CTV: Estrilho no Mercado do Kikolo

Posted: October 27, 2017 in Luanda
João Manico 01

João Manico, novo administrador do mercado

O Mercado do Kikolo tem um novo administrador e ele chegou arrasando e provocando a ira dxs vendedorxs ao remover os contentores onde estxs costumam armazenar os negócios e o material de trabalho e aumentando o imposto de superfície semanal de 1200 para 2000 Kz. João Manico de sua graça, o senhor é proprietário do Instituto Superior Politécnico Kangonjo, também no Kikolo, e é daqueles que, sói dizer-se, mijam grosso. Estes manifestantes querem vê-lo a piar fino e a sair de mansinho.

 

Por Angola a sanha burocrática, das “comissões” e dos “comitês” continua a fazer escola. Recentemente, para apurar as causas de uma “morte polêmica” no SU do Hospital da Kapalanka, foram nomeadas não uma, mas duas comissões de inquérito.

A primeira foi nomeada- e bem – pelo ministério da saúde. A seguir, achando talvez que a nova ministra da saúde seja um “peso pluma” verde para estas andanças da política mediática e do aplauso fácil, o governador provincial de Luanda achou necessário nomear outra comissão.

Segundo os relatos jornalísticos, esta segunda comissão não só reporta directamente ao governador mas também “articula” com a comissão previamente criada. O que significa exactamente, neste caso, a palavra “articular”, não sabemos.

Entretanto mesmo antes de concluído o tal inquérito, o governador não parece ter dúvidas: a administração do hospital foi suspensa.

Pergunto-me: o que achará a ministra da saúde sobre isso? Será que o governador a informou previamente? E deve ser o governador provincial a a tomar este tipo de medidas? Que conhecimentos tem ele da área da saúde? ? Terá quem o aconselhe? um departamento encarregado da ” saúde a nível provincial” ? Ou ao menos um ou dois conselheiros em matéria de saúde? E se os tem, não deviam eles estar mais preocupados com a saúde pública ( o saneamento básico, as lixeiras, as águas paradas, os mosquitos, enfim…os postos/centros de saúde) e deixar a saúde hospitalar a ser tutelada pelo Ministério da Saúde?

O governador, pelos vistos, acha que os hospitais estão sob sua alçada, já que estão na “sua” província. Então é bom estarmos atentos a sua coerência e ver se mantém cativo dessa responsabilidade . No futuro será lícito interroga-lo sobre todos os assuntos relacionados com o tema da saúde a nível da província de Luanda….

No meio disto tudo, o que é notável é que vi muita gente a aplaudir a rapidez com que estas medidas foram tomadas. Enfim, depois dos anos de autoritarismo amedrontante em que de facto reinava o “deixa andar” em matérias de políticas públicas,os novos governantes abriram as portas da nova era: a do populismo eufórico em que o que é preciso é esbracejar muito para fingir que se faz algo. Como dizia o personagem do “Leopardo”: é preciso mudar alguma coisa para que nada mude realmente.

Sachondel Joffre.

CTV Raul CCL

São comuns as histórias de reclusos que ficam detidos anos a fio sem nunca serem levados diante de um juiz. Raul ficou 4 anos. Foi detido antes de sequer se ter aventado a possibilidade de uma nova lei das medidas cautelares, esta que entrou em vigor em Dezembro de 2015 e que estabelece um limite máximo de um ano para a prisão preventiva. Raul foi preso na vigência da lei anterior, cujo prazo máximo previsto era o de 215 dias para crimes contra a segurança de estado. Para crimes de pena maior, o prazo máximo, contando com duas prorrogações, era de 135 dias. Raul ficou mais de 1460.

Reclusos em Excesso de Prisão Preventiva

Lista elaborada por elementos dos 15+2 enquanto durou o seu encarceramento após condenação

Não é portanto novidade essa prática nefasta de quem alega querer “reeducar” o recluso e reinseri-lo na sociedade.

Não menos frequente é a extorsão levada a cabo pelos investigadores predadores aos familiares desesperados, vendendo mandados de soltura para os seus ente queridos. No caso de Raul, pediram 100.000 Kwanzas. Nunca conseguiram juntar essa quantia, mas avançaram o que tinham.

Entretanto Raul foi solto e a razão não foi sequer a admissão de que já tinha cumprido preventivamente o tempo que viria a ter de cumprir caso fosse condenado, mas tão somente a compreensão de que o seu estado de saúde estava degradado e que ele acabaria eventualmente por morrer na cadeia.

Certas alas de certas prisões são antros pestilentos constituindo focos de doenças típicas de espaços sobrelotados: infeções cutâneas e problemas respiratórios. Com a carência de medicamentos no país, as cadeias serão as últimas na lista de prioridades da sua distribuição. Muitos jovens entram saudáveis e saem enrolados num pano.

Raul não saiu esticado, mas foi solto apenas para ir morrer em casa.

Bitao OBRA PONTE 03

A vala da morte em Abril de 2015

Desde Abril de 2015 que temos vindo a alertar para um ponto específico no Bairro da Cerâmica, Município de Cacuaco, onde as estações das chuvas têm elevado o nível de mortandade desnecessariamente, por mero desleixo da administração que, atabalhoadamente, vai inventando soluções paliativas com o intuito de impedir que as pessoas fiquem reféns das inundações que submergem o único ponto de travessia permitindo acesso de um lado ao outro da vala, a porta de saída do bairro para o asfalto, para os seus locais de trabalho.

Em Janeiro de 2016, insistimos em denunciar uma situação que continuava a agravar-se, aumentando o número de fatalidades, apelando às autoridades para que encontrassem uma solução definitiva e satisfatória para os moradores. Apenas em Novembro de 2016 esse apelo surtiu algum efeito. Deu-se início à construção de duas travessias distando 1 Km uma da outra, tendo as obras sido interrompidas pouco tempo depois… devido às chuvas.

 

 

Quase um ano depois, ainda não conseguiram terminar a construção de dois curtos tabuleiros, o que tem redundado em mais do mesmo: luto desnecessário.

Antunes Armando Romão, 10 anos, foi a mais recente vida que se perdeu precocemente, em Junho transato. Façamos com que seja a última.

CTV: SIC voltam a matar

Posted: September 15, 2017 in Luanda

3. Seni

O jovem Ednelson Serafim André Calenje “Sení”, 19 anos, foi assassinado na madrugada de 15 de Julho de 2017 por agentes da Polícia Nacional afectos a 48ª Esquadra do KM 12 à Estalagem, Viana.

“Sení” como em vida era mais conhecido, encontrava-se numa festa de aniversário de seu amigo e vizinho Joel de 18 anos, quando foi abordado por agentes da Polícia do Giro.

Pediram para que ele e mais dois amigos subissem no carro da polícia e depois daí os dados já não são mais claros. Mas Sení foi atingido por uma bala na cabeça, disparada por um dos agentes referidos .

A polícia não nega o seu envolvimento, mas alega estar ainda a “apurar” os factos. No entanto, agentes menos ciosos deste posicionamento oficial teceram comentários para justificar os seus comportamentos homicídas: “é bandido, estava armado e exibiu a sua arma na festa”.

A família acredita que a morte foi encomendada citando como fundamento para a sua crença alguns factos estranhos: 1) eram 6 polícias, não tinham como contê-lo sem disparar? 2) porquê um tiro fatal, não poderiam neutralizá-lo com um disparo num braço ou numa perna? 3) a morte ocorreu pelas 5 da manhã, mas o boletim de óbito diz 00h20m.

Teorizam igualmente sobre o autor moral deste crime, mas para além da razoabilidade das suas insinuações, é assunto grave demais para ser tratado de forma leviana.

Seja como for, é mais uma vida que se perde, num país onde as execuções extra-judiciais continuam na ordem do dia e a impunidade reina suprema.

DEP “Sení”.

A Sondagem que abalou o regime

Posted: August 21, 2017 in Luanda

Sondagem CENSUS MPLA 2017-2

Depois de todo o xinguilamento da imprensa, de se ter inicialmente negado a existência deste estudo, de se ter depois achado que era melhor assumir que o estudo afinal existia mas que os resultados não eram aqueles que tinham sido veículados pelo Maka Angola, aqui está o documento “confidencial” que alguém de lá de dentro decidiu vazar.
No link abaixo está o PDF com o estudo completo tal como ele foi apresentado ao seu cliente: A Presidência da República de Angola. Cada um agora é livre de analisar e tirar as suas próprias conclusões.

FAÇA O DOWNLOAD DO PDF AQUI

Centenas de Odoricos

Posted: July 29, 2017 in Luanda

Por Sachondel Joffre

O que acontece em Angola é de facto a vida a imitar a ficção. Um exemplo recente e público foi o episódio do comício no Namibe, em que o “camarada” Caíto, Governador e Primeiro Secretário do MPLA, resolveu “luvualar” dizendo que já havia água no bairro 5 de Abril (“a água chegou no 5 de Abril”) e foi contestado pela população que gritou em uníssono: “Naaaaãooooo!”.

O “camarada” Caíto, coitado, não está habituado a populares contestatários. Isso é confuso para o seu espírito primeiramente formatado no “afro-stalinismo”, e depois reformatado para acreditar piamente na “clarividência” do Camarada Presidente, o Arquitecto da Paz, quando este defende os “incontestáveis benefícios” da “acumulação primitiva de capital” pelos “empreendedores do MPLA”.

Naquele momento, embaraçado assim perante os seus pares, seus assessores e e subordinados, notou-se no “camarada” Caíto uma certa revolta. Ponho-me a imaginar o que ia na sua cabeça: “Mas que indisciplina é esta? Isto é um acto de sabotagem! O responsável por isso tem que ser identificado, neutralizado e devidamente punido”. Isso é que Caíto pensa. Pensa, mas não pode dizer. Não ali. Não à frente de todos aqueles microfones e câmaras. 

Nitidamente atrapalhado e surpreso, o “Camarada” Caíto, hesita e saí com esta: ” A Água não chegou? …Não chegou, mas vai chegar! A água vai chegar no 5 de Abril!”. Mas a mini-rebelião popular continua. A primeira contestação, o primeiro “não” não foram um acidente. A população está visivelmente cansada de proclamações vãs e promessas imprecisas. É um daqueles momentos de coragem que nascem mais do esgotamento do que da esperança.

Coisa rara, a contestação popular a um governador de províncial em Angola. Inédito, vê-lo forçado a dar explicações, ainda por cima, em pleno comício. Constantemente interrompido pelo burburinho, Caíto admite que é “preciso explicar” e lá faz a sua arenga sobre o porquê da não haver água e tão-pouco luz eléctrica, e conclui assim: “Na primeira quinzena de Agosto vamos ultrapassar os problemas que temos com energia. vamos pedir aos camaradas para terem paciência, (…) por isso não fiquem com essa cara de que o MPLA não está a resolver os problemas do povo. O MPLA está a resolver os problemas , sim senhora”.

A conclusão de Caíto, embora desconcertante, é bem ilustrativa da como funciona a doutrina da “clarividência governativa” do MPLA. Para o MPLA (e para “camarada” Caíto ), o povo não se pode mostrar insatisfeito. Isso é sinal de ingratidão. Porque aquilo que o MPLA não fez em 40 anos, vai seguramente fazer nos próximos 15 dias, ou mais tardar na primeira quinzena de Agosto. Por isso, o povo tem que estar sempre agradecido ao MPLA. Em resumo: O MPLA resolve sempre os problemas do povo. Quando a realidade desmente isso, é a realidade que está errada. 

Eu, de repente, assim de “repentemente”, lembrei-me do Odorico Paraguaçu. É que Angola parece uma invocação amplificada de Sucupira, a cidade fictícia, situada algures no sertão brasileiro na novela “O Bem-Amado”. A diferença é que em Sucupira havia, acima de todos, um só prefeito: o Odorico, e um só cangaceiro, (que às vezes também era jagunço contratado): o Zeca “Diabo”. Já em Angola há umas dezenas de Odoricos ( como este “camarada Caíto”) e, acima deles, meia dúzia de Zecas “Diabos”. E isso já não é matéria de novela. É um filme de terror.