Tiraste a minha carne, vou te tirar a tua casa

Posted: January 20, 2015 in Luanda

Dona Felizarda - 2

Dona Felizarda Miguel Agostinho é uma mãe solteira com 4 filhos que há mais de 5 anos trabalha como empregada, cozinheira do Ministro das Telecomunicações e Tecnologia no condomínio Cajueiros ao Talatona em Luanda.

Há 2 anos que o Ministro José Carvalho da Rocha e a esposa Zumira João Mitanji, terão solicitado à D. Felizarda, também conhecida por “Escurinha” a abandonar a residência de seus pais, cita no distrito do Rangel para uma nova casa que estes lhe ofertaram no complexo residencial do Zango II em Luanda. Ofertaram? Vamos com calma. Eis um excerto de uma entrevista que conduzimos com a Dª Felizarda:

“Isto aconteceu quinta-feira [passada 8/1], como eu estou incomodada, sexta não fui [trabalhar], fui lá sábado para perguntar. [A] primeira coisa [que fiz] foi pedir desculpas a ela (D. Zumira Mitanji, esposa do Ministro), pois possa ser que naquele dia eu também estava alterada e não pedi desculpas, então pedi desculpas a ela. Ela praticamente não aceitou as minhas desculpas e eu perguntei: tia, será que quando a tia me deu a casa eu pedi? Ela disse não, não pediste, mas eu não dei a casa para ti, eu dei-a para ficares um tempo por causa da distância no Rangel. Eu disse: a tia não me disse isso quando me deu a casa, me deu a casa e disse «’tá aqui, isto é teu». E como é que hoje me diz que me deu a casa por causa da distância e só hoje [dois anos depois] por quê?” disse dona Escurinha à nossa entrevista.

Felizarda tem um ultimato que foi ditado na quinta-feira 15 de janeiro para abandonar a casa até sábado 17 de janeiro de 2015. Na sexta-feira 16 de janeiro dia que conduzimos a entrevista, o ultimato foi reforçado. D. Felizarda contratou um advogado, o senhor Gika de Castro que, segundo nos disse, foi escorraçado quando tentou o contacto com a esposa e o Ministro sobre o caso.

Perguntámos à D. Felizarda sobre a documentação da casa, ela disse não ter documentos: “não, não me deram. Só me deram a chave da casa, é a única coisa que tenho, não tenho nenhum documento e foi a D. Zumira que me deu a chave.” Indagámos acerca dos procedimentos que levaram a tal atribuição e a razão de lhe terem atribuído a casa, ela respondeu: “antes de me darem a casa, foi-me pedida a cópia do BI, mas acho que levou um tempo até a [atribuição], porque nesta altura funcionava uma colega que quando me pediram essa cópia ela me disse «D. Escurinha, eu tenho a certeza que vão te dar uma casa». Isto aconteceu em Dezembro [» 2011], em Janeiro [» 2012], numa segunda-feira, lembro-me muito bem, cheguei, entrei, não me troquei, e, como sempre, fui para tentar tirar as coisas da cozinha para fora, [a D. Zumira] mandou-me abrir a gaveta, «tira aquilo» eu tirei e eram chaves. «’Tá aqui, estas chaves são tuas.» São minhas? «São tuas, vai com o senhor Moisés ele vai mostrar-te onde é o sítio. »”

“Quando me deram a casa, praticamente só deram. Disseram a casa é tua, vai com o fulano para mostrar-ta, não me deram mais nenhuma outra diligência a dizer que isso vai ser «assim» ou «assim».” – Não era tipo, uma forma de gratificação? Perguntámos – “Eu acho que é isso.” – Mais pessoas estão nessa condição, ou é a única que o casal decidiu oferecer casa? “Dos que trabalham em casa, sou a única. Mas, na parte dele [o Ministro], deu a muitos, os seguranças deles…” – Depois de terem dado a casa, já lá vão dois anos, nunca houve nenhum problema entre vocês? Insistimos – “Não, não, nunca houve.”

A história da carne

“Terça-feira da semana passada [6/1], é de hábito que quando tem na arca muita coisa antiga… tinha uma carne [na arca], carne já cozida. Eu tirei aquela carne, só que ela [D. Zumira] viu no meu saco a carne que eu tirara, e eu disse «essa é uma carne que já está aqui há muito tempo e eu estou a tirar». Ela disse «não podes tirar por que isso é roubo» e ficou a falar muita coisa.

“Isto foi na terça-feira. Quarta-feira fui à consulta. Quinta-feira voltei no serviço, trabalhámos. Por volta das 16/17 horas ela [patroa] veio do serviço e continuou sempre a falar «isso é roubo, muitas vezes acontece isso e etc.» Eu disse «eu sei que a tia está chateada comigo, a tia é a chefe, se acha que já não posso mais continuar no serviço, então a tia é que decide.» Só foi isso o que eu disse, não aumentei nem diminuí.”

E a carne que a D. Escurinha tirou, estavas a levá-la para casa? “Sim, a carne já é cozida, eu sou cozinheira, como a carne já está lá há muito tempo e como eu quinta-feira tinha que ficar em casa, epá… não achei que fosse algo errado… não sei né! Eu sei que é roubo porque não pedi…” – É normal acontecer isso, coisas que já estão há muito tempo vocês tirarem? “Não, nós as vezes tiramos e deitamos fora, as coisas lá deitam-se fora quando já estão há muito tempo.” – E quando vocês precisam de alguma coisa, podem pedir a vontade, eles dão?» “Nunca fizemos isso, não. Porque conhecemos quem é ela, então nunca fizemos isso.”

Eles oficialmente te acusam de quê? Procurámos saber – “Agora não sei se me acusam de quê, se de roubo ou se de quê!” – Só disseram você não podia levar a carne e agora sai da casa? “Sim. Eu lhe disse, a tia é que sabe (pelas coisas que ela estava a falar, eu acho que ela não gostou, ela é a dona da casa), eu disse a tia é que sabe, a tia é a chefe, se acha que dá para eu continuar fala, se acha que não, também fala, só isso que eu disse.”

Levaste a carne para casa? “Não, não. Não levei.” – Mas qual era a quantidade da carne? “Um bocadinho, um bocadinho numa embalagem.” – Então a carne neste caso está lá? “Sim, está.” – Mas vocês prolongaram muito esta conversa? “Até que não. Porque eu não sou pessoa de falar muito, nós só lhe escutamos, ela não dá espaço para ninguém falar, nós só escutamos, então quando ela parou [foi] quando eu lhe disse isso.” – Tinha mais pessoas lá? “Estavam lá as minhas colegas, nós trabalhamos três.”

Tentamos o contacto com a dona Zumira como podem ver no printscreen abaixo, foram 4 ligações efetuadas no dia 16 de janeiro de 2015 as 17h28. O telefone chamou, mas ninguém atendeu.

Ligações a Zumira

NB: esta matéria foi feita na sexta-feira, dia 16 de Janeiro. Entretanto o site makaangola fez uma peça excelente em torno do assunto que deveria tornar a nossa redundante se não fosse a entrevista em vídeo feita à Dª Felizarda. Achando pertinente colocar o vídeo e estando a peça já escrita, decidimos fazer uma matéria completa.

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