Rescaldo das Manifs

Posted: April 5, 2011 in Luanda, Manifestação 2 Abril, Opinião

Qualquer que seja a sua ideologia, cor partidária, filosofia de vida ou credo, uma coisa é certa: o dia 2 de Abril, directamente em consequência do não-acontecimento mais polémico que jamais se deu na História desta Angola contemporânea, o 7 de Março, veio mesmo marcar um virar de página na nossa proto-democracia: a primeira manifestação anti-regime não proibida pelas “autoridades competentes”.

Muitos tentaram antes, encontrando sempre um muro improvisado que fazia da estrada da democracia um beco-sem-saída, muro eregido autoritária e ilegalmente pelas “autoridades competentes” intolerantes a qualquer sinal de repúdio que pudesse criar a ideia de um descontentamento com o trabalho (?) levado à cabo pelo nosso executivo.

Tentaram estudantes universitários, tentaram associações cívicas como a Mãos-Livres, a Omunga e a SOS Habitat, tentou por diversas vezes o PADEPA, partido liderado por Carlos Leitão, praticamente inexpressivo no panorama político, mas hiper conhecido pelas suas ações de rua e de desafio ao poder instituído. Fizeram-no sempre apesar da proibição explícita para tal, fizeram-no tentando furar um buraco através do muro de burocracia ilegal, para seguirem no ambicionado caminho da democracia tal como ela se define, pois esta na qual vivemos não passa de um pobre esboço. Foram percursores.

O 7 de Março teve o mérito de fazer tremer a estrutura no poder como um terramoto de magnitude 9 na escala de Richter, como aquele que precedeu o recente tsunami no Japão. Fê-lo incorrer numa torrente de escolhas politicamente atabalhoadas, que mais não fizeram do que revelar a verdadeira natureza desse colosso que é o MPLA: um gigante com pés de barro! Gastaram 20 milhões de dólares só com a “Marcha pela paz” e vilipendiaram todo e qualquer indivíduo que tencionasse criar mácula na imagem do partido e da sua figura de proa, José Eduardo dos Santos, tratando-os dos nomes mais feios, associando-os a belicistas inimigos da paz e ameaçando-os de porrada, enfim, coisas de verdadeiros cavalheiros amigos da democracia.

Depois das prisões arbitrárias, da mentira desvendada pelo audio da detenção dos 17 jovens na madrugada do dia 7, de a própria TPA ter promovido um debate em que se discutiram questões ligadas a manifestação e, muito particularmente, dessa detenção ilegal, de, no rescaldo da abortada manifestação, o MPLA/Governo/Estado (que promiscuidade) ter “secado” as suas contas em divisas no Banco Sol para pagar a dívida pública, de terem forçado funcionários públicos a engrossar o número dos “anti-guerra”, de terem usado o Navio Maersk retido no Lobito como argumento para justificar as suas alegações que “a UNITA se está a rearmar”, entre outras tantas que não me apraz recordar, gastaram toda a munição que tinham e resolveram, como consequência da má imagem que deixaram transparecer (e que é a sua verdadeira, depois da máscara cair), fazer uma reciclagem nos comportamentos anti-democráticos e assumirem uma postura mais dócil e permissiva face aos apetites contestatários da juventude.

Assim se criou o vácuo ditatorial que fez com que, finalmente, as “autoridades competentes” TOLERASSEM uma manifestação, para limpar um pouco a imagem feia que lhes foi associada, dando a ideia de que, a democracia está bem viva em Angola. No entanto, comprovando a sabedoria popular que reza: os velhos hábitos são difíceis de perder, tentaram, à margem da lei, acomodar-nos num local que nos remetia à invisibilidade. Valeu no entanto (e não podemos deixar de referir) a ação exemplar da PN, que comunicada por nós da intenção ardilosa do GPL, fez prevalecer a lei acima de “ordens superiores”.

Foi assim que no dia 2, com intuito de reclamarmos pelos nossos direitos e nos exprimimirmos sem ter medo de represália, nos reunimos no Largo da Independência, local de inigualável valor simbólico para protestos desta natureza. A TPA, claro, filmou muito e passou muito pouco, fazendo uma peça de deplorável valor jornalístico, mostrando claramente para quem trabalha. Nós também já o sabíamos e por isso o nosso canal público teve direito a algumas vaias, direcionadas à objetiva do cameraman, no decorrer do evento. A maior parte da imprensa que se fez presente também devia ter mais o que fazer, pois chegaram no início (certamente na expectativa das coisas azedarem e eles terem matéria interessante para o “furo” que sempre buscam), fizeram duas ou três entrevistas e foram disfrutar do almoço de fim-de-semana para o qual deviam ir atrasados. Depois fizeram figuras tristes anunciando que a manifestação só contava com 50 almas, quando ela oscilou sem exageros, pelo menos entre 400 e 800 pessoas.

Das 13 às 00h00 se passou uma manifestação que muitos adivinhavam desordeira, que muitos preconizavam ser o retorno à instabilidade e a guerra (?), que a maior parte desvalorizou por não ter registado uma enchente nem de perto igual à das passeatas do partido, MPLA, o mesmo que mantém o seu povo no obscurantismo mais atroz, nas garras do analfabetismo, para poder seduzi-lo com cevada e concertos dos mais populares músicos da nossa praça. Das 13 às 00h00, um único incidente foi registado por parte dos “arruaceiros” que povoaram o largo: um rapaz que se deixou levar pela exaltação e resolveu atirar um objeto contra um autocarro onde seguiam indivíduos com bandeiras do MPLA. Foi imediatamente pacificado pelos outros à sua volta que o chamaram à razão e o controlaram com duas palavras. Foi de tal maneira insignificante que a polícia nem sequer interviu. Os próprios manifestantes fizeram cordões à volta do largo para impedir que a coisa não transbordasse para a rua e cortasse o trânsito, coisa que nos valeria certamente uma intervenção musculada, apesar de nunca ter transparecido que a PN estivesse a ansiar por esse motivo.

Quando faltavam 10 minutos para à meia-noite, o último grupo de “arruaceiros” que continuavam a gritar palavras de ordem em frente ao carro da polícia (Zé Dú come bem, a polícia ganha mal! A polícia é do povo, não é do MPLA”), voluntariamente se calou, recolheu os seus dísticos e ajudou na arrumação do largo que ficou mais limpo do que o que se encontrou. Como nenhum órgão público e caxiko do regime consegue apontar-nos falta de carácter cívico, optaram pela difamação dos organizadores e participantes desclassificando-os como estudantes sem diplomas, frustrados e sedentos de protagonismo. Os velhos hábitos são MESMO rijos!!!

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