Em Angola não há um género musical na atualidade que faça mais honra à memória da música angolana de intervenção social dos anos 60/70 do que o hip hop. Se outrora se musicava a angolanidade que ia do folclore à condição social de colonizado, hoje em dia, alguns
rappers mantêm-se fiéis a esse espírito, e o que perdem pelo parco uso das línguas nacionais, compensam no facto de chamar os bois pelos nomes abdicando de metáforas para identificar o neo-colono que agravou ainda mais a condição social do “libertado”.

Desta vez escolhemos um tema de mixtape de um grupo do Sumbe, Kwanza-Sul, chamado Jaula, composto por 3 MC’s. O tema intitula-se pertinentemente “Viva a Revolução” e começa com um excerto do infâme discurso de abertura da reunião do CC do MPLA proferido pelo seu patrono JES e segue com um refrão poderoso:

“Zéduardo se retira, leva toda tua família.

Ditadores, vão-se embora, essa terra não é vossa.

Liberdade para todos, mais respeito com o meu povo”

Boa escuta.

“A oposição…”

Posted: August 21, 2013 in Argumentos, Direitos, Opinião

É muito comum ouvir estas duas palavras em Luanda. “A oposição…” A oposição isto ou aquilo. A oposição não faz. A oposição é muda. A oposição não actua. E por aí em diante. Até Bento Kangamba, cujos “operativos” foram apanhados em flagrante com caixas de dinheiro não se sabe bem de onde , quis atribuir culpas à oposição.

CHEGA.

Temos o conceito errado de “oposição”. Depositamos nela todas as esperanças, esquecendo que o termo “oposição”, quando usado para descrever uma (ou várias) formação politica, é passageiro e não permanente. Hoje o PRS, a CASA e a UNITA são oposição mas amanhã pode ser o próprio MPLA.

Atribuímos a oposição muitas responsabilidades. Atribuímos a ela todas as nossas frustrações e expectativas, fruto de vivermos num país com as nossas ‘particularidades’. Num país como o nosso, em que o partido no poder tem um controlo ‘Orwelliano’ sobre todas as esferas das nossas vidas, um partido que controla todo o aparelho da comunicação social e o usa para fazer propaganda aberta, a oposição de hoje tem muito pouco espaço para manobra. Não pode actuar como deve ser. Não pode ter a devida expressão.

Que oposição podemos ter, se o próprio partido no poder, nas vestes do seu presidente parlamentar, proibiu a oposição de fiscalizar os actos do executivo?!

Que oposição podemos ter, se recentemente governo provincial do Uíge proibiu alguns deputados de uma das forças parlamentares de exercer a sua actividade de fiscalização?

Portanto, cabe a nós, cidadãos, sermos a “oposição”.

Cabe a nós fiscalizar os actos do executivo. Cabe a nós criticar. Cabe a nós buscar soluções e consensos. Cabe a nós sermos realmente cidadãos participativos.

Um país constrói-se com a participação activa de todos. Chega de chamar pela INADEC – já vimos que eles não fazem nada. Chega de clamar pela oposição – já vimos que muitos deles estão mais interessados no cargo e no BMW que receberão do Estado, pago por nós. Chega de dizer “isto é Angola”.

Temos que começar a denunciar, a exigir, a participar, a trabalhar e a construir.

Sejamos cidadãos.

-Cláudio C. Silva

“Don’t tell me what I can and can’t do…I can change the world…if I don’t say something then nothing will be said, if I don’t do something then nothing will be done” cantaram Just a Band, do Quénia.

http://www.youtube.com/watch?v=43XrFVp-fXY

Muitas vez sou interpelado tanto por familiares como amigos sobre o porquê que nós os jovens contestatários do status quo angolano não formamos o nosso próprio partido.

“Só sabem reclamar, porquê que não formam partido e concorram às próximas eleições? Organizem-se!”

É comum ouvir este apelo.  Num continente com a nossa história, onde o partido sempre teve um papel importantíssimo no tecido social de cada país, esta ideia tem os seus méritos. Foram as organizações partidárias que ajudaram-nos nas lutas pela independência e foram estes grandes movimentos de massas que tentaram depois construir estas recém-nascidas nações.

Reza a história que infelizmente, e em muitos casos, incluindo o nosso, os partidos ficaram mais interessados na manutenção do poder do que na construção de uma nação. Começou-se a confundir o partido e o estado. No nosso caso, tal distinção é quase impossível. Os partidos tornaram-se hegemónicos e passaram a controlar todas as facetas da vida politica, económica, financeira e até mesmo social.

Como resultado, todas as outras forças da chamada sociedade civil em Angola perderam influência e relevância, revelando hoje uma fraqueza incomum em países democráticos. Na sua maioria, não têm expressão e lhes é vetado o acesso aos órgãos de comunicação social estatal.

Os partidos, por sua vez, já não correspondem às expectativas de todos os cidadãos. Salvo algumas notáveis excepções, os seus integrantes parecem mais interessados em manter as suas carreiras como ‘políticos’ em vez de servidores públicos. O caminho para a aquisição de bens materiais e estabilidade financeira e familiar passa pela politica; exercer politica torna-se uma carreira e os ditos servidores públicos vêm aquilo como uma profissão.

Recentemente um conhecido politico de uma das formações parlamentares da actual oposição afirmou o seguinte, quando confrontado sobre o porquê que deputados têm de andar com BMWs ou Jaguares: “Queriam que um deputado andasse à pé?”, como se as suas únicas opções fossem andar à pé ou de BMW. Esta simples resposta espelha bem a desconexão entre aqueles que foram eleitos para defenderem os interesses do povo, a maioria do qual anda à pé e/ou de candongueiros, e os que sentam-se todos os dias na Assembleia Nacional a fazer não se sabe bem o quê.

Um reflexo de tal atitude é a falta de políticos com ideologias próprias. Tornou-se comum assistirmos políticos a abandonarem partidos após décadas de militância e aparecerem na televisão a falar mal dos mesmos, sempre com a devida projecção massiva nos órgãos de informação estatal.

No partido no poder, os cargos que se dão já não correspondem ao nível de sabedoria do ‘encarregado’.  São muito mais importantes os “corredores” e interesses ocultos. Nota-se, em todas as esferas, uma gritante falta de investimento no homem, e nota-se a prevalência da intriga, onde a prioridade é manutenção do cargo a todo custo. A máquina partidária tornou-se muito grande para o seu próprio bem.

Daí a necessidade de resgatar uma sociedade civil forte. Movimentos realmente espontâneos. Ideias novas, uma forma de pensar diferente. Acções que realmente fazem estremecer o status quo e que façam as pessoas pararem para pensar e reflectir. Acções que mexam com um ‘sistema’ no seu todo.

Sinto que as manifestações e outras formas do exercício da cidadania activa são um exemplo disso no nosso contexto, onde impera a cultura do ‘sim chefe’ e da obediência cega. Se antes os povos de certas áreas de Luanda não ofereciam muita resistência às demolições desumanas dos seus bairros, hoje o povo do Margoso já soube organizar-se e manifestar-se, exercendo assim a sua cidadania. Este tipo de atitude teve um começo.

Não é à toa que vemos o partido no poder em parampas sempre que um grupo de jovens munidos só com cartazes tentam realizar uma manifestação pacífica. Esta reacção ocorre exactamente porque a organização juvenil não era propriamente um partido, não tem propriamente um líder para se corromper, é imprevisível, espontânea e diferente.

Os movimentos juvenis nunca terão a mesma força que uma UNITA ou um MPLA no que toca a mobilização (ou coerção/corrupção?) das camadas mais desfavorecidas e não só ou no que toca a sua força organizacional. Seria ingénuo tentar competir com estes grandes e não é este o necessariamente o nosso trabalho. Como jovens que somos, porque não mudar os moldes da competição em si? Porque não mudar as regras do jogo em vez de enveredar pelo mesmo caminho? Porque não mudar o jogo?

O nosso trabalho deve ser despertar as consciências daqueles que ainda estão mergulhados no sono da ditadura e da quase democracia. O nosso trabalho deve ser suscitar o debate, fazer uso dos nossos direitos, e contribuir para fortalecer a sociedade civil. O nosso trabalho deve ser feito na rua, nos lares, olhos nos olhos de irmão para irmão, e não em salas fechadas em conversas sobre estatutos partidários, lista de deputados e que tipo de carro usar na próxima legislatura.

Se queremos ser os líderes de amanhã, temos que começar por ser o factor da mudança HOJE. E para isso não precisamos de partidos; precisamos de nós mesmos e da vontade da mudança.

-Cláudio C. Silva

Há praticamente um ano, decidimos que iríamos pôr em DVD algum do material que fomos reunindo desde 2011 para contrapor a versão unilateral do regime (reproduzida abusivamente aos órgãos de comunicação públicos e “privados”), material esse que se tem mantido exclusivamente no ciber-espaço, para olhos privilegiados com capacidade para suportar os onerosos serviços de internet na nossa Angola.

De há uns meses para cá demos os primeiros passos, distribuindo aproximadamente 200 cópias pelo Sul de Angola (Huíla, Namibe e Benguela), um trabalho de distribuição abenegado do mano Manuel das Mangas que tem feito questão de documentá-lo no seu facebook.

Para Luanda tinhámos planeado uma atividade de distribuição flash que no passado dia 7 de Agosto finalmente levámos à cabo, distribuindo precisamente 300 DVDs por algumas artérias movimentadas da cidade.

O vídeo que agora vos disponibilizamos, foi editado e montado pelo mano Nelson Dibango, e é uma ilustração de como se procedeu a essa distribuição, não tendo havido nenhuma obstrução à nossa atividade por parte da polícia do MPLA, pelo que correu tudo pacificamente e sem alaridos.



Para os cibernautas, não há grandes surpresas pois 99% do conteúdo pode ser encontrado no nosso canal de Youtube carregando nos links fornecidos abaixo da imagem da capa.

DVD CAPA

01 – Historial das Manifestações

02 – Documentário Al Jazeera

03 – Show Bob/Ikonoklasta 32 é Muito

TEMA: 3 DE SETEMBRO 2011

04 – Últimas Palavras dos Manifestantes (esta versão foi editada e encurtada para menos de 5 minutos. A versão do DVD não existe no Youtube)

05 – Espancamento dos Manifestantes

06 – Alexandre Neto (SIC Notícias) (Não existe no Youtube)

07 – Show Ikonoklasta na Tuga

08 – Angola Acordou

TEMA: 3 DE DEZEMBRO 2011

09 – Início da Marcha no Cazenga

10 – Godzila, o Agressor de Manifestantes

11 – Atrocidades do Regime MPLA

TEMA: CASO ELEIÇÕES 2012

12 – Borrando as Paredes da Embaixada de Angola em Lisboa

13 – Mário e Kembamba Torturados

14 – 10 de Março: Contra Suzana Inglês

TEMA: VOZES SILENCIADAS

15 – 22 de Dezembro: Kamulingue e Kassule

PORQUÊ ÁFRICA?

Porquê que África ainda é pobre e subdesenvolvida? Porquê que ainda sofre com problemas que já conhecem solução há mais de um século? Porquê que as ditaduras Africanas são sagradas? Porquê que eleições em África ainda são uma guerra? Porquê que os políticos são corruptos e a grande maioria dos de África corrompidos? Porquê que as instituições africanas em grande medida são frágeis, inexistentes e fracas? Enfim, porquê que embora descolonizada, a África tende a regredir ao invés de progredir?

africasomalia

Estive em Abril numa conferência em Banjul, Gâmbia. Era a 53ª Sessão da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. Foi a primeira vez que tomei parte numa sessão dessas. Durante a conferência, muitas reflexões sobre a África, as instituições e os países africanos me correram a cabeça. Reconheça-se que a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos é uma instituição ou organismo muito valioso, num continente onde alguns líderes defendem que “direitos humanos não enchem a barriga”.

Quando voltei para casa, a minha reflexão aprofundou-se ainda mais. Era a 53ª Sessão, a primeira aconteceu há 26 anos (foi em 1987 na Etiópia). A 53ª acontecia no país-sede da Comissão. Uma das questões que me ocorreram foi, o que essas sessões já produziram em termos de seu objeto social para África ou para um país específico? Se muito já se produziu, ótimo. Se pouco ou nada, porquê?

Comecei a ler sobre a União Africana, PALOP, SADC, CEDAO, CPLP e outras instituições e organismos africanos. Quando eu olho para essas organizações lembro-me que são todas um “unir de forças” para mudar o paradigma de África, ou dos respectivos países membros. No entanto, o que noto acontecer é inversamente contrário àquilo que me parece ser o objetivo principal dessas unidades e coligação de forças (sempre admitindo a minha cota e direito de estar errado). Noto que cada país membro continua sendo o que sempre foi. Os países membros da UA continuam em grande parte nas mesmas dificuldades que o pós-colonialismo os deixou. Outros, até para demover seus longevos ditadores tiveram que contar com intervenções da NATO sob o olhar sagradamente impávido da UA. A OUA foi criada há 50 anos (1963) e metamorfoseada para UA em 2002, há 11 anos.

Os países membros da SADC continuam sendo o que sempre foram pese embora a unificação: se pobres continuam na sua pobreza, se desenvolvidos ou em vias, continuam nessa senda sem contagiarem ou animarem os outros países membros a isso; se com ditadores, continuam com os seus ditadores, ou pelo menos demovidos por forças externas ou talvez não. A SADC foi criada há 21 anos (1992).

Os países membros da CPLP: os desenvolvidos continuam desenvolvidos sem influenciarem os não desenvolvidos e os não desenvolvidos continuam a sua sorte. Os PALOPs idem, os da CDEAO não são diferentes. A CPLP existe há 17 anos. Os PALOPs há 34 anos (1979). A CDEAO existe há 38 anos (1975).

Fazendo uma média aritmética, ou seja, somando o tempo de existência de cada uma das organizações e dividindo pelo número de organizações, chegamos a média de 32 anos por organização, ou seja, em média cada organização existe e luta a 32 anos para mudar o paradigma da África. A questão é: Quanto já se conseguiu mudar? PORQUÊ? Porquê que as coisas aparentam ou estão na mesma? Em todas as vertentes: Social, Política, Economia, Direitos Humanos, Pobreza, Fome, Pandemias, Conflitos, Instabilidade, etc?

ENCARAR E DEBATER OS PROBLEMAS TAL COMO SÃO

Noé Nhantumbo, escritor moçambicano, na sua obra Renascença Africa – Sonho ou Realidade diz o seguinte: “Acreditamos que um dos principais problemas que temos no continente é a incapacidade de encararmos as nossas questões de frente e falarmos delas abertamente. Há como que um receio coletivo de admitir que nós próprios podemos ser a razão de ser dos problemas. Os nossos líderes e governos são rápidos em acusar o passado colonial e a oposição política de seus países por todo e qualquer problema que apareça.” Acho que a maioria dos leitores deve estar lembrada do discurso de 15 de Abril de 2011 do camarada clarividente presidente dos Santos, ou do quanto a UNITA, o Bloco Democrático e outras forças da oposição foram e têm sido acusadas, uns de saudosistas da guerra, outros de estarem a apoiar a arruaça, uns ainda de desestabilizadores que querem a guerra, contra a paz que nos custou muito a conquistar!

Os nossos problemas têm sempre um culpado e este culpado nunca somos nós mesmos. Os outros estão sempre errados, e, quando cometem um erro, até as salamandras devem saber que os nossos inimigos cometeram um erro, mesmo que as informações sejam caluniosas ou difamatórias. E nós? Nós nunca estamos errados. E, quando eventualmente os cometermos, abafá-los-emos. Canta-se o patriotismo, a responsabilização social que cada um de nós como ser social carrega, mas é a pátria a que mais se sacrifica, é a sociedade a que menos se liga importância. É na ação prática onde vemos que estas palavras não passam de cadáveres.

Por que as políticas públicas dos nossos países são ineficazes? Por que os planos de desenvolvimento desenvolvem mais problemas? Por que há sempre os que querem impedir a execução da benevolência do estado? Por que só discutir o fatiar do bolo (OGE) e não solicitar se saciou a fome?

Martin Luther King disse: “Injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça de todos os lugares.” Lembrem-se, líderes, que quando não se sabe por que se governa, governa-se o que se quer. Mas quando se sabe por que se governa, governamo-nos com o que se quer.

CEGUEIRA IDEOLÓGICA E POLÍTICA

O colonizador quando esteve em África, entendeu que a maneira de tornar a colonização mais eficiente era fazer com que o colonizado precisasse da colonização. Não é de admirar que só depois de séculos de colonização é que a consciência africana começou a despertar-se para a descolonização. Era forçado ao colonizado negar a sua identidade e aceitar os valores que lhe eram impingidos. Ao fim ao cabo, não sabia quem exatamente ele era.

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Hoje, muitos líderes africanos sofrem da crise ideológica. Não sabem o que são, de onde vieram, só sabem talvez onde não querem ir – fora do poder! A sua desorientação ideológica é impingida aos súditos através do recurso ao terror e intimidações, forçando os súditos a vê-los como a única solução para os seus problemas. Os nossos líderes não são originais em grande parte e o seu apetite espoliativo, insaciável. São bons papagaios vários deles, imitam seletivamente o que lhes apraz e algumas vezes, aquilo a que se vêem obrigados a imitar. Olhem por exemplo, quão bem endossadas são algumas constituições e leis ordinárias africanas e a distância que as separa da vontade política de as aplicar como elas são, especialmente se tal aplicação significar um puxão de orelha ao líder! Analise quão difícil e quiçá, impossível é para esses líderes praticar o jogo democrático!

Porquê que a corrupção está institucionalizada em muitos países? Porquê que há muito protecionismo e impunidade? Porquê que as leis não têm a mesma força que lhes endossa o papel? “Quando o poder legislativo se transforma num clube de membros, primordialmente preocupados em melhorar o nível das suas regalias, tudo isto acontecendo sob a vista de um executivo comerciante, estão inegavelmente montados os instrumentos mais eficazes para perpetuar o atual panorama nos nossos países.” Diz Noé Nhantumbo na mesma obra.

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 FUGA AO SONHO AFRICANO

África foi traída pelos seus próprios filhos e seu sonho continua adiado. Durante todos esses anos, produziu líderes cegos, mas cegos pela própria vontade, castrados pelo descontrolado ego e pela falta de vontade de assumir sua cota parte na desgraça do continente de uma forma geral, e a de seus países de uma forma particular. Pela sua falta de vontade e determinação de construírem uma África melhor; Pela sua insensatez que os transformou em simples repetidores de palavras vagas em discursos imitado; Pela sua curta visão que até hoje não lhes ensinou o básico que governar não é governar-se, é moldar-se à vontade de quem confiança nos depositou para lhe suprir algumas expectativas! Pela pandemia de considerarem seus países – celeiros e seus concidadãos, meros ceifeiros.

Diz o velho adágio que na terra de cegos, Camões é rei. A pura verdade é que na terra de reis cegos, o povo é cativo. Líderes cegos e vazios são autoritários, opressivos e intimidatórios. A única forma de colher subserviência é pelo uso da força e da intimidação, este recurso aprisiona o povo até que apareça de dentro do povo um camões. Contrariamente ao adágio anterior, ser Camões na terra de reis cegos não é ganhar majestade. Ser camões em terra de reis cegos é tempestade, isso se ainda se lhe permitir sentir a tempestade.

O nosso continente foi sempre de abundância. O colono foi nosso guia, mas depois virou nosso inimigo, no entanto, hoje, é nosso ídolo. Mas em grande parte é idolatrado pelo que ele foi no passado e não pelo que aprendeu a ser hoje. O que mais corre na mente do líder é quanto pode tirar para si e para os seus, pois o futuro é sempre incerto. Competência e dever pátrio estão longe da prioridade, em muitos casos. Servir ou servir-se, a última é a fórmula aplicada e a primeira amiúde é a que vive nos discursos.

 

Mbanza Hamza

Neste capítulo JES volta a exibir toda a sua descoordenação de oratória contradizendo-se quanto a factos e números que devia dominar até a dormir, enunciando o “enorme esforço na formação de pessoal qualificado” como a maior das realizações do seu governo apenas para dizer a seguir que todos os estrangeiros que venham “ajudar” o país “são bem-vindos, pois, como sabe, aqui há uma grande falta de pessoal qualificado”.

Fala ainda da missão dos chineses em Angola, da sua definição pessoal de “pobreza”, da sua própria sucessão e do que pretende fazer no além (depois de abandonar a presidência).

Finalmente, assume perante todos que no fundo, ele não é homem da política, mas antes um desportista que veio por empréstimo.

Quem lhe emprestou deve-se ter esquecido dele, porque ficou emprestado 34 anos a apodrecer lentamente, estando agora a gangrenar e a feder.

Fique por Barcelona que não deixará saudades!

Nfuka

Ponto prévio: não sou, nunca fui e não espero vir a ser da UNITA. Entretanto o que acontece ao Nfuka e à outros angolanos, enquanto concidadãos, dizem-nos respeito a todos, daí muito boa gente crítica ao poder vierem à terreiro em defesa de Garcia Miala e mais recentemente Quim Ribeiro, quando entenderam estarem a ser injustiçados.

Nos idos anos de 2002/3, se a memória não me atraiçoa, altura que o conheci, certamente, salvo quem tivesse tido contacto com suas ideias, quase ninguém dava por ele, tal era o aspecto franzino, modesto denunciando sua condição social humilde. Na altura morador do Palanca e estudante do conhecido “PUNIV CENTRAL”, Nfuka Fuaka Muzemba e um conjunto de outros jovens já faziam importantes reflexões sobre a Angola de então, a guerra que, já terminada, tinha deixado feridas profundas que careciam de cicatrização, da necessidade de acordos de paz que vingassem, a construção de um Estado bom para se ser jovem. Eram ávidos e assíduos ouvintes dos noticiários e acesos debates emitidos pela Rádio Ecclesia e Voz da América, frequentadores das Conferências que eram organizadas Por Organizações da Sociedade Civil e tinham contactos estreitos com políticos e activistas cívicos que se destacavam pela exposição de suas ideias e a maneira como se batiam pelas mudanças que se impunham, ainda eram ávidos leitores dos jornais privados e alguns livros que tomavam emprestados. Foi naquele ambiente que se idealizou o MOVIMENTO DE ESTUDANTES ANGOLANOS – MEA, como um meio de luta pelos direitos dos estudantes e não só. Nfuka já tinha ideias bem avançadas e concretas sobre os combates e as consequências inerentes a tal “atrevimento”. Sinceramente, não sei por onde andavam nem o que faziam os seus actuais detractores da JURA.

O MEA teve como grande marca, a exigência ao governo, da instituição do passe social para os estudantes, que permitiria a esta franja da sociedade viajar sem custos, ou com custos subvencionados, nos autocarros de transportes públicos (caso a proposta fosse implementada); facto que viria servir de mote para o surgimento das primeiras manifestações organizadas por estudantes não universitários, de que tenho memória. Nfuka, o principal ideólogo da organização e pares, andavam de escola em escola, na periferia de Luanda, a fim de darem a conhecer o MEA e mobilizar jovens para a causa. Na periferia, não raramente, contactavam amigos, amigos e conhecidos dos amigos, apesar dos riscos inerentes, a julgar pelo ambiente político de então.

Eram dos momentos, que reputo de mais difíceis e arriscados, desde que acompanho o país social e político, só comparável, talvez, ao contexto em que surgiu o movimento 7311. Daí os jovens do MEA terem apanhado bastantes porretes, experimentado cadeias e outras sevícias, por parte das autoridades policiais angolanas.

O jovem do momento, destacou-se igualmente na Universidade Agostinho Neto, como estudante que protagonizava acesos debates dentro e fora das aulas, candidato ao cargo de Presidente da Associação dos Estudantes da Faculdade de Direito, e teve participação activa como membro da Associação da Universidade Agostinho Neto, a primeira e única a organizar uma grande manifestação verdadeiramente de estudantes universitários.

A trajectória, resumida neste texto, do Nfuka valeu-lhe convites para ir à Conferências internacionais na Europa e em África, isto nos anos 2003 ao 2005/6. Portanto, produto de lutas cívicas e estudantis granjeou protagonismo, espaço e muita estima no seio de instituições internacionais, da juventude angolana e não só.

De lá para cá Nfuka Muzemba nunca mais se inibiu de fazer a luta que acredita ser por um Estado Democrático e de Direito.

Naquelas circunstâncias socialmente difíceis, pois as condições eram mesmo precárias, já se falavam em aliciamentos, compras e vendas de consciências, talvez mais do que acontece hoje. Viu-se muitos mudarem da água para o vinho estranhamente, dizia-se terem sucumbido ao tilintar do “vil metal”. Facto ou não, é óbvio que não posso provar. Sei apenas que o Nfuka não sucumbiu, apesar das pressões – até mesmo por parte de professores na universidade, que chegaram a fazer desaparecer suas notas, etc. – pelo contrário, foi sendo cada vez mais interventivo, tendo mesmo feito pronunciamentos e protagonizado factos que incomodaram certos sectores do partido no poder em Angola.

 

  1. 1.    A entrada na política

Desejo de conferir outra dimensão à sua luta e convicto que pela via da real politik, daria um contributo maior para “aprofundamento da democracia” e realização social dos angolanos e de Angola, cedeu aos assédios do partido UNITA, pois acreditava ser esta a única força capaz de provocar mudanças no país.

Como é evidente a UNITA não o recrutou pelos seus lindos olhos, mas sim por todo seu capital simbólico acumulado, conquistado à custa de muitos combates e de não pouca pancada. Importa referir que o Nfuka fez tal opção contra a de todos os outros amigos; num conjunto de mais de dez amigos, foi o único a fazê-lo, e passou a levar o Galo Negro ao peito com tudo e contra toda a adversidade. Vimo-lo envolvido até ao pescoço na campanha eleitoral 2008, mesmo sabendo que só um milagre o colocaria no parlamento, tal era a distância em que se encontrava na lista de deputados, não se coibiu de usar até mesmo a sua viatura e outros meios pessoais, a fim de chegar aos bairros de Luanda à “caça” de votos.

Em 2010 foi eleito Secretário-geral do braço juvenil do Galo Negro, em Congresso. Também não foi por acaso que tal feito se concretizou. Foi também porque não havia ninguém na JURA capaz de dar sequência ao que Adalberto Catchiungo, Albano Pedro e outros tinham começado. A eleição de um jovem mukongo foi importante igualmente para se desconstruir a ideia da UNITA tribalista, funcionou como um inusitado piscar de olhos à juventude interventiva, serviu para a consolidação da edificação de uma organização modernizada e inclusiva, ou pelo menos vender esta imagem. A trajectória do novo SG claramente “arrastou” muita juventude para a JURA em particular e a UNITA em geral, que passaram a ter uma melhor imagem externa e a incomodar mais ao adversário mor. Por essas e outras a eleição de Nfuka Fuakaka Muzemba à deputado foi por mérito próprio.

Aqui chegado, foi com tremenda estranheza, que tomamos conhecimento da irregular/anormal suspensão a mando do SG da UNITA, Sr.º Vitorino Nhany (embora este e depois o Presidente do partido tivessem desmentido).

Segundo o Comunicado Final do Comité Permanente da UNITA, de 26.07 último, a Comissão de Inquérito constituída para averiguar as acusações de que é alvo o SG da JURA, obtiveram provas que configuram factos puníveis pela Lei Penal da República de Angola. Nfuka Muzemba é acusado de utilização abusiva e fraudulenta do timbre e carimbo de um órgão da UNITA junto da Embaixada de Portugal em Angola para obtenção de vistos de entrada naquele país do velho continente, para cidadãos estranhos à UNITA, em troca de dinheiros, ter compromissos inconfessos com o empresário Bento Kangamba dos Santos e seu elenco, nomeadamente o director de gabinete deste e o senhor Gabriel Veloso, assessor de imprensa do empresário. Suborno, falsas declarações, abuso de poder e corrupção activa e passiva.

Aquí é que “a porca torce o rabo”! Pois senão vejamos: pelo percurso, resumido é claro, que traçamos deste jovem, não seria muito mais fácil ter cedido às eventuais pressões para “conversão” ou “heresia” (?), quando mesmo já sendo SG da JURA, não tinha uma salinha sequer, orçamento nem subsídio para fazer o seu trabalho? E mais, nesta altura, de 2010 à meados de 2012, o também membro do Comité Permanente da Comissão Política da UNITA andava a contar os passos (à pé), ainda assim sofreu calado, intransigente e sorridente, como se fosse o militante mais feliz do partido, quadro alterado apenas nas vésperas das últimas eleições, com a concessão de uma sede à JURA e uma viatura ao seu SG, podendo deste modo trabalhar com certa dignidade. Com a eleição à deputado melhorou sobremaneira a sua condição social.

Aqui chegado, julgo não fazer muito sentido, alguém que “resistiu” nos piores momentos, só agora se tornará corrupto “activo e passivo”, vendedor de vistos e manterá relações com quem quer que seja para “inviabilizar actos” do seu próprio partido, que reconheça-se, levou-lhe ao status actual!

Por outro lado, o discurso tido como radical do Nfuka não mudou em momento nenhum. Não tenho assistido aos debates parlamentares, mas chegaram-me informações segundo as quais no Parlamento o SG da JURA não é dos que “entra calado e sai mudo”, contrariamente à maioria dos seus colegas de bancada, muitos dos quais “dormem onde deviam estar acordados e acordam onde deviam dormir”; e fora da casa das leis o seu discurso tem sido o que temos ouvido, o que, também ouvimos, já mereceu chamadas de atenção internamente, no sentido de moderar.

Mais um dado: fonte partidária disse-nos, que depois das eleições até ao momento da sua suspensão, nunca mais recebeu orçamento partidário ou qualquer subsídio para a realização de actividades, tendo passado a custear algumas com dinheiro próprio. Porque será? Terá havido intenção da parte de alguém da Direcção do partido, em boicotar o seu mandato e causar-lhe a imagem de incompetente? A ser verdade, será inocente tal atitude?

O passado talvez traga outra luz sobre este momento menos bom do partido amado pelo nosso deputado Muzemba. Segundo fonte conhecedora dos meandros da JURA institucionalizada, o actual SG será a segunda “vítima” de semelhante tratamento. O 1º terá sido o Adalberto Catchiungo, por muitos considerado o fundador da JURA moderna, pois diz-se que terá sido no seu mandato que que o braço juvenil do Galo Negro evoluiu para uma instituição com estatutos, regulamentos, autonomia administrativa e outros condimentos.

As fontes que vimos citando, dizem que Catchiungo assemelha-se ao Nfuka, pela intrepidez e outras qualidades, e ainda pelo cometimento do que alguém apodou de “pecado capital”, ou seja, não terem “sabido escolher” o lugar de nascença e no caso do primeiro, também a tez da pele. Adalberto é do Huambo e não “black”, e Nfuka oriundo do Uíge (por sinal nasceu em Luanda e já não se lembrará da data que cá chegou, pois cresceu e se fez homem na cidade capital).

Algumas pessoas lembrar-se-ão de terem ouvido o kota Jorge Valentim, nas vésperas de sua saída do “galinheiro” e posteriormente, suscitar o debate da existência de tribalismo e muito recentemente outros dissidentes confirmarem o “facto”, o que levará a não descartar a hipótese do SG da JURA estar a ser vítima desta suposta realidade. O que se disse e diz-se, é que na UNITA progride confortavelmente a “gente do Bié” e alguns do Huambo, contanto que pertençam a certa elite interna e não seja “clarinho”. Daí a queda de Catchiungo, segundo se diz.

Outrossim, Nfuka não é herdeiro da cultura UNITA, sendo que vem de outra escola política, o que leva a que tenha uma visão e formas de ser e estar na política que não lhe permitem subscrever determinados procedimentos, mas leva-lhe a entender que a militância não tem o direito de retirar-lhe a liberdade de pensar pela própria cabeça bem como agir como mandam os princípios da democracia e da ética política. Essa postura adicionada à sua têmpera reivindicativa, próprias de um “animal da sociedade civil”, que nunca deixou de ser, segundo vozes bem colocadas no “galinheiro”, não é bem vista “ladjum”, porquanto muitas vezes comporta-se como uma espécie de “não-alinhado”. E parece haver exemplos disso: Nfuka não terá subscrito nem dado “sangue” aos planos conspiratórios anti-Abel Chivukuvuku e por sinal não é dos que tem algo contra o Gen. Kamalata Numa, não tendo feito em ocasião alguma, em nome da JURA, qualquer moção de censura aos tais adversários do substituto do “mano mais velho”, valendo-lhe o rótulo de “contra o mano Samakuva” e a condição de “sapo entalado no pescoço” de certa elite “galinheira”.

A fazer-se fé no que se aventa estar na base de todo esse imbróglio, o anunciado linchamento político de Nfuka era só uma questão de tempo, e não haveria um momento melhor que o aproximar do ano das eleições na JURA, 2014, e faltarem ainda alguns anos para a realização das próximas eleições, autárquicas ou gerais, no país, pois até lá qualquer estrago terá sido concertado.

Curiosamente, até onde me lembro, o MPLA que é criticado por tudo que é imaginável e mais outras, desde que me conheço, não tem trado desse modo aos seus membros no activo ou não, que eventualmente tenham-se incompatibilizado com o seu Presidente/Direcção do partido; por exemplo, ainda não vimos ser “desenterrado” eventuais deslizes do Marcolino Moco (pode não tê-los), ou “criado” trapaças, para lhe incriminarem, apesar de se tornar um crítico do regime liderado pelo Presidente José Eduardo dos Santos. Há outros exemplos. Então, fará sentido a pergunta de alguns concidadãos: “Quem é pior ou melhor que quem”? Ou a comparação, entre a UNITA e o MPLA, feita por Makuta Nkondo, segundo a qual “a UNITA e o MPLA são iguais”!

Estas reflexões que entendemos introduzir conduzem-nos à outras não menos importantes. Para já permito-me augurar que Nfuka Muzemba não será expulso das hostes “galinheiras”, embora pense que poderá ter o nome na lista negra.

Diante destes acontecimentos e eventualmente futuros outro, como deverá reagir a nossa geração? Que tratamentos merecem formações partidárias alegadamente aspirantes ao poder, em cuja vida interna desconfia-se fazer-se a apologia do que criticam no adversário, ou quiçá pior? Antes, como enquadrar o caso Nfuka? Há realmente a intenção de um linchamento político? Quem estará interessado nisso?

Na Parte II deste “Traços do percurso de Nfuka, e o anúncio do seu linchamento político” traremos mais elementos de análise.

 

Adão Ramos, o autor do texto

Adão Ramos, o autor do texto