Resumo das atividades do Movimento Cívico em 2012 – Mbanza Hamza

Posted: December 17, 2012 in Argumentos, Notícias, Opinião

mbanzera

Fonte: http://www.issuu.com/revistacibernetica

Fazer ativismo em regimes ditatoriais e totalitários é muito difícil. A situação piora quando a ambição de poder e a vontade de se eternizar no trono corrompem o já corrompido ditador, Angola é parte deste episódio triste, tão triste porque a vasta maioria dos que hoje oprimem o povo, foram os que outrora lutaram para libertá-lo da escravidão colonial portuguesa. Mudaram-se as frentes, criaram-se novos inimigos, enriquecem e fazem-se enriquecer e esqueceram-se o povo.

Desde Março de 2011 que um punhado de jovens, que vai crescendo a seu rítmo, tem manifestado publicamente o seu descontentamento contra a administração de, um dos 10 mais longevos chefes de estado do mundo, José Eduardo dos Santos e da sua máquina opressora/desgovernativa MPLA.

A razão deste descontentamento encontra eco primeiro, na longevidade do presidente da república, 33 anos ininterruptos no poder. Segundo, na desigualdade social, no atropelo propositado e sistemático das leis, no sufoco dos poderes judicial e legislativo vincando apenas a vontade clarividente do ditador, na discriminação política, étnica e racial, no galopante desemprego, na falta de luz e saneamento básico, na pobreza extrema, na falta de ensino de qualidade, na valorização da mão-de-obra estrangeira em detrimento da nacional, na falta dos serviços de saúde, enfim, na falta de tudo aquilo que até agora foram só promessas impressas em papel e engavetadas a chave de ouro.

Apresentamos a seguir um resumo das atividades levadas a cabo durante o ano que agora finda, 2012, nesta árdua luta por justiça, democracia e igualdade social. Queremos lembrar que o nosso objetivo não é gabarmo-nos de coisa alguma ou autoglorificarmo-nos nem mesmo daquilo que seria considerado realização nossa. Reconhecemos que o caminho ainda é longo e que o que se fez até agora é ínfimo, o resumo que agora vos apresentamos serve para mostrar quanto trilho ainda temos pela frente.

PERDASVIOLÊNCIA, JULGAMENTOS INJUSTOS, MANIFESTAções BARRADAS:

  • Janeiro – dia 22, Cacuaco. Jovens em Cacuaco manifestam-se pela falta de luz e água nos seus bairros. 12 foram detidos, julgados e 8 foram condenados a 3 meses de encarceramento. Julgamento decorrido sem advogado de defesa. Pena convertida em multas rondando a 48 mil kwanzas cada um. Famílias endividam-se para pagar a multa, outras não conseguem pagar, lança-se a campanha de solidariedade “o teu grão de areia, o nosso deserto” que vai agora a encerrar no dia 15 deste mês para acudir esta infame situação e ressarcir os gastos feitos por estas famílias de patriotas com a multa imposta por um julgamento injusto.
  • Fevereiro – dia 3, Cacuaco. Numa tentativa de clamar pela libertação de seus companheiros presos injustamente, outro grupo de jovens sai à rua em manifestação. Mais violência e detenções e o episódio de julgamento injusto repete-se.
  • Março – dia 7, Cazenga. Mário Domingos e Kembamba são raptados nas imediações do tanque do Cazenga por indivíduos não identificados, são brutalmente espancados, ficando com ferimentos graves e hematomas na cabeça, rosto e a sangrar pelas narinas.
  • Março – dia 9, Rangel. Na véspera da manifestação marcada para o dia 10 de março para exigir a saída de Suzana Inglês do cargo de presidente da CNE, a residência do jovem Carbono Casimiro é invadida em plena luz do dia (14h) por indivíduos ligados à Bento Kangamba, com barras de ferro e cabos elétricos. Os 5 jovens que lá se encontravam descontraídos com a TV, foram barbaramente agredidos. Santero, um dos 5 levou 20 pontos na cabeça, até um senhor de idade, o mais velho Ramalhete (sobrevivente do 27 de Maio de 1977, 64 anos) não foi poupado tendo levado 4 pontos na cabeça, para não falar do Cavera, Carbono e Sampaio que também não escaparam da investida.
  • Março – dia 10, Cazenga e 1º de Maio. Manifestação para exigir a demissão de Suzana Inglês da presidência da CNE. Marcada de terror e sangue. Os agressores acobertados pela polícia, com barras de ferro, cabos elétricos, porretes, paus, pedras e restos de tudo quanto é sólido encontrado na via pública, atacaram sem dó nem lástima os indefesos manifestantes. David, uma das vítimas, teve de ser socorrido em dois hospitais (Cajueiros e Américo Boa Vida), teve o tímpano direito rebentado, Luaty teve a cabeça partida levando 7 pontos. Dr. Filomeno Viera Lopes (Secretário Geral do partido político Bloco Democrático) foi dos que mais violentamente sofreu, tendo-lhe sido quebrado o braço direito 3 vezes, além de ferimentos graves na cabeça e outras partes do corpo. A dona Ermelinda Freitas teve o tornozelo direito deslocado, Jovelino, Hexplosivo, Tukayano, Putu Mário e outros fizeram parte do guisado de vítimas com ferimentos graves e o jovem Mário até hoje sofre com problemas no peito de tanta pancadaria que recebeu, muita, para os seus 17 anos de idade.
  • Março – dia 10, Benguela. 3 jovens (Hugo Kalumbo, Jesse Lufendo e David) são detidos por se juntarem a manifestação para exigir a demissão de Suzana Inglês da presidência da CNE organizada localmente. São julgados sumariamente acusados de assuada, arruaça e agressão à agentes da polícia (as mesmas acusações imputadas à 21 jovens manifestantes em Setembro de 2011) e condenados injustamente a pena de 3 meses de prisão, convertidos em multa num valor de 42 mil kwanzas cada um.
  • Março – dia 12, a Televisão Pública de Angola (TPA) dá cobertura extensiva ao suposto Movimento pela Paz que reivindica as agressões de 10 de Março como sendo de sua autoria e prometem mais atos de gênero e de forma implacável contra todos aqueles que “estão contra a paz e querem guerra”.
  • Abril – dia 28, Cacuaco. O regime angolano dispersa a tiros um grupo de jovens manifestantes que pretendia marchar contra o alcoolismo, prostituição e violência doméstica em Angola (lembrando que  cerca de 10 dias antes, havia sido aprovada a lei contra a violência doméstica). Os agressores além de armas de fogo, usaram barras de ferro e picaretas. Dois jovens ficaram gravemente feridos e lhes foi negada assistência no hospital municipal de Cacuaco. Neste mesmo dia, o governo da província de Luanda cedeu o Largo da Independência à maior empresa de álcool de Angola, a Cuca, para a realização de uma festa.
  • Maio – dia 22, Rangel. Milícias pró dos Santos-MPLA invadem o local de reuniões dos jovens ativistas (21h), munidos com barras de ferro, pistolas, cabos elétricos e porretes e agridem violentamente os 10 jovens que lá se encontravam em acertos sobre as suas atividades. Ferem gravemente Mbanza Hamza (12 pontos na cabeça, braço esquerdo deslocado), Gaspar Luamba (8 pontos na cabeça, perna esquerda perfurada com chave de fenda, dois dedos da mão direita partidos), Hexplosivo Mental (7 pontos em ambos braços, dedo médio direito deslocado), Jang Nómada (4 pontos na cabeça), Américo Vaz, Tukayano Rosalino, Mabiala Sozinho, Alexandre Dias dos Santos “Libertador” e Massilon Chindombe também não foram poupados.
  • Maio – dias 27 e 29, Ingombotas e Cazenga. Dois soldados da guarda presidencial que pretendiam reivindicar sobre o aumento de seus subsídios, Àlves Kamulingue e Isaías Kassule, são raptados por indivíduos não identificados e até hoje não se sabe se estão vivos ou mortos.
  • Junho – dia 11, Lisboa. Trama da cocaína ao jovem ativista, Luaty Beirão. É encontrado na sua bagagem (que consistia num pneu de bicicleta) um quilograma de cocaína, a intenção era vê-lo atrás das grades por uns anões – mas felizmente, a justiça portuguesa não está eduardizada.
  • Junho – dia 20, antigos combatentes saem às ruas para exigir enquadramento na caixa social.
  • Julho – dia 14, São Paulo. Manifestação para exigir a anulação da candidatura de José Eduardo dos Santos às eleições gerais de 31 de Agosto por ser “uma fraude”, um presidente ilegal. A manifestação acaba com a detenção de mais de 13 manifestantes incluindo: Hugo Kalumbo, Rosa Mendes, Nfuka Muzemba, Pedro Malembe, Mário Domingos e muitos outros.

 

GANHOSPALESTRAS, DESPERTAR DA SOCIEDADE, MANIFESTAÇÕES:

  • Janeiro – nos dias 27 e 28, primeiro encontro provincial da juventude, cujo objetivo primordial era refletir em torno do papel que a juventude deve desempenhar de forma social e politica para assegurar as transições intergeracionais e a responsabilidade social sobre os destinos do país.
  • Abril – Benguela, campanha “Por Uma Angola Livre”. Por causa das agressões contra manifestantes, a associação cívica Omunga em Benguela, através do seu espaço Quintas de Debates, lança (oficialmente a 29 de Março) a campanha contra a proibição, repressão e criminalização da liberdade de manifestação em Angola. O objetivo era colher 50.000 assinaturas a serem enviadas ao Presidente da República e ao Presidente do Tribunal Supremo. Outro aspeto da campanha era, para quem aderisse, criar uma frase refletiva sob o slogan “Por Uma Angola Livre”, pintada com as cores da bandeira da República.
  • Maio – dia 14, foram-nos cedidos 2 horas semanais de emissão na rádio despertar. Foi o nascimento do programa Zwela Ngola. Este primeiro dia foi uma total desilusão, pois o programa não foi emitido por razões inconfessas. Mas depois daí, seguiu a todo gás até conhecer outros inconvenientes em Setembro.
  • Maio – dia 19, movidos pelo poder transformador das manifestações, e forçados pela surdez do regime JES em indigitar e manter a Suzana Inglês na presidência da CNE, o partido UNITA convoca uma das maiores manifestações dos últimos tempos e nós apoiamos (onde milhares e pessoas afluíram o local não por promessas de Cuca ou assistirem músicos famosos, mas pelo dever cívico e moral de contribuírem para o engrandecimento da consciência patriótica e social de que “cada ato nosso é o que muda o mundo”) para forçar sua destituição e foi bem-sucedida a iniciativa. Tendo sido exonerada um dia antes da manifestação.
  • Agosto – dia 11, LAASP. Segundo encontro provincial da juventude – “O voto é nosso”. Teve como objetivo criar um mecanismo de observação/fiscalização das eleições, apelidada de campanha pela Verdade Eleitoral. De onde se lançou a plataforma online do Movimento pela Verdade Eleitoral em www.eleicoesangola2012.com.
  • Agosto – dia 20. Lançada a campanha “Cidadão em Protesto Permanente”. Visa “encorajar os nossos irmãos que reclamam no anonimato a dar um passo em frente para a zona iluminada e dizer sem medo “estou farto!” dizia o comunicado (exemplos no site: http://centralangola7311.net).
  • Setembro – dia 20, Maianga. Vigília contra a tomada de posse dos partidos da oposição por as eleições se terem provado injustas, não credíveis, fraudulentas. Como não deixaria de ser, fomos detidos e mantidos sob cárcere por mais de 7 horas.
  • Novembro – dias 12-17, estreia na Aljazeera. Documentário “Angola: Birth of  a Movement” – (Angola: O Nascimento de um Movimento). Retrata o dia-à-dia de 3 ativistas angolanos, bem como a sua luta em prol da democracia, justiça e igualdade social.
  • Dezembro – Fomos convidados para fazer parte da Conferência Africana da Juventude a ter lugar em Maputo de 9 à 14 de Dezembro. Uma conferência que contará com mais de 200 delegados de diversos países da África, para se discutir dentre vários assuntos estes: democracia e boa governação em África, desenvolvimento sustentável, educação transformadora em África almejando revoluções pacíficas, equidade de gênero, educação e formação em novas tecnologias de informação, etc.

 

RESUMINDOSEM CONCLUIR

i)  Mais de 12 Manifestações públicas com diversas exigências;

ii)  Mais de 60 pontos nas cabeças e corpo, braços partidos e internamentos hospitalar;

iii)  Dois (2) manifestantes desaparecidos até hoje;

iv)  Chantagem, perda de emprego, rejeição pela família;

v)  Ameaças de morte, raptos e descaracterização quase sem conta;

vi)  Sociedade cada vez mais a se sentir movida a participar da causa;

vii)  Cada vez mais as pessoas despertam e esperamos que despertem mais ainda;

viii)  Causa conhecida e reportada além fronteiras;

ix)  Iniciativas não são monopólio de um punhado de jovens arruaceiros, lúmpenes e drogados, como carinhosamente nos tratam;

x) A febre a alcançar outras províncias, etc, e esperamos que cada vez mais se evolua e cresça o ativismo cívico. Que a sociedade tome consciência do seu poder e saiba usá-lo para melhorar-se a si mesma. FORA!!! COM TODOS DITADORES E OPRESSORES, ONDE QUEIRA QUE SURJAM!

 

Juntamos aqui os nossos principais meios de divulgação das nossas atividades e do que acontece no país. É o nosso mural não só de lamentações, mas especialmente de apelar a consciência social crítica. O nosso ponto de encontro, a nossa casa comum, a nossa voz.

  • http://centralangola7311.net – este é o nosso principal meio de divulgação. O nosso site, tal como diz a mensagem de apresentação do portal é “ponto de encontro, de informação e de debate sobre a situação política de angola.” Nosso atual maior, senão único meio de divulgação.
  • www.eleiçõesangola2012.com – plataforma de observação paralela das eleições de 31 de agosto de 2012. Poderão encontrar as inúmeras denúncias de irregularidades do processo eleitoral, alguns resultados provisórios que contrastam os dados oficiais publicados pela CNE, denúncias em vídeo, áudio e imagens. Poderão também encontrar a nossa avaliação do processo eleitoral.
  • Central7311 – é o nosso canal no Youtube. Publicamos material audiovisual através deste canal, a nossa pequena biblioteca de vídeos das manifestações, coberturas noticiosas, conferências, palestras e outras.
  • Zwela Ngola? – nosso programa de rádio, emitido todas segundas e quartas das 14 às 15h, rádio despertar 91.0 ou www.radiodespertarangola.com.
  • Central Angola – nosso perfil no facebook.
Comments
  1. cesar fialho says:

    Optimo trabalho de resistência cívica e política! Bravo!Unica forma de derrubar o regime endocolonialista d angola!

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