado o para o cargo sorrateiramente, na mesma semana das reuniões com a juventude, deverá “estar apto” a receber o ceptro do poder. E todos aqueles que reclamarem deste inusitado nepotismo, serão declarados invejosos e frustrados, se não lhes acontecer pior.

A verdade é que as tensões irão desenvolver-se num crescendo inaudito e a repressão, que no ano que termina já atingiu o ponto de transformar o Ministério do Interior e a Polícia em instituições superiores à Constituição e o direito à manifestação no “direito à pena de morte”, alcançarão níveis impossíveis de imaginar.

Mas nem tudo foi negativo no ano que termina. Os partidos políticos conseguiram um consenso, pela primeira vez, a volta a volta da solidariedade contra o assassinato político e os direitos humanos, com a UNITA a cumprir o seu papel de maior partido da oposição.

O meu amigo, outro Senador da virtual República, o Dr. Makuta Nkondo, outra voz que como a minha não poder ser ouvida no sistema de vergonhoso apartheid imposto na comunicação social, exprimiu de forma clara, numa TV de rede social, o que muitas pessoas que radicalizam as suas posições à custa da insensatez do poder actual em Angola pensam. Acham que estamos a ser governado por estrangeiros, quando não é assim. É isso. Os extremos geram outros extremos.

Entretanto, continuo a pedir daqui que o Senhor Presidente reveja as suas posições, porque poucos e cada vez menos, numa Angola tão culturalmente variada, irão aceitar pacificamente este projecto que nos está a impor sorrateiramente, com um discurso de “morde sopra”.

Boas saídas e boas entradas
Luanda, 31 de Dezembro de 2013″

Por Marcolino Moco

JES en decadência

O discurso com cerca de 15 minutos que gasta uma resma de papel (font size:48?) do Senhor José Eduardo dos Santos poderia até arrancar elogios aos mais incautos que gostam de ser feitos de trouxas, aqueles que não se cansam de ver aquela cara de mendigo desgraçado inspirando piedade e aquele tom de voz de Maria Madalena entristecida e continuam, já adultos, a atribuir-lhe algum tipo de seriedade/credibilidade/honestidade.

Desde sempre que este indivíduo que foge a entrevistas, debates, olhares indiscretos (fugou no funeral do Mandela) e eleições diretas nos habituou a palavras com aspeto de rosas e cheiro de fossa, pois deve ter aprendido que a arte da política é apenas ser convincente ao prometer e das promessas nos alimentaremos até a sua aparição seguinte. Isso pode até ser verdade durante um certo número de anos (julgando pelas democracias maduras entre 4 e 6 anos), mas o JEScaré já terá esticado por demais a corda, tendo quase conseguido a proeza de meter em questão a máxima do Abraham Lincoln mais tarde musicada pelo lendário Bob Marley: “You can fool all the people some of the time, and some of the people all the time, but you cannot fool all the people all the time”. Infelizmente para ele, uma fatia considerável de angolanos cansou-se de lhe outorgar esse kilapi e já não está mais para falinhas-mansas… 34 anos depois!

As fugazes referências aos “cidadãos que muito ainda tinham para dar à Nação” e à abolição da pena de morte e que “o Estado não mata” são de dar a volta ao estômago, sobretudo quando no dia seguinte o miúdo Nito Alves, o Emiliano Catombela e o Alemão foram perseguidos à tiro pelos becos de Viana pelos mal-encarados da PIR pelo simples facto de estarem nas imediações da Comarca de Viana enquanto decorria o motim que deixou 4 mortos.

Não escondemos que ficámos muito intrigados com a frase: “que os seus bons exemplos sejam seguidos pelas novas gerações”. Estará ele a encorajar outros jovens a promover manifestações e a colar cartazes com mensagens políticas
que lhe sejam adversas? Terá finalmente percebido que democracia só o é se houver quem o conteste? Ou estava a ter o seu (falso) momento Mandela?

A última frase no discurso mostra bem quão enraizado está o narcisismo desse mais-velho, mandando uma mensagem de solidariedade para os enfermos que não conseguirão disfrutar da quadra festiva com a saúde e alegria que o momento pede. Basta ver a imagem no cabeçalho e ouvir a voz lânguida reveladora de uma língua preguiçosa e com preguiça de articular, para nos apercebermos que ele está a mandar uma mensagem para si próprio, uma espécie de auto-consolo pelo estado frágil que tem se tornado demasiadamente óbvio e que nos força a pensar com uma seriedade reforçada na nossa Angola pós-JES.

Longe de nós desejarmos que perca o pulso definitivamente, não somos dessa estirpe. Somos antes daqueles que fazem figas para que ele esteja bem vivo para sentar no banco dos réus e responder por todos os crimes cometidos pelo “seu” estado e que ele, enquanto garante da CRA e responsável máximo da Nação, não foi capaz ou não
quis impedir.

Longa vida ao Rei que, coitado, já vai nú!

Abaixo algumas das brincadeiras que protagonizámos com a sua debilitada figura ao longo deste ano de 2013 e que ficaram-se essencialmente pelo facebook.

Zé Kitumba em BCN

JES Fernando NoronhaJES Cabobo BCNJEScaré 01 TSHIRT MPLA LACOSTE MPLA Bandeira NOVA

A série JES’u Superstar: Cap.I; Cap.II; Cap.III; Cap.IV; Cap.V; Cap.VI; Cap.VII;

“NO MOMENTO DE SER admitido como membro da profissão médica:
EU JURO SOLENEMENTE consagrar a minha vida a serviço da humanidade;
EU DAREI aos meus professores o respeito e a gratidão que lhes são devidos;
EU PRATICAREI a minha profissão com consciência e dignidade;
A SAÚDE DE MEU PACIENTE será minha primeira consideração;
EU RESPEITAREI os segredos confiados a mim, mesmo depois que o paciente tenha morrido;
EU MANTEREI por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica;
MEUS COLEGAS serão minhas irmãs e irmãos;
EU NÃO PERMITIREI que concepções de idade, doença ou deficiência, religião, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, condição social ou qualquer outro fator intervenham entre o meu dever e meus pacientes;
EU MANTEREI o máximo respeito pela vida humana;
EU NÃO USAREI meu conhecimento médico para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;
EU FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e pela minha honra.”
Juramento de Hipócrates (Revisão ao original de 1771 aprovada pela Convenção de Genebra em 1983)

Angolacharge-saude-oproximo

Aqui em Angola todos já fomos vítimas ou conhecemos alguém que tenha sido directamente vítima de negligência médica, casos que muitas vezes redundam em morte e que mantêm Angola em alguns tops tenebrosos como é o das várias taxas de mortalidade (infantil; materna; geral), esperança de vida e o da percentagem de pessoas vivendo abaixo do nível da pobreza (2$/dia segundo os padrões estipulados pelo world bank e usados como uma das referências do teto da pobreza extrema).

Se a classe dos mais desfavorecidos é a mais negligenciada, vulnerável e sujeita ao “desleixo” criminoso dos “médicos”, as outras não estão ao abrigo da letargia do deixa-andar, da conformação à perpetuidade da pertença aos dados estatísticos mais deprimentes do mundo. A morte é natural, mas a ciência tem sido aperfeiçoada para a adiar. Infelizmente, neste nosso país, o problema não é a tecnologia de ponta (que já existe em algumas unidades hospitalares privadas), não é só a falta de condições técnicas e de salubridade, não! O problema reside grandemente no profundo desumanismo que se semeou desde que se declarou necessária a criação de uma burguesia nacional, da qual fazem hoje parte até aqueles que preconizavam que a esses era “preciso é partir-lhes o focinho”. O que colhemos hoje são os seus ácidos e indigestos frutos.

Vamos referir-nos a 4 casos relativamente recentes todos ocorridos em Luanda (os nomes são fictícios):

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Crianças/Pacientes no Hospital Josina Machel

Caso 1

Filomena não tendo posses para fazer o seu parto numa clínica privada sempre onerosa, escolhe a maternidade Augusto Ngangula para trazer ao mundo o seu primeiro filho. Algumas complicações que nunca se explicam em condições à parturiente desesperada ocorreram e o bebé teve de ser incubado. No dia seguinte, ao pedir para ver o seu filho, lhe foi comunicado que o bebé tinha falecido durante à noite. Razão: falta de energia e gerador avariado, sistema de ventilação da incubadora não funciona sem corrente e o bebé morreu então asfixiado.

Caso 2

Maria, 33 anos, estava grávida de gémeos. Teve uma gravidez perfeitamente normal, acompanhada pela Ginecologista Obstetra, que terá sido escolhida por já ter acompanhado outras gravidezes de meninas da família, granjeando assim a confiança desta.

Prematuramente e de forma inadvertida começou a sentir contracções. Ligou à médica que estava de serviço na Maternidade Augusto Ngangula. Já tinha programado ter na Clínica da Endiama, mas dado que nasceram antes da data prevista, foi levada a Maternidade onde estava a médica que a assistiu  em toda a fase pré-natal.

Chegando a Maternidade, entrou sem delongas para a sala de parto que terá corrido bem. O problema apresentou-se no pós-parto: perdeu sangue profusamente, pelo que lhe deveria ter sido administrada uma transfusão sanguínea faseada em duas doses separadas por um intervalo de 6 horas.

Deu-se a primeira dose, mas quando a equipa médica voltou ao quarto, encontraram Maria já morta. Razão? Esqueceram-se (!) de administrar a segunda dose dentro do prazo previsto, tendo deixado passar 10 horas ao invés de 6.

Caso 3

Eliana é menina de berço de ouro, pertencendo a classe mui exclusiva de ricos de Angola.

Escolheu ter o bebé no país para ficar mais próximo do marido e da família. Sendo portadora de VIH, tomou todas as precauções para que não transmitisse a doença ao filho.

Neste tipo de casos, geralmente o parto é provocado e programado, sendo que deveria ser submetida a uma cesariana.

Infelizmente, às 35 semanas a bolsa rebentou e teve um parto normal, transmitindo assim ao seu filho o VIH.

O Parto ocorreu na Clínica da Endiama e os médicos garantiram que nada poderiam fazer uma vez que a bolsa rebentou em casa.

O pós-parto foi tranquilo, sendo que receberam todos os cuidados que poderiam ter na condição de mãe e filho portadores de VIH.

A sua pediatra aconselhou-a a todos os medicamentos necessários para um bebé portador de VIH e a criança foi crescendo de forma saudável.

Aos 8 meses de idade, a criança chorava e diagnosticou-se uma otite. Eliana levou a filha à Clínica Multi-Perfil, hospital mais próximo da sua zona de residência e explica ao médico de plantão a condição do filho.

O médico confirma tratar-se de uma otite , prescreve uma receita e dá uma injecção ao bebé que nunca souberam o que era.

De facto passado 18h a criança acalmou. A mãe deitou-a no berço e 40min depois a criança parou de respirar e morreu.

Tentaram fazer o rastreio da causa da morte prematura e foi de um dos medicamentos que o médico prescreveu que são incompatíveis a crianças ou adultos portadores de VIH.

Caso 4

Relato de uma mãe na primeira pessoa:

“Ontem fui à Cligest (Clinica Vida) por volta das 21:30, porque a minha filha estava constipada e não estava a conseguir respirar muito bem. Então, super aflita, lá corri para a clínica…
Chegando lá, disseram-me que a pediatria fechava às 21:30, então corri para a ver se ainda apanhava a médica…
A minha filha fez a triagem, e quando a enfermeira foi ter com a médica para ver se ainda a podia atender, ela recusou-se porque estava na hora de sair… PODE????? Era uma urgência, a minha filha estava com dificuldades para respirar, e ela diz que não pode atender mais????!!!!!
Mas que médica é essa? Onde está o profissionalismo? Salvar uma vida deve ser mais importante que tudo, certo?? Que juramento é esse que os médicos fazem??
Cada vez mais desmoralizada com a saúde em Angola!!
Graças a Deus, as enfermeiras da mesma clínica foram super prestáveis e encaminharam-nos para a médica de clínica geral que atendeu-nos com eficácia e amabilidade!!! A minha filha está bem!”

Não é por acaso que o JEScaré foge a correr do país para ir tratar de uma “dor de dente”.

Temos recebido várias histórias macabras que envolvem os nossos serviços de saúde. Tens uma? Partilha-a connosco e vamos continuar a denunciar as más práticas que arrastam o nosso país para as mais lastimáveis posições nos rankings mundiais de direitos elementares como é o direito à vida.

Se temos de nos fazer evacuar a cada vez que temos uma dor-de-cabeça, não são só os nossos bolsos que entrarão em greve, serão também os nossos postos de trabalho que ficam comprometidos pois nem todos conseguem isenção laboral de 3 meses por ano para ir arranjar a cornadura, oops, desculpem, a dentadura!

Mario Lunga Ballot Box

Não obstante a comunidade internacional ter vendido alguns elogios ao MPLA para felicita-lo aquando do resultado das últimas eleições em Angola, uma vez mais, as mesmas têm sido lembradas pelas batotas e demais práticas costumeiras como a corrupção ou suborno aos massivos grupos estratégicos, devidamente identificados pelos profissionais de Marketing político orientados para o efeito. Os grupos corrompidos, normalmente atendem pelos líderes religiosos da igreja católica que, representa ainda a religião com maior densidade populacional e por isso mesmo o foco sobre esses, demais igrejas cristãs, pela permissividade exploratória aos fieis no território angolano, igrejas essas que mobilizam multidões de homens e mulheres, ensuma fidelizar servos religiosos pois quase nunca criticam ou analisam a sociedade fora do olhar religioso. Líderes tradicionais, a massa populacional periférica e muito recentemente os estudantes universitários, estando esses também entre as suas presas prediletas, razão pela qual o número de vagas de acesso á universidade Agostinho Neto no último ano, aumentou consideravelmente pouco antes do período eleitoral, com a depreciação significativa da pontuação exigida para a aptidão dos estudantes. Tais vagas são na sua essência, um artifício político para o favorecimento eleitoral desses, pois como sabemos via da regra, as vagas na universidade estatal são partículas atómicas no universo da demanda pelo ensino superior. Fala-se por exemplo, em 200 vagas para 9000 candidatos, comportando em muitas áreas como engenharia, direito ou ciências, 25 vagas para 300 candidatos, estando dentre as 25, já alguns lugares preenchidos pelo tráfico de influência. Ou seja, sem haver antes qualquer preocupação evidente por parte das autoridades, no que concerne a massificação do acesso a educação, atende-se agora sem antecedentes, senão em virtude da campanha, um anseio jovial no que toca suas aspirações na sociedade, a medida em que relacionam de forma fantástica, o nome Agostinho Neto (Imagem de Marketing do partido) ao voto para o MPLA, pois entender-se-á que foi a Universidade do MPLA no nome do seu herói, quem ofereceu a oportunidade de realização profissional. Em muitos casos esses aspectos são relembrados nos discursos, dizendo por exemplo que o MPLA, preocupa-se com a educação da população sobretudo dos jovens. Se nos atentarmos ás rádios e televisões, passará alguma notícia a esse respeito: …A universidade Agostinho Neto, formou X quadros esse ano, ou admitiu Y estudantes. Tudo isso, sem falar dos outros malabarismos como o crédito eleitoral, a doação sazonal dessa época, a reabilitação urbanística fictícia nos centros de grande afluência populacional, as maratonas, bebedeiras e etc.

Em última linha, o período que antecede qualquer campanha eleitoral, é marcado pela fabricação de uma propositada escassez e de uma mesma debilidade, para subsequentemente a quando da véspera eleitoral, apegarem-se á mesma escassez e transformarem-na na realização ilusória do anseio ou de um sonho dos súbditos, com o fim único de converter esses sonhos em votos.

Para os profissionais de Marketing político, em toda parte do mundo seus papeis se limitam a identificar as necessidades e carências do eleitor, entender a sua mentalidade e, dialogar com os mesmos com projectos ou propostas de resolução; Entender quais as demandas sociais emergentes e atentá-las, ou seja, o que é que o povo quer (ouvir) no momento? Emprego? Liberdade de expressão? Igualdade? Fim da corrupção? Melhoria na saúde? Erradicar ou diminuir a violência? Mais educação como vimos acima? Cumprimento da lei? Mais entretenimento? etc. Ensuma, na pior das hipóteses não passa de uma simulação astuta, de um embuste ou  parlapatice, responder ao anseio do povo. Esses profissionais, cuidam também da imagem dos seus representantes bem como do partido interna e externamente, elaboram seus discursos, cuidam da sua retórica, da postura ante os microfones, até dos seus tons de vozes e gestos para subsidiar a oratória. Muitas vezes também, são eles quem na companhia dos relações públicas, gerenciam na imprensa, as crises do partido a quando de algum escândalo político. Por exemplo, quando se tornou pública a apreensão ilegal do menor Nito Alves, foram eles quem ocuparam as rádios, as televisões e os jornais com o silêncio e, quando não mais puderam ficar calados pela repercussão do caso, foram aos meios públicos de comunicação tentar justificar contra-argumentando. Caso não houvesse repercussão, esses profissionais prefeririam silenciar o caso até conduzi-lo ao esquecimento, como sempre fazem ou como apesar da repercussão que também teve, farão agora com Cassule, Kamulingue e Wilbert Ganga ou qualquer outra vítima da situação.

Os profissionais de Marketing político como todo profissional de Marketing, estão sempre antenados com a dinâmica social, acompanhando suas tendências, de forma a alinhar a mesma aos interesses isolados do partido que defendem. Assim, se o povo estiver tendente a valorização da cultura ou da moda, serão esses os aspectos aos quais os mesmos irão se apegar para aplicar a sua jogada de Marketing, podendo por exemplo, abrir escolas de línguas nacionais, promover debates na televisão, ou no caso da moda, promover  o acesso à moda do momento e enfatizar os “eventos” nesse âmbito, tal como aproveitam o apetite alcoólico dos jovens para asfixiar a sociedade com bebidas dessa estirpe. Esses eventos, são normalmente acompanhados por figuras de relevo do partido, inaugurando-o com os cortes de laço, champanhes, etc. ou em patrocínios, utilizados como  pano de fundo da propaganda do partido. Convenhamos que o patrocínio é uma das técnicas sublimares mais eficazes em matéria de promoção de venda e propaganda, visando  apenas memorizar no participante o nome da marca em causa, de forma a não se esquecer ou lembrar-se facilmente da mesma, conhecido em Marketing como Share of mind e, associar essa, a uma causa nobre na óptica do participante. Por essa razão (causa nobre), o conceito de responsabilidade social por exemplo, tem sido fortemente utilizado pelas instituições financeiras. Nessa perspectiva, se toda empresa que preconiza a lucratividade é uma instituição financeira, o MPLA, não é um partido político é sim uma empresa ou se melhor, uma instituição financeira. Observemos sem os vícios da simplicidade analítica que, o partido no poder não tem um carácter inferior à qualquer instituição financeira ou capitalista, ou mais concretamente, é ele próprio no seu âmago uma instituição capitalista. Não passa disso. A pretensão da conquista do poder político para alcançar o enriquecimento ainda que ilícito, é a mais alta confirmação do seu carácter empresarial.

Ainda nos patrocínios, a bandeira do partido e o nome dos seus líderes, são subtilmente ostentados. Esses nomes, são subliminar e inconscientemente memorizados  e reconhecidos pelos ouvintes, sobretudo pelo público alvo do evento, pois são eles quem mais darão importância ao mesmo, como consequentemente serão eles quem no acto eleitoral  lembrarão mais do partido  que atendeu os seus anseios e objectivos.

Falarmos em bandeira Nacional,  não líderes mas líderes históricos, hino Nacional e toda genealogia dessa semiótica, é falarmos no que os profissionais de Marketing chamam de Share of heart. Uma vez mentalizada a marca, a ideia agora é mexer com o coração do eleitor, não é por acaso que o hino Nacional quando entoado tem a função de arrepiar e atribuir ao cidadão o espírito patriótico, o verdadeiro ufanismo, ou por outro lado, não foi por acaso que o MPLA se apropriou das cores e do design da bandeira nacional. É para fundamentalmente, associar a lembrança (mind) da bandeira nacional e o amor (heart) à mesma, ao próprio MPLA. Vale lembrar que, todos os artifícios do Marketing político, acontecerão ainda que nunca  yenham estado presentes nas suas pretensões para com o povo. Tudo visará apenas e unicamente, a conservação nos lugares do dinheiro, partindo de um voto inconsciente e muitas das vezes de um voto corrompido pelo medo.

A partir do que trataremos por Subjectividade discursiva, esses profissionais, grosso modo, são orientados para homogeneizar  o discurso do partido aos olhos e aos ouvidos dos diferentes segmentos em que lançam suas armadilhas. Repare por exemplo no discurso de  Barack  Obama no slogan YES WE CAN. Sim, nós podemos. Nós, negros, podemos chegar ao poder, nós negros norte americanos podemos, nós norte americanos podemos sair da crise, nós democratas podemos mudar a vida do norte americano, nós descendentes de africanos podemos e, outras infinitas interpretações incluem-se aqui. Lula da Silva, com o PT (Partido dos Trabalhadores) propalou: BRASIL UM PAÍS DE TODOS. Aqui a mesma técnica entra em acção, Brasil um país de todos, negros, índios, mestiços e brancos, ricos e pobres, nacionais e estrangeiros (esses sentem-se pertencentes ao lugar), heterossexuais e homossexuais, esses últimos hoje muito importantes numa fase em que buscam a liberdade e igualdade de direitos nesse país, etc.

Na técnica da subjectividade discursiva que, visa homogeneizar e acolher todos ou vários segmentos sociais, o individuo se vê como parte integrante do mesmo e a massa é igualmente seduzida á essa compreensão, pois contempla todos. O nosso DE CABINDA AO CUNENE UM SÓ POVO UMA SÓ NAÇÃO, não foge dessa mesma técnica, mas com honestidade  sabemos que na prática trata-se de uma grande mentira. ANGOLA FAZ ANGOLA FAZ, como é cantado na publicidade do governo de Angola. Mais uma vez usa-se a subjectividade do discurso para ao atribuir-se uma culpa de pertença, acorrentar a diversidade dos públicos a um sentimento homogéneo. É como se todos angolanos se revissem  a fazer Angola crescer,  ainda que diante de tanta opressão,  desemprego, exclusão social, fome, poucas escolas etc. Essa falácia, atribui ao cidadão angolano, uma falsa responsabilidade de contribuição e participação ou culpa nos resultados do país, quando na verdade nem ao orçamento do Estado esse tem acesso ou sequer entende, mal sabe qual a verba disponibilizada para  a sua construção intelectual como cidadão, mal é contemplado pelos resultados dos superavits do país, não sabe o que é um PIB e principalmente desconhece a Lei que os seus semelhantes fizeram no país que Deus lhes ofereceu a vida.

O segundo ponto, assenta no medo com que o eleitor se confronta diante da urna. Na sociedade das ameaças,  do sequestro, dos assassinatos, das perseguições e auscultações com que  fomos habituados a conviver, merecerá á discussão, um cuidado especial para compreendermos até aonde a população se vê ameaçada para exercer a sua cidadania em liberdade e pleno juízo.

Consideremos que um eleitor medroso é um eleitor corrompido, pois acaba agindo como todos aqueles que recebendo um bem, trocam o seu voto pelo valor do bem, mais ou menos como trocar 5000 dólares de um crédito bancário, pelo desvio de milhões inexplicáveis, por um partido ou por meia dúzia de homens e famílias. Ensuma vender o país por 5000 dólares. Para o marketing político e para os financeiros, financiar créditos bancários não passa de um investimento político para garantir os seus roubos infinitamente superiores.

Muitos  eleitores sentem-se assim, em risco diante da urna, tal como se estivessem a ser filmados secretamente e portanto, sendo observado o viés do seu voto, o que poderia justificar uma perseguição por oposição ao partido do poder. Existe agora um clima de tensão, desde olhares, vozes, sigilo e suspense, cercado por homens feios de cara grande que, induz o individuo a crer que o seu voto não é numa realidade secreto, o que nesse país poderá não vir a ser. Alguém está a vê-lo e nessa perspectiva o melhor é votar para quem não lhe oferece perigo ou se melhor, lhe protegera, pois sendo  partido do poder, votar contra a oposição não representará algum perigo. Esse cenário, envolvido por um atemorizante jogo psicológico, visa descartar o lado racional do indivíduo para  faze-lo migrar para o plano emocional, ou vice versa, a ideia  é impelir o individuo ao sentimento do medo. É uma estratégia utilizada pelos maestros da ditadura de todos  países. Portanto, o eleitor não deve ser corrompido pelo medo, deve ser original, corajoso e acima de tudo votar com a consciência de que o seu voto poderá numa milimétrica diferença,  mudar o seu curso assim como do país e, não votar por medo, sobe pena de perpetuar no medo. O voto como se costuma dizer, é a sua arma ou a sua razão contra os políticos. Relembrar nessa ordem de ideias que, o medo que o mesmo cidadão leva às urnas, traz desde já, nos traumas da guerra, da violência civil e sectária que se pratica todos os dias contra os vários opositores ao regime de José Eduardo dos Santos. Dizer, que até o acto do eleitor votar,  sustenta-se a esse, o  mesmo sentimento já patente no quotidiano quando o assunto é política, visando bloqueá-lo mentalmente.

Assim, Batota, Corrupção e Medo, três armas bélicas para a garantia e conservação do MPLA no poder, razão para dizer que  a estratégia política de intimidação, transcende os limites habituais já conhecidos no dia a dia. Ainda assim, o povo responde por dois dos três elementos que atendem e sustentam o falso sufrágio (corrupção e o medo), quais pode combater exercitando a cidadania com as suas liberdades civis.

Por Mário Lunga

Título completo:

Governantes perversos recriam racismo em Angola, enquanto

o silêncio controla a luta pro Descolonização da Lei

Recordar é Viver a servidão

Mario Lunga 02

O fundamento do racismo, é a hierarquização infundada entre as relações multirraciais, tendo como premissa substancial as distorções  socioeconómicas entre elas. Em outros termos, é basicamente uma raça sobrepor economicamente a outra, sem que exista um único fundamento racional para além da coloração da pele dos homens. Isto é, por você ser negro ou mestiço por exemplo, deverá ser subalterno aos brancos na escala onde se concentra o poder, ou como por exemplo figura-se em novelas brasileiras, os negros na condição única de empregados domésticos, motoristas ou criminosos, veiculando nesse último, a ideia estereotipada e racista de que os criminosos  ali, são exclusiva e essencialmente negros e favelados, se justificando para tal, a violência social e a discriminação para com esse grupo específico, conquistando-se assim, a anuência e o voto internacional nas práticas de repúdio aos negros.

Em síntese, o racismo é a determinação da condição económica dos homens a partir da cor da pele, tidas como inferiores ou superiores. É a raça ou se melhor a cor da pele dos homens, o elemento criterioso para se atribuir lugares sociais.

Assim sendo,  a problemática do racismo não repousa na ordem do emocional, onde normalmente o senso comum pretende cuidar o caso como um mero problema  afectivo ou de desafecto entre pessoas de diferentes raças, ou ainda como em alguns países  de gritante racismo, se instiga ou se convida a compreensão do fenómeno, partindo do olhar Marxista que responsabiliza a desigualdade social unicamente á luta de classes económicas , ignorando  o factor  raças nessas sociedades, sendo que nelas, a desigualdade social está atrelada a desigualdade racial. Assim, a condição sine quo non do racismo, é a diminuição ou anulação de direitos e recursos essencialmente económicos,  a um grupo  racial considerado como inferior. Em tese:/ Weederburn Moore / Munanga Kambenguele » Racismo e Sociedade.

Tal como a homossexualidade, a homofobia, o sexismo,  o etnocentrismo, o tribalismo, a igualdade de género, a violência doméstica, o feminismo, a intolerância religiosa, a exploração de menores, etc. que por sua vez consubstanciam-se na mesma discussão da democracia e ou liberdade de expressão e da garantia dos direitos humanos que todos os opositores de Angola buscam, em detrimento da ditadura imposta aos angolanos, normalmente e, por se camuflar sempre a realidade do nosso país, não existe em Angola, a produção de um discurso académico e ou científico que,  discuta também de forma inteligente e aberta, as questões de ordem rácicas, restando para o senso comum sobretudo no exterior, a ideia ingénua e hipócrita de que na nossa terra Angola não existem homossexuais, intolerância religiosa ou no caso concreto, afirmarem que  não existe racismo em Angola, ou ainda  a nível interno ouvir-se  fluentemente que, os negros são os principais racistas do país.

Em todos os casos é apenas mais uma aldrabice dos que ainda preferem raciocinar nesse formato de ideias, perspectivando que  Angola seria talvez melhor segregando-se dos demais grupos que integram e interagem na sociedade.

No entanto, o artigo não pretende argumentar de forma vil e sem nexo quem são os protagonistas ou os mais racistas de Angola, mas provocar alguma reacção contrária a que os  nossos  vaidosos senhores da corte, em função dos seus cegos interesses, têm a nível do convívio profissional e social, determinado e imposto aos angolanos na actual Angola e, de certa forma impulsionar também, a abrangência da discussão ao verdadeiro sentido da democracia (liberdade e igualdade), a medida que não faz sentido algum, ou mesmo chega a ser contraditório os angolanos discutirem liberdade de expressão/direitos humanos, quando aparte à oposição ao MPLA, conservam por outro lado, a opressão e a intolerância com os demais grupos existentes em todas as sociedades efectivamente democráticas, cabendo-nos questionar, se estamos de facto dispostos a mergulhar para a materialização da democracia plena ou se apenas utilizamos a palavra, clamando por ela quando canonizados à política parlamentar, aos partidos políticos, a gestão pública dos recursos, a corrupção e etc., enfim, até onde for a nossa área de interesse e de conforto dialéctico  e social, o que de certa forma patenteia a preocupação e o clamor à democracia, à transparência ou à liberdade, quando nos referimos essencialmente à equitatividade da riqueza ou bens de natureza económica( o núcleo de todos os  problemas, inclusive do racismo que discutimos agora) , razão pela qual, a discussão da melhor distribuição do bem público ou a luta contra a corrupção, são alguns dos pontos sonantes na temática da democracia que se busca em Angola. Apenas para repensarmos.

Os historiadores afirmam, que um povo que não conhece a sua história, está preparado para reviver todo seu passado, por mais cruel que ele seja. É com essa abordagem que  à partida, nos convidamos a observar sem minúcia, pela própria transparência dos factos, o dia a dia do país(Luanda), no que toca a relação poder/cor da pele, (ignoremos raça). Para tal, a pergunta de ordem é Onde está concentrado o poder em Angola? Como sabemos, o poder está claramente concentrado numa única família negra que com a sua anuência, redistribui a toda casta da sua intimidade criminosa, nomeadamente compadres políticos, capangas e agora as magnificas cooperações estratégicas (que pouco têm a haver com a pretensão viciada dos seus crimes), os mesmos haveres, sendo essa última o foco e a razão do presente artigo.

A título de exemplo, é comum ouvirmos de estrangeiros residentes em Angola que, os governantes/empresários angolanos não gostam de trabalhar com os angolanos porque os vêem como burros e incapacitados, mesmo sem se analisar na matriz, a qualidade do investimento que se faz ao homem angolano. É ainda comum vermos os mesmos estrangeiros serem atraídos para Angola com propostas de enriquecimento, bem como é comum vermos e ouvirmos reclamações de funcionários nacionais, enquanto vítimas de discriminação racial por parte de angolanos mestiços ou brancos, bem como principalmente de estrangeiros brancos, comportando na maior parte dos casos, cidadãos de nacionalidade portuguesa. Vale dizer que, nessa terra é também gritante a forma como muitos negros com alguma predisposição rancorosa, violentam verbalmente os mestiços ou brancos sem razão de ser, na mesma proporção ou talvez maior que, vemos aqueles que vivem nos arredores baldios do complexo de inferioridade racial só por serem negros.

A observação assenta nos Outsourcings ou nos contratos de modo geral, estabelecidos entre Angola  e governos de certos países sobretudo europeus que, para além de trazerem para o país a mão de obra qualificada que é necessária ainda, trazem consigo também, o preconceito mais qualificado ainda para discriminarem  racialmente os autóctone de Angola, muitas vezes convidados e autorizados directa ou  indirectamente por angolanos a agirem como apresentado.Esse factor, juntamente a condição de poder e de admiração por parte dos angolanos que encontram apenas em Angola, seja no sector privado como no público, atendem as condições necessárias para oxigenar a procriação e a sustentação do racismo no país. Isto é,  a conjugação de poder e a questão racial conflituosa que é marginalizada. Assim, os nossos senhores do governo, não estando ignorantes da situação, apenas silenciam ou normalizam-na ante esse quadro desestabilizador, razão pela qual não sendo ignorância, só se pode entender como perversidade, para além de estarem vendidos culturalmente com as ilusões de civilizacionismo.

É mais ou menos como se estivessem  de camarote a recordar aos jovens de hoje, a servidão que viveram na época Salazariana, sendo eles dessa vez, a conferirem com autonomia, o poder aos estrangeiros para  também recordarem seus ancestrais em Angola, subalternizando de forma racista o povo, o que faz com que voltemos a questionar-nos: Onde anda a nossa constituição, se até os dias de hoje,  por incrível que pareça,  existem em Angola tratamentos diferenciados  a nível  da cor da pele em certos  estabelecimentos  e lugares sociais?

Na ocasião de se tratar de uma sociedade educada para a mudez, surdez e o olhar silencioso , todo o horror é naturalizado e assimilado como parte de nós.  Sim, é pois essa a grande questão, pois o facto de não tratar-se de uma constituição ou de uma Lei angolana, mas uma cábula, vergonhosa réplica da constituição portuguesa, onde não se prevê a discriminação racial como crime inafiançável por exemplo, ou que acarreta  ao arguido, um dano significativo e talvez irreversível, o nosso dia a dia continua a ser regido e agredido com esse tipo de conduta abusiva,  atrasada e desrespeitosa para a humanidade, tal como se estivéssemos em países mais organizados, onde porém, discriminar a raça outra não é crime.

Com isso, queremos dizer, que há uma urgente necessidade de descolonizar-se radicalmente a Lei vigente, sobe pena de perenemente não prevermos na mesma, circunstâncias concretas da nossa cultura e sociedade e permitirmos assim que, o cidadão comum seja desrespeitado na própria casa, diminuído a luz do silenciamento dos que detendo o poder, não vivendo as mesmas agruras, abandalham o caso.

Por Mário Lunga