A minha aventura com a PN

Posted: February 21, 2013 in Argumentos, Denúncia, Direitos, Humor, Luanda

Ontem por volta das 19h15 saí de casa com o intuito de encontrar-me com um ex-colega e chefe, nas imediações do Kapalanga, para tratarmos de um assunto de interesse mútuo. Como o bairro dele fica perto do bairro de uma amiga, Edna, tendo terminado o meu encontro, fui até a sua casa. Seriam mais ou menos 20h20.

Deixei-me estar na conversa até às 21h45 e, quando decidi voltar para casa, tomando a estrada que liga a Universidade Jean Piaget. Seguia tranquilamente por essa via e a dada altura ia atrás de uma viatura que a polícia mandou parar, numa das suas muito habituais operações “stop”.

Como também tem sido não menos frequente por parte dos automobilistas luandenses, quer por não estarem devidamente documentados, quer por terem deixado de temer as consequências de desrespeitar o agente de trânsito, quer por falta de paciência para mais uma troca de palavras desnecessária com agentes gasoseiros, o motorista do veículo deu mbaya e fintou o agente que não se deixou desconcertar, pois, a finta revelou-lhe um novo alvo a abater: eu!

O bongó assim que me viu atirou-se logo para frente da moto: “ pára, pára, pára, pára!”. Como eu trazia uma velocidade acima dos 40km/h, o bongó terá pensado que eu tencionava por-me em fuga, barrou-me a passagem e eu fui parar à beira de uma vala de drenagem. Nisso, veio outro policia, colega da barreira humana de farda azul, pegou-me na pasta à força, despoletando uma uma azeda troca de palavras, que começou com os insultos dos desrespeituosos agentes: “filho da puta” para aqui, “gatuno” para ali, coisa que eu não deixei barato, levantando-lhes a voz para acalmá-los e, seguidamente, num tom mais calmo, informá-los que era um cidadão consciente dos meus direitos que eles estariam a violar, citando os artº 60 (proibição de tortura e tratamentos degradantes) e 63 (direitos dos detidos e preso) da CRA. Isto teve o efeito desejado, fazendo com que os agentes passassem imediatamente a tratar-me de forma mais profissional.

Depois de 10 minutos apareceu a carrinha dos azulinhos, parou e perguntou o que se estava a passar. O colega começou a informar, relatando o que aconteceu de acordo com a sua eternamente distorcida percepção dos factos, tornando o agente num zeloso cumpridor da lei e o cidadão num infractor fracassado graças a sua pronta intervenção.

Exigiram que subisse no carro declarando: “estás preso por não andares com os documentos da moto”, o que obedeci.

Subindo no carro, deparei-me com um jovem debaixo do banco algemado, aparentando ter entre 26 e 27 anos de idade, a chorar. Os polícias estavam a bater-lhe forte e feio e disseram que o “ o gajo foi apanhado a conduzir sem cartas, embriagado e com porte ilegal de arma de fogo que é do pai dele, nosso colega”.

Chegámos à esquadra 45º do Kapalanga, desci do carro e entrei na casa deles. Assim que entrei, deparei-me o Comandante Barão, que me reconheceu de imediato, dirigindo-se a mim nos seguintes moldes:

    • “Tás aqui? Fizeste o quê?”
    • “Prenderam a minha moto”
    • “Ó Dr. Fábio pá, nunca mais, como vai o vosso movimento?”
    • “Vai bem”.

Já lá vinham 3 bongós a esfregar as mãos, com o ar de satisfação mórbida de quem está prestes a regozijar-se com o sofrimento alheio, preparando-se para me chapar, quando foram interrompidos nas suas intenções pelo “Chefe Barão” que lhes bradou: “Não mexem neste gajo! Se lhe tocarem, esse gajo vai falar na rádio e vai meter na net, deixam só, ele vai ir buscar os documento da moto”.

Seguidamente, ordenou que me devolvessem os documentos, e disse-me: “pode ir em casa, amanhã vem com os documento para tirar a sua moto”. Decidi ver até onde podia esticar a corda e declarei que não tinha massa para táxi. Acto contínuo, o Comandante tirou do seu próprio bolso 500 “Manguxi e Zé Dú”, também conhecidos pelo nome de código “kwanzas” e deu-mos para que me pudesse ir então embora. Como eram quase 23h, exprimi-lhe reticências em pegar a minha rota ainda por iluminar, dizendo que “através” do avançar da hora seria muito arriscado ir até a minha banda. Voltou a ser solicito oferecendo-me as instalações para que passasse a noite protegido. Deu-me uma sala com ar condicionado e TPA.

Por volta das 23h30, ligou-me o meu amigo Angelino a quem solicitei boleia e assim pude voltar em segurança para casa.

Assim foi a minha aventura nocturna com a nossa polícia e, no meio de tantas coisas para criticar, não posso omitir as que há para elogiar. Cheguei a conclusão que “isto” de ser activista tem as suas vantagens na desconjuntada parafernália de irregularidades que vigoram na nossa sociedade. Saí no lucro, tratado com a dignidade que merecem todos os seres humanos e mais rico de 500 “Manguxi e Zé Dú”.

Super! 32 é muito!

Por Fábio Sebastião

A moto apreendida

A moto apreendida

Comments
  1. Luareco says:

    É caso para nos questionarmos se devemos recear a polícia ou os criminosos.

  2. […] 7311: A minha aventura com a PN 21 de Fevereiro, 2013: Como também tem sido não menos frequente por parte dos automobilistas […]

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