Archive for April, 2013

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Um grupo de jovens pertencentes ao Núcleo de Viana (Movimento) subscreveram uma carta endereçada ao Administrador Municipal, Zeca Moreno, pedindo-lhe audiência para abordar os assuntos que mais têm afectado a juventude de Viana. Entre os subscritores está também o jornalista do Club-k, Lucas Pedro. Publicamos aqui a cópia com acusação de recepção na administração. Será que o Administrador os recebe? Cenas dos próximos capítulos…

Nucleo Viana Zeca Moreno

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A mentalidade fossilizada da obediência doentia a uma suposta “ordem superior” não irá, como que por um golpe de magia, desvanecer-se enquanto as mesmas pessoas que foram formatadas para obstaculizar o “adverso”, o “do contra”, o “dissonante” se mantenham como titulares de cargos com poder de decisão.

Infelizmente, por força da experiência repetida, temos de aplicar aqui o ditado fatalista que diz:”pau que nasce torto, nunca se endireita”. Para essas pessoas, pouco importa que o cidadão cumpra com escrupuloso rigor com as leis da República, que escreva todas as cartas, peça (e adquira) autorização deste mundo e o outro, tenha transtornos financeiros que nunca, ninguém se propõe indemnizar, jamais deverá este cidadão auferir dos direitos que lhe são conferidos pela atípica Constituição, pois esses direitos ferem a sensibilidade dos que os aprovaram para “fazer bonito”, para saírem bem na fotografia, para aparentar vontade explicita de se democratizarem os hábitos sociais.

No dia 30 de Março, a mesma data da nossa manifestação (mais uma vez) abortada pela já habitual violência policial redundando em porretes, bofetadas, pontapés nos testículos e detenções ilegais, em Benguela, um grupo de Hip Hop chamado Família Eterna, tentava levar a cabo um evento que celebraria os seus 10 anos de existência e para o qual procederam a todos os a priori impostos pela lei pre-histórica, com autorizações carimbadas pela cultura, pela polícia e pela administração local, como se pode comprovar nas imagens aqui disponibilizadas.

O que pode levar as autoridades a reverter um parecer anterior e, à margem de qualquer critério legal, tentar impedir a realização de um evento no próprio dia em que este deveria ter lugar? Que nomes são esses que ao aparecer no ecrã do telefone fazem mais-velhos, pais-de-família, hiperventilar de pânico e embrulharem-se completamente com actos que contrariam todas as formações que já receberam?

Segundo o testemunho do Fábio, um dos organizadores do evento cujo nome se pode ver na documentação aqui disponibilizada, foi ao aperceberem-se que o MCK seria o convidado de honra do evento que lhes terá disparado o alarme arrepiante da auto-censura e terão tentado corrigir o tiro, pressionando psicologicamente a organização a abortar o evento e, mais engraçado, a inventar “uma desculpa qualquer” para o justificar perante a opinião pública, ao pé da qual a sua credibilidade ficaria mordiscada. “Sobretudo não dizer nada ao MCK”. Esses mais-velhos perderam totalmente o juízo.

Ainda segundo o Fábio, uma vez no escritório do comandante Ndalu, por quem terá sido convocado, uma enxurrada de questões acerca do recém-premiado do Festival Nacional da Canção se seguiu, ao ponto de, na dúvida acerca do conteúdo temático das letras deste último, o comandante ter baixado a ordem a um subordinado hierárquico que se deslocasse ao local onde estaria a decorrer a venda do “Proibido Ouvir Isto”, adquirisse uma cópia e se pusesse a escutá-la in loco, comunicando a par-e-passo o que estivesse a ouvir. O agente não terá superado a faixa introdutória e já o comandante levava as mãos à cabeça alarmado:”não pode ser, esse indivíduo não pode cantar, não estamos autorizados a ter músicos que cantam contra o governo!”.

A resistência à intimidação fez com que outro tipo de estratégia, mais agressiva, fosse colocada em marcha: desde visitas ostensivas de agentes à paisana ao local do evento, desencorajamento de permanência de quem se aproximasse com intuito de adquirir bilhete, visita inusitada do soba e ainda uma campanha de desinformação executada utilizando o serviço de SMS de uma das operadoras nacionais, em tom alarmante, advertia a população a não ir ao evento pois “algo de mau irá acontecer”. Para coroar tudo isto, um corte de energia foi encomendado quando o evento já decorria.
Ameaça mal disfarçada de conselho. O visado tentou ligar para o remetente, mas o número estava desligado.

Ameaça mal disfarçada de conselho. O visado tentou ligar para o remetente, mas o número estava desligado.

Os rapazes foram firmes e resolutos, levando em frente a sua intenção de realização do evento que tão cuidadosamente prepararam, não abdicando de nenhum dos pormenores previstos inicialmente, incluindo a participação do MCK que acabou por cantar o dobro daquilo para o que tinha sido contratado, em sinal de reconhecimento tanto pela organização, como pela brava plateia de (à volta de) 80 almas, que apesar dos alertas, não quiseram perder um evento que é raro para os amantes de Hip Hop consciente na terra das acácias rubras.

As consequências da sua “afronta” à ordem superior e arbitrária já começaram a fazer-se sentir e o pequeno espaço de 30 minutos semanais que lhes era cedido na Radio Morena, lhes foi retirado mas, claro está, de maneira amigável, sem celeuma, sem ressentimentos pois, afinal de contas, coitado do “dono do programa” que receia agora ter qualquer tipo de associação a esta juventude desobediente, não vá ele, por seu turno, perder tão pequena “benesse” como um inofensivo programa de rádio.

Para download gratuito, a banda dispensou uma das suas novas faixas intitulada “10 anos de irmandade“, no qual abordam justamente o assunto aqui relatado.

Só mais um episódio entre milhares no país do revanchismo, protagonizado pelos mesmos dinossauros políticos que recusam aperceber-se que essas práticas já não têm lugar numa Angola democrática e seguem, envergonhando o país perante o mundo, ao mesmo tempo que impingem por força de discursos exemplos que nunca lhe deram.

Luaty Beirão

FAMILIA ETERNA Autorizacao da Rep. Cultura FAMILIA ETERNA Autorizacao do Comando da Policia  FAMILIA ETERNA Parecer da Adm. da ZonaFAMILIA ETERNA Declaracao de Cedencia do Recinto
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Para a vigésima edição da nossa “mini-série” A Voz do Povo, partilhamos convosco um excelente desabafo do mano Nuno Aires no Facebook sobre o estado actual do mercado de trabalho em Luanda. Aconselhamos vivamente a sua leitura. Discorda? Concorda? Comente!

No debate com amigos sobre o estado actual do mercado de trabalho angolano, o meu ponto de vista:

Sinceramente, não acho que seja difícil encontrar angolanos com capacidades, tenho o prazer de conhecer, trabalhar e acima de tudo conviver com Angolanos XEDELAS e uma boa parte subaproveitados pelas entidades empregadoras.

Desculpem por aquilo q defendo, mas estamos neste momento a atravessar um novo processo de colonização, mas desta vez legal. Há uma “importação” de quadros a um nível extremo à falta de necessidade. Não percebo como é que uma empresa que tem como objectivo o lucro, prefere gastar o triplo num salário e outros benefícios num expatriado e num quadro angolano dar uma ninharia de salário e esperar q os dois tenham o mesmo desempenho.

Pergunto-me, não seria mais fácil apostar na formação deste quadro angolano e dar-lhe um melhor salário de forma a sentir-se satisfeito e acima de tudo sentir q deve dar o seu máximo de forma a manter o nível de vida q esse salário o irá proporcionar?
Não seria mais fácil pagar a esse expatriado XPTO a deslocação por 3, 6 meses ou mesmo 1, 2 anos e este formar 10, 20 quadros dessa empresa???

Contas Rápidas:
Expatriado – Salário 4, 5, 6, 7.000USD + Passagens + Estadia + Transporte + Seguro + outras regalias= ????
Angolano – Salário 1,2, 3.000USD + seguro (com sorte)
E no final querem que os dois tenham o mesmo rendimento? Dedicação? Sentido de responsabilidade? #BULLSHIT!!!!

O turismo se não é 99% está lá perto na mão dos portugueses; a construção civil de igual modo portugueses e brasileiros; banca de igual modo portuguesa; Qual é a necessidade?
(Posso dar N exemplos de quadros angolanos q passaram por essas áreas c competência e q foram completamente abandalhados);

Como é que num país aonde MILHARES de pessoas lutam todos os dias de baixo de sol horas e horas a trabalhar para ganhar o seu pão de forma honesta, são catalogados como irresponsáveis q só bebem e não gostam de trabalhar?

Tenho VÁRIOS tios, primos, amigos q fizeram a vida a trabalhar nas obras em Portugal nos anos 90′. Maior parte passou pelas “passas do Algarve” mas ganhavam 200, 300, 400 contos (muitos até mais) e se a memória não me falha, era muito bom dinheiro naquela altura. HOJE pelo mesmo trabalho em Angola as empresas PORTUGUESAS querem pagar 300, 400 usd, oferecem arroz e feijão ao almoço todos dias e querem q eles tenham o mesmo rendimento? Para operar uma escavadora é preciso vir (desculpem-me o extremismo) um BIMBO de igual modo sem estudos, sem formação? Porque não há ninguém em Angola capaz de operar uma máquina?

É incrível como as pessoas querem pagar a um estafeta 200, 300USD mês e depois dão-lhe quantias de 20, 30.000 dólares para transportar todos os dias .. e esperam q seja um anjo e q nunca caia na tentação!
É incrível como as pessoas querem pagar a um caixa de um banco (com ou sem estudos) 700, 800usd e depois põe-lhe MILHÕES nas mãos todos os dias.. e esperam q seja um anjo e q nunca caia na tentação!
É incrível como as pessoas querem pagar a uma doméstica 200, 300, 400usd mês e depois esbanjam todo o luxo lá em casa.. e mais uma vez, esperam q seja um anjo e q nunca caia na tentação!

Não há aposta nos quadros angolanos porque quem dita as regras do mercado de trabalhao não são angolanos, são estrangeiros e já é sabido q independentemente da nacionalidade, cada um puxa os seus (nada contra, quem me dera q Angola funcionasse assim). A culpa está nos donos das empresas q buscam somente o lucro e estão-se pouco f****** para a responsabilidade social.

NÃO SOU contra expatriados, ACREDITO que o país precisa de ajuda dos “de fora” mas não nos moldes atuais. Neste momento estamos a alimentar países em crise e todos esses quadros assim q tiverem as suas casas lá fora arrumadas tiram o pé rapidinho e daqui a 10, 15, 20 anos vamos estar a enfrentar o mesmo “problema de falta de quadros”!!!!!”

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E como aqui na Central respiramos música de qualidade, aqui vai o mais recente som do mano Azagaia, o nosso irmão moçambicano. Está brutal! Que se substitua Moçambique por Angola na letra deste rap, porque as realidades são as mesmas!

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Ondjaki3_0Este excelente texto do mano Ndalu de Almeida, mais conhecido por Ondjaki, foi publicado na mais recente edição do Novo Jornal, do dia 5 de Abril de 2013. Como é hábito com este escritor de renome, vale mesmo a pena ler. E reler. Publicamos na íntegra:

É com tristeza (no mínimo, vou chamar-lhe tristeza…) que vejo um qualquer angolano ser detido, ameaçado, molestado, porque desejou manifestar-se. Simplesmente “manifestar-se”: mostrar aos outros que em alguma matéria não está de acordo com um outro grupo, cívico ou político. Dizer. Gritar. Escrever num pedaço de cartão ou de pano.

Em nenhuma das manifestações vi ou soube de actos de violência que partissem dos jovens. Na maior parte delas, são impedidos de se manifestarem. Cortam-lhes a voz e os cartazes. São detidos ou afastados do local escolhido. E, ironicamente, algumas vezes até lhes dizem que “não estão detidos”. Pelo menos uma vez, lembro-me, até os retiraram do local por “razões de segurança”. A sua própria segurança.

A isto devemos chamar ironia, destreza, inteligência? Que nome dar a esta estratégia de neutralização de uma manifestação que quase não acontece, que por pouco quase acontecia, que acontece para os media internacionais mas a nível nacional passa despercebida? Que nomes teremos que inventar (ou reinventar) para esta estratégia de anulação daquilo que um grupo de jovens tem para dizer?

E se fosse o exercício contrário? E se quem não os quer escutar se desse ao trabalho de simplesmente escutá-los? E se os deixarem falar?

E se todos os que facilmente lhes atribuem nomes (“bandidos”, “desocupados”, “drogados”, “alienados”, “marionetes”, etc) decidissem simplesmente ler ou ouvir o que estes jovens têm para dizer? E se um debate, sério, nascesse a partir das dúvidas que estes jovens colocam, instauram, e trazem com eles?

É preciso deixarmos de fingir que estes jovens “não sabem o que dizem”. Sabem muito bem. Por mais que nos incomode, por mais que sejam verdades ásperas, por mais que questionem abertamente o poder e o abuso de alguns poderes. É mais fácil fingirmos que são “malucos” e “alienados”. É mais fácil pensarmos que as ideias não são deles, são de algumas forças (mas quais?) externas, politicamente organizadas para manipular um grupo de jovens angolanos, idiotas, que não sabem pensar pela sua própria cabeça. Mas temos que ter muito cuidado, a via “mais fácil” leva, muito frequentemente, ao caminho do engano e da análise superficial.

A grande maioria destes jovens tem demonstrado uma lucidez social e política de grande mérito. Não interessa (por agora) se concordamos ou não. Se “tudo” o que dizem está correcto. Ninguém, em parte alguma do mundo, está correcto em tudo o que diz, em tudo o que afirma politicamente. Mas a estes jovens está a ser negado um tempo de atenção. O tempo de ouvirmos o que vieram para dizer.

Que mais-velhos temos, que mais-velhos somos e seremos, se não soubermos ouvir os mais-novos? Ouvir. Escutar. Prestar atenção àquilo que estes jovens, entre suor e receio, entre audácia e lucidez, escolheram vir a público dizer.
Tenho sérias dúvidas que a nossa sociedade esteja a agir/reagir de modo correcto se tudo o que pretendemos é ignorar, abafar e silenciar estes jovens. Estes ou quaisquer outros. Jovens que têm dúvidas para expôr e para instigar. Assim como todos temos o direito à dúvida (em relação às nossas convicções, em relação às convicções dos outros), todos teremos igualmente o direito à exposição das nossas convicções.

Seremos um país melhor quando as pessoas puderem expôr e debater as suas convicções. Ainda que contrárias à corrente. Ainda que susceptíveis de serem atacadas ou apoiadas. Mas que sorte, que orgulho, de termos um país onde os cidadãos, onde os jovens, pensam, reflectem e chegam às suas próprias conclusões. Estas conclusões trazem exigências, reclamações, debates. Parece-me que estamos assim a caminho do futuro. Se é esse realmente o futuro que queremos: democracia, exposição, debate. O direito à convicção tanto quanto o direito à dúvida.

Que sabedoria terão os nossos mais-velhos se não vasculham as suas próprias dúvidas? Que sabedoria tem aquele que já não pode, já não quer escutar? Que sociedade queremos ser, ou vir a ser, se de braços cruzados nos entregarmos ao hábito de não debater as vozes dissonantes?

Desculpem, mas reservo-me o direito à dúvida. De duvidar do que vejo escrito ou dito nas notícias. De duvidar das más intenções daqueles que nem sequer chegaram a expôr as suas intenções. Reservo-me o direito de duvidar da sabedoria dos mais-velhos que não querem escutar, nem ver, nem abraçar os seus mais-novos. Reservo-me o direito de duvidar de um país que duvida dos próprios jovens que educou e que agora pensam de modo próprio. Ainda que dissonante. Ainda que divergente. Ainda que utópico. Reservo-me o direito de duvidar dos mais-velhos que não querem que nos preocupemos com a maioria, e com as condições da maioria. Seria redundante aqui dizer que essa maioria chama-se “povo” e que todos, todos os angolanos sabem perfeitamente em que condições a “maioria do povo” vive ou sobrevive.

É com tristeza que, sendo apenas mais um jovem do meu país, tenho tantas dúvidas em relação a este momento histórico da nossa sociedade. Em vez de celebrarmos o dito progresso, partilhamos uma espécie de receio. Em vez de grito de celebração, temos murmúrios. No lugar da distribuição, temos acumulação. No lugar de um sonho expansivo, temos o pensamento molestado e a auto-censura bem treinada. Não tenho outra coisa na voz que não tristeza.

Para a contrariar (sim, é meu dever pessoal e de cidadão buscar o caminho oposto ao da tristeza…), alimento todos os dias uma esperança. Uma esperança simples, angolana, que me vem de muito longe. Vem, certamente, de outros mais-velhos que conheci, de um outro tempo, de uma outra educação. Mais-velhos que escutam, que se propõem participar dos debates e que nos querem conhecer com o mesmo respeito com que nós a eles nos dirigimos. Porque o rio tem duas margens e a conversa faz-se a duas vozes.

Alimento todos os dias uma esperança quase ridícula, quase utópica, de uma Angola mais justa. Enquanto espero, abraço aqueles que quando vão falar estão preparados para escutar o que o outro terá para dizer. Porque o rio tem duas margens. Porque o futuro é feito da mão de um mais-velho entrelaçada na mão de um mais-novo. Há muitos anos que é assim. É ou era?

Ondjaki, 31 de Março de 2013

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RegiSil

Esta foi, talvez, a melhor reflexão que lemos sobre o dia 4 de Abril, Dia da Paz em Angola. Foi escrita pelo jornalista angolano Reginaldo Silva no seu mural. Transcrevemos na íntegra:

Com tal abordagem não quero de forma alguma dizer ou deixar entender que Angola não conquistou a paz, ou que Angola não vive em Paz.

Nada disso.

Quando falo da Derrota da Guerra versus Vitória da Paz estou a falar da paz como cultura política (como modus vivendi/modus faciendi) estabelecida a todos os níveis da sociedade e assumida por cada um de nós, não importa o poleiro em que se encontra.
É esta vitória que tenho “desconseguido” de celebrar no 4 de Abril, desde que ele entrou para a nossa história.

Como devem imaginar não posso celebrar uma coisa que os meus olhos não exergam, que eu não sinto no dia a dia e sobretudo em alguns relacionamentos quer pessoais, quer institucionais, por mais que o discurso me tente convencer do contrário ou por mais bandeiras gigantescas que se icem nos mastros deste país.

Estou a tentar aqui fazer uma abordagem estrutural da nossa sociedade, que continua em meu entender a ser dominada/gerida pela Cultura do Medo, da Ameaça e da Mordaça.

A ameaça já foi mais aberta e mais violenta, mas continua por aí a dar notícias muito preocupantes, como foi esta última da absolvição pelo Tribunal Supremo dos condenados no “caso Frescura”.

A mordaça já foi total, tendo sido agora substituída por pessoas que falam muito mas que dizem toda a mesma coisa em tons diferentes, mas sempre convergentes.

O medo continua bem presente, sobretudo o medo invisível das consequências, das retaliações, das despromoções, dos azares que nos podem acontecer a qualquer altura sem sabermos bem como nem porquê.

É este medo que continua a ser um dos grandes instrumentos da política feita por alguns níveis do sistema pela via da inércia, pois sabem que o condicionamento psicológico do passado ainda não desapareceu. É claramente a utilização do reflexo de Pavlov.
Um exemplo típico desta cultura é o elogio da coragem.

Por tudo e por quase nada, tendo em conta que formalmente já vivemos num Estado Democrático de Direito, as pessoas são elogiadas pelos seus próximos ou por desconhecidos, por terem tido a coragem de publicamente manifestar ou defender uma determinada posição que supostamente não é muito simpática aos olhos do poder instituído ou de alguém mais poderoso da sociedade, seja lá quem for.

Já não devia ser tão “normal” este elogio, onze anos depois das armas se terem calado.

Qual é a necessidade de coragem para afirmarmos valores tão pacíficos como a diferença ou a divergência?

Mas se o cidadão comum acha que é preciso coragem, então ele deve ter alguma razão para assim pensar.

Por mim acho que quem pensa assim, sabe bem porque é que ainda é necessário ter coragem neste país para sermos apenas cidadãos livres, passe a redundância.

Por tudo isto e por muito mais no meu calendário pessoal o 4 de Abril vai ter de aguardar por mais algum tempo, até que eu consiga celebrá-lo conforme gostaria.

Tenho a esperança que este ano vai chegar.

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O nosso Centraleiro Luaty Beirão foi hoje temporarariamente barrado no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro. Também conhecido nas lides musicais por Ikonoklasta ou Matafrakuxz, Luaty Beirão por um fio não perdeu o avião hoje de manhã no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, quando pretendia sair em viagem para Banjul, com escala em Dakar, a fim de participar numa conferência Internacional de duas semanas para a qual foi convidado.

Após alguma discussão e a «algazarra» habitual, sempre que sai em viagem, Luaty passou pelos serviços de emigração e seguiu viagem, por volta das 09:00 horas. A única explicação dada foi: “o passaporte esteve bloqueado por erro do sistema”.

Também rapper, Luaty Beirão foi um dos activistas detidos na 1ª manifestação, ocorrida a 7 de Março de 2011, na sequência da qual têm se realizado outras manifestações por activistas cívicos; já foi vítima de motim defronte à sua residência, calúnia e difamação, recebeu uma carta anónima com conteúdo ameaçador, foi gravemente ferido na cabeça com bastão de ferro por elementos afectos à milícia repressora angolana na manifestação do dia 10 de Março de 2012 (em que foram igualmente feridos Francisco, David Coronel e Filomeno Vieira Lopes), foi detido com cerca de 10 companheiros na vigília contra a tomada de posse, no Parlamento, pela oposição, realizada após às Eleições Gerais de 2012, entre as muitíssimas vicissitudes pelas quais tem passado, arquitectadas por forças, grupos e indivíduos afectos ao regime sob a liderança de josé Eduardo dos Santos, ventilado aos 4 ventos, por ocasião das comemorações do dia da Paz, ontem 04.04, como sendo “o arquitecto da Paz”.

A situação do “bloqueio por erro do sistema” do passaporte de Luaty Beirão, ocorrida hoje, não se dá pela 1.ª vez. O facto é que quase todas as vezes que pretende viajar, maioritariamente para concertos onde é convidado a fazer actuações, o “erro” aparece. Garante-se ter-se regularizado, mas na viagem seguinte volta a viver a situação anterior. Até onde nos lembramos, tal já ocorreu umas 4 vezes, sendo em uma delas, colocado cocaína na sua bagagem. Haverá alguém neste país, capaz de dar alguma explicação, sobre as razões destas ocorrências estranhas?

Recorde-se que nesta 5.ª feira, 04 de Abril, comemorou-se o 11.º aniversário da Paz – resultado dos Acordos de Paz de Luena, rubricados entre as chefias militares das FALA e das FAA – sob o signo da “UNIDADE E RECONCILIAÇÃO NACIONAL”, sem as presenças dos partidos políticos da oposição e de organizações da sociedade civil, não ligadas ao regime. ANGOLA FAZ-SE, COM EXCLUSÃO E LIMITAÇÕES À LIBERDADE DE QUEM PENSA DIFERENTE