Sobre o Dia da Paz: Uma reflexão de Reginaldo Silva

Posted: April 5, 2013 in A Voz do Povo, Argumentos, Dia da Paz, Opinião

RegiSil

Esta foi, talvez, a melhor reflexão que lemos sobre o dia 4 de Abril, Dia da Paz em Angola. Foi escrita pelo jornalista angolano Reginaldo Silva no seu mural. Transcrevemos na íntegra:

Com tal abordagem não quero de forma alguma dizer ou deixar entender que Angola não conquistou a paz, ou que Angola não vive em Paz.

Nada disso.

Quando falo da Derrota da Guerra versus Vitória da Paz estou a falar da paz como cultura política (como modus vivendi/modus faciendi) estabelecida a todos os níveis da sociedade e assumida por cada um de nós, não importa o poleiro em que se encontra.
É esta vitória que tenho “desconseguido” de celebrar no 4 de Abril, desde que ele entrou para a nossa história.

Como devem imaginar não posso celebrar uma coisa que os meus olhos não exergam, que eu não sinto no dia a dia e sobretudo em alguns relacionamentos quer pessoais, quer institucionais, por mais que o discurso me tente convencer do contrário ou por mais bandeiras gigantescas que se icem nos mastros deste país.

Estou a tentar aqui fazer uma abordagem estrutural da nossa sociedade, que continua em meu entender a ser dominada/gerida pela Cultura do Medo, da Ameaça e da Mordaça.

A ameaça já foi mais aberta e mais violenta, mas continua por aí a dar notícias muito preocupantes, como foi esta última da absolvição pelo Tribunal Supremo dos condenados no “caso Frescura”.

A mordaça já foi total, tendo sido agora substituída por pessoas que falam muito mas que dizem toda a mesma coisa em tons diferentes, mas sempre convergentes.

O medo continua bem presente, sobretudo o medo invisível das consequências, das retaliações, das despromoções, dos azares que nos podem acontecer a qualquer altura sem sabermos bem como nem porquê.

É este medo que continua a ser um dos grandes instrumentos da política feita por alguns níveis do sistema pela via da inércia, pois sabem que o condicionamento psicológico do passado ainda não desapareceu. É claramente a utilização do reflexo de Pavlov.
Um exemplo típico desta cultura é o elogio da coragem.

Por tudo e por quase nada, tendo em conta que formalmente já vivemos num Estado Democrático de Direito, as pessoas são elogiadas pelos seus próximos ou por desconhecidos, por terem tido a coragem de publicamente manifestar ou defender uma determinada posição que supostamente não é muito simpática aos olhos do poder instituído ou de alguém mais poderoso da sociedade, seja lá quem for.

Já não devia ser tão “normal” este elogio, onze anos depois das armas se terem calado.

Qual é a necessidade de coragem para afirmarmos valores tão pacíficos como a diferença ou a divergência?

Mas se o cidadão comum acha que é preciso coragem, então ele deve ter alguma razão para assim pensar.

Por mim acho que quem pensa assim, sabe bem porque é que ainda é necessário ter coragem neste país para sermos apenas cidadãos livres, passe a redundância.

Por tudo isto e por muito mais no meu calendário pessoal o 4 de Abril vai ter de aguardar por mais algum tempo, até que eu consiga celebrá-lo conforme gostaria.

Tenho a esperança que este ano vai chegar.

Comments
  1. holder leio says:

    a paz tem os dirigentes do regime no poder e ela sé transformou no roubo dos cofre do Estado sem incomodo. privacidade de Liberdade de expressáo e de manifestacoés que a tal constituicáo diz defender.a Paz em angola, teve a Isabel dos Santos na venda de Ovos que até lhe tornou Bilionario. este é a Paz que o Governo nos quer dizer.Uma festa da Paz com musica e cerveja mas náo um Debate Parlamentar sobre os efeitos da mesma.uma Paz que os Angolanos conciénte entende de que a mesma foi conseguido por esfoco de todos os componénte politico e acordos de Ambos os lados.mas para o regime, a paz que insiste em dizer ou fazendo nos a entender de que ela foi possivel no campo Militar.o que náo corresponde a nossa realidade!afinalmente, O que è que o Governo entende da Reconciliacáo Nacional se na tal 4 de Abril, néhuma oposicáo tem a sua participacáo?

  2. Trecolareco says:

    Basta ver quantas pessoas comentam neste site para ver que há medo. Enquanto que noutros sites os comentários abundam, neste apenas podemos ler alguns de pessoas “corajosas”. Nós como sociedade temos de vencer este medo e por de lado esses medos e expressarmos-nos mesmo sob ameaça de retaliação. De outro modo nunca seremos uma sociedade livre.

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