Luaty e a epopeia no “lalalalalalalalalalalala-la-la-lalá! – Episódio 4

Posted: June 9, 2013 in Argumentos, Denúncia, Direitos, Direitos Humanos, Luanda, Opinião

Redijo este texto do interior de um avião à caminho de Lisboa, avião que, a escassos 3 dias de completar um ano de um dos capítulos mais tenebrosos que o meu país me fez viver após violarem a minha bagagem acrescentando-lhe quase 2 kg de cocaína e reportando-o de seguida às autoridades portuguesas para que hoje eu não estivesse aqui a escrever estas linhas, mas a viver o calvário de um reles e desmazelado traficante, por um triz perdia, pois já estavam à procura da bagagem de porão da senhora que acompanho para retirá-la e poder prosseguir viagem.

Desde o passado dia 11 de Junho que sempre que tenho de me deslocar ao exterior do país me deparo com a incómoda situação de bloqueio de passaporte. Os jovens agentes da imigração bem tentam esconder a sua vergonha por não conseguirem dar uma resposta à minha mais que justa indagação: “está bloqueado por que motivo?”. Vão correndo de um lado para o outro, evitando cruzar o seu olhar com o meu, dizendo-me de vez em quando que tenha “calma, estamos a trabalhar para resolver a situação, é só aguardar mais uns minutos”.

Só que o “alguns” passou de 10, 20, e depois de mais de 40 minutos neste impasse, a última chamada para o vôo já ressoou no altifalante do aeroporto e, perante insistência, o agente lá responde que estão a tentar contactar o “Comandante” (sempre sem citar o nome do cidadão) porque “só ele pode dar autorização de marcha”. Volto então a perguntar: “como pode uma pessoa com poderes exclusivos de tomar decisões que engajam o Estado (tais como, fazer perder o vôo a passageiros com tudo em ordem) estar ausente e incomunicável no seu turno? Estão a tentar contactá-lo há mais de meia-hora e não há meio de lhe conseguirem falar?”. Novo silêncio, nova promessa de que tudo se irá resolver.

Num ápice o nosso Adão Ramos se meteu em campo tocando o sino de alarme bem alto, fazendo os telefonemas certos e as suas diligências redundaram no envolvimento dos kotas Filomeno Vieira Lopes e Justino Pinto de Andrade que ligaram para o Comandante-Geral Ambrósio de Lemos (contra quem accionámos recentemente uma queixa-crime por abuso de autoridade para a qual ainda não obivemos resposta da PGR) e para o Ministro do Interior Ângelo Tavares (também ele alvo de queixa), ambos assegurando que iriam resolver o assunto imediatamente.

Alguns minutos depois, um jovem agente foi incumbido de me acompanhar até ao guichet onde já tinha sido carimbado o passaporte da senhora com quem viajo, devolveu-me os passaportes e quando lhe questionei acerca das razões daquele bloqueio eis a melhor resposta que ele encontrou: “alguém com um nome idêntico ao seu foi introduzido no sistema para bloqueio e houve uma confusão”. Só não explodi de rir porque senti pena do rapaz e foi isso mesmo que lhe disse enquanto lhe dava uma palmadinha nas costas comentando: “lamento que tenha sido indigitado para me transmitir uma mentira tão absurda, é um papel humilhante o que os seus covardes superiores lhe delegaram pois ambos sabemos que não é esse o caso, mas também sei que não é má vontade sua. Passe bem”.

Ao passar pelo guichet, o outro jovem que me tinha atendido previamente e, após ver a situação do bloqueio, associou o nome Beirão à toda aquela charada e me perguntou “és o Luaty?”, desejou-me coragem em alto e bom som, sem se importar se algum “comandante” o haveria de dedurar!

Os agentes do SME foram no entanto incapazes de me conduzir a mim e a senhora que acompanho que tem dificuldades de locomoção até à porta de embarque. Tive eu de ir perguntando pelo vôo da TAP e ver alarmados os funcionários que me pediam que corresse. Não tinha como correr, a senhora dá passos muito curtos e numa cadência dolente. O senhor na porta de embarque pôs-se no walkie-talkie a enviar sinais de urgência para o seu colega à porta do avião para que contactasse o Comandante (do avião desta vez, chega desses policiais incompetentes) a saber se ainda permitia que embarcássemos pois já se tinham fechado às portas há algum tempo. Ao mesmo tempo contacta o pessoal que no porão procurava as bagagens pedindo que suspendessem temporariamente a busca. Por um instante houve um impasse e a última palavra seria do Comandante, que felizmente para todos (incluíndo para o infantil Estado Angolano), foi condescendente.

Daí estar a escrever este texto em pleno vôo, dois dias depois de o Zé (também ele alvo de denúncia na Assembleia) me chamar de frustrado, analfabeto e de reiterar que Angola vive numa democracia plena e exemplar. Mas quando um gajo manda putakiapariu dizem que não tem respeito? Ok, posso então lhe chamar de velho babão e camambwin?

Há coisa de 3 semanas atrás eu fui, a conselho de um funcionário do SME, entregar uma carta dirigida ao Director Nacional desse organismo, o senhor José da Silva Paulino, requisitanto que corrigisse de uma vez por todas o “erro no sistema” que impedia o meu fundamental e constitucional direito à livre-circulação, erro esse que o próprio Paulino em pessoa me assegurou que jamais voltaria a suceder, isto no dia 2 de Janeiro de 2013 quando, pela segunda vez, me deparei com esta situação de bloqueio. Pois em Março, novo bloqueio e agora, Junho, sou presenteado com mais este episódio de uma telenovela repetitiva e enjoativa.

Sr. Paulino, se na escolha entre lei e ordem superior prefere subordinar-se à segunda, pode contar com uma queixa-crime na PGR no meu regresso (sim mais árvores abatidas em vão, pois, tal como as anteriores, acabarão no tambor de lixo do Sr, João Maria de Sousa… até ao dia!). Estou farto das vossas arbitrariedades.

 

Luaty Beirão

Comments
  1. Luis 123456 says:

    Como é possível que estes indivíduos que lutaram por valores tão altruístas enquanto jovens se tenham tornado nestes seres capazes de matar, torturar, prender, violar e acima de tudo de uma ganância sem limites e sem qualquer simpatia pelo ser humano que sofre a mais aviltante pobreza mesmo à frente aos seus olhos??
    Admiro muito a vossa coragem, e acreditem que apesar da crescente falta de liberdade informativa acerca de Angola em Portugal, há muitos portugueses que apoiam a vossa luta pela liberdade e democracia em Angola.

  2. Carlos do Popula says:

    Livre circulação de pessoas e bens? Até que é “pessoa” querem escolher? Este bando de senhores está a destruir a nossa sociedade. Cultivam o medo e a mentira, ignoram a pobreza e fabricam a justiça e depois ficam espantados com os níveis de banditismo e prostituição em Luanda? A pobreza “made in MPLA” e o culto pornográfico do glamour no meio do lixo estão a acabar connosco. Um bando de senhores com idade para ter juízo com precoupações menores como “o último tubarão” ou “um Jaguar” e jóias para as amantes com 1/3 da idade deles.

    Quem pensa diferente é “frustrado”? Mas isso é mesmo foram de um presidente “democrático” tratar os seus cidadãos? Todos temos que concordar com uma justiça discriminatória? Temos todos que aplaudir as palhaças do José Ribeiro? Todos temos que dançar o kuduro do Coreon Du? Todos temos que achar que a Sra. Isabel dos Santos é uma grande empresária e que a Unitel é uma grande empresa que presta um serviço de qualidade por um preço justo? Todos temos que aceitar a gatunagem dos gestores públicos? Todos temos que aplaudir as constantes falhas de luz mesmo com 11 anos de paz?

    O Sr. Dos Santos já deveria perceber que hoje, em democracia, raros são os líderes que governam mais de 8 anos e nesse perído têm muito que fazer. Anda há 34 anos na cadeira e 11 deles em paz, nem mais a desculpa da guerra serve para justificar a sua permanência.

    Porquê que o Luaty tem que ser tratado como um criminoso e estes bangões que roubam o puvo andam aí no bem bom?

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