O primeiro passo já foi dado

Posted: March 12, 2011 in Angola, Argumentos, Luanda, Opinião

Estes dias, vivemos mais um daqueles episódios representativos da situação política angolana. Na verdade, não houve muitas surpresas, mais confirmações. O regime mostrou como qualquer vento mais frio lhe faz tremer os calcanhares e sobre-reagiu de maneira inexplicavelmente imatura, denunciando-se a si próprio e deixando à vista que não é só o povo que tem medo.

Confirma-se uma estratégia de gestão política baseada na intimidação, na ameaça e na distorção de conceitos. Assistiu-se a uma constante evocação das memórias recentes da “guerra” como argumento de dissuasão que funcionou de maneira contagiante. Essa falsa associação “manifestação=guerra” viu-se plasmada em várias opiniões, mostrando a vulnerabilidade dos angolanos à manipulação e ao medo.

Confirma-se que os meios de comunicação nacionais estão completamente controlados, pois enquanto que na internet o debate se acendia timidamente, eles mantiveram-se na penumbra e no silêncio, invisibilizando ao máximo a convocatória e a manifestação do dia 7. À meia noite, todas as rádios passavam música em Luanda. Dessa forma, ficamos sem saber o que se passou na capital e por todo o país. Não existe sequer uma imagem e permanecem notícias graves por confirmar. Uma vez mais, reina o mujimbo.

Na esfera política angolana, especialmente na oposição, confirma-se a incompetência generalizada, a cobardia e a falta de seriedade. Entre outras coisas, não se compreende a troca de acusações e constantes mujimbos, daqui para ali, entre o MPLA e a UNITA. Não se entende como o líder do principal partido da oposição se ausenta do país num momento desses. Não se entende bem a jogada de auto-exclusão do Bloco Democrático, ao tomar uma posição paternalista pondo em causa a preparação dos cidadãos e saindo temerosamente de cena, retirando o apoio aos manifestantes e a confiança ao povo angolano.

Mas o grande ausente de toda esta estória, onde era personagem principal, foi o nosso presidente da república, que em nenhum momento falou à nação ou prestou satisfações sobre os acontecimentos que preocupavam os angolanos, nesse momento. É o dever de um presidente comprometido com os cidadãos que legitimam o seu poder, dar a cara e posicionar-se claramente em situações de inquietação popular. Apesar de não estarmos habituados a isso, não devemos deixar de exigi-lo.

Confirma-se que se confiarmos nas elites estudadas e viajadas para empreender as mudanças políticas urgentes em Angola, bem que podemos morrer sentados e desesperados de tanto esperar. Sente-se falta de mais espírito crítico, mais coerência, menos paternalismo, menos demagogia e, em definitiva, menos MEDO. A emancipação dos angolanos depende deles próprios e só vai acontecer quando a união for genuína e transversal a todas os sectores da sociedade.

Mas houve quem desse a cara, mesmo num contexto difícil de muita pressão, intimidação e falta de apoio. Aproximadamente 20 pessoas entraram em cena na Praça da Independência e, em poucos tempo, viram os seus direitos cívicos desrespeitados de forma inconstitucional e autoritária. A polícia, cumprindo ordens superiores, cercou os manifestantes e deteve-os sem qualquer acusação formal. Estas detenções desencorajaram, assim, a multidão que já se encontrava nas imediações da praça bem como muitas outras pessoas que circulavam de carro, expectantes, pela zona. E, lá do alto, o nosso poeta-libertador observando, impotente, a ironia da História.

A verdade é que o dia 7 de Março de 2011 foi só o começo, o primeiro passo já foi dado. Essa madrugada não acabou e muitos dos angolanos que ficaram nos bordes da Praça da Independência têm ainda tempo para dar o passo, entrar e levantar a voz, exigir o respeito pelos seus direitos e construir com as próprias mãos a democracia que queremos.

Daqui para a frente, importa reacender o debate e vencer o medo. Um regime que dá tantas provas de fragilidade, em tão pouco tempo, é um regime que sabe da injustiça em que assenta o seu projecto político e que teme que essa consciência se estenda ao conjunto da população.

É tempo de que o povo angolano, através de ferramentas pacíficas, comece a dar passos positivos de participação política democrática. O primeiro passo já foi dado.

 

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