O encontro angolano

Posted: February 4, 2014 in Opinião

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O país está a mudar. Economicamente falando, os números não param de crescer, porém, o crescimento económico ainda não se reflecte na mesa dos angolanos, nem nos serviços de saúde nem no sistema de educação de Angola, pondo em causa o desenvolvimento humano dos angolanos.

Se o Executivo já admitiu que temos graves problemas no que toca aos recursos humanos, então, como explicar essa teimosia em manter o sector da educação na eterna e inexplicável condição de “desamparado”do Orçamento Geral do Estado?

A situação no sector da saúde é idêntica, por isso mesmo, também pergunta-se: como explicar a caturrice em manter este sector na condição de “desprotegido” do OGE? É verdade que o país está num processo de reconstrução e construção de infra-estruturas, mas, de que adiantará termos tantas infra-estruturas, se mantivermos os mesmos níveis de analfabetismo,baixa escolaridade ou um sofrível sistema nacional de saúde?

Alguém realmente acredita que esta invertida pirâmide de prioridades vai trazer benefícios ao país a longo prazo?

Entretanto, no meio de tanta euforia de petro-doláres mal-geridos, alguns históricos da luta de libertação e da independência de Angola já deram conta de que o rumo do país não é aquele que mais se recomenda para um povo que fez muitos sacrifícios para que estabilidade fosse relativamente exemplar no continente africano.

O primeiro primeiro-ministro de Angola deixou isso bem claro no seu discurso de despedida. Se ainda não somos uma nação, afinal, o que temos estado a fazer este tempo todo? Quanto tempo leva um país para se tornar uma nação? Quanto a mim, registei muito bem as palavras do kota Lopo do Nascimento e garanto-vos que não serei mero papagaio repetidor e não terei discussões de infantário.

Adicionado a este desabafo do Kota Lopo, os sinais e alertas vêm de muitos ângulos da sociedade civil. A antiga vice-ministra da educação, Alexandra Simeão, também expressou o seu mal-estar perante as opções do executivo angolano no OGE no que toca à educação. Numa reportagem concedida ao Jornal Manchete, Alexandra Simeão disse “Os cortes no orçamento para a educação não são compreensíveis, se alguém quer progredir tem que dar mais e não cortar”. Nada mais claro.

Os relatórios OPSA-ADRA contém recomendações relativas ao sector da educação que, infelizmente, têm sido ignoradas pelo Executivo angolano.

Como se  não bastasse, nos últimos dias, o que temos visto em Luanda com as demolições e translado de famílias, é simplesmente revoltante. O Estado angolano ainda é uma pessoa de bem?

Os parágrafos anteriores que constituem uma gota no oceano do conjunto de anormalidades que se verificam na sociedade angolana é suficiente para que eu lance aqui e agora, neste dia especial, 4 de Fevereiro, uma busca da verdadeira reconciliação de Angola, um desafio aos partidos políticos, sobretudo ao partido no poder. Falo do ENCONTRO ANGOLANO. A concepção do encontro angolano também incluiria, eventualmente, para melhor contextualização e não só, uma lista das situações que atrasaram o nosso desenvolvimento, sobretudo o desenvolvimento humano. Itens como: processo de descolonização falhado, o acordo de alvor desrespeitado, a maldita guerra civil que desestruturou o país em todos os aspectos, os massacres, abusos e desrespeitos aos direitos humanos nas zonas controladas pelos dois maiores partidos de Angola, a instauração de uma cultura de medo e de intimidação, a obscena ingerência de países estrangeiros nos assuntos internos de Angola, uma constituição da República atípica, as recorrentes eleições polémicas que continuam de certa forma a manchar a credibilidade do país. Todos estes factores, e outros que se podiam mencionar, seriam mais do que suficientes para que criássemos “ O encontro angolano” e nos focássemos na construção de uma nação democrática, com um exercício de cidadania que não se confundisse com crime ou uma afronta ao poder politico. Ao invés de corrermos o risco de sermos mais um país africano incapaz de lidar com a diversidade e pluralidade de pensamento dos seus cidadãos, o encontro angolano seria a oportunidade dos angolanos para dar verdadeiras lições ao mundo. Portanto, concebido e gerado por angolanos, o encontro angolano seria o encontro de todos os desencontros que tivemos ao longo da nossa história contemporânea. O momento ideal para colocarmos Angola no lado certo da história da humanidade. Porque, embora alguns políticos da situação estejam empenhados em demonstrar o contrário, a verdade é que Angola é muito mais do que partidos políticos, vontades políticas e caprichos pessoais de políticos. Angola é o futuro. A seguir alguns subsídios sobre o que pode vir a ser a essência, e, porque não, a definição do “Encontro angolano”.

O encontro angolano é sermos suficientemente maduros para dizer que a descolonização de Angola foi das piores que o mundo conheceu. E que depois de tudo, os irmãos, entenda-se os partidos envolvidos nos Acordos de Alvor, não conseguiram criar um clima de paz. Esta questão é mais complexa como se sabe.

O encontro angolano é admitirmos que fomos vítimas de ideologias e interesses políticos e económicos estrangeiros que não davam o cavaco aos anseios e aspirações dos angolanos e que nos levaram à uma guerra civil.

O encontro angolano seria banir quotidianamente tudo o que tivesse ou tenha a ver com a exclusão política,social e económica.

O encontro angolano é adoptarmos políticas de desenvolvimento social e económico que anulem futuras situações de conflitualidade no país. Pensemos mais para lá deste tempo. Se olharmos lá,mais para frente, certamente, visualizaremos uma Angola diferente da actual.

O encontro angolano seria a assumpção de que a nossa maior riqueza é a pessoa. Depois do petróleo e dos diamantes,o angolano continuará a respirar.

O encontro angolano seria a assumpção de que a nossa diversidade cultural, étnica, racial e linguística é,pode ser, uma das nossas maiores fontes de coesão nacional.

O encontro angolano é cultivarmos uma cultura de paz que tem no debate plural e aberto a sua base.

O encontro angolano é deixar que as pessoas expressem as suas insatisfações e descontentamentos com a governação, sem que isso descambe em prisão de opositores ou descontentes. A constituição deve ser respeitada.

O encontro angolano é não termos angolanos acima da lei, é extinguirmos a “ordem superior” ou o fulano “ordem superior”para nos atermos aos fundamentos da Constituição e nas demais leis ordinárias que regulam o nosso ordenamento jurídico. Afinal, a ordem superior somente pode derivar da Constituição da República.

O encontro angolano é pararmos com os malabarismos mediáticos e cultos de personalidade que colocam certos angolanos na posição de deuses. Os deuses estão no Olimpo.

O encontro angolano é lermos os sinais dos tempos e adequarmos as nossas atitudes e comportamentos às mudanças que ocorrem na sociedade, sem que se arraste o resto da sociedade para uma catástrofe.

O encontro angolano é termos uma verdadeira separação de poderes, na qual os três poderes, o judicial, o executivo e o legislativo, sabem exactamente o que fazer sem pressões ou chantagens de outros poderes.

O encontro angolano é também a expansão do sinal da Rádio Ecclesia em todo território nacional.

O encontro angolano está expresso, penso, no livro “Angola: a terceira alternativa ” do antigo primeiro-ministro de Angola, Marcolino Moco.

O encontro angolano é acordarmos todos os dias sem medo de exercer os nossos direitos constitucionalmente consagrados.

O encontro angolano é termos a história de Angola contada, escrita sem tendências de A ou B, é  atermo-nos aos factos e evitarmos as manipulações.

O encontro angolano é garantir que todos os heróis de Angola que lutaram pela independência de Angola, sem importar o seu embrião partidário, sejam tratados com a mesma dignidade e respeito.

O encontro angolano é falarmos dos massacres que ocorreram na história contemporânea de Angola e termos a coragem, tal como fizeram os sul-africanos, de criar uma Comissão da Verdade e Reconciliação para esclarecer todos os massacres, como parte do processo catártico de que precisa a nossa sociedade.

O encontro angolano seria a capacidade de pôr em perspectiva o futuro com base na aprendizagem que se deve fazer dos erros do passado. É sabido que violência gera violência, então, que se abandone a cultura do medo, da guerra e se abrace com mais fervor a cultura de paz.

O encontro angolano seria a criação de uma agenda nacional de consenso que superasse barreiras partidárias e elitistas, concentrando-se no potencial intelectual e criativo da pessoa humana angolana.

O encontro angolano é o respeito pela vida humana.

O encontro angolano é  Angola na busca do bem-estar de todos os seus filhos e filhas.

Definitivamente, eu proponho o encontro angolano.

Kady Mixinge

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