Estratégias da campanha

Posted: September 13, 2012 in A Voz do Povo, Argumentos, Eleições 2012, Opinião

*Nota informativa: A Central recebeu este texto por email, enviado por um dos nossos contactos, mas infelizmente o texto não veio assinado. Sendo assim, não sabemos ao certo quem o escreveu, mas o texto tem cara de ser do António Tomás. Teremos que confirmar vasculhando pela edição passada do Novo Jornal. Boa leitura.

Li o programa da UNITA muito por alto e não fiquei impressionado. Mas tampouco o programa do MPLA me impressionou. Um slogan chamativo (crescer mais, distribuir melhor), sem dúvidas, mas muito vago (deveter sido a nova estratégia, depois da promessadas tais casas que nunca se concretizou). Fiquei a perguntar-me o que significar crescer mais num contexto em que o crescimento está atrelado ao petróleo e, por isso, oscila aosabor das subidas e descidas do preço deste produto. Por outro lado, sugerir a dependência da distribuição ao crescimento devia levantar suspeitas. Crescer é um imperativo económico; distribuir é um imperativo ético. O bom seria o MPLA pensar em distribuir melhor mesmo que não se cresça.

Convencido da superioridade do seu programade governo, claro que o MPLA procurou tornar a discussão dos programas o principal tema da campanha eleitoral (Embora o MPLAtenha preferido o monólogo com as massas, em vez do diálogo com a oposição, o que seria muito mais instrutivo para os eleitores). A seu favor tinha o facto de ter colonizado os meios de comunicação social, que se tornaram meras caixas de repetição da mensagem do partido. Porém, a dado passo da campanha,a UNITA mostrou que podia inverter asituação.

Com muito menos recursos, a UNITA fez uma campanha que não deixou de ter o seu interesse. Porque percebeu que estava em causa não programas de governo (cuja elaboração nas presentes condições seria simplesmente uma perda de tempo, porque o sistema não está configurado para que o MPLA se possadar ao luxo de perder as eleições), mas trazerà apreciação do eleitorado a grande questãodas eleições de 2012: está Angola em condições de organizar eleições livres, justas e transparentes?

E por um instante a estratégia da UNITA (se foi uma estratégia) vingou. A UNITA, através dos relatórios, das pressões à CNE, conferências de imprensa, conseguiu colocar o MPLA fora da conversa, fazendo com o que o maioritário perdesse a iniciativa. O facto de a UNITA ter convocado uma manifestaçã ouma semana antes da eleições, e o MPLA ter respondido com a promessa de uma contra-manifestação, só prova que neste momentoo partido no poder estava em estado reactivo.

Mas também já se desenhava a queda da UNITA. Este partido da oposição viu-se entreter de escolher se participava ou se saía do processo eleitoral. E aí Samakuva foi errático, mostrando que não sabia muito bem o que fazer. Primeiro anunciou um boicote às eleições, depois afirmou que o seu partido afinal participaria. Entretanto, pediu um encontro com o presidente dos Santos para discutiro adiamento das eleições. Quando era de esperar, para quem conhece o Presidente dos Santos, como Samakuva deve conhecer, que este encontro nunca se realizaria. E foi neste contexto que Samakuva pronuncioua frase mais reveladora de toda a campanha eleitoral: que ir a votos era decisão mais difícil que tinha tomado na vida (reproduzo-a de memória). E compreendo por que o tenha sido. É muito provável que nunca sabermoso impacto da indecisão da UNITA nos resultados eleitorais (por causa das falhas nunca sabermos até que ponto as mesmas beneficiaramo partido no poder). Ou, sobretudo,o impacto de tal hesitação nas hostes do seu próprio partido. A UNITA fez uma campanha inteira a mostrar que o processo estava inquinado,e quando percebeu que não podia corrigir as falhas, ficou sem grandes alternativas para convencer os seus eleitores da necessidade de irem às urnas.

Não estou a dizer que a UNITA seja a responsável pelos grandes valores da abstenção.Se assim fosse, bastava somar osvotos da UNITA e os números da abstenção(à volta dos 40%, o que coloca Angola a nível de países como Portugal e França) para termos uma ideia mais clara da força deste partido na sociedade angolana. Por outro lado, há também que distinguir a abstenção voluntária (aqueles que não quiseram votar), da abstenção involuntária (aqueles que embora tenham querido votar, não puderam fazê-lo por causa das falhas da CNE em providenciar a tempo os cadernos eleitorais para que os erros pudessem ser corrigidos). E é bom não esquecer que um dos vencedores do pleito foram os votos em branco.

A actuação da UNITA foi fundamental paraque muitos eleitores, independentementeda cor partidária, pudessem perceber que temos um imenso défice de democracia. É como se a UNITA tivesse feito o papel do cómico no teatro barroco. Pela imitação levada ao absurdo dos maneirismos da nobreza dava-se a perceber ao público que havia qualquercoisa de errado no sistema que tornava possível a existência de tal nobreza. A UNITA fez isso pela participação num processo que considerava viciado, mas que cuja participação tinha também o propósito de revelar aos eleitores que o sistema estava viciado.

Estas eleições só vieram mais uma vez provar a situação ingrata em que a UNITA se encontra. É como tentar jogar futebol com uma equipa que joga râguebi, pelas regras do râguebi. É impossível ganhar em tais circunstâncias. Isso coloca a UNITA constantemente em cima do muro. Foi assim com a aprovação da constituição, em que a UNITA abandonoua sala, sem ter abandonado o parlamento. A única saída para a UNITA, parece-me, é inventar regras novas que lhe permita jogar futebol ainda que o MPLA jogue râguebi.

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