Que venham os nossos memoriais

Posted: October 9, 2014 in Argumentos, Direitos Humanos, Opinião

A ideia de escrever este texto surgiu no final da minha visita ao Memorial do Holocausto, em Berlim, Alemanha. Este memorial, como é sabido, está dedicado a todos os judeus barbaramente assassinados na Alemanha Nazi liderada pelo infâme Adolf Hitler.

O memorial do Holocausto pode ser definido como um espaço recheado de pedras, pintadas de cor cinzenta, de diferentes tamanhos, que se parecem a campas de um cemitério. Pode-se dizer, sem medo de errar, de que o memorial do holocausto é um lugar labirintoso e geometricamente irregular, com terreno ondulado que plagia uma curva sinusoidal. É uma desagradável estrutura de betão, o simbolismo ali impregnado tem como finalidade, entre outras, tentar imaginar o quão baixo o ser humano pode chegar até perder completamente a sua razão. Obviamente, pelo menos para mim, que é como que inimaginável colocar-se na pele de uma das vítimas do holocausto, como também é muito difícil descrever o estado de espírito do ser humano quando já não resta um pixel da razão.

holocaustmemorial

O meu passeio pelo “Holocaust Memorial”, que ocorreu o mês passado, de certa forma, levou a minha mente para os livros de história que falam sobre a escravatura e o colonialismo; os documentários que assisti no National Geographic da DSTV sobre a 2ªGuerra mundial e o Holocausto sobrevoaram minha mente; mais surpreendentemente, os livros que li sobre o 27 de Maio de 1977 não ficaram fora da minha mente; os relatos sobre o Setembro Vermelho na Jamba também marcaram presença na minha mente; o livro “Diamantes de Sangue: Corrupção e Tortura em Angola” do Rafael Marques foi levando em consideração pela mente. Com certeza! Esse “traslado para os livros” originou em mim uma espécie de reflexão incompleta e sem orientação. Convenhamos que é muito delicado sustentar uma reflexão que tenta indagar as razões que podem levar ao fim da razão na mente humana, quando se tenta perceber o quão vil e diabólico pode ser o ser humano. Entretanto, mais tarde percebi que o memorial do Holocausto não é tudo que os alemães fizeram para resgatar a sua história contemporânea e apresenta-la sem tabus e enganos à nova geração da Deutschland. Descobri que há todo um conjunto de memoriais que busca homenagear as vítimas da tirania, da arrogância, do autoritarismo, da intolerância, dos diversos tipos de discriminação em solo alemão, sendo claramente um esforço inequívoco de buscar a reconciliação e a pacificação dos espíritos. Além do memorial do holocausto, a Alemanha possui o memorial dos Ciganos, o memorial dos homossexuais, o grande memorial das vítimas da guerra e da tirania, e tantos outros. Ainda no principio do mês de Setembro, exactamente no dia 2, foi inaugurado na Alemanha o memorial nacional dedicado aos 300 mil enfermos e deficientes assassinados sistematicamente pelos nazistas durante a 2ªguerra mundial, sendo mais uma demonstração do compromisso dos alemães para com a paz e a reconciliação nacional.

Embora as barbaridades ocorridas na Alemanha já tenham mais de 50 anos, a imagem de Hitler, e o que representa, ainda tem muitos seguidores. Felizmente, a sociedade civil alemã está atenta a estes e a todos que tentam perverter os fundamentos de Estado democrático de direito. Depois da “bruta pancada” que recebeu do Nazismo, aquela sociedade valoriza e estima os direitos fundamentais do homem. Depois dos violentos golpes hitlerianos, aquela sociedade tem bem presente a consequências da ditadura, da cultura do medo e da intimidação. Depois da monstruosa e radical campanha propagandística denominada “Guerra Total” engendrada pelo senhor Paul Joseph Goebbels, político e ministro da propaganda durante o regime de Hitler, a sociedade alemã sabe que a “informação” não pode estar nas mãos de manipuladores e de malfeitores. Negligenciar isso numa sociedade que se quer aberta e unida na diversidade, pode ser fatal.

Terminantemente, aquela é uma sociedade que sabe (ninguém lhes contou) o quão perigoso e letal é, delegar demasiados poderes a um só homem. Contudo, o Estado alemão também tem um papel fundamental no controlo dos saudosistas hitlerianos. Segundo Markus Beckedahl, jornalista e fundador do Blog Netzpolitik.org, blog político direccionado, sobretudo, à politica alemã, uma das medidas tomadas pela Polícia Alemã e os Serviços de Segurança Interna visa o cadastro de todos aqueles que tendem a glorificar e endeusar a figura de Hitler ou propagar as teses nazistas no actual contexto politico e social do país. Um registo que serve apenas para vigia-los e assegurar que as suas acções não extravasem os limites da lei fundamental da Alemanha e nem perigue o esforço, numa perspectiva de catarse, que vem sendo empreendido pelos sucessivos governos e a mesmíssima sociedade civil.

memorialvitimas

À dada altura da reflexão atrás referida, percebo que sou um cidadão angolano, em plena cidade de Berlim, estimando a coragem e audácia dos alemães em colocar no seu devido lugar a sua história contemporânea. Logo a seguir, pergunto-me se os angolanos estão num sono profundo. Parece absurdo ou exagerado que um angolano faça isso? Penso que não, principalmente quando olho para o meu umbigo, entenda-se o meu país, e dou conta que, se calhar, é exactamente isso que Angola precisa de fazer, isto é, honrar todas as vítimas dos nossos “holocaustos”. Salvaguardas às devidas distâncias (de todos os tipos, até geográficas) e contextos, não pude deixar de estabelecer um paralelismo com o meu país. Afinal, o que tivemos? O que temos? O que teremos? Nós, angolanos, já homenageámos – não falo de propaganda barata e sem escrúpulos – como deve ser todos aqueles que foram mortos por causa da intolerância, da tirania, da calúnia, da guerra fratricida, da arrogância, todos aqueles que foram assassinados simplesmente por que exprimiram o seu pensamento de forma livre e articulada ou será que deixaremos o tempo sarar as nossas feridas? Será que poderemos ter um verdadeiro desenvolvimento humano no país com tantas questões pendentes? Quando estaremos preparados para falar de forma aberta sobre assuntos do nosso passado sem que isso constitua um “crime de lesa pátria”? Os dois maiores partidos de Angola (MPLA e UNITA) já fizeram à devida mea-culpa? As elites políticas, económicas e intelectuais do país têm noção dos riscos que acarreta para as futuras gerações a supressão da nossa memória colectiva de importantíssimos factos da nossa história? Vamos colocar estas questões nalguma “gaveta poeirenta” da nossa memória ou de alguma biblioteca?

Penso que não é preciso ser cientista social, político ou outro tipo de cientista para se chegar à conclusão de que a estruturação de um exercício catártico para os angolanos é uma condição sine qua non para o seu desenvolvimento nas suas mais diversas dimensões. Ora bem, os exemplos que nos são fornecidos pela história universal são mais do que suficientes para provar o quão importante são esses exercícios para o país.

Acredito que se quisermos que o país que tenha verdadeiramente um rumo, precisamos de abordar o nosso passado com maturidade, seriedade e sobretudo com muita serenidade. Precisamos deixar que os rios de ideias e os mares de ideais, independentemente da sua proveniência política ou social, fluam com naturalidade na nossa terra, sem bloqueios estúpidos e covardes. Precisamos que a liberdade de expressão e de opinião seja um dos elos mais fortes da nossa sociedade. Precisamos que a comunicação social pública seja autêntica e virada para a cidadania. E como não podia ser diferente, precisamos de deixar de ver fantasmas em tudo o que se apresenta como crítica.

Só como nota final, penso que todos angolanos, absolutamente todos os angolanos, que perderam a vida nas circunstâncias acima referidas merecem todo o respeito e consideração. Só com o respeito pela pessoa humana poderemos atingir patamares mais elevados enquanto nação. Se realmente queremos construir uma…

 

Por Kady Mixinge

Comments
  1. NETO antnio says:

    POSITIVO BEM HAJA. Alberto Neto Date: Thu, 9 Oct 2014 09:11:43 +0000 To: alberto_neto_1943@hotmail.com

  2. Ju Jaleco says:

    Gostei muito de ler – e subscrevo. Obrigada, Kady

  3. Mbanza says:

    Profundo mano Mixinge! Vou reler!!!!

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