Flashback 1999: O “Baton” da Ditadura

Posted: May 24, 2012 in Corrupção, Denúncia, Direitos Humanos, Opinião

Hoje o nosso tropa maior, o puro wi, “Centraleiro” original antes do termo existir, o kota Rafael Marques, foi detido por um curto tempo pela Polícia Nacional angolana:

A Polícia Nacional  angolana deteve, esta manha (24), o  jornalista e activista cívico Rafael Marques, por ter sido encontrado a conversar com as senhoras que perderam as suas casas na madrugada desta quinta-feira, demolidas pela administração local, na zona da praia Mabunda, no distrito da Samba.

LOL. Sinais de um regime esquizofrênico em crescente estado de delírio, rumo ao seu inevitável FIM, que está cada vez mais próximo. Decidimos então “repostar” o texto que levou o Rafael Marques à cadeia pela primeira vez: O “Baton” da Ditadura. 13 anos depois, ainda não nos cansamos de o ler.

 O “Baton” da Ditadura

O regime do MPLA está assustado. Os seus mentores, assim como o seu sustentáculo intelectual, já começam a agarrar-se à guerra com desespero. Já não conseguem disfarçar que, afinal, eles são os principais instigadores da guerra em Angola. Os principais causadores do efeito Savimbi. As eternas sanguessugas do poder.

Para já, duas figuras se destacam na linha da frente da polícia do pensamento do regime. João Melo e o triste Costa Andrade, vulgo Ndunduma. Eles representam e encarnam todo o surto da maldade política do MPLA.

Sem uma ideologia, obra política, social, económica e cultural a defender, os escribas de serviço da nomenclatura continuam a imaginar que ainda estão nos seus áureos tempos de perseguidores da mudança e da mentalidade independente. Continuam a imaginar que ainda têm todas as cartas na mão e que, de facto, podem jogá-las como bem entenderem. Assim como continuam a julgar que podem, efectivamente, forçar os filhos dos pobres e desgraçados a combater em defesa dos seus complexos e privados interesses.

João Melo, nas suas “Multivisões”, considera oportunismo o facto de um grupo de cidadãos tentar criar uma corrente de solidariedade para a paz, de defesa dos interesses da nação e da vontade da maioria. Está tudo claro, esse senhor é o que se pode chamar de belicista cobarde. Quer a guerra, sim. Mas a que é feita entre os pés descalços e por si aplaudida.

Doutro modo, ter-se-ia voluntariado a integrar o exército e a ir para as matas, onde, com todo o patriotismo, poderia, pelo menos, escrever as cartas dos soldados analfabetos que, humanos, e já sem reclamar salários, gostariam apenas de comunicar-se com os seus familiares.

Por outro lado, esse mensageiro da morte em momento algum interveio na sensibilização da elite e do grupo minoritário a que pertence para o envio dos seus filhos para a tropa. Portanto, é mais do que evidente o papel de João Melo. Defender o poder pelo poder, a classe dominante, os seus bens, interesses e o resto que se lixe. Ou melhor, que seja lixado!

Mas, como a perversidade também tem as suas universidades, João Melo consegue, com muita argúcia, transformar um argumento totalmente esfarrapado em verdade de seda. “É preciso destruir a máquina militarista de Savimbi.” Esse filho africano, tão inteligente quanto infestado de defeitos, só não é crucificado em praça pública porque não lhe conseguem deitar as mãos.

Porquê? Porque o regime precisa de tapar o seu principal buraco. A sua maior fraqueza de governação. A responsabilidade de José Eduardo dos Santos na destruição do país e no descalabro das instituições do Estado. A responsabilidade do presidente do MPLA e da República na promoção da incompetência, do peculato e da corrupção como valores sociais e políticos.

Nada melhor que elevar Savimbi à categoria de obsessão nacional para esconder José Eduardo dos Santos e tudo o que está por detrás dele. O mais discreto e astuto dos chefes dos regimes autoritários de que há memória em África. O exemplo mais alto do antipatriotismo em Angola. O modelo de liderança antipopular. Antipovo.

A esse respeito, o notável escritor luso-angolano José Eduardo Agualusa é mais prático. “Sim, é preciso julgar Jonas Savimbi. Mas porquê apenas Savimbi? Não podendo julgar todos os criminosos de guerra, que se levem a tribunal pelo menos os chefes: Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos.”

Mas, o povo angolano quer, acima de tudo, paz duradoira, justiça social e reconciliação nacional. Porque, de acordo com Martin Luther King, “nós jamais nos libertaremos dum inimigo respondendo ao ódio com ódio. Só nos libertaremos dum inimigo libertando-nos da inimizade. Por sua própria natureza, o ódio destrói e dilacera; por sua própria natureza, o amor cria e constrói. O amor constrói com o seu poder redentor”.

Nem José Eduardo dos Santos, nem Savimbi, quanto mais os seus fantoches, têm esse amor. Daí que o povo tenha necessidade de se unir e pacificamente lutar contra a guerra e os seus promotores.

É preciso cerrar fileiras contra o diversionismo de João Melo e Costa Andrade e a grande inimizade que estes nutrem pelo povo. Que o povo pergunte a esses senhores o que ambos já fizeram pelo seu bem-estar. Ambos são membros do Parlamento. Quantas vezes já defenderam os genuínos interesses do povo na Assembleia?

Defender o MPLA não é defender o povo angolano. Há quem o faça fanaticamente, não para defender o povo, mas como única alternativa de buscar o “caminho marítimo para a Índia”.

Os mesmos foram colocar-se no pedestal político da intelectualidade angolana. Quantas vezes já usaram o seu verbo para defender os valores da cultura nacional e as ricas tradições dos povos de Angola? Mais perguntas? Fácil é ser intelectual do MPLA, ou escriba em troca de privilégios, mas difícil é ser intelectual a favor da Nação.

O programa do MPLA transformou-se no da UNITA e o da UNITA no do MPLA, pelo menos em tautologia. Ainda que na prática todos escrevem por cima da água.

“O diálogo, por sua vez, ensina-nos a conhecer melhor os demais e a descobrir que também eles têm boas intenções, desejos de paz, de justiça e de amor. Pelo diálogo, degelam-se sentimentos de dureza e hostilidade, sintonizam-se as almas, encontram-se os homens a si mesmos e confiam uns nos outros”, ensinam-nos os bispos católicos na sua reflexão pastoral.

A persistência na guerra pretende tão-somente esconder os podres do poder. Apagar da memória colectiva a necessidade de educação, de equilíbrio social, de desenvolvimento e prosperidade para o país. Outrossim, essa confusão permite a gestão do país sem qualquer tipo de contestação. Sobretudo em relação às matanças que minam a suposta “santidade” do regime.

Veja-se, por exemplo, o caso de Thabo Mbeki, o actual Presidente da África do Sul. Já alguém teve coragem de expor as sevícias por que o homem passou na Estrada de Catete, quando lá foi detido em companhia de compatriotas seus, no ano de 1983? Já alguém teve a coragem de assumir que Thabo Mbeki foi forçado a assinar um documento em que tinha de assumir um inexistente atentado contra Oliver Tambo?

Tudo porque em 1983, 70 estudantes universitários sul-africanos que se haviam juntado às causas do ANC foram fuzilados no município do Cacuso, Malanje, por se terem recusado a combater a UNITA. Segundo informações dignas de apreço, os mesmos contavam receber treino aqui para lutar contra o “apartheid” e não para se envolver numa guerrilha civil alheia.

Consta que Thabo Mbeki juntou a sua voz à dos outros membros do ANC que repudiaram o acto. E, cadeia com eles!

Nesse mesmo ano, 26 outros membros do ANC, de um grupo de 40 detidos na Estrada de Catete, foram fuzilados. As sobreviventes Grace e Kate ainda podem contar a história.

Há muitos crimes por revelar e, graças a Deus, Thabo Mbeki sobreviveu para ser Presidente da África do Sul e estender a mão a José Eduardo dos Santos que, entretanto, a recusou.

Haja seriedade!

Rafael Marques

Comments
  1. nozcinquenta says:

    Um verdadeiro clarividente . . .

  2. nozcinquenta says:

    Verdadeira claridencia. . .

  3. papy chakila says:

    por mais flores que os poderosos maten numca matarao a primaveira

  4. papy chakila says:

    Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário.

  5. papy chakila says:

    Derrota após derrota até a vitória final
    che guevara

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s