Archive for June, 2012

Foi no programa semanal que co-apresenta com João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Carlos Marques, intitulado “Governo Sombra”, que o Ricardo Araújo Pereira considerou digno de referência o caso que quase me atiraria para os calabouços por tempo indeterminado. Antecipou-se a muitos jornais e periódicos que, no meio dos seus próprios problemas de crises financeiras e o europeu de futebol, não parecem considerar este acontecimento merecedor de atenção mediática. Não lamentando o que não nos é dado, é sempre melhor congratular-nos com o que nos dão e fico muito honrado por alguém do calibre do Ricardo dar uma pincelada de humor numa história de contornos tenebrosos que poderia ter acabado de maneira muito mais infeliz para mim.

Luaty Beirão

Aqui vai o vídeo que resolvi finalmente fazer com os pormenores da epopeia que se tornou a minha última viagem para Lisboa. Já comecei a receber emails com questões específicas que abordarei nos próximos vídeos. Peço desculpa pela qualidade dos mesmos, mas a urgência obriga a usar os meios que temos disponíveis. Obrigado pelo apoio de todos, vocês estão a ser propulsores a jato da cambalhota que esta história de contornos macabros está a ter. Mais um pela culatra!

Abraços

Luaty

Como sabem, foi encontrada na minha bagagem de porão (uma roda de bicicleta) um pacote contendo 1 kg de cocaína. Por lei, uma quantidade tão grande dessa droga equivale a uma medida de coação severa, a prisão preventiva, que significa reclusão num presídio enquanto se aguarda julgamento. O Juiz no entanto decidiu deixar-me sair em liberdade com “Termo de Identidade e Residência”, a mais leve das medidas existentes para QUALQUER acusação que requeira ida a julgamento. A minha intenção era de fazer um vídeo contando detalhadamente o que se passou, mas ocorreu-me que poderia alargar isso para uma espécie de “diálogo” com quem tenha dúvidas e questões concretas para colocar-me acerca deste assunto, uma espécie de entrevista aberta a todos, que eu irei respondendo através de vídeos curtos. Terei o maior prazer em responder a QUALQUER pergunta que possam ter (se forem perguntas sérias e não palhaçada). Quem não tem conta youtube pode escrever-me para o mail: ikonoklasta@musician.org

Luaty Beirão

MBANZA HAMZA, CARBONO CASIMIRO, LUATY BEIRÃO E GASPAR LUAMBA NA MIRA DA MORTE

O Mano Luamba foi raptado hoje 14 de junho de 2012 as 12h na Universidade Jean Piaget em Viana por 4 indivíduos não identificados e mantido refém durante 3h. Os seus raptores o interpelaram dentro da universidade enquanto este terminava de fazer uma prova. Mandaram-no chamar e quando este chegou, procuraram confirmação da identidade “é mesmo o Luamba?” questionaram, o nosso mano por neste estar na universidade sentiu-se seguro e assumiu a identidade perguntando se havia algum problema, os raptores responderam “ainda não tens, mas terás dentro em breve, acompanha-nos”. O mano retorquiu “para onde me levam?” um dos raptores desferiu-lhe duas bofetadas e disse-lhe para não apresentar resistência. Algum pessoal ao ver o sucedido, saiu em alvoroço contra os raptores ao que agilmente conseguiram escapar empurrando o Luamba num Prado e sair a zunido.

Neste entretanto, Luamba manda uma mensagem telefónica ao Mbanza que dizia “Estou mal”. Mbanza Preocupado liga para o companheiro falam por apenas 5 segundos, tudo que o Luamba diz é “a situação aqui está crítica” e desliga o telefone. Mbanza preocupado e sem entender o que se estava a passar informa o restante dos manos sobre a situação. Os manos preocupados, ligam para o Luamba mas este não atendia.

Carregaram-no para os estaleiros da odebrecht algures na via expressa. Para sua surpresa arrolaram na sua frente, alicates, facas, armas de fogo e material de tortura. O mano conta que a única agressão que sofreu foram as duas bofetadas disferidas na universidade. Descreve o líder dos raptores como sendo meigo, educado e que por muitas vezes evitou que o mano fosse torturado fisicamente ou molestado, coisa que os outros queriam com todo prazer fazer, até ameaças de arrancarem-lhes as unhas para falar a verdade.

Os raptores queriam saber quanto é que a UNITA e a CASA-CE nos pagam para fazermos o que temos feito. Que apoios externos recebemos. Quanto queremos. E coisas do género. Mas não se limitaram a passividade. Queriam saber onde o Mbanza Mora. A esposa do Carbono e a suposta viagem que este está a planear fazer. Deixaram claro a ele que sobre nós eles sabem até o excedente. Sabiam quando é que o Luamba tinha partido e chegado de Malanje, sabiam dos planos da viagem do Luaty, das nossas vidas particulares etc.

Segundo eles o quarteto Mbanza, Luaty, Carbono e Luamba deve imediatamente apresentar a sua contraposta nesta pseudo negociata. O não cumprimento implicará medidas drásticas e garantiram que “nenhuma lei vos defenderá, nós vamos partir para ações muito drásticas e não haverá lei que vos defenda”. “O que nós queremos é a manutenção do poder, tudo fora disso não serve. Repetimos, ou vocês apresentam a vossa contraproposta ou nós tomaremos medidas drásticas”.

“O quarteto já mencionado é que tem financiado estas atividades, vocês é que estão com os dinheiros e aqui fica o aviso, é melhor levar isso a sério, por que não haverá nenhuma lei que vos defenda”. O Luamba diz que os raptores não são caênches, são gente fina, bem apresentados e em carros não muito luxuosos, “em carros normais” como descreveu o mano.

“Nós estamos entregues a bicharada” assim como disse o mano Luamba, esta é a nossa sentença e este texto pode vir a ser uma das poucas produções nossas. Eles sabem mais sobre nós do que nós mesmos sabemos. As nossas vidas mais do que nunca correm grande perigo, a qualquer altura podereis ouvir que estamos mortos, por isso é bom que a UNITA, a CASA-CE, e outras forças políticas e até mesmo esta famigerado apoio externo (que nem existe e nem sei se existirá) confundidas como sendo nossos apoiantes, saibam que podemos ser mortos a qualquer altura. Não por que vocês nos apoiam (até por que se assim fosse, muitos de nós na estariam com contas elevadas e multas a pagar nas faculdades), mas por que eles acham que é assim e que nós somos os fomentadores do ataque que levará ao fim deste regime.

Aqui vai o nosso apelo a toda sociedade Angolana e não só, Estamos na Mira da Morte!

Assina Mbanza Hamza, o soldado esquecido.

Gaspar Luamba o visado pela ação de hoje!

Lisboa, dias 11 e12 de Junho. Uma história muito batida, tão batida que já não bate.

Henrique Luaty da Silva Beirão, partiu de Angola dia 11/06/12 para vir participar na tour de Batida.

Teve problemas com o passaporte à saída de Luanda, sem qualquer justificação formal e a sua bagagem de porão foi mexida por elementos do DNIC, já depois de entregue, segundo dois elementos da equipa do aeroporto, que fizeram questão de o avisar quando entrava no avião.

Ambos os factos ficaram registados em dois sms´s trocados com MCK antes de partir.

À chegada e depois de uma denúncia recebida de Luanda, Luaty foi abordado por dois agentes que constataram a existência de um pacote de 1kg de Cocaína, na sua bagagem remexida.

Foi levado como provisório para a Judiciária onde pernoitou e aguardou ser recebido por um Juíz no dia seguinte no Campus de Justiça que, perante os fatos e relatos, não hesitou em deixá-lo sair em liberdade durante o resto do processo.

Tem apenas de comunicar (sem carecer de autorização) qualquer mudança de residência, dentro ou fora do país. Esta é a medida mínima prevista na lei para quem se encontra num processo de investigação. Coisa rara em situações semelhantes, tal a convicção de não tratar-se de uma caso de policial, mas de um caso político.

Ao longo do dia choveram mensagens de apoio ao Luaty e de repúdio à óbvia perseguição que existe a todos os activistas assumidos ou a qualquer um que ouse ter opinião diferente em Angola. Aqui fica o nosso humilde agradecimento a todos.

Pedro Coquenão

Olá a todos, jornalistas, ativistas e amigos,

Antes de serem surpreendidos com mais uma campanha de difamação, provavelmente escrita há já uns dias e pronta a ser publicada hoje mesmo em algum dos veículos habituais de propaganda, aqui fica um relato factual do dia 11/06/2012:

Ontem, Henrique Luaty da Silva Beirão também conhecido por Ikonoklasta, chegou a Lisboa, vindo de Luanda, para vir participar na tour do projeto Batida, do qual faz parte. Quando recolhia a única bagagem de porão que trazia, uma roda de bicicleta, o seu meio de transporte preferido, embrulhada em plástico e que parecia ter sido remexida por aparentar um volume estranho, foi abordado por dois agentes que confirmaram a sua identidade e que constataram depois a existência de um pacote de cocaína dentro dessa bagagem.

Está retido no Campus Justiça a aguardar calmamente por ser recebido amanhã. Não tenho mais detalhes, por agora.

Ele não tem quaisquer antecedentes, sem ser os que têm acompanhado no último ano: Ativismo pacifista.

Como tantos outros em Luanda, tem sido perseguido física, social e politicamente, como têm testemunhado.

Felizmente isto não aconteceu em Luanda e confiamos nos traços grosseiros desta história, como evidência por si, aos olhos da justiça.

Não pretendemos ter espaço de notícia com isto, mas se o fizerem, agradecemos a oportunidade de darem esta metade dos acontecimentos.

Esperamos também que seja já o próprio a poder já responder a quaisquer questões que achem pertinentes.

Relembro ainda que, no ano passado, depois da sua chegada a Lisboa. pela mesma altura e pelos mesmos motivos, foram divulgadas nos media Angolanos, notícias de que se teria exilado em Portugal e abandonado o seu país.

Sem qualquer fundamento, nem fonte.

Amanhã volto ao contacto.

 Se necessário usem este email para recolha de fatos, testemunhos, apoio ou contato telefónico.

 -Pedro Coquenão

Peça voxpop gravada em Trafalgar Square na capital inglesa, pela equipa da MwangolêTV, canal de jovens angolanos residentes na Inglaterra com subscrição via cabo. Os manos andaram a mostrar as fotografias da violência aos transeuntes, recolhendo as suas reações e sentimentos em relação a luta dos angolanos pela democracia e direitos civis básicos. Eis um exemplo do que a diáspora pode fazer para se articular com os ativistas do terreno, os que levam ferros e colecionam cicatrizes.

Bom trabalho manos. Estamos juntos!