Denúncia das ameaças que temos sofrido

Posted: April 9, 2011 in Cartas, Denúncia, Direitos, LEI, Luanda, Manifestação 2 Abril

Depois da notícia da ameaça de morte que sofreu o nosso companheiro, Carbono Casimiro, no passado dia 7 de Abril, e somando-se às demais ameaças a que alguns de nós foram sujeitos ao longo destas últimas semanas, decidimos fazer uma denúncia formal destes graves acontecimentos, tanto à Polícia Nacional como a outras organizações de defesa e observação dos direitos humanos como a Amnistia Internacional e Human Rights Watch.

Considerando que se trata aqui da preservação ou não da nossa integridade física e da segurança dos nossos mais chegados, publicamos aqui na Central a carta endereçada a Ambrósio de Lemos, comandante-geral da Polícia Nacional (PN), juntamente com os relatórios de outros companheiros que também sofreram ameaças.

É fundamental que haja vigilância e colaboração de todos os sectores da sociedade para que não exista nenhum acto de violência contra cidadãos que estejam contra as políticas do regime. Não é ofensa querer manifestar publicamente o nosso descontentamento. Ofensa é, outrossim, não poder fazê-lo sem ser imediatamente intimidado. É ofensa porque é um desrespeito dos nossos direitos básicos, da nossa liberdade e autonomia. Nós queremos uma liberdade onde possamos assinar com o nosso nome, assumir as nossas opiniões e defendê-las com palavras, sem actos de violência pelo meio. Só assim Angola será realmente livre e independente: quando os angolanos forem também livres e independentes.

Como diz a frase:

“Posso não estar de acordo com o que dizes mas luto para que o possas dizer”.

 

A Central 7311

 

 

CARTA AO COMANDANTE-GERAL DA POLÍCIA NACIONAL

 

AO COMANDANTE-GERAL DA POLÍCIA NACIONAL

EXMO SR. AMBRÓSIO DE LEMOS

Saudações, ilustre senhor:

É com algum pesar e consternação que resolvemos, pela segunda vez num tão curto espaço de tempo, fazer apelo à sua retidão e decoro, sendo no entanto esta carta meramente informativa de ocorrências de extrema gravidade no seio de alguns dos envolvidos na organização da reunião/manifestação que ocorreu no dia 2 de Abril.

O motivo de recorrermos directamente a si, é por acreditarmos que se a manifestação do dia 2 de Abril foi um sucesso e até mesmo um exemplo a nível de segurança e respeito entre manifestantes e PN, contribuindo para a democracia do nosso país, isto deveu-se à carta que lhe endereçámos um dia antes e que, felizmente, foi bem interpretada da vossa parte. Caso contrário, as instruções que teriam era a de nos circunscrever ao Parque da Independência, o que teria provocado um certo mal-estar generalizado.

Se acaso acompanha as notícias que circulam pela internet, há-de ter reparado que aqueles de nós que fomos entrevistados, fizemos sempre questão de sublinhar o papel exemplar e discreto da nossa polícia no dia da reunião/manifestação, respeitando escrupulosamente as leis que vão regendo o nosso país no que concerne a esses direitos específicos.

Desta vez escrevemos, contudo, mais do que para agradecer, para denunciar o que poderá ser o prenúncio de uma caça às bruxas a alguns dos cidadãos que, exercendo um direito consagrado não só na nossa Constituição e na dos outros países que se proclamam democráticos, como na Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas no seu artigo XVIII, se vêem sujeitos a pressões psicológicas de todo o tipo. A mais grave foi verificada na noite de quinta-feira, 7 de Abril, pelas 22 horas, quando dois sujeitos encapuzados entraram no quintal onde vive o jovem Dionísio Casimiro, dispararam um tiro e proferiram de maneira sonora e inequívoca “vamos te apagar!”. Em seguida retiraram-se com a promessa de voltar. Felizmente, e contrariamente ao que é a sua rotina, o Dionísio não estava em casa a essa hora, tendo por isso escapado à ira dos jovens meliantes.

O Dionísio foi esta manhã apresentar queixa formal no Comando Municipal do Rangel, registada pelo agente Barbosa da investigação criminal, sem que nos tenha sido dado o nº do processo que ficou de se ir saber na segunda-feira, dia 11 de Abril. Dada a estranheza do crime e a recém actividade cívico-política do visado, estamos em crer que se trata de uma perseguição política com o intuito de intimidá-lo. No entanto, com assuntos que envolvem ameaças explícitas à nossa integridade física não devemos limitar-nos a conjeturar, pois é assunto de extrema gravidade.

Obriga-nos ainda sublinhar que não se trata de um caso isolado. Outros jovens deste grupo receberam ameaças de ordem diversa, ameaças essas que anexamos a esta missiva para que possa também estar a par-e-passo dos contornos sombrios desta história.

Estamos conscientes de que não devemos importuná-lo com todo e qualquer assunto e que existem estruturas funcionais dentro da polícia para se ocuparem de casos de toda a ordem e natureza. No entanto, a nossa intenção era tão somente comunicar-lhe estas ocorrências, da mesma maneira que já o fizemos com as diversas organizações que monitoram os direitos humanos, dentro e fora de Angola, para que tenham conhecimento de mais esta arbitrariedade que é um dos infortúnios que continuam a minar a imagem da nossa bela e amada pátria.

Acreditamos que os agentes da investigação criminal que irão ocupar-se do caso, fá-lo-ão com seriedade e profissionalismo, dignificando o nome da nossa polícia que tantos esforços tem envidado na construção de uma imagem cada vez mais idónea e digna do respeito dos seus concidadãos.

Agradecidos pela atenção e sem mais de momento nos despedimos mui respeitosamente.

AMEAÇAS AOS JOVENS CO-ORGANIZADORES DA MANIFESTAÇÃO DO DIA 2 DE ABRIL


Nome: António Medil Campos

Relatório de ocorrência:

Medil Campos foi um dos detidos na manifestação do dia 7 de Março de 2011, no Largo da Independência, durante a madrugada.

Alguns dias depois do dia 7, uma senhora, usando o pretexto de ter sido sua professora durante o ensino médio, foi recolher informações entre os vizinhos.

Suspeitou-se da senhora, pois Medil Campos nunca estudou na escola a que ela se referia.

Dias depois, duas pessoas sem se identificarem foram à casa de Medil Campos aí encontrando sua mãe, com quem falaram. Mostraram os pequenos panfletos que distribuímos dias antes da manifestação, alegando que ele tinha os tinha distribuído em escolas a mando dum partido da oposição, a UNITA, que foi a segunda parte beligerante envolvida na guerra civil de 1975 à 2002. Sugeriram à mãe de Medil que conversasse com ele, lhe aconselhasse a ter cuidado e parar de fazer o que estava a fazer, assustando assim a sua mãe e outros familiares que ali moram.

Havia, na manifestação de dia 2 de Abril e na reunião de dia 4 de Abril, pessoas infiltradas e alguns dos participantes alegam ter sido seguidos até as suas casas.

De assinalar também que duas semanas antes da manifestação de dia 2 de Abril, começou-se um protesto espontâneo no largo da independência sobre a violência à liberdade de expressão em Angola, e o local já se encontrava sob vigilância de indivíduos de índole suspeita, que filmavam e tiravam fotografias às escondidas.


Nome: Massilon Leonardo Kutekila Chindombe

Relatório de ocorrência:

Chamo-me Massilon Leonardo Kutekila Chindombe, cidadão angolano recentemente tornado activista em prol das ausentes e/ou carentes liberdades no meu país.

No dia 7 de Março de 2011, aderi a uma convocatória anónima que circulou pela internet e tinha como propósito pedir o fim do regime. Neste mesmo dia fomos detidos à revelia, encarcerados e soltos pouco menos de 10 horas depois, sem nos ter sido comunicada a razão da nossa detenção.

Motivado por estas atrocidades e, na certeza de não ter cometido crime algum nem nada ilícito, continuei a insistir nessa reivindicação. Desta feita, de forma mais activa e não como mero participante, juntamente com amigos entre os quais alguns também faziam parte do grupo que havia sido detido no dia 7 de Março.

No decurso das nossas actividades, concedi uma entrevista a uma rádio local, “Ecclésia”, falando sobre a manifestação que convocámos e que teve lugar no dia 2 de Abril de 2011 com o lema: a liberdade de expressão em Angola. Após a entrevista venho recebendo chamadas e SMSs que transcrevo abaixo, pondo em risco a minha integridade física:

Dia 29-03-2011

Moço, não viva por ver os outros a viverem.

Lembre-se que cada um tem a sua mãe e mesmo os gémeos

Cada um nasceu distinto do outro. Se voltares a fazer o que

Fizeste, serás um homem morto.

Dia 07-04-2011

Oh Massilon, desperta rapaz. De capanga bastou o teu pai, miúdo acorda qual é a cor do Luaty, Carbono, Elsa, Bonavena, Patrocínio, Manuel Vitória Pereira e tantos outros que estão a frente da manifestação. Tu tens para onde ir? Eles têm, para além de que estão assegurados e tu, o que tens? Olhe para os teus irmãos. Estuda e prepara o teu futuro antes que voltes para o Diríco sem nada.

Estas mensagens e as chamadas tiveram origem do número +244923260144 da operadora de rede móvel UNITEL, que logo a seguir fica fora de serviço, pelo que se me revela impossível retornar as chamadas.

Já por uma vez, encontrando-me ausente de casa, pessoas estranhas bateram à porta e quando a minha esposa foi abrir, dois indivíduos de rosto coberto deram as costas e foram-se embora.

Todos estes factos, sabendo que os mesmos dão-se depois da minha declaração e participação activa em actos que visam repudiar a má governação a que eu considero estarmos sujeitos, fazem-me ligá-los ao regime governamental, o que me leva a torná-los públicos.

Comments
  1. Bob Aka Mussecado says:

    É notório nas hostes de quem Governa Angola, a ciníca preocupação com que as instituições do Governo tentam fazer crer aos jovens. desde o dia 02 de Abril do corrente ano, temos vindo a notar movimentações em várias frentes do executivo, com o real intuito de tornar os jovens passivos, muitos de nós estamos a ser ameaçados a morte, na diaspora as embaixadas mudaram drasticamente o seu objecto social, agora funcionam como activistas do partido no poder, determinados elementos afectos ao sinfo estão no exterior do país com o objectivo de persuadir os jovens a não enveredarem em sucessivas campanhas de pressão contra o regime, em suma, o nervossísmo é tal, que inclusivé, no jornal de Angola o foco das noticias são os jovens, coisa que num passado recente era raro ver. Será que esta preocupação, hoje com os jovens é realmente sincera, ou é apenas mais um dikindo para amainar a nova postura que nós os jovens adoptamos? Desde o alcance da Paz em 2002, honestamente, não ví um único programa do Governo/Executivo dirigido fundamentalmente aos jovens Angolanos, pelo contrário, os que detêm o poder estão mais preocupados com o EU, do que propriamente trabalharem em prol da diminuição dos índices do pobreza. Importa também trazer aqui a acolação as palavras do meu mano Azagaia ” Os que hojé estão a Governar, prometeram-nos uma Angola melhor do que aquela que nós era oferecido pelo colono, fizeram-nos acreditar na liberdade enquanto eramos escravos, fizeram-nos acreditar na igualdade quando eramos segrgados, bombardearam-nos com frases de unidade para nós libertarem das grades da passividade, como é obvio, fomos para luta contra o colono, e muitos morreram. mas infelizmente muitos hojé com uma lágrima no canto do olho, dizem, não foi por esta Angola que nós dão hojé que nós lutamos. As práticas que os colonos utilzaram contra nós, como a exclusão; a falta de liberdade de expressão; a falta de emprego; hojé são a bandeira da governação deste regime, olhemos para os Zangos, Panguilas e em contraste, olhemos para o Talatona (Município de Belas). Aconselhamos ao MPLA, a começar a entender que nós a juventude Angolana acordamos e que os senhores adaptem-se a esta nova realidade, não adianta estarem a orientar para intimidar as pessoas ou compra-las com bens materiais, isto não resolve absolutamente nada, pelo contrário, os senhores vão somente adiar o problema. Deixem-nos trabalhar, deixem-nos exercer o nosso direito de cidadania. Color de Melo dizia ” Numa Sociedade, quando esta não reclama, os governantes pensam que esta tudo bem” e nós estamos aqui para mostrar aos senhores que a nossa sociedade não esta bem, é necessário que o regime mude de politicas e que apliquem na prática o tal socialismo democratico. O MPLA um partido humano? bom dia; se ser humanista é nós perseguirem; se ser humanista é chamar de arruaceiros aqueles que apenas querem mudanças na forma de governação; se ser humanista é mandar matar quem têm opinião contraria a do regime; se o novo significado de humanismo é tudo isso, então estamos todos fodidos.

    ” O futuro Dependerá daquilo que fazemos no presente ”
    Mahatma Gandhi

  2. Kamesu aka voz seka says:

    Meus irmãos, só tenho a desejar foça e dizer que estamos juntos nisso para o que der e vier, afinal, não somos criminosos e nem estamos a vilolar lei alguma, pelo contrario, movimentamo-nos em função dos principios constitucionalmente consagrados. Esta não é uma luta absurda e nem só dos manifestantes, é uma luta de todos quanto se sentem filhos de Angolanos, os que querem uma melhor distribuição das receitas, água, luz, saneamento basico, qualidade de ensino, emprego, teto para morar, dieito a informar e ser informado, paz, saúde, democracia participativa livre circulação, etc… afinal o pais oferece a possiblidade disso e muito mais ser possivel ao contrario do que estamos abituados a ver neste sistema da governação do MPLA e JES. Quero deixar bem claro que, todos quanto fazem parte deste processo, são apenas jovens destemidos e decididos a trazer novos ares para as mudanças de actitudes e mentalidades em prol da paz, harmonia e concordia para todos os Angolanos.

    O lema é claro, LIBERDADE OU MORTE!!! ate que um dia Angola nos lembre como eternos defensores de cada grão de area desta nossa patria que muito amamos.

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