Musicas que nos inspiram a continuar…

Posted: August 9, 2011 in Opinião

Por Paulo Sérgio, do blogue Havemos de Voltar

Este artigo vem na sequencia das manifestações que sucederam (ou não), nos primeiros meses deste ano. Gostaria de ter escrito a bem mais tempo, mas epa, infelizmente por motivos alheios…

Ouvi muitos comentários, nas conversas que fui tendo, ou que fui ouvindo por ai, em que as pessoas demonstravam medo das represálias que podem surgir, por parte do governo/regime se o povo saísse a rua e se manifestasse tal como fizeram os nossos queridos Egípcios, os nossos irmãos na Líbia e seus vizinhos nortenhos.

Bem, para começar, seria a primeira revolução da história, onde não houvesse represálias. Já deve estar subentendido que será bastante complicada a mudança da nossa condição atual, onde reina o medo, com a nossa constituição patética, para uma democracia de verdade, onde haja verdadeira alternância de poder. Esta mudança vai requerer o empenho de TODOS os Angolanos.

Vendo bem, até temos a vantagem de ter as manifestações acima citadas como exemplo, de que o povo unido, jamais é vencido. Vimos isso claramente no Egito. Na Líbia, até mesmo o ministro da defesa viu que estava a matar seus irmãos, deu meia volta virando as costas ao ditador.

Se fizermos uma pesquisa breve pelas revoluções ou rebeliões que ocorreram ao longo da história, confirmaremos que os vários grupos que se manifestaram, de fato arriscaram suas vidas, mas que no fim, na sua maioria o povo prevaleceu. Mas olhando apenas para a nossa história, veremos que desde o tempo dos reinos, até a independência, houve rebeliões entre Angolanos e portugueses, onde até mesmo reis perderam a vida. Essas revoltas devem servir-nos de estímulo para continuar lutando pela justiça e pelos direitos, em todas as vertentes de nossa vida.

Mas porque não procurarmos inspiração na nossa música? Existem várias fontes de inspiração nesta vertente da nossa cultura. Vários músicos já expressaram a revolta pelo sistema político, pela corrupção e pela pobreza que assola os cidadãos. Paulo Flores cantou “explorador dos oprimidos, fora!!”. Bonga também não deixou de criticar o regime em várias de suas letras.

Especificamente no R.A.P, por ser uma música de intervenção, é fácil se encontrar músicas que nos inspirem a continuar! Já há algum tempo que existe um grupo de cantores em que suas letras apresentam um forte conteúdo lírico-revolucionário, os chamados por isso de Revu’s, conscientes, etc. Dentre eles, estão os bem conhecidos MCK e Brigadeiro Matafrakuz.

Começando a discorrer sobre as músicas que nos inspiram a continuar, começo (passe o pleonasmo) por mencionar uma das melhores músicas revolucionarias, em minha opinião, do Hip Hop angolano, do grande McK intitulada “O SILÊNCIO TAMBÉM FALA”.  No inicio desta música, o liricista vai pelo mesmo diapasão de que as revoluções acarretam sacrifícios, quando menciona alguns dos grandes mártires africanos, e canta “Liberdade não cai do ceu, corre atraz dela / O grande exemplo está ai, Nelson Mandela / Liberdade é conquistada com sacrifício e glória / Kuame Nkrumah, Amilcar Cabral, assim confessa a história.

O Mc vai mais além, quando canta que “São Nicolau, Tarrafal, não foram poucas as cadeias / Os puretes doem na carne, mas não desfazem ideias / angolano acorda, chora agora, ri depois…”

Sem sobra de dúvida, as experiências dos presos políticos de tarrafal são mais do que motivadoras para todo mundo que tem medo de represálias. Campo de concentração situado na ilha de Santiago, Cabo Verde, num lugar insalubre, sem casas de banho. A agua era salobra, apenas se disponibiliza um litro de agua para o banho dos detidos. Ao todo, foram 37 mortos, neste campo vitimas da barbárie de A.O.Salazar. Paralelamente, em São Nicolau, as puretes não doeram naqueles que trabalhavam 20 horas p dia, comendo feijão estragado, que cozia com papelões provenientes de lixeiras, e trabalhavam como camponeses em campos com escorpiões e cobras.

É certo que falar é mais fácil, mas realmente mais vale sofrer muito agora, mas levantar a voz, reivinidicar os nossos direitos de cidadãos, chutar o pau da barraca (como dizem os zucas), para depois festejar uma possivel queda do regime, do que passar toda a vida a batalhar, a ter que se virar em esquemas, gasosas e cunhas, e a ver outros a comprarem, privatizarem empresas, praias e arrecadarem cada vez mais milhões, tudo a custa do nosso dinheiro.

Outra música bastante apreciada por mim, e que tem algumas linhas fortemente motivadoras, intitula-se “NADA A TEMER” do nosso Kid Mc. Feat Fly Squad. Assim, como o cantor, também deveremos dizer “Vou lutando por essa gente carente/ Que bala por um futuro minimamente decente”. Não devemos somente olhar para o nosso umbigo, tentar se virar sozinho, e ficar contente porque hoje consegui um esquema dali, uma cunha daqui. Até mesmo tu que tens bastante QI (quem indica) por ser filho do fulano ou sobrinho do cicrano, de um momento para o outro este teu suporte pode ser abalado, até porque existem muitos grandes aos quais foi simplesmente puxado o tapete e hoje estão completamente no anonimato. Não estou a criticar o uso da cunha, também faço uso dela, mas temos nos empenhar para que o nosso filho e neto não precise dela futuramente. Realço também o verso que diz “Esta é a voz do angolano que acredita na mudança” ao contrario do que muitos de nos dissemos, “isto é Angolée.”

Uma das frases que mais me marcou, poderia ser o slogan de qualquer revolução. “O homem que não luta por uma causa nunca foi digno de viver” a música é “FAREI O QUE EU PODER”. A frase por si, diz tudo.

Talvez o que nos falta é aprender mais cedo sobre estes grandes personagens que mencionei acima. Talvez seja por causa disso que o pai Kleva, munido de grande inspiração e sabedoria, proferiu tais versos. “Desliga a televisão vê cassete e escuta / Com atenção porque é verdade que a luta / Continua e que a vitória é doce, mas curta / Sangue suor e lagrimas, por isso acredita / Alguém suou, sangrou, morreu, lutou, / Pra que a luz brilha-se no fim do túnel e/ Podesses hoje aprender coisas de sonho e de verdade / Mas é preciso saber o que custou a liberdade. / Foram vidas e mais vidas daqueles que lutaram / Não se calaram sofreram morreram mas no fim venceram / Esta Angola fizeram, e é o sangue dessas vidas que corre nas tuas veias/ Não são heróis de papel desses que vez nas telas / Não são estórias de Hollywood nem de telenovelas/ São Mandumes, Netos e Pepetelas/ Kwame N’krumas, Lumumbas Samoras e Mandelas / Essas histórias verdadeiras, tu tens q aprende-las / Essas lutas verdadeiras tu tens que aprende-las.

Estas ilustres figuras humanas são ou eram de carne e sangue como nós. A diferença é que estas dedicaram sua vida à defesa de causas nobres, e que arriscaram sua integridade física e até a vida em prol desta causa. Contrastando com a maioria de nós, que se não arrisca levantar a voz, ou se manifestar, com medo de perder o seu starletzito a sua casa no rocha pinto.

Mas não é demais nos recordarmos de quem foram algumas dessas figuras de relevo na história africana. Kwame Nkhrumah nasceu em 1909 fez formação superior nos Estados Unidos. La foi eleito presidente as organização dos estudantes africanos dos Estados Unidos e Canadá. Nkrumah também ajudou a organizar o quinto congresso Pan-Africano em Manchester. Este tomou posição contra algumas leis estabelecidas pela então colónia britânica, no que diz respeito à lei de votos, organizando boicotes, greves e incitando a desobediência civil. Por causa disso, ele e alguns dos membros da Convenção de Partido Popular (CPP) partido fundado por ele, foram presos e condenados á 3 anos de prisão. Porem, não resistindo a pressão, os Britanicos acabaram por abandonar o País, e a organizar a primeira eleição geral, que foi ganha por esmagadora maioria pelo CPP e por Nkhrumah.

Patrice Lumumba foi líder antí-colonial, lutou pela libertação do Congo Belga, e foi eleito primeiro-ministro em junho de 1960 na República Democrática do Congo. Foi deposto e assassinado num golpe de estado, com indícios de envolvimento dos governos belgas e Estado Unidenses.

Nelson Mandela, aka Madiba dedicou praticamente toda sua vida a causa do apartheid que negava aos negros direitos políticos, sociais e económicos. Este presenciou a ascenção ao poder do partido Africânder, que promovia a segregação racial e ao massacre de Sharpeville, em 21/03/60, quando ao policia sul-africana atirou em manifestantes negros desarmados, matando 69 e ferindo 180. Madiba se tornou então comandante do braço armado do ANC, sabotando alvos militares, comandando guerrilhas, e por estes atos foi preso e condenado em 67 por Prisão perpétua. Este símbolo de resistência, simplesmente se negou a trocar a liberdade condicional pela recusa em cessar o incentivo a luta armada. Foi libertado por Frederik de Klerk em 1990 devido, sobretudo as fortes pressões políticas do exterior. Este recebeu o prémio Nobel da paz, para além de outros galardões e foi coroado com a eleição a presidente do seu país em maio de 94 nas primeiras eleições multirraciais da A.do Sul.

Finalizo este artigo fazendo menção a todos aqueles que de uma forma ou de outra levantam sua vós, quer por meio de imprensa escrita, imprensa falada, blogs, ou mesmo em pequenas palestras com amigos e vizinhos. Menção especial para aqueles que não escondem a cara, que assumem sua posição publicamente, sem medo das represálias. Abraço especial aos nossos músicos e produtores, que usam o seu precioso tempo, escrevendo letras, passando dias e dias em estúdio gravando, mas sem perder o desejo de nos proporcionar boa música, música que educa, que nos faz pesar mais além e nos faz ver mais do que os nossos olhos vêm. Abraço especial aos cantores underground em Moçambique e Portugal, especialmente para o mano Azagaia e o Valete.

Paulo Sérgio

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s