Fairplay no maioritário: UAU!

Posted: December 20, 2012 in Argumentos, Manifestações

É sempre com muitas pinças e reticências que parecem pontos de exclamação, que acedemos a um convite emanado de alguém com ligações declaradas ao regime. As razões são mais do que óbvias e seriam necessárias páginas inteiras para enumerar esses pontos pertinentes, já sobejamente conhecidos do público com pensamento livre e discernimento para distinguir “Jornal de Angola” de “jornalismo”. Seria portanto fastidioso estarmos a justificar-nos mais uma vez dos motivos que nos levaram a protelar durante um mês um encontro que nos foi requisitado pelo Secretário de Estado para a Juventude e Desportos, Nhanga Kalunga de Assunção.

Ignorando alguns conselhos por parte de kotas com sabedoria de quem muito viveu, já longamente rodados nestas andanças, decidimos que se reclamámos diálogo, temos de saber ouvir quando os nossos adversários requisitam “tréguas” e querem falar-nos. Fomos lá, fomos lá! Isto pode vir a revelar-se uma estratégia ingénua e desastrosa e virar-se contra nós (como hoje já se tentou fazer no programa Zwela, desvirtuando o objetivo do encontro e atribuindo-lhe uma conotação de namoro inconfesso para partir braço por rebuçados), mas a vida vive-se errando e nós estamos todos a aprender.

O encontro teve lugar na pretérita sexta-feira, dia 14 de Dezembro e durou cerca de duas horas. Foi EXTREMAMENTE produtivo! Em primeiro lugar, tivemos pela primeira vez a ocasião de ser oficialmente convidados por um órgão de Estado e entrar num Ministério de calças de pijama, chinelos e uma t-shirt “32 é muito”, apesar dos muxoxos de uma funcionária que, depois de reclamar em voz alta: “de chinelo? de chinelo?” (como se tivesse a ver passar impune o assassino do papa), teve de se resignar, pois seguíamos com alguém que pia mais forte. Em segundo lugar, porque fomos recebidos sem um único laivo de altivez por parte dos nossos anfitriões, que foram sempre muito polidos e atenciosos connosco. Em terceiro lugar porque ouviram (e não foi pouco) das boas, a maior parte das vezes assumindo com um trejeito dos lábios e um inclinar de cabeça que não tinham como contrariar os nossos argumentos, o que mostrou pelo menos que, estando do lado oposto da cerca, não estão (totalmente) indiferentes ao que denunciamos. Finalmente, porque pudemos pela primeira vez estabelecer um contacto HUMANO, com uma salutar troca de ideias que nos aproxima como ANGOLANOS, fazendo com que nos respeitemos nas nossas diferenças.

É claro que isto eram 4 angolanos do regime a falar com 4 “adversários ideológicos” e não temos a ilusão que aquelas 4 almas simpáticas possam ser representativas da vontade REAL de aproximação por parte do Executivo, de uma inflexão drástica na sua maneira de proceder com quem pensa diferente e contra quem contesta a legitimidade das suas acções. Foi isso mesmo que lhes transmitimos: “não vemos nenhum indício que nos faça perder o cepticismo em relação a este governo, pois a dança das cadeiras continua, e desde que nascemos que ouvimos promessas e declarações de vontade que não se traduzem em realizações concretas para além das inaugurações e cortes-de-fita eleitoralistas”.

Citámos dezenas de exemplos, começando pelo esvaziamento da supremacia da constituição quando o cidadão empossado Presidente cuspiu nela deliberadamente para mostrar quem manda, ao recusar-se cumprir com o estipulado no artº 118 da CRA.

Em alguns pontos eles fizeram algumas ressalvas e observações que educadamente discutimos, às vezes concedendo razão, outras vezes mantendo cada um a sua posição, o que é perfeitamente natural.

Falámos da manifestação do próximo sábado. Fizemos questão de entregar-lhes uma cópia da carta entregue ao GPL (e já aqui publicada) e da lei 16/91 que regula o direito à reunião e à manifestação, com sublinhados nas partes que nos interessavam para dissipar de uma vez o termo “autorizada” do léxico das manifestações. De maneira algo preocupante, mostraram algum desconhecimento pelo “caso” Kassule e Kamulingue, o que nos deixou mal impressionados. Ainda assim fizemos questão de resumir-lhes a história, o que não os terá deixado propriamente perplexos, mas reconhecendo que, a ser como narrávamos, era um acontecimento aberrante no Estado Democrático e Direito que alegamos pretender edificar.

O momento em que o nosso irmão Nhanga Kalunga subiu instantaneamente vários pontos na nossa consideração, foi quando o nosso mano Nito Alves pediu a palavra e exibiu todo o seu “talento” de revú, levantando o queixo, abrindo as narinas e disparando que “todo esse diálogo já sabemos que vai dar em nada, vocês são um governo de assassinos, vossas mãos estão sujas de sangue!”. Se o mano Nhanga (e os outros ilustres presentes) fossem 10 anos mais velhos e não tivessem a bagagem/estômago que ele comprovou ter, a conversa teria parado por ali e o diálogo teria de ser adiado para a próxima geração. Ao invés disso, o mano sorriu e provocou o Nito com mais perguntas incitando-o a continuar a metralhar “assassinos, bandidos ” e outros nomes pesados, renunciando à diplomacia. O mais incrível, não revelou a mínima ponta de ofensa e foi brincando com essa situação ao longo do resto da conversa. Digam-nos lá que isso não é fairplay e estarão a ser extremamente injustos!

Agora a parte interessante: hoje recebemos um telefonema do nosso mano Sidónio (assessor do Nhanga e assumido “centraleiro” – diz que a página da central está sempre aberta no seu computador e prova isso enunciando partes de artigos que metemos aqui de cor) pedindo um encontro de emergência para dali a algumas horas. Depois de acertos, negociações e algumas atribulações pelo meio, conseguimos finalmente encontrar-nos. O que ele queria transmitir-nos era que de todas as questões que aflorámos, a mais urgente pareceu-lhe ser sem dúvida a dos jovens raptados e que por isso fez diligências para conseguir juntar as pessoas que ocupam os pelouros que devem explicações ao público angolano e que tinha conseguido PARA AMANHÃ DE MANHÃ (altura em que a maior parte de vocês vai estar a ler este artigo) um encontro que iria juntar pelo menos o Ministro do Interior (Ângelo Tavares), o Procurador-Geral da República (João Maria de Sousa) e o Chefe da Casa-Militar (Manuel Hélder Vieira-Dias “Kopelipa”), 6 activistas cívicos e um familiar de cada um dos jovens raptados.

Sabendo que há uma manifestação agendada para o próximo sábado, temos a certeza que isso fará parte de alguma estratégia bem pensada para dar a entender que há vontade por parte do governo em “ouvir” os jovens e compadecerem-se com as suas lamurias, dando-nos a sua palavra de honra que irão envidar esforços para que se esclareça esse assunto de uma vez por todas. Mas não é por deduzirmos isso que deixaremos de mostrar que, do nosso lado, estamos dispostos a ouvir as suas justificações. Julgamentos faremos após a conversa.

Não nos surpreenderá que tentem convencer-nos a não sair no sábado, mas isso só poderá acontecer se os nossos irmãos forem “miraculosamente” encontrados VIVOS até sexta-feira e restituídos às suas famílias respectivas. Qualquer outro cenário é inaceitável e não iremos transigir.

Ficará também a ser difícil negar conhecimento de dita manifestação pelas mais altas esferas da República de Angola, como já se tentou fazer antes para se lavar as mãos das responsabilidades de protecção dos mesmos, o que nos dá alguma segurança acrescida em relação à sábado.

Nada mau para um bando de lúmpens han Rui Falcão?

Comments
  1. Manassés Apolinário says:

    Espero que os encontrem vivos!

  2. Emiliano Lameira says:

    As ditaduras escolhem seus fins. Pacíficos ou violentos. Coragem, essa Angola tem de abrir-se para melhor!

  3. Luareco says:

    Eu não tenho dúvidas que vai aí um plano maléfico para vos convencer que as autoridades estão a agir e a fazer tudo para encontrar os dois activistas desaparecidos enquanto sob custódia da PN. O objectivo é claro: sabotar a manifestação de sábado. Por isso, a aparente boa recepção que os centraleiros foram alvo durante a visita ao ministro dos desportos foi um teatro bem encenado. Resistam e continuem a exigir explicações sobre o desaparecimento dos activistas.

  4. Rita says:

    Eu vi pela TPA mostraram-vos durante uns bons minutos no encontro la no Ministerio do Interior, desde ja vos desejo bom trabalho e admiro muito voces, parabens a todosdesta equipa.

  5. Timoteo Joao says:

    Foi uma conquista merecida, depois de muitos ferros nos cornos eis que o lumpenato nacional e recebido para falar, bom mesmo seria o chefe do executivo faze-lo afinal tem tempo para receber musicos vois que tendes nas maos uma missao nobre deveriam ser recebidos por ele tbem, enfim um dia quem sabe, cada coisa a seu tempo…ta sair bem, sabado vamu la…

  6. Simão Hossi says:

    Gostei estão de parabens

  7. […] Timoteo Joao on Fairplay no maioritário: … […]

  8. […] a julgarem a nossa escolha como bem lhes aprouver. Recomendamos a leitura do artigo anterior “Uau, fairplay no maioritário“, para um prefácio do que agora vos […]

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