A nossa posição, auto-organização e o porquê da “violência não” – 20 de Junho 2015 e a longa caminhada para a liberdade e a democracia

Posted: August 18, 2015 in Luanda

  A Central continua a exigir a liberdade incondicional de todos os seus parceiros detidos até o fim dos seus aprisionamentos.
Sem receio de exagerar, podemos adiantar que estes acontecimentos, que assinalaram o reafirmar da consciência do povo angolano para a necessidade de encetar uma luta organizada pela liberdade politica e uma democracia sustentável, estão a produzir um abalo estrutural que se irá reflectir na essência da sociedade angolana e, em nosso entender, provavelmente vão ser a causa detonante duma reacção em cadeia dos acontecimentos necessários que se vão seguir nos próximos anos. 

O dia 20 de Junho começou como qualquer outro dia, mas as ordens superiores já tinham sido comunicadas. No Facebook e aqui na Central o alarme começou a tocar a meio da tarde: vários ativistas estavam a ser levados e raptados, logo apareceu uma caça às bruxas que demorou dias. Estavam a ser levados sem mandatos de busca pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC) e pela Polícia Nacional de Angola (PNA) dum local de estudo sobre métodos pacíficos de manifestação e mudança política, sendo depois encaminhados as suas residências para apreensão de material informático e outras ´provas´, tendo sido depois distribuídos por várias cadeias. Na altura pelo menos três desta caça estavam com vários outros ativistas independentes a desenvolver a campanha “Buzina Só” e a Central TV, por exemplo.

Quase todos os direitos básicos configurados na constituição angolana foram violados por parte da Procuradoria-Geral da República (PGR, José Maria de Sousa) e do Ministério do Interior (Ângelo Veiga Tavares) desde então, o resto é história (política).

Os 16 na imagem são alvo de um processo já escrito para silenciar os Angolanos para muitos anos em frente:

1. Albano “Liberdade” Evaristo Bingobingo 

2. Osvaldo Sérgio Correia Caholo 

3. Arante Kivuvu Italiano Lopes 

4. Afonso Mayenda Matias “Mbanza Hamza” 

5. Hitler Jessia Chiconda Samussuko 

6. Manuel Baptista Chivonde “Nito Alves” 

7. Domingos José João da Cruz 

8. Inocêncio António de Brito (Drux-P) 

9. Benedito Jeremias “Dito Dali” 

10. Sedrick Domingos de Carvalho 

11. Henrique Luaty “Ikonoklasta” “Brigadeiro Mata-Frakuxz” da Silva Beirão 

12. Zenóbio Lázaro Muhondo Zumba 

13. Nuno Álvaro Dala 

14. Fernando António Tomás “Nicola o Radical” 

15. Nelson Dibango Mendes dos Santos 

16. José Gomes “Cheik” Hata

Este processo assemelha-se ao Processo dos 50 em Luanda em 1959, quando a PIDE prendeu cerca de 50 nacionalistas Angolanos numa onda de detenções, com base na acusação de terem conspirado contra o regime colonial e ditatorial português em Angola. Estavam a desenvolver acções clandestinas contra este regime para promover ideais nacionalistas e a autodeterminação dos angolanos. Foram condenados a 3 anos e meio a 12 anos de prisão. O resultado foi que grande parte da sociedade colonial Portuguesa e Angolana começou a acompanhar os acontecimentos que se seguiram.

No 4 de Fevereiro 1961 os detidos foram alvo da libertação pelos heróis do MPLA, quando o partido ainda tinha ideais. Em 2015 foram agentes da PNA e do SIC a executar as “ordens superiores” no sistema do MPLA sob liderança do José Eduardo dos Santos, que fez com que o partido fosse de libertador para opressor. Este partido tem largado definitivamente os ideais por que começou para lutar. O único objetivo que lhe resta é a manutenção do poder e defender a riqueza ´moderna´ que não tinham no passado. 

Os livros de base do grupo de estudo agora por grande parte detido foi o “Da Ditadura a Democracia – Uma Estrutura Conceitual para a Libertação” por Gene Sharp de 1993, um autor premiado pelas suas ideias de luta não violenta, e o livro “Ferramentas para Destruir o Ditador e Evitar Nova Ditadura”, escrito por Domingos da Cruz e inspirado no primeiro. Por fazerem parte desse estudo, estão a ser acusados de preparação de rebelião, tentativa de derrube do Presidente da Republica, tentativa de golpe de Estado, uma acusação que vai mudando a cada mês.

Em Angola já se deram vários tipos de manifestações, ainda que de forma tímida (reprimida) e menos criativa, comparando com os países em que se deram acontecimentos importantes que foram uma inspiração para o 7 de Março de 2011. É que uma manifestação regular não é o nosso único instrumento para efetuar uma mudança política, nem todos nós estamos a falar de “revolução.” Com o grupo de estudo, na primeira parte de 2015, o plano era levar a caminhada a outro nível. Ser mais criativos. A campanha do “Buzina Só” seria uma forma diferente de protestar. O 20 de Junho foi o resultado e a ditadura deu a cara.

“Para cada ação há uma reação” dizem. A nossa será a de manter o caracter não violento, como método para uma vitória definitiva. Uma implicação negativa da expressão duma vontade violenta é afastar outros possíveis manifestantes, aqueles ainda menos interessados, mas aqueles que são precisos: vândalos não são necessários, são necessários mães, pais e filhos, trabalhadores e inteligentes – a maioria do povo. Há vários argumentos para não usar, nem pensar na violência, se olharmos para a história próxima.

Primeiro, não podemos afirmar que a violência usada pelo Congresso Nacional Africano (ANC) ou o MPLA foram a principal razão das suas vitórias, e os dois tinham esperado muitos anos até terem optado por esse caminho. Antes do lançamento do braço armado MK do ANC, o partido tinha existido algumas décadas já e a luta também demorava décadas. Na hora da vitória, África do Sul estava política e economicamente isolada e o Muro do Berlim tinha caído pacificamente, tudo factos importantes. A origem do MPLA teve lugar em 1953 e só em ’61 escolheu a luta armada. Temos também de recordar Viriato da Cruz e o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola (MNIA) formado em ´48. Em ´74, a origem do Acordo de Alvor estava também na revolução dos capitães de Abril executada pelo Movimento das Forças Armadas em Portugal e do próprio povo português que saiu às ruas munido de cravos (sim, flores), para derrubarem um regime ditatorial de décadas. E a UNITA também não foi bem-sucedida na sua batalha militar.

Optar por uma via violenta, irá também dar todos os argumentos a continuada propaganda do MPLA na TPA, RNA e no JA, para justificar a má gestão do país. Até agora têm procurado transformar as nossas mensagens em algo violento, ou então usam homens próprios ou contratados para apresentar os manifestantes pela liberdade como vândalos. 

Terceiro, os métodos apontados por este livro em questão são a chave para uma mudança melhor sucedida. Uma análise dos acontecimentos em países com uma mudança de sucesso como Portugal, Alemanha, Polonia, Servia e Tunisia é a prova disso e mostra como por isso na prática. O temor a esta mudança é a única razão porque temos agora 16 detidos. Não é porque estavam a gritar “revolução” ou “a fase legal desta luta já foi explorada”. É por receio do poder que o pacifismo nos dá. As estratégias para o despertar duma geração anestesiada estão longe de terem sido totalmente exploradas. Funcionou em outros países no passado. Quem somos nós agora para desistir? Afinal temos o apoio e acompanhamento da comunidade internacional, nomeadamente da Amnistia Internacional, precisamente por mantermos o caráter pacifista. A violência não é necessária.

A pergunta é: como chegar a esse nível de consciência e capacidade de provocar a mudança? Temos de ter iniciativas, auto organizar-nos, olhar para exemplos em outros países e continuar esta formação dum movimento de raiz, unidos. E, enquanto indivíduos no nosso dia-a-dia, não virar a cara para lado, não aceitar menos do que aquilo que é nosso por direito. Como humanos e como cidadãos de um país que ainda não ´ta na boa´. Esta transformação de mentalidades, o semear de ideias, o ter uma sociedade exigente, esses são a verdadeira ameaça a quem quer dominar um povo.

Esta luta não serve para substituir uma só pessoa, mas para mudar a mentalidade corrupta duma classe política no país inteiro e melhorar uma sociedade como um todo, para que não se deixe enganar pelo próximo. Quem participa neste movimento por acreditar na futura democracia Angolana e o estado de direito funcional, está consciente que a nossa discussão interna sobre os mesmos é a semente duma democracia sustentável e que uma democracia se faz debatendo com outros, dando opiniões e evoluindo posições com as críticas dos outros. Ela enriquece e fortalece-se com a diferença de opinião. Aqui não há ordens superiores. Esta geração de mudança tem menos meios do que o ANC ou o MPLA tiveram, porque não temos um partido político. Isso não é preciso: como tem sido demonstrado, temos muitos outros meios. A tarefa que este movimento tem é a mesma que os antepassados tinham: alcançar algo aparentemente impossível. Acreditando e com muito trabalho, nada é impossível.

O dia 7 de Março foi um dia de onde nasceram e convergiram o “hub” de ativistas da Central Angola, o Movimento Revolucionário de Angola (MRA) e muitos ativistas independentes. Aqui não nos interessa a promoção da imagem de um dos nossos. O Governo de Angola e uma parte afetada da sociedade são o exemplo consumado de que o culto da personalidade não é o caminho a seguir. É a organização e união entre nós que faz com que a nossa caminhada para a mudança e contra um grupo pequeno e opressor continue, mesmo quando alguém se afasta, por decisão ou por força. A causa é maior do que cada um de nós. A ausência dos detidos obriga ao surgimento de outros. Assim, a Central Angola 7311 encoraja cada cidadão a juntar-se ao movimento desta longa caminhada. A mudança é irreversível. Por mais que tentem, não nos vão parar.

Tamu junto!

PS: leitura 

Hit de 2015: “Da Ditadura a Democracia – Uma Estrutura Conceitual para a Libertação” por Gene Sharp (baixe pelo link: http://www.aeinstein.org/wp-content/uploads/2013/09/FDTD.pdf, http://www.palasathena.org.br/eticaeculturadepaz2012/download/Da_Ditadura_a_Democracia.pdf )

Hit de 2014: “Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola,” Rafael Marques (estava antigamente disponível na net, continua disponível em livro)

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s