Carta de um general na reserva ao presidente

Posted: March 17, 2011 in Angola, Argumentos, Bengo, Opinião
Circula pela internet esta carta aberta que um tenente general na reserva, militante do MPLA na província do Bengo, dirigiu ao presidente no passado dia 5 de Março. É uma carta que vale a pena partilhar por mostrar uma opinião crítica e lúcida sobre o estado do país, especialmente nessa província, e por revelar uma importante consciência em relação ao papel dos jovens angolanos neste desejado processo de mudança.
No seu texto, este angolano expõe as condições de vida da população na província do Bengo, no norte do país, uma província que faz fronteira com Luanda mas que não desfruta das mesmas regalias da capital: “Vivo na província mais perto de Luanda e mais distante do bem estar  exibido na cidade capital. (…) Nós cá fazemos parte do Top 5 das províncias mais infectadas pelo vírus da miséria.”
Este general na reserva alerta também para a intimidação como arma de dissuasão e lembra: “Nós os mais velhos, hoje, não nos devemos esquecer que as motivações do passado que nos levaram aderir aos movimentos de libertação nacional de então foram as injustiças sociais daquela altura.”
O general chama a atenção do presidente para a melindrosa situação da juventude angolana e aconselha sabiamente: “Procure estar mais próximo dos nossos Jovens, do povo de Cabinda ao Cunene do Mar ao Luau para perceber que esses, hoje tornaram-se mais mendigos e estão a perder a dignidade em muitos aspectos; os relatórios circunstanciais nem sempre relatam o seu todo, não baste que os angolanos tenham funji com cabuenha todos dias.”
E termina reconhecendo a importância deste momento na história política de África, comparado talvez à libertação colonial das nacões africanas. “Vejo a história a passar diante dos  nossos olhos, não gostaria ver o poder ficar na rua como se tem revelado em outras paragens do  nosso continente. Ainda é possível recuperar muito do tempo perdido em discursos bonitos sem eficácia prática até agora, saibamos reconhecer o papel dos jovens para o avanço das sociedades. A irreverência do passado de lideres como Habib Bourguiba na Tunísia em 1957, Gamal Abdel Nasser no Egipto em 1954, Rei Idris na Líbia em 1951 e sem esquecer os vossos feitos nos primórdios da nossa jovem República em 1975 que resultou na libertação dos nossos povos da opressão colonial.
Esperamos que a mensagem tenha chegado.
Pode-se ler abaixo a carta na íntegra.
CARTA AO CAMARADA PRESIDENTE SOBRE OS VENTOS DO NORTE 

Camarada Presidente

Sou MANUEL PAULO MENDES DE CARVALHO PACAVIRA militante do partido  MPLA na Província do Bengo. Para lhe lembrar, escrevi-lhe uma carta aberta no pretérito dia 25 de Maio de 2010, dia de África, alertando algumas irregularidades do Executivo que poderiam ter consequências menos boas para o  futuro. Não tendo sido bem sucedido nesta nobre empreitada decide alertar a mais alta instancia partidária na Província do Bengo (em Dezembro de 2010)qualidade de militante dirigente que sou nessa parcela do território nacional. Infelizmente também não fui bem acolhido pelo primeiro secretario do  nosso partido no Bengo por indisponibilidade de tempo.

Camarada Presidente

O assunto que muito vos pretendo abordar está relacionado com o movimento para mudança ora criado com intenções de atingir a sua figura. Sabe, como antigo comissário politico das Extintas Forças Armadas Popular de Libertação de Angola (FAPLA) e líder na Organização Juvenil do nosso partido (JMPLA) granjeio algum respeito no seio  de muitos dos Jovens que no dia 7 de Março pretendem ir as ruas manifestar-se contra si. Não acredito que a resolução dos problemas do nosso povo serão resolvidos com marchas e contra-marchas a volta da figura do camarada presidente.

Com o aparecimento desse novo movimento de Jovens ávidos pela mudança ouço com constância, comentários de dirigentes do nosso partido fazendo alusão ao facto do nosso país não ser parecido aos países do Magrebe que se vêem fustigados pelas revoltas populares, de facto não somos, ou melhor, há países iguais, talvez realidades parecidas!   A acção do Mohamed Bouazizi, catalisador da Revolução de Jasmim, as centenas de milhares de Jovens acampados na praça de Tahrir às manifestações e ocupação popular de Benghazi têem traços comuns: FALTA DE QUALIDADE DE VIDA DAS POPULAÇÕES (elevados índices de desemprego, excesso de miséria, baixos índices de escolaridade, ineficientes redes de saúde pública, justiça social, melhor distribuição da renda nacional, preços altos dos produtos de primeira necessidade: alimentação, Excesso de burocracia nos serviços públicos, altos índices de corrupção, clientelismo, etc.), porém, neste capitulo as semelhanças são muito pronunciadas para não mencionar a nossa raiz comum no continente Africano e afinidades ideológicas.

Os ventos do Norte que se abatem sobre o continente Africano trazem-nos memórias dos ventos dos leste que se abateu aos países do Pacto de Varsóvia com o fim do muro de Barlin, naquela altura, Camarada Presidente pedia-nos para nos adaptarmos aos novos tempos de mudanças com a Perestroika e Glasnost no auge; não será essa uma boa altura para fazermos uma inflexão para mudança?

Por muitas razões, agrada-me pouco quando alguns dos nossos Camaradas pretendem invocar os acontecimentos de 1977, como razão para amedrontarem  psicologicamente e coarctarem as iniciativas democráticas dos nossos Jovens; Nós os mais velhos, hoje, não nos devemos esquecer que as motivações do passado que nos levaram aderir aos movimentos de libertação nacional de então foram as injustiças sociais daquela altura. Primeiro, A demografia actual e maturidade dessa geração é diferente daquela dos primórdios da independência. Segundo, para muitos de nós que vivemos e participamos no “turbilhão 27 de Maio” não queremos que as outras gerações voltem a viver os horrores do passado; é um fardo demasiado pesado para ser passado como testemunho a jovens inocentes com aspirações normais de uma vida melhor. Terceiro, os nossos inimigos, de ontem, são hoje os nossos parceiros estratégicos na latitude externa e interna. Quarto, a guerra fria e suas reminiscências fazem parte da história.

Camarada Presidente

Agradou-me ouvir as suas palavras aquando do empossamento do Camarada Paulo Kassoma como primeiro ministro da terceira República na sequencia das eleições gerais de 2008, “…devemos falar pouco e fazer mais…” naquela altura senti que finalmente uma das causas que me levou a aderir o amplo movimento -MPLA – poderia tornar-se realidade: “O mais importante é resolver os problemas do povo” contudo, a realidade de lá para cá é bem diferente, –  falou-se muito, fez-se pouco e adiou-se a resolução dos problemas do povo -!

A modernidade actual proporciona-nos a possibilidade de navegar no ciberespaço sem limites, pude notar no Facebook do Camarada Bornito de Sousa uma nota interessante, sobre a terceira República, em que há uma excessiva ênfase nalguns factos marcantes e ganhos administrativos do nosso partido.  Na realidade nada daquilo “alimenta as nossas barrigas”. Vivo na província mais perto de Luanda e mais distante do bem estar  exibido na cidade capital.

Aquando do seu primeiro discurso à nação pelo imperativo constitucional, fez referencia a estatística deplorável que muita das nossas populações estão sujeitas, pois que, aqui no Bengo não são somente números estatísticos é uma realidade do dia-a-dia das nossas populações; nós cá fazemos parte do Top 5 das províncias mais infectadas pelo vírus da miséria.

Camarada Presidente

Procure estar mais próximo dos nossos Jovens, do povo de Cabinda ao Cunene do Mar ao Luau para perceber que esses, hoje tornaram-se mais mendigos e estão a perder a dignidade em muitos aspectos; os relatórios circunstanciais nem sempre relatam o seu todo, não baste que os angolanos tenham funji com cabuenha todos dias.

Camarada Presidente
Sem pretender ser fastidioso e, para terminar, vejo a história a passar diante dos  nossos olhos, não gostaria ver o poder ficar na rua como se tem revelado em outras paragens do  nosso continente. Ainda é possível recuperar muito do tempo perdido em discursos bonitos sem eficácia prática até agora, saibamos reconhecer o papel dos jovens para o avanço das sociedades. A irreverência do passado de lideres como Habib Bourguiba na Tunísia em 1957, Gamal Abdel Nasser no Egipto em 1954, Rei Idris na Líbia em 1951 e sem esquecer os vossos feitos nos primórdios da nossa jovem República em 1975 que resultou na libertação dos nossos povos da opressão colonial.

Sem mais de momento aceite a minha saudação patriótica Camarada presidente.

MANUEL PAULO MENDES DE CARVALHO PACAVIRA “PAKAS”
(Tenente General na Reserva)
Icolo e Bengo, 05 de Março de 2011

Comments
  1. DE CATETE says:

    Adorei a carta meu camarada, quem medera se muitos oficias na reserva pensasse com voce, embora q as ideias nao sao iquais, carta como esta devem circular em todas as paginas da internete, e motivante ler uma carta do genero……..Adoro falar contigo , adoro os teus conselhos um abraco meu camarada.

  2. ydaló de carvalho says:

    Eu, Ydalo das Neves Mendes de Carvalho filho deste homem que diz ser ” defensor da justiça social das camadas mais desfavorecidas” por causa do roubo desenfreado, me entristece ver essa abordagem feita por alguem que toda vida nao passou de um pai no papel, mostrando-se um moralista sem moral. Hoje com 30 anos de idade nada tive da sua parte sendo criado pelos sacrificios feitos pela minha mãe sem um apoio paterno,para mim é visto como uma pessoa comum não tendo com o mesmo nenhuma ligaçao para além da sanguinea. Um dia fomos pessoas desfavorecidas pelo facto de ter um pai que nunca se importou connosco como seres humanos, fazendo com que me considerasse toda vida órfão de pai. O que esta em causa nao e dinheiro ou os meios que este tem mais o facto de ver quanta hipocrisia por parte de alguém defendendo direitos e acusando outras pessoas de serem desumanos quando o mesmo sempre foi com os seus proprios filhos.
    Vendo essas palavras do mesmo me questiono que moral tem o Sr.Manuel Paulo Mendes de Carvalho Pacavira de julgar seja quem for??!! Quando nunca teve aptidoes para governar a sua propria casa.

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