O encontro de ontem e a manifestação de amanhã

Posted: December 22, 2012 in Argumentos, Direitos, Direitos Humanos, Luanda, Manifestações, Notícias, Opinião

Centraleiros e gov

Compreensivelmente, um encontro público e publicamente divulgado com uma equipe de elite do regime deixa algumas pessoas confusas, coçando inquisitivamente as cabeças, indagando-se: “mas o que se passa afinal aqui, não era suposto estes serem inimigos?”.

Algumas dessas pessoas são (ou eram) nossas companheiras de luta há mais de dois anos e, conhecendo-nos melhor que a maior parte das pessoas que não interage connosco, a sua dúvida e a virulência das suas reacções, exibe uma clivagem profunda nos métodos que cada um considera ser mais adequados para levar a cabo a árdua tarefa que temos em mãos.

Considerando que água e azeite não se misturam, fixam-se nesse axioma raramente trasladável para seres humanos marcando o diálogo com os responsáveis pelos seus infortúnios como a linha a JAMAIS pisar. Nesse âmbito, não estão prontos a tolerar comportamentos por eles considerados desviantes por parte de qualquer outro companheiro, sendo os eventuais transgressores imediatamente enviados para o “pelotão de fuzilamento”, após julgamento sumário das suas limitadas cabeças.

Em nome da transparência que defendemos, aqui vai um pequeno resumo do que foi o encontro de ontem, para além do que se pode auferir pela pequena peça exibida na TPA no noticiário de ontem. Após esta exposição, convidamos todos os leitores a julgarem a nossa escolha como bem lhes aprouver. Recomendamos a leitura do artigo anterior “Uau, fairplay no maioritário“, para um prefácio do que agora vos expomos.

O encontro convocou-se para as 9 horas da manhã de ontem, quarta-feira dia 20, e foi-nos transmitido que nele iriam estar o Ministro do Interior, o Chefe da Casa Militar, o Procurador-Geral da República e o Ministro da Justiça. O local: Ministério do Interior, na Marginal.

Por volta das 8h35, já se faziam presentes no local o Hugo Kalumbo, o Luaty e o Coque Mukuta que trouxe consigo o irmão do Kassule. Pouco depois, o S.E. Nhanga Kalunga veio informar-nos que já estariam TODOS os acima evocados no local e aguardando por nós. O Mbanza, Carbono, Nito Alves e os familiares do Kamulingue (esposa e tio) estavam encurralados no trânsito infernal e imprevisível da cidade capital e, por uma questão de respeito aos horários estipulados, decidimos entrar sem eles para honrar o nosso compromisso.

Os representantes do executivo optaram por aguardar que chegassem todos os que deveriam estar presentes, o que atrasou a reunião à volta de 45 minutos. Nesse entretanto, o General Kopelipa teve de retirar-se sem ter dado o “ar da sua graça”. Dado que o atraso era nosso, não tínhamos moral para fazer finca-pé exigindo a sua presença.

Quando finalmente a sala estava composta com todos os elementos convidados, entraram na sala alguns dos mais importantes funcionários públicos ao serviço do povo angolano (muitos dos quais acham que esse estatuto lhes dá mais direitos do que deveres), dentre os quais o Director Nacional da Investigação Criminal (DNIC), o Comandante-Geral da PN, Ambrósio de Lemos, o Procurador-Geral Adjunto e o S.E da Juventude. Logo a seguir, uma entrada triunfal do titular da pasta do Interior, Ângelo Tavares, que causou um efeito trampolim imediato nas cadeiras dos previamente mencionados que se levantaram numa fracção de segundo com uma sempre surpreendente subserviência, se tivermos em conta que havia ali pessoas praticamente septuagenárias. Foi algo surreal e lembrou a reverência obrigatória ao professor do ensino de base que quando entrava na sala de aulas, despoletava o mesmo efeito, acompanhado de um “bom dia camarada professor”!

Depois dos agradecimentos e introduções da praxe a palavra foi-nos concecida e nós tomámo-la por aproximadamente uma hora evocando essencialmente o que tinha sido feito do nosso lado (activistas e familiares) para divulgar essa gravíssima ocorrência.

Nós falámos do programa de rádio, da imprensa alternativa, da privada, das redes sociais, das várias campanhas simbólicas que foram sendo levadas à cabo para que os nomes dos dois jovens não caíssem no esquecimento.

Os familiares informaram que bateram mais de 5 esquadras pela cidade de Luanda (incluíndo o próprio Comando-Geral) com fotocópias do bilhete de identidade dos desaparecidos e com contactos pessoais dos familiares caso fossem localizados.

Ao se lhes perguntar se tinham feito uma “queixa formal”, os familiares, comprometidos, não sabiam muito bem como responder a esta pergunta, dizendo que sim, mas não sabendo dar um nº de processo ou do investigador que dele tinha ficado incumbido. Aqui nasceu o fio condutor da desresponsabilização do executivo que foi sendo martelado ao longo do encontro e que deu depois forma à peça exibida pela TPA: “a culpa é ESSENCIALMENTE dos familiares, que privilegiaram a imprensa privada ao invés de usar os corredores adequados para resolução destes “assuntos”.

Curioso que, além da implicância com a imprensa “privada”, o argumento usado para se furtarem a investigação dum caso que assumem ser “gravíssimo” e que é de domínio público há já 7 meses, é o facto de não ter sido FORMALIZADA uma queixa. É para rir, ou para chorar baba e ranho?

É importante frisar aqui por uma questão de justiça e compromisso com a verdade, que a TPA não entrou por nos terem preparado uma cilada. Foi usado o argumento de como tínhamos levado o Coque Mukuta que era jornalista, então não deveríamos importar-nos com a presença de “outra” imprensa, ao que nós anuímos, pois não temos vergonha nenhuma de ter lá estado e, assim sendo, faltavam-nos razões para querer ocultá-lo.

O nosso Nito Alves, sempre acutilante e algo inconveniente, tomou a palavra para lembrar aos mais-velhos que não estão a saber ler os sinais dos tempos e dos exemplos que abundam acerca do que sucede quando um povo é metido na panela de pressão durante tanto tempo: “vocês estão a conduzir o país para outro banho-de-sangue”, vaticinou.

Outros assuntos foram mencionados como preocupações importantes de expor, mas por serem algo descontextualizadas (e menos importantes) do que lá nos levou, descartaram-se as respostas a estas reclamações.

Foi então a vez de os “mais-velhos” tomarem a palavra. Os pronunciamentos do Procurador-Geral Adjunto e do Director da DNIC foram simplesmente tenebrosos na sua falácia e arrogância respectivamente, um dizendo que “não tinha sido feita em tempo útil (?!?) uma denúncia à PGR acerca deste caso, que desconhecia em absoluto, caso contrário, fariam o mesmo que fazem com todas as queixas que aterram nos seus gabinetes: abrir-se-ia imediatamente um inquérito que seria meticulosamente levado à cabo”, o outro dizendo que “não sou obrigado a ouvir a imprensa privada e não sou ouvinte da VORGAN” (?!?!), rematando de seguida que “ouvimos no entanto falar por alto do assunto e fizemos algumas diligências em esquadras e hospitais, sem no entanto obter resultados”.

Seguiram-se o Comissário Ambrósio de Lemos, o S.E. da Juvente Nhanga Kalunga e o Ministro Ângelo Torres, que oscilaram entre o simpático, quase paternalista, e o já habitual discurso da externalização das culpas da sua inépcia para os mais humildes que não sabem como proceder diante da burocracia opressiva. Houve um raro momento mea-culpa quando o Ministro admite que “se calhar por parte da polícia podia ter sido feito mais, havendo por isso falhas de parte a parte”. Pois, QUALQUER agente em QUALQUER uma das várias esquadras onde compareceram os familiares  dos jovens desaparecidos TINHA A OBRIGAÇÃO de informar os desavisados como proceder para abrir oficialmente um processo. Cabe A POLÍCIA informar o cidadão como proceder! Ambrósio de Lemos fez questão de sublinhar que TODAS as quartas-feiras recebe no seu gabinete o público e que às vezes (imagine-se) estas audiências estendem-se pela noite fora. Diz também que os seus números são públicos e estão ligados 24 horas por dia para atender QUALQUER situação. Assim sendo disponibilizámo-los aqui para qualquer cidadão que tenha um assunto de polícia que não consiga resolver com a base da pirâmide: 912500138 e 924282818.

Este tipo de defesa do indefensável começou a trocar-nos às voltas ao estômago, sobretudo quando se tocou no assunto da manifestação e se evocou mais uma vez o fantasma da guerra e da instabilidade, para sugerir que privilegiássemos o “diálogo” ao invés de “métodos que nada dignificam o país”.

O que o senhor Ministro (e restantes) talvez não tivesse à espera, foi o pedido da palavra por parte do Luaty quando, depois do seu discurso em que sublinhou “não ter a mínima intenção de coartar os nossos direitos”, mas avisando “temos inteligência que haverá infiltrados na manifestação para denegrir a vossa nobre causa e tirar daí dividendos políticos” e ameaçando veladamente “se houver comportamentos irregulares e à revelia da lei, a polícia terá de intervir para repor a ordem e a tranquilidade”, se aprontava para encerrar o encontro.

O mano começou por dizer que estava extremamente desapontado com a miserável linguagem política utilizada para se desculparem esfarrapadamente da sua inércia em relação a um assunto que consideraram de extrema gravidade, lembrando ao Director da DNIC que diligências para inglês ver não podem ser consideradas como tal, pois em momento algum se dignaram em procurar os familiares para apurar os factos, coisa que os jornalistas fizeram por eles. Fez questão de lembrar também o PGR adjunto que já tinham entrado na PGR várias cartas em que se citava o caso do Kassule e do Kamulinge ainda ANTES das eleições. Não se esqueceu de refrescar a memória ao Comandante-Geral dizendo que já lhe tinha sido entregue uma cópia de DVD com vídeos em que se vêm claramente quem são os provocadores de arruaças e promotores da instabilidade e que esses, contam não só com a conivência, mas protecção da polícia e, finalmente, virando-se para o Ministro, lhe indicou que se existe inteligência para antecipar elementos infiltrados na manifestação, deveria haver também para se conseguirem contactar os familiares de Kassule e Kamulingue sem que os tivessemos de levar à sua presença e mais, que se esses elementos estão identificados que nos ajudem a ajudá-los, revelando as suas identidades, para que possamos estar atentos aos seus comportamentos na manifestação e “colaborar com as autoridades, como sempre quisemos fazer quando reparamos que existem elementos mais exaltados no seio da manifestação que, ao não reagirem ao apelo à calma, fazemos questão de notificar as autoridades para que o extraiam da mesma”. E ESTA foi a frase que a TPA aproveitou de maneira propositadamente descontextualizada, para mostrar, quiçá, que estaremos domesticados e obedientes. Houve ainda tempo para um apelo: “Não voltem NUNCA MAIS a associar os nossos nomes à guerra e a instabilidade. Nenhum de nós quer ver o país de pantanas e se o sacrifício dos nossos corpos não for disso prova suficiente, então que a persistência em fazê-lo o seja. Ninguém no seu perfeito juízo há de apreciar a ideia de um retorno à guerra, pois temos a certeza que não haverá ninguém nesta mesa que não tenha perdido nesse fratricídio massivo pelo menos um familiar”.

Saímos de la satisfeitos porque dissemos o que tínhamos de dizer, porque os familiares saíram dali num carro patrulha directamente para a DPIC onde foram formalizar a queixa e depois levados por outro carro para as suas respectivas casas e porque, acreditamos nós “provámos” que somos mais que “jovens bêbados e drogados, sem sentido de estado, apoiados por forças ocultas que querem ver o país mergulhar numa guerra”, que temos ideias próprias e que somos movidos por um elevado sentido de patriotismo e não por um qualquer partido político ou influência estrangeira.

A MANIFESTAÇÃO SAI AMANHÃ, FAÇA CHUVA OU FAÇA SOL, HAJA JACTOS DE ÁGUA OU MILÍCIAS! ESTÃO TODOS CONVOCADOS!

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