Diálogo com o Eleitor: O Marketing Político e o Medo da Urna

Posted: December 25, 2013 in Argumentos, Opinião

Mario Lunga Ballot Box

Não obstante a comunidade internacional ter vendido alguns elogios ao MPLA para felicita-lo aquando do resultado das últimas eleições em Angola, uma vez mais, as mesmas têm sido lembradas pelas batotas e demais práticas costumeiras como a corrupção ou suborno aos massivos grupos estratégicos, devidamente identificados pelos profissionais de Marketing político orientados para o efeito. Os grupos corrompidos, normalmente atendem pelos líderes religiosos da igreja católica que, representa ainda a religião com maior densidade populacional e por isso mesmo o foco sobre esses, demais igrejas cristãs, pela permissividade exploratória aos fieis no território angolano, igrejas essas que mobilizam multidões de homens e mulheres, ensuma fidelizar servos religiosos pois quase nunca criticam ou analisam a sociedade fora do olhar religioso. Líderes tradicionais, a massa populacional periférica e muito recentemente os estudantes universitários, estando esses também entre as suas presas prediletas, razão pela qual o número de vagas de acesso á universidade Agostinho Neto no último ano, aumentou consideravelmente pouco antes do período eleitoral, com a depreciação significativa da pontuação exigida para a aptidão dos estudantes. Tais vagas são na sua essência, um artifício político para o favorecimento eleitoral desses, pois como sabemos via da regra, as vagas na universidade estatal são partículas atómicas no universo da demanda pelo ensino superior. Fala-se por exemplo, em 200 vagas para 9000 candidatos, comportando em muitas áreas como engenharia, direito ou ciências, 25 vagas para 300 candidatos, estando dentre as 25, já alguns lugares preenchidos pelo tráfico de influência. Ou seja, sem haver antes qualquer preocupação evidente por parte das autoridades, no que concerne a massificação do acesso a educação, atende-se agora sem antecedentes, senão em virtude da campanha, um anseio jovial no que toca suas aspirações na sociedade, a medida em que relacionam de forma fantástica, o nome Agostinho Neto (Imagem de Marketing do partido) ao voto para o MPLA, pois entender-se-á que foi a Universidade do MPLA no nome do seu herói, quem ofereceu a oportunidade de realização profissional. Em muitos casos esses aspectos são relembrados nos discursos, dizendo por exemplo que o MPLA, preocupa-se com a educação da população sobretudo dos jovens. Se nos atentarmos ás rádios e televisões, passará alguma notícia a esse respeito: …A universidade Agostinho Neto, formou X quadros esse ano, ou admitiu Y estudantes. Tudo isso, sem falar dos outros malabarismos como o crédito eleitoral, a doação sazonal dessa época, a reabilitação urbanística fictícia nos centros de grande afluência populacional, as maratonas, bebedeiras e etc.

Em última linha, o período que antecede qualquer campanha eleitoral, é marcado pela fabricação de uma propositada escassez e de uma mesma debilidade, para subsequentemente a quando da véspera eleitoral, apegarem-se á mesma escassez e transformarem-na na realização ilusória do anseio ou de um sonho dos súbditos, com o fim único de converter esses sonhos em votos.

Para os profissionais de Marketing político, em toda parte do mundo seus papeis se limitam a identificar as necessidades e carências do eleitor, entender a sua mentalidade e, dialogar com os mesmos com projectos ou propostas de resolução; Entender quais as demandas sociais emergentes e atentá-las, ou seja, o que é que o povo quer (ouvir) no momento? Emprego? Liberdade de expressão? Igualdade? Fim da corrupção? Melhoria na saúde? Erradicar ou diminuir a violência? Mais educação como vimos acima? Cumprimento da lei? Mais entretenimento? etc. Ensuma, na pior das hipóteses não passa de uma simulação astuta, de um embuste ou  parlapatice, responder ao anseio do povo. Esses profissionais, cuidam também da imagem dos seus representantes bem como do partido interna e externamente, elaboram seus discursos, cuidam da sua retórica, da postura ante os microfones, até dos seus tons de vozes e gestos para subsidiar a oratória. Muitas vezes também, são eles quem na companhia dos relações públicas, gerenciam na imprensa, as crises do partido a quando de algum escândalo político. Por exemplo, quando se tornou pública a apreensão ilegal do menor Nito Alves, foram eles quem ocuparam as rádios, as televisões e os jornais com o silêncio e, quando não mais puderam ficar calados pela repercussão do caso, foram aos meios públicos de comunicação tentar justificar contra-argumentando. Caso não houvesse repercussão, esses profissionais prefeririam silenciar o caso até conduzi-lo ao esquecimento, como sempre fazem ou como apesar da repercussão que também teve, farão agora com Cassule, Kamulingue e Wilbert Ganga ou qualquer outra vítima da situação.

Os profissionais de Marketing político como todo profissional de Marketing, estão sempre antenados com a dinâmica social, acompanhando suas tendências, de forma a alinhar a mesma aos interesses isolados do partido que defendem. Assim, se o povo estiver tendente a valorização da cultura ou da moda, serão esses os aspectos aos quais os mesmos irão se apegar para aplicar a sua jogada de Marketing, podendo por exemplo, abrir escolas de línguas nacionais, promover debates na televisão, ou no caso da moda, promover  o acesso à moda do momento e enfatizar os “eventos” nesse âmbito, tal como aproveitam o apetite alcoólico dos jovens para asfixiar a sociedade com bebidas dessa estirpe. Esses eventos, são normalmente acompanhados por figuras de relevo do partido, inaugurando-o com os cortes de laço, champanhes, etc. ou em patrocínios, utilizados como  pano de fundo da propaganda do partido. Convenhamos que o patrocínio é uma das técnicas sublimares mais eficazes em matéria de promoção de venda e propaganda, visando  apenas memorizar no participante o nome da marca em causa, de forma a não se esquecer ou lembrar-se facilmente da mesma, conhecido em Marketing como Share of mind e, associar essa, a uma causa nobre na óptica do participante. Por essa razão (causa nobre), o conceito de responsabilidade social por exemplo, tem sido fortemente utilizado pelas instituições financeiras. Nessa perspectiva, se toda empresa que preconiza a lucratividade é uma instituição financeira, o MPLA, não é um partido político é sim uma empresa ou se melhor, uma instituição financeira. Observemos sem os vícios da simplicidade analítica que, o partido no poder não tem um carácter inferior à qualquer instituição financeira ou capitalista, ou mais concretamente, é ele próprio no seu âmago uma instituição capitalista. Não passa disso. A pretensão da conquista do poder político para alcançar o enriquecimento ainda que ilícito, é a mais alta confirmação do seu carácter empresarial.

Ainda nos patrocínios, a bandeira do partido e o nome dos seus líderes, são subtilmente ostentados. Esses nomes, são subliminar e inconscientemente memorizados  e reconhecidos pelos ouvintes, sobretudo pelo público alvo do evento, pois são eles quem mais darão importância ao mesmo, como consequentemente serão eles quem no acto eleitoral  lembrarão mais do partido  que atendeu os seus anseios e objectivos.

Falarmos em bandeira Nacional,  não líderes mas líderes históricos, hino Nacional e toda genealogia dessa semiótica, é falarmos no que os profissionais de Marketing chamam de Share of heart. Uma vez mentalizada a marca, a ideia agora é mexer com o coração do eleitor, não é por acaso que o hino Nacional quando entoado tem a função de arrepiar e atribuir ao cidadão o espírito patriótico, o verdadeiro ufanismo, ou por outro lado, não foi por acaso que o MPLA se apropriou das cores e do design da bandeira nacional. É para fundamentalmente, associar a lembrança (mind) da bandeira nacional e o amor (heart) à mesma, ao próprio MPLA. Vale lembrar que, todos os artifícios do Marketing político, acontecerão ainda que nunca  yenham estado presentes nas suas pretensões para com o povo. Tudo visará apenas e unicamente, a conservação nos lugares do dinheiro, partindo de um voto inconsciente e muitas das vezes de um voto corrompido pelo medo.

A partir do que trataremos por Subjectividade discursiva, esses profissionais, grosso modo, são orientados para homogeneizar  o discurso do partido aos olhos e aos ouvidos dos diferentes segmentos em que lançam suas armadilhas. Repare por exemplo no discurso de  Barack  Obama no slogan YES WE CAN. Sim, nós podemos. Nós, negros, podemos chegar ao poder, nós negros norte americanos podemos, nós norte americanos podemos sair da crise, nós democratas podemos mudar a vida do norte americano, nós descendentes de africanos podemos e, outras infinitas interpretações incluem-se aqui. Lula da Silva, com o PT (Partido dos Trabalhadores) propalou: BRASIL UM PAÍS DE TODOS. Aqui a mesma técnica entra em acção, Brasil um país de todos, negros, índios, mestiços e brancos, ricos e pobres, nacionais e estrangeiros (esses sentem-se pertencentes ao lugar), heterossexuais e homossexuais, esses últimos hoje muito importantes numa fase em que buscam a liberdade e igualdade de direitos nesse país, etc.

Na técnica da subjectividade discursiva que, visa homogeneizar e acolher todos ou vários segmentos sociais, o individuo se vê como parte integrante do mesmo e a massa é igualmente seduzida á essa compreensão, pois contempla todos. O nosso DE CABINDA AO CUNENE UM SÓ POVO UMA SÓ NAÇÃO, não foge dessa mesma técnica, mas com honestidade  sabemos que na prática trata-se de uma grande mentira. ANGOLA FAZ ANGOLA FAZ, como é cantado na publicidade do governo de Angola. Mais uma vez usa-se a subjectividade do discurso para ao atribuir-se uma culpa de pertença, acorrentar a diversidade dos públicos a um sentimento homogéneo. É como se todos angolanos se revissem  a fazer Angola crescer,  ainda que diante de tanta opressão,  desemprego, exclusão social, fome, poucas escolas etc. Essa falácia, atribui ao cidadão angolano, uma falsa responsabilidade de contribuição e participação ou culpa nos resultados do país, quando na verdade nem ao orçamento do Estado esse tem acesso ou sequer entende, mal sabe qual a verba disponibilizada para  a sua construção intelectual como cidadão, mal é contemplado pelos resultados dos superavits do país, não sabe o que é um PIB e principalmente desconhece a Lei que os seus semelhantes fizeram no país que Deus lhes ofereceu a vida.

O segundo ponto, assenta no medo com que o eleitor se confronta diante da urna. Na sociedade das ameaças,  do sequestro, dos assassinatos, das perseguições e auscultações com que  fomos habituados a conviver, merecerá á discussão, um cuidado especial para compreendermos até aonde a população se vê ameaçada para exercer a sua cidadania em liberdade e pleno juízo.

Consideremos que um eleitor medroso é um eleitor corrompido, pois acaba agindo como todos aqueles que recebendo um bem, trocam o seu voto pelo valor do bem, mais ou menos como trocar 5000 dólares de um crédito bancário, pelo desvio de milhões inexplicáveis, por um partido ou por meia dúzia de homens e famílias. Ensuma vender o país por 5000 dólares. Para o marketing político e para os financeiros, financiar créditos bancários não passa de um investimento político para garantir os seus roubos infinitamente superiores.

Muitos  eleitores sentem-se assim, em risco diante da urna, tal como se estivessem a ser filmados secretamente e portanto, sendo observado o viés do seu voto, o que poderia justificar uma perseguição por oposição ao partido do poder. Existe agora um clima de tensão, desde olhares, vozes, sigilo e suspense, cercado por homens feios de cara grande que, induz o individuo a crer que o seu voto não é numa realidade secreto, o que nesse país poderá não vir a ser. Alguém está a vê-lo e nessa perspectiva o melhor é votar para quem não lhe oferece perigo ou se melhor, lhe protegera, pois sendo  partido do poder, votar contra a oposição não representará algum perigo. Esse cenário, envolvido por um atemorizante jogo psicológico, visa descartar o lado racional do indivíduo para  faze-lo migrar para o plano emocional, ou vice versa, a ideia  é impelir o individuo ao sentimento do medo. É uma estratégia utilizada pelos maestros da ditadura de todos  países. Portanto, o eleitor não deve ser corrompido pelo medo, deve ser original, corajoso e acima de tudo votar com a consciência de que o seu voto poderá numa milimétrica diferença,  mudar o seu curso assim como do país e, não votar por medo, sobe pena de perpetuar no medo. O voto como se costuma dizer, é a sua arma ou a sua razão contra os políticos. Relembrar nessa ordem de ideias que, o medo que o mesmo cidadão leva às urnas, traz desde já, nos traumas da guerra, da violência civil e sectária que se pratica todos os dias contra os vários opositores ao regime de José Eduardo dos Santos. Dizer, que até o acto do eleitor votar,  sustenta-se a esse, o  mesmo sentimento já patente no quotidiano quando o assunto é política, visando bloqueá-lo mentalmente.

Assim, Batota, Corrupção e Medo, três armas bélicas para a garantia e conservação do MPLA no poder, razão para dizer que  a estratégia política de intimidação, transcende os limites habituais já conhecidos no dia a dia. Ainda assim, o povo responde por dois dos três elementos que atendem e sustentam o falso sufrágio (corrupção e o medo), quais pode combater exercitando a cidadania com as suas liberdades civis.

Por Mário Lunga

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s