Porquê que não formam partido?!

Posted: August 20, 2013 in Argumentos, Opinião

Muitas vez sou interpelado tanto por familiares como amigos sobre o porquê que nós os jovens contestatários do status quo angolano não formamos o nosso próprio partido.

“Só sabem reclamar, porquê que não formam partido e concorram às próximas eleições? Organizem-se!”

É comum ouvir este apelo.  Num continente com a nossa história, onde o partido sempre teve um papel importantíssimo no tecido social de cada país, esta ideia tem os seus méritos. Foram as organizações partidárias que ajudaram-nos nas lutas pela independência e foram estes grandes movimentos de massas que tentaram depois construir estas recém-nascidas nações.

Reza a história que infelizmente, e em muitos casos, incluindo o nosso, os partidos ficaram mais interessados na manutenção do poder do que na construção de uma nação. Começou-se a confundir o partido e o estado. No nosso caso, tal distinção é quase impossível. Os partidos tornaram-se hegemónicos e passaram a controlar todas as facetas da vida politica, económica, financeira e até mesmo social.

Como resultado, todas as outras forças da chamada sociedade civil em Angola perderam influência e relevância, revelando hoje uma fraqueza incomum em países democráticos. Na sua maioria, não têm expressão e lhes é vetado o acesso aos órgãos de comunicação social estatal.

Os partidos, por sua vez, já não correspondem às expectativas de todos os cidadãos. Salvo algumas notáveis excepções, os seus integrantes parecem mais interessados em manter as suas carreiras como ‘políticos’ em vez de servidores públicos. O caminho para a aquisição de bens materiais e estabilidade financeira e familiar passa pela politica; exercer politica torna-se uma carreira e os ditos servidores públicos vêm aquilo como uma profissão.

Recentemente um conhecido politico de uma das formações parlamentares da actual oposição afirmou o seguinte, quando confrontado sobre o porquê que deputados têm de andar com BMWs ou Jaguares: “Queriam que um deputado andasse à pé?”, como se as suas únicas opções fossem andar à pé ou de BMW. Esta simples resposta espelha bem a desconexão entre aqueles que foram eleitos para defenderem os interesses do povo, a maioria do qual anda à pé e/ou de candongueiros, e os que sentam-se todos os dias na Assembleia Nacional a fazer não se sabe bem o quê.

Um reflexo de tal atitude é a falta de políticos com ideologias próprias. Tornou-se comum assistirmos políticos a abandonarem partidos após décadas de militância e aparecerem na televisão a falar mal dos mesmos, sempre com a devida projecção massiva nos órgãos de informação estatal.

No partido no poder, os cargos que se dão já não correspondem ao nível de sabedoria do ‘encarregado’.  São muito mais importantes os “corredores” e interesses ocultos. Nota-se, em todas as esferas, uma gritante falta de investimento no homem, e nota-se a prevalência da intriga, onde a prioridade é manutenção do cargo a todo custo. A máquina partidária tornou-se muito grande para o seu próprio bem.

Daí a necessidade de resgatar uma sociedade civil forte. Movimentos realmente espontâneos. Ideias novas, uma forma de pensar diferente. Acções que realmente fazem estremecer o status quo e que façam as pessoas pararem para pensar e reflectir. Acções que mexam com um ‘sistema’ no seu todo.

Sinto que as manifestações e outras formas do exercício da cidadania activa são um exemplo disso no nosso contexto, onde impera a cultura do ‘sim chefe’ e da obediência cega. Se antes os povos de certas áreas de Luanda não ofereciam muita resistência às demolições desumanas dos seus bairros, hoje o povo do Margoso já soube organizar-se e manifestar-se, exercendo assim a sua cidadania. Este tipo de atitude teve um começo.

Não é à toa que vemos o partido no poder em parampas sempre que um grupo de jovens munidos só com cartazes tentam realizar uma manifestação pacífica. Esta reacção ocorre exactamente porque a organização juvenil não era propriamente um partido, não tem propriamente um líder para se corromper, é imprevisível, espontânea e diferente.

Os movimentos juvenis nunca terão a mesma força que uma UNITA ou um MPLA no que toca a mobilização (ou coerção/corrupção?) das camadas mais desfavorecidas e não só ou no que toca a sua força organizacional. Seria ingénuo tentar competir com estes grandes e não é este o necessariamente o nosso trabalho. Como jovens que somos, porque não mudar os moldes da competição em si? Porque não mudar as regras do jogo em vez de enveredar pelo mesmo caminho? Porque não mudar o jogo?

O nosso trabalho deve ser despertar as consciências daqueles que ainda estão mergulhados no sono da ditadura e da quase democracia. O nosso trabalho deve ser suscitar o debate, fazer uso dos nossos direitos, e contribuir para fortalecer a sociedade civil. O nosso trabalho deve ser feito na rua, nos lares, olhos nos olhos de irmão para irmão, e não em salas fechadas em conversas sobre estatutos partidários, lista de deputados e que tipo de carro usar na próxima legislatura.

Se queremos ser os líderes de amanhã, temos que começar por ser o factor da mudança HOJE. E para isso não precisamos de partidos; precisamos de nós mesmos e da vontade da mudança.

-Cláudio C. Silva

Comments
  1. Há líderes do amanhã que valem a pena. E têm de investir nos seus ideais. Têm de resistir á corrupção! E acima de tudo serem optimistas e não desistirem do que acreditam. Ideias+Valores+Actos+Persistência=Mudança para melhor!!!

  2. Mbanza Hamza says:

    VIVA!!!! Mano Kilamo: “Se queremos ser os líderes de amanhã, temos que começar por ser o factor da mudança HOJE. E para isso não precisamos de partidos; precisamos de nós mesmos e da vontade da mudança.”

    E junto mais esse da mana Alice: “Ideias+Valores+Actos+Persistência=Mudança para melhor!!!”

  3. Maria Júlia Jaleco says:

    Mudem o jogo, pois!

  4. Luiz Araújo says:

    Mude-se por dentro de si, cada uma e cada um, para se tornar factor e feitor de mudança.

    A minha grande mágoa é estar tão longe quando soa a hora de estar ao lado dos que se prontificam para mudar…

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