A Tragédia de um Povo – Parte II

Posted: March 26, 2012 in Argumentos, Opinião

Segunda parte de um extenso e fantástico artigo de opinião escrito pelo nosso mano de companheiro de luta, Mbanza Hamza. Segue

 

O segundo aspecto: “Votando num Rei”

Um rei não precisa de votos. Seu poder é eterno ou até a sua morte. A submissão é a marca registada do monarca. Alguns reis foram destronados quando deixaram de entender a sua missão como servidores e remeteram para a particularidade dos indivíduos, ou quando quiseram sacrificar seus suditos para salvaguardar interesses funestos. Até mesmo reis são destronados!

A paz em Angola é muito frequentemente apresentada como o altar de sacrifícios, onde se deva sacrificar a crítica, a contestação, a legalidade do presidente da república até mesmo o desacordo quando leis e resoluções são elaboradas a contra vontade do povo.

Vê-se constantemente ventos soprarem em sentidos contrários entre os que representam a oposição política quando o assunto é a legalidade. De modo geral, os ventos sopram mais contrários ainda entre a vontade do povo e aquilo que em casa fechada e mesas redondas se pensa a vontade do povo.

É assim que vemos partidos políticos da oposição comportarem-se como os sensores russos. Abrem mão com frequência, sem medir consequências ou simplesmente ignorando as consequências quando em cena está o que deve falar mais alto.

Pior do que isso é a posição de submissão a que todos nós fomos submetidos e principalmente àqueles que deviam falar em nome do povo, os parlamentares. Fazem-no pela legalidade, para que se cumpra o que está plasmado na lei. Leis como a constituição que todos sabem que foi promulgada para satisfazer os caprichos de um homem (apesar de algumas desatenções a nosso favor na mesma, o homem tem sabido de igual modo manobrar e manipula-las a seu favor). Se calam ante órgãos de soberania que a priori sabe-se não serem independentes, isentos e a serviço do povo. Cumprem até o excedente. Tentam boicotar a lei, mas quando um minguante da oposição acha que esta ou aquela lei é a contra vontade outros lêem o contrário e vice-versa. No fim de tudo, nada se boicotou, estamos todos a cumprir a constituição atípica, estamos todos a negar o artigo 107, estamos todos sob as rédeas de Suzana Inglês etc. Não  obstante ao muito, pouco ou nada que se fez para inverter o quadro.

Para os que ainda não entenderam o fracasso dos boicotes da oposição esteja ela ou não em bloco é que ela não perfaz 1/5 da assembleia, fração mínima necessária para inviabilizar a aprovação de uma lei na casa fechada. A constituição dos deputados da oposição é algo arquitetado e não foi lá pelo seu voto que nem contou oh Zé-ninguém! Assim, não espere que a oposição um dia venha bater o pé nesta casa fechada e impedir os caprichos do MPLA.

A oposição está bloqueada, assim como o restante povo, parece não haver formas de parar esta rédea abusiva. Esta não é a verdade. Infelizmente os partidos políticos da oposição não só perderam os olhos para ver como também pedem-nos para votar num Rei.

O MPLA cria insinuações eleitorais e os partidos da oposição nada mais fazem do que nos pedir para votar. Muitos deles vão à eleições convictos de que não vão vencer nem fazer diferença alguma ou como se ouve algumas vezes “vamos as eleições sem grandes ilusões”. Absurdo! Se se entender que desta maneira estão-nos a obrigar a perpetuar um rei que viu na falsa democracia e insinuação eleitoral seu escudo.

Em eleições como estas onde os adversários vão sem grandes ilusões, derrotados de antemão e o partido no poder a prometer uma vitória esmagadora, de que adianta ir votar? De que adiantam os observadores internacionais ou nacionais? De que adianta aguardar a publicação de resultados? De que adiantam os gastos de tinta, papel e logística?

Então para que existem estes partidos? Permitam-me dizê-lo é para uma única coisa que estes partidos existem; só existem para escudar a monarquia eduardista.

Até o mais manso dos homens no planeta não agiria de tal forma. Estes partidos deviam aprender de Che Guevara que disse diante de injustiças como esta monarquia disfarçada: “Prefiro morrer de pé que viver sempre ajoelhado”. Os nossos partidos da oposição aplicam esta máxima ao contrário quando aceitam e cumprem os caprichos de um Tribunal
Constitucional que de Tribunal só tem mesmo o edifício, com exigências exacerbadas como as de os partidos não reconhecidos além de apresentarem as assinaturas, devem incluir declaração dos seus apoiantes a dizer que querem que o partido concorra as eleições. A indicação de Suzana Inglês, os delegados das mesas de voto provinciais e municipais, etc, etc. Para estes partidos “preferem morrer ajoelhados que lutar para se manter em pé”.

Talvez o façam para manter a legalidade ou para não serem adjetivados de confusionistas, incompetentes, beliscadores, agitadores, marionetas ou fantoches do imperialismo etc.
Bem, para mim, com Eduardo dos Santos não vou para legalidade. Eduardo dos Santos para mim é o patrono da ilegalidade. Está no poder ilegalmente há mais de 30 anos. Promulgou uma constituição sendo ele ilegítimo. Defraudou as eleições de 2008. Conta-se que até a forma como conseguiu a sua atual esposa foi usando desta sua sublime faceta – a ilegalidade.
Relatórios sobre crimes cometidos por Eduardo dos Santos enchem os arquivos do TPI. Os seus grandes escudeiros nos tribunais, muitos deles são assassinos do 27 de Maio que deviam estar nas cadeias, ele incluso. As recentes publicações de contas pelo advogado e político David Mendes reforçam mais ainda a imagem deste patrono da ilegalidade corrupto e falso presidente.

Eu me pergunto por que se deva insistir em cumprir ao pé da letra as manipulações e caprichos deste regime. Existem provas e sustentação dos factos, que este regime é ilegítimo, criminoso, assassino, máfia, ditatorial! Para mim, prefiro morrer de pé que viver sempre ajoelhado!

Terceiro aspecto: Não Estar Comprometido

Eduardo dos Santos nunca se comprometeu com ninguém. Nunca tomou posse e nem jurou servir a nação conforme artigo 115 da CRA:

Artigo 115.º
(Juramento)

No acto de posse, o Presidente da República eleito, com a mão direita aposta sobre a Constituição da República de Angola, presta o seguinte juramento:

“Eu (nome completo), ao tomar posse no cargo de Presidente da República, juro por minha honra:
Desempenhar com toda a dedicação as funções de que sou investido;
Cumprir e fazer cumprir a Constituição da República de Angola e as leis do País;
Defender a independência, a soberania, a unidade da Nação e a integridade territorial do País;
Defender a paz e a democracia e promover a estabilidade, o bem-estar e o progresso social de todos os angolanos.”

Seu executivo não se comprometeu com absolutamente nada. Este governo tomou de assalto o poder e está ai imóvel e sem nada temer. Quando não se está comprometido não se dá satisfações a ninguém. Não existindo sensibilidade a ser feridas governa-se a bel-prazer sem ligar importância a nada que não seja do interesse pessoal e do punhado de pessoas
circundante.

Numa situação dessas, urge recuar no processo e restabelecer a legalidade. Tentou-se fazer isso em 1992, mas 13 anos de poder ininterrupto já terão viciado o nosso Zé Kitumba que não viu outros meios senão forjar uma batota.

Outra tentativa veio 16 anos depois. Se treze anos o viciaram para fazer uma batota razoável, dezasseis anos já o tinham monarquizado, defraudou com 82%. Agora, depois de 33 anos é possível esperar uma de 100% ou quem sabe 200%!!!

Por outra, criou relações e abriu facilidades com aqueles que acha que podem intraquilizá-lo no poder, as potências externas, quanto mais confiança ganha destes, menos interesse tem em ver o povo com o qual não se comprometeu, muito menos com a miséria, o sofrimento, que delegou às igrejas que só vêm diabos em tudo e aguardam sentados por milagres como mais Eduardos dos Santos no próximos 100 anos e um paraíso no próximo milénio.

Enquanto vos acabrunhais em leis, constituição, paz tranquilidade e tudo mais, escudos de ditaduras disfarçadas, ele logra a passos largos na expansão da sua riqueza e influência.

Se ninguém cobra, muito melhor. Se começa a aparecer quem cobre, faz o que bem entende pois não está comprometido com nada e ninguém, por isso quem cobra, não importa de que forma seja deve ser reprimido. E não é pouco o poderio repressor destes ditadores.

Infelizmente, tudo tem sido traçado e perpetuado sob o nosso olhar. Como os sensores russos dizemos “ninguém será afetado, a seu tempo ganharemos as eleições e organizaremos o país”. Ou de outro modo, “eu não me meto nisso, é política deixa que os políticos lutem um dia hão-de mudar as coisas, aliás, coisas piores já aconteceram neste solo”.

A ignorância (ganância incluída), a submissão e não ler os sinais dos tempos já estão a nos levar a uma tragédia irreversível. Para mim, “prefiro morrer de pé que viver sempre ajoelhado!”

Mbanza Hamza, o soldado esquecido.

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