Análise do Africa Monitor sobre os acontecimentos da última semana

Posted: September 10, 2011 in Argumentos, Denúncia, Direitos, Direitos Humanos, Luanda, Manifestação dia 3 de Setembro

A Africa Monitor no seu número 592 começa por analisar a tendenciosa posição da RTP que desde o dia 7 de Março têm minimizado as manifestações de descontentamento e que desta vez, não sendo possível fazê-lo, conseguiram ainda assim “esquecer-se” de mencionar na sua peça a agressão física a que foram sujeitos os seus afro-repórteres (sim, porque o Catarro não haveria de se meter no meio da confusão e arriscar-se a ficar com nódoas negras), ocorrência que normalmente deveria ser sublinhada como sendo de EXTREMA GRAVIDADE. Segue coma construção de um raciocínio muito solidamente argumentado e apoiado em hipóteses elaboradas após pesquisa sobre intervenientes e suas ações. Segue abaixo:

 

» A RTP África, no seu primeiro serviço noticioso próprio, Repórter África, a seguir às manifestações de protesto, Luanda, 03.Set, prestou ao assunto atenção irrisória: duas mensagens de rodapé, uma das quais depreciativa para os manifestantes. Os temas de extracção angolana merecedores de atenção no referido serviço foram a inauguração de uma nova ponte no Rio Cuanza e um jogo de futebol. Dois operadores da delegação de Luanda da RTP, Hugo Ernesto e Nicolau Chimbila, foram agredidos (contusões na cabeça e braços) quando no largo da Igreja da Sagrada Família colhiam imagens da manifestação, tendo sido assistidos numa clínica; a câmara que utilizavam foi danificada. Os autores das agressões, estendidas a outros jornalistas que cobriam o acontecimento (p ex, António Cascais, da DW alemã), foram comumente identificados como oficiais da Segurança. O correspondente da RTP em Luanda, Paulo Catarro, (não presenciado no local), fez alusão, numa reportagem sobre o assunto, emitida pelo TJ, RTP 1, 03.Set, à danificação do material, atribuindo-a a “elementos não identificados, infiltrados entre os manifestantes”; não assinalados, porém, os danos físicos causados aos operadores.
Angola
Repressão calculada, mas dissimulada, para destroçar manifestações de protesto.
Pesquisa e análise
1 . O emprego de práticas coercivas na conduta das autoridades destinada a controlar uma manifestação pública de protesto anti-regime, 03.Set, foi ditado por análises internas de acordo com as quais a mesma tenderia a “alastrar” e a converter-se numa “ameaça”, caso não fosse destroçada com rapidez e com demonstrações de firmeza.
Por forma a evitar e/ou a limitar o ónus político, interno e externo, de tal conduta, foram notados na prestação in situ das autoridades métodos especiosos como as seguintes:
– A Polícia uniformizada, presente no local com o fim de garantir a segurança, manteve em geral compostura conforme com padrões aceitáveis.
– As acções violentas (e outras, ditas especiais), exercidas contra manifestantes e jornalistas, foram protagonizadas por operacionais de um grupo especial do
aparelho de Segurança; trajavam à civil, alguns deles ocultando porretes, e chegaram ao local confundidos com os manifestantes.
A acção contra os jornalistas deixou transparecer o propósito premeditado de os impedir de efectuar registos audio-visuais dos acontecimentos (agressões físicas e/ou inutilização de equipamentos). O intento foi alcançado: as imagens postas em circulação para ilustrar os acontecimentos eram escassas e pouco expressivas.
2 . O uso da violência por parte dos operacionais da Segurança foi precedido de acções tecnicamente consideradas “de provocação”, com o fim aparente de exasperar os manifestantes e a criar a ilusão de que terão sido eles a praticar excessos, em razão do que as autoridades tiveram de “repor a tranquilidade e a ordem pública”.
A detenção de manifestantes, 21, e sua apresentação à Justiça (julgamentos presentemente em curso), é vista como correspondendo a um “artifício” , o de vincar a ideia de que a lei e a ordem foram por eles violadas, tendo sido esse o quadro em que as autoridades agiram.
Nos dias que precederam a data aprazada para a manifestação foram assinaladas iniciativas várias, tendentes a aliciar materialmente (também a paralisar por via de persuasão), os seus promotores. Uma dessas iniciativas foi levada a cabo pelo Gen José Tavares (AM 519), uma figura próxima de José Eduardo dos Santos.
De acordo com uma caracterização sociológica expedita dos manifestantes, trata-se na sua maioria de jovens com origens no Sambizanga ou ainda ali moradores, sendo diversa a sua condição social (Casimiro “Carbono” é filho de um ex-governante). O Gen J Tavares é uma personalidade influente no Sambizanga.
3 . A dureza já antes assinalada na linha de conduta das autoridades face a episódios similares (AM 546), é baseada em concepções internas segundo as quais uma atitude tíbia, ou passível de ser interpretada como tal, poderia vir a ter consequências negativas para a solidez do regime e sua sobrevivência.
Está igualmente referenciada no recurso a tal dureza a intenção de conter correntes e sensibilidades internas que consideram mais apropriado o regime condescender com o fenómeno dos protestos e promover aberturas e reformas para os despojar de razão de ser, em lugar de os reprimir – ainda que ilusoriamente.
O recurso à repressão é, nos seus efeitos, minimizado por convicções de adeptos de tal linha como o de que se trata de “um mal menor” (uma manifestação é considerada “uma ameaça”), dispondo o regime de vantagens políticas, mediáticas e de influência capazes de lhe permitir enfrentar eventuais adversidades.
4 . Além da conveniência de “agir resolutamente” para controlar protestos que num ambiente de complacência tenderiam a alastrar e a escapar ao controlo do regime, foram considerados, na lógica da linha de reacção adoptada, mais os seguintes factores:
– Desmotivar o surgimento na política internacional de atitudes de expectativa ou mesmo de condenação – cenários considerados possíveis na eventualidade de os balanços de situação apresentarem o regime em estado de fraqueza/necessidade ou por estar a aplicar força ostensiva para controlar tal emergência.
– Iludir com manifestações de firmeza e determinação o nervosismo que meios do regime, justificando as mesmas com a invocação de uma causa de interesse geral – evitar a eclosão de uma nova guerra.
5 . Em meios habilitados conjectura-se que a superestrutura do regime passou a encarar o cenário de manifestações populares de protesto com temor excessivo no seguimento da rebelião na Líbia (muitas semelhanças com Angola, vistas como passíveis de “aproveitamentos” pelos opositores internos).
A riqueza na Líbia estava concentrada num grupo do poder ligado ao líder ou que à sua volta gravitava; o sustentáculo de protecção do regime era representado por orgãos de segurança; a aparente coesão social e política do país desmoronou-se facilmente ante a pressão gerada pela revolta.
Acresce que a Líbia era um produtor de petróleo de uma ordem de grandeza equivalente à de Angola, o que não impediu que os países ocidentais, até então próximos de Muhamar Kadhafi, se demarcaram do mesmo e/ou passasseam a recriminá-lo no seguimento da erupção da revolta e da frouxidão inicial para a conter.
O regime angolano, que tradicionalmente cuida de captar apoios internacionais ou simples gestos de simpatia para as suas políticas gerais, cujos efeitos aproveita no plano interno, vê com incomodidade reacções externas adversas do tipo das que a Líbia passou a ser alvo depois de demonstrar fraqueza.

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