Relatos de dois participantes da manifestação do dia 12.10.2013

Posted: October 15, 2013 in A Voz do Povo, CIDADAO EM PROTESTO PERMANENTE, Direitos, Direitos Humanos, Luanda, Manifestações

Relato #1, por Hitler Samussuku

BI Hitler

Quando achámos que havia escassa polícia  no largo 1º de maio, estávamos todos iludidos. Mais uma vez o sistema usou uma estratégia maquiavélica para embaçar os manifestantes.

Às 13h00 horas marcadas para o dar início a mais uma manifestação, o largo estava todo mudo, não se sentia nem ouvia aquela opressão (polícias da ordem pública, brigada canina, brigada anti-crime e anti-motim que sempre se fazem presentes de forma ostensiva em manifestações), apenas havia uma viatura denfronte a estátua, no seu lugar habitual (*), as outras estavam escondidas: havia uma viatura defronte ao IMEL (1), uma no Chamavo (2), outra no beco do Nzinga(3) e mais uma na entrada do Cine Atlântico (4).

Mapa Manif artigo Itler com Carros

Nota do revisor: Antes da chegada do Hitler, havia igualmente uma carrinha da brigada canina estacionada no Largo que depois se retirou, como poderão comprovar na imagem abaixo que um internauta nos enviou ainda pela manhã. O mesmo internauta identificou outras viaturas para “contenção” concentradas defronte ao Cemitério Sant’Ana. Ao entrarem em função os Kaenches, a viatura notada com * no mapa acima, que costuma estar todos os dias no semáforo do largo, retirou-se do local, deixando os manifestantes entregues à uma batalha campal com os kaenches.

Até 13h30 o largo continuava calmo, jovens e crianças brincavam no jardim e nos arredores do largo havia muitos senhores sentados nas cadeiras, bem vestidos, os mais velhos com fato e gravata, calças e camisa à preceito e os jovens bastante diversificados mas todos com um ar limpo e polido. Um deles, vi mais tarde, conduzia um jeep Tundra que tinha deixado estacionado à frente da César e filhos. Menciono esta gente neste relato porque, veio a revelar-se, eram todos bófias.

Cinco minutos depois, fui abordado por 3 agentes com farda azul escura reforçada (tipo PIR) e metralhadora, mandaram abrir a mochila para verificar o material que eu levava e suspeitaram que eu era um dos que estava a ser procurado para ser travado.  Depois de um breve interrogatório (de onde vens, para onde vais, perguntas de rotina), já estavam a me levar, depois me soltaram. Dei meia volta, troquei de camisola e bazei no cyber.

Àss 14 horas liguei para o Mbanza e ele disse-me: “não vou aparecer aí agora, aponta o numero do Mandela…”. Apontei e liguei ao Mandela:

– Onde posso te encontrar?

– Estou a descair a partir do Zé Pirão

– Nos encontramos no Chamavo?

– Pode ser.

Posto lá, não consegui lhe reconhecer, tendo decidido então voltar para o largo 1º maio com a hipótese de ter havido um desencontro entre nós…

Cheguei à entrada da Praça da Independência, encontrei o Jang Nómada, lhe dei um toque e ele não me reconheceu, aproximei-me dele e lhe perguntei: é como, o mambo sai ou não sai? Ele, nem com isso me reconheceu. Uns bófias que estavam sentados levantaram para ouvir a nossa conversa e eu puxei o Jang para o lado, disfarcei uma conversa de rap, daí ele reconheceu-me e disse: baza, esses wís (sinfos) estão a nos seguir.

Me afastei aos poucos e vi o mandela a entrar no largo, atravessei a estrada nas calmas e juntei-me aos outros.

Apanhámos o ângulo ideal para começar com os protestos e daí começaram os primeiros gritos de revolta: ”libertem o nito, libertem o nito!”.

Em menos de 5 minutos um grupo de jovens e senhores civis  fez um cerco em direção ao largo, aproximando-se em grande velocidade o que terá criado pânico entre nós.

Aí começámos a nos espalhar: uns correram em direcção à multidão que passava no largo para conseguir fugir, outros sairam rápido correndo em direcção ao Hospital Militar.

Eu e outros saímos em direcção ao Nzinga e aí registei a primeira detenção: um jovem com uma t-shirt preta,calças jeans pretas e chinelas amarelas, foi apanhado por 2 jovens civis que usavam trajes normais (um de camisola azul e umas calças pretas outro com uma camisola olímpica branca calções jeans curto) agarraram nele e levaram-no. Um jovem, aparentemente com uns 23 anos, trajando fato preto, gravata vermelha (DNIC, concerteza) apareceu e começou a ajudar os 2 bofias. Até que um polícia que esteve com o carro estacionado quase ao Nzinga desceu e lhe levou em direcção à unidade dos ex.combatentes.

Fiquei lá até ele ser levado e depois fiz uma ligação para saber o destino do mandela:

–  Wí aqui é o Hitler estás aonde?

– Estou a ser presseguido pelos sinfos.

– Viste o jovem que foi apanhado?

– Nada, não vi.

Enquanto falava, uns gajos estavam atrás de mim e depois de terminar disseram-me: “Hitler afinal é você?”. Eu nem respondi, comecei a marchar e logo surgiram 3 polícias e o jovem SINFO de camisola olímpica me identificou gritando: “esse também!”. Nem deu mais para correr, me levaram nos becos do Nzinga onde havia 2 carros da polícia que almejavam ansiosos os manifestantes.

Tiraram-me do carro, exigiram que subisse noutro (Iveco da PIR), o que obedeci. Estava já todo cabisbaixo a pensar que poderiam me levar na unidade, mas acabámos por ficar por ali mesmo o tempo todo.

Eles conversavam dicas deles, falavam sobre Quim Ribeiro, se contavam de damas até que um deles veio ter comigo.

– Ele: qual é a maka?

– Eu: nada

– Ele: nada puto? Vieste fazer o quê aqui no largo?

– Eu: estava a sair da escola e fui surpreendido pelos polícias.

– Ele: (risos) nós vimos todos que estavam aí, não pegamos em vão, você estava na manifestação, diz a verdade pá.

– Eu: estava mesmo na manifestação mas não fizemos nada de mal, até mal começou e já foi destroçada.

– Ele: quem permitiu? Há uma mão-invisivel no vosso meio e nós vamos achar um dia. Qual é o tema dessa vossa manifestação?

– Eu: viemos protestar a favor do Nito Alves, jovem de 17 anos detido há um mês.

– Ele: hahahahahhaha é verdade puto, esse Nito Alves é mais fudido que vocês né? Diz lá, ele e o Luaty quem é mais mau?

Achei graça, não disse nada e ele voltou ao debate com outros polícias, tendo o assunto de debate se voltado para o Nito Alves.

As horas foram passando e outro gajo voltou, fez-me  algumas perguntas, recebeu meu telefone tirou o cartão de memória e disse: “vai directo para casa. Pela próxima vais mamar!”.

 

Relato #2, por Makita Kuvula

Makita Pausado Diploma

A minha história começou dias antes (da manifestação): ligações por telefone, ameaças, diziam-me a todo o momento que se eu fosse para o local da manifestação poderia ser o último dia da minha vida. Mas eu ignorei e fui.

Posto no local encontrei-me com os outros manos a escrever os dísticos dentro do largo. Pouco depois, aproximaram-se dois homens com óculos escuros e perguntaram-nos: o que estão a fazer aqui? Pegaram nos dísticos e levaram-nos.

Aí, comecamos a gritar “SOLTEM O MENOR NITO ALVES!!!” e imediatamente o cenário mudou: Kaenches entraram em acção com ferros, paus, até arma de fogo, uma pistola de marca “STAR”.

Os manos com quem estava correram e eu estava a sair do largo a passos, tendo sido por isso agarrado por 3 kaenches vestidos com camisolas do Kabuscorp que queriam arrastar-me, mas como sou de estatura média, ofereci resistência e dificultei-lhes a tarefa de me sacudirem e levar para o outro lado do largo. Em seu socorro vieram meia-dezena de indivíduos, também à paisana que me despiram as calças, encheram-me de pontapés e bateram a minha cabeça nos ferros que se colocam em volta do largo, sobretudo em dias de manifestação. Ameaçaram-me várias vezes com “vamos dar-te um tiro na cabeça!”.

Levantaram-me e atiraram-me para as traseiras de um Land Cruiser policial, conduzindo-me até à 3ª Esquadra, atirado para uma cela onde fui agredido com dois socos no peito pelos outros detidos depois de me terem pedido dinheiro.

Depois desse episódio dois agentes investigadores retiraram-me da cela e meteram-me num gabinete onde depois me interrogaram com as mesmas e já gastas questões:

1- moço bonito a se estragar so à toa.
2- quanto te pagaram?
3- quem te mandou?
4- conheces Makuta Nkondo?
5- e se nós precisarmos de ti para uma conversa aceitas?

Volvidas duas horas e meia após a detenção e todo o calvário que se seguiu, devolveram-me os pertences e voltei à pé, inflamado e cheio de escoriações para casa, no meu Sambizanga.

Comments
  1. mendes says:

    Podem crer que o que está ocorrer convosco já os jovens nacionalistas angolanos fizeram contra os portugueses que os maltratavam e ao fim venceram. Não desistam. O regime vai cair. O vosso esforço não é inglório, nem sairá em vão.

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