Líderes Cegos, Povo Cativo – Parte I

Posted: August 13, 2013 in Argumentos, Corrupção, Direitos, Direitos Humanos, Opinião

PORQUÊ ÁFRICA?

Porquê que África ainda é pobre e subdesenvolvida? Porquê que ainda sofre com problemas que já conhecem solução há mais de um século? Porquê que as ditaduras Africanas são sagradas? Porquê que eleições em África ainda são uma guerra? Porquê que os políticos são corruptos e a grande maioria dos de África corrompidos? Porquê que as instituições africanas em grande medida são frágeis, inexistentes e fracas? Enfim, porquê que embora descolonizada, a África tende a regredir ao invés de progredir?

africasomalia

Estive em Abril numa conferência em Banjul, Gâmbia. Era a 53ª Sessão da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. Foi a primeira vez que tomei parte numa sessão dessas. Durante a conferência, muitas reflexões sobre a África, as instituições e os países africanos me correram a cabeça. Reconheça-se que a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos é uma instituição ou organismo muito valioso, num continente onde alguns líderes defendem que “direitos humanos não enchem a barriga”.

Quando voltei para casa, a minha reflexão aprofundou-se ainda mais. Era a 53ª Sessão, a primeira aconteceu há 26 anos (foi em 1987 na Etiópia). A 53ª acontecia no país-sede da Comissão. Uma das questões que me ocorreram foi, o que essas sessões já produziram em termos de seu objeto social para África ou para um país específico? Se muito já se produziu, ótimo. Se pouco ou nada, porquê?

Comecei a ler sobre a União Africana, PALOP, SADC, CEDAO, CPLP e outras instituições e organismos africanos. Quando eu olho para essas organizações lembro-me que são todas um “unir de forças” para mudar o paradigma de África, ou dos respectivos países membros. No entanto, o que noto acontecer é inversamente contrário àquilo que me parece ser o objetivo principal dessas unidades e coligação de forças (sempre admitindo a minha cota e direito de estar errado). Noto que cada país membro continua sendo o que sempre foi. Os países membros da UA continuam em grande parte nas mesmas dificuldades que o pós-colonialismo os deixou. Outros, até para demover seus longevos ditadores tiveram que contar com intervenções da NATO sob o olhar sagradamente impávido da UA. A OUA foi criada há 50 anos (1963) e metamorfoseada para UA em 2002, há 11 anos.

Os países membros da SADC continuam sendo o que sempre foram pese embora a unificação: se pobres continuam na sua pobreza, se desenvolvidos ou em vias, continuam nessa senda sem contagiarem ou animarem os outros países membros a isso; se com ditadores, continuam com os seus ditadores, ou pelo menos demovidos por forças externas ou talvez não. A SADC foi criada há 21 anos (1992).

Os países membros da CPLP: os desenvolvidos continuam desenvolvidos sem influenciarem os não desenvolvidos e os não desenvolvidos continuam a sua sorte. Os PALOPs idem, os da CDEAO não são diferentes. A CPLP existe há 17 anos. Os PALOPs há 34 anos (1979). A CDEAO existe há 38 anos (1975).

Fazendo uma média aritmética, ou seja, somando o tempo de existência de cada uma das organizações e dividindo pelo número de organizações, chegamos a média de 32 anos por organização, ou seja, em média cada organização existe e luta a 32 anos para mudar o paradigma da África. A questão é: Quanto já se conseguiu mudar? PORQUÊ? Porquê que as coisas aparentam ou estão na mesma? Em todas as vertentes: Social, Política, Economia, Direitos Humanos, Pobreza, Fome, Pandemias, Conflitos, Instabilidade, etc?

ENCARAR E DEBATER OS PROBLEMAS TAL COMO SÃO

Noé Nhantumbo, escritor moçambicano, na sua obra Renascença Africa – Sonho ou Realidade diz o seguinte: “Acreditamos que um dos principais problemas que temos no continente é a incapacidade de encararmos as nossas questões de frente e falarmos delas abertamente. Há como que um receio coletivo de admitir que nós próprios podemos ser a razão de ser dos problemas. Os nossos líderes e governos são rápidos em acusar o passado colonial e a oposição política de seus países por todo e qualquer problema que apareça.” Acho que a maioria dos leitores deve estar lembrada do discurso de 15 de Abril de 2011 do camarada clarividente presidente dos Santos, ou do quanto a UNITA, o Bloco Democrático e outras forças da oposição foram e têm sido acusadas, uns de saudosistas da guerra, outros de estarem a apoiar a arruaça, uns ainda de desestabilizadores que querem a guerra, contra a paz que nos custou muito a conquistar!

Os nossos problemas têm sempre um culpado e este culpado nunca somos nós mesmos. Os outros estão sempre errados, e, quando cometem um erro, até as salamandras devem saber que os nossos inimigos cometeram um erro, mesmo que as informações sejam caluniosas ou difamatórias. E nós? Nós nunca estamos errados. E, quando eventualmente os cometermos, abafá-los-emos. Canta-se o patriotismo, a responsabilização social que cada um de nós como ser social carrega, mas é a pátria a que mais se sacrifica, é a sociedade a que menos se liga importância. É na ação prática onde vemos que estas palavras não passam de cadáveres.

Por que as políticas públicas dos nossos países são ineficazes? Por que os planos de desenvolvimento desenvolvem mais problemas? Por que há sempre os que querem impedir a execução da benevolência do estado? Por que só discutir o fatiar do bolo (OGE) e não solicitar se saciou a fome?

Martin Luther King disse: “Injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça de todos os lugares.” Lembrem-se, líderes, que quando não se sabe por que se governa, governa-se o que se quer. Mas quando se sabe por que se governa, governamo-nos com o que se quer.

CEGUEIRA IDEOLÓGICA E POLÍTICA

O colonizador quando esteve em África, entendeu que a maneira de tornar a colonização mais eficiente era fazer com que o colonizado precisasse da colonização. Não é de admirar que só depois de séculos de colonização é que a consciência africana começou a despertar-se para a descolonização. Era forçado ao colonizado negar a sua identidade e aceitar os valores que lhe eram impingidos. Ao fim ao cabo, não sabia quem exatamente ele era.

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Hoje, muitos líderes africanos sofrem da crise ideológica. Não sabem o que são, de onde vieram, só sabem talvez onde não querem ir – fora do poder! A sua desorientação ideológica é impingida aos súditos através do recurso ao terror e intimidações, forçando os súditos a vê-los como a única solução para os seus problemas. Os nossos líderes não são originais em grande parte e o seu apetite espoliativo, insaciável. São bons papagaios vários deles, imitam seletivamente o que lhes apraz e algumas vezes, aquilo a que se vêem obrigados a imitar. Olhem por exemplo, quão bem endossadas são algumas constituições e leis ordinárias africanas e a distância que as separa da vontade política de as aplicar como elas são, especialmente se tal aplicação significar um puxão de orelha ao líder! Analise quão difícil e quiçá, impossível é para esses líderes praticar o jogo democrático!

Porquê que a corrupção está institucionalizada em muitos países? Porquê que há muito protecionismo e impunidade? Porquê que as leis não têm a mesma força que lhes endossa o papel? “Quando o poder legislativo se transforma num clube de membros, primordialmente preocupados em melhorar o nível das suas regalias, tudo isto acontecendo sob a vista de um executivo comerciante, estão inegavelmente montados os instrumentos mais eficazes para perpetuar o atual panorama nos nossos países.” Diz Noé Nhantumbo na mesma obra.

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 FUGA AO SONHO AFRICANO

África foi traída pelos seus próprios filhos e seu sonho continua adiado. Durante todos esses anos, produziu líderes cegos, mas cegos pela própria vontade, castrados pelo descontrolado ego e pela falta de vontade de assumir sua cota parte na desgraça do continente de uma forma geral, e a de seus países de uma forma particular. Pela sua falta de vontade e determinação de construírem uma África melhor; Pela sua insensatez que os transformou em simples repetidores de palavras vagas em discursos imitado; Pela sua curta visão que até hoje não lhes ensinou o básico que governar não é governar-se, é moldar-se à vontade de quem confiança nos depositou para lhe suprir algumas expectativas! Pela pandemia de considerarem seus países – celeiros e seus concidadãos, meros ceifeiros.

Diz o velho adágio que na terra de cegos, Camões é rei. A pura verdade é que na terra de reis cegos, o povo é cativo. Líderes cegos e vazios são autoritários, opressivos e intimidatórios. A única forma de colher subserviência é pelo uso da força e da intimidação, este recurso aprisiona o povo até que apareça de dentro do povo um camões. Contrariamente ao adágio anterior, ser Camões na terra de reis cegos não é ganhar majestade. Ser camões em terra de reis cegos é tempestade, isso se ainda se lhe permitir sentir a tempestade.

O nosso continente foi sempre de abundância. O colono foi nosso guia, mas depois virou nosso inimigo, no entanto, hoje, é nosso ídolo. Mas em grande parte é idolatrado pelo que ele foi no passado e não pelo que aprendeu a ser hoje. O que mais corre na mente do líder é quanto pode tirar para si e para os seus, pois o futuro é sempre incerto. Competência e dever pátrio estão longe da prioridade, em muitos casos. Servir ou servir-se, a última é a fórmula aplicada e a primeira amiúde é a que vive nos discursos.

 

Mbanza Hamza

Comments
  1. pensador revú says:

    frere patrice cantou que” mesmo com varias organizacoes internacionais, o mundo nao xta unido, mesmo com a UA. ONU, SADEC, UNICEF, etc o mundo nao xta em paz, etc. o problema de africa apenas sao 2. primeiro é k nao é governado pelos proprio filhos da terra. exempl JES do santomé pra angola, KABILA do ruanda pra rdc, YAYA JAMEHD do malawi pra gambia, 2. continuamos dependentes

  2. Maria Júlia Jaleco says:

    Uma reflexão muito importante e necessária – e que não diz respeito apenas a África, embora esta tenha as suas especificidades. Vou “roubar” a foto, indicando a sua origem

  3. Ras Tonton says:

    Africa livre da colonização!! Africa para os Africanos!! temos que olhar para nós mesmo, nós negros fomos os primeiros homens da terra!!

    visitem também http://cepapa.blogspot.com

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