O triste relato de uma realidade nefasta

Posted: February 5, 2016 in A Voz do Povo, Argumentos, Denúncia, Direitos Humanos, Luanda

Por Nelson Dibango, um dos 15+2

A leve febre e dor de cabeça que iniciou e me acompanhou a maior parte do tempo vivido na prisão, às vezes aumentava e foi combatida cinco vezes com Quartem, algumas vezes com Dolarem e uma infinidade de vezes com Paracetamol. Nem sempre os resultados da básica analise de sangue acusavam positivo, nem sempre recebia os resultados, quase sempre era atendido, consultado e medicado por enfermeiros. Neste novo regime de coação, a situação prevalece. Já voltei duas vezes ao Hospital Prisão de São Paulo, sendo atendido e consultado por médicos que prescreveram exames de sangue que novamente acusaram negativo.

Aquando da primeira vez que adoeci, o único remédio que consegui adquirir da farmácia foram as gotas nasais, tendo ficado a faltar alguns analgésicos e a vitamina C. Da segunda vez só havia um dos cinco comprimidos indicados (Quartem). Detalhando o último caso, a minha experiência de auto-observação levou-me a concluir que a febre levezinha se precipita devido a pressão psíquica, condições sanitárias e desgaste físico. Acreditei na ideia de que temos sempre paludismo e febre tifóide encubados, que tornam a manifestar-se sempre que as condições psíquicas, sanitárias e desgaste físico do indivíduo assim o propiciem.

Em geral, sempre fui ao hospital procurando remediar a minha condição física pois sabia que era impossível melhorar definitivamente um problema com a prevalência da sua causa principal: os fatores externos…o meu meio. Respiro ar do esgoto no qual minha rua foi transformada (Rangel Brigada Rua da Mbaca), utilizo ventoinha para combater o calor noturno e para evitar mosquitos o mosquiteiro…sendo que estes também estão sempre a atualizar suas técnicas para ultrapassar a barreira.

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Bebo água calculando seu custo: 1 dólar por cada cinco litros de água mineral. Cada pessoa consome 1,5 litros/dia x 12 pessoas = 18 litros, o que dá um total de 3,6 USD/dia x 30 dias = 108 USD. A água da torneira cheira mal, sabe mal, e parece mal… cozinhamos com ela e desinfetamos para usar no banheiro. Aguentamos sempre mais um pouco, e porque pretendo acabar de escrever o livro que todas minhas energias indicam para escrever, tento manter-me concentrado.

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Só que as vezes tenho de ir ao tribunal e a forma como somos transportados nos leva à exaustão. O longo trajeto que somos obrigados a percorrer por falta de veículos disponíveis nos serviços prisionais me fez conhecer bairros dentro da cidade, com condições sanitárias drasticamente piores que a minha. Comemos cheiros de cores e formas tão raros que entendemos logo porque a nossa cidade é tão cara. A chegada ao tribunal é um alívio que rapidamente passa a suplício, pois o tempo de espera naquele buraco de betão é tão demorado que pode chegar a ultrapassar as 5 horas, sendo que já não foram poucas as vezes que no fim desse longo hiato, ficamos a saber que a sessão nem sequer arrancará, após o que temos de esperar mais uma a duas horas pelo regresso das viaturas que nos trazem de volta ao domicílio.

Não falo da sessão pois sinto que estaria a partilhar ofensas…só tenho a dizer que me fatiga bwé a psique…tenho pena de mim e de todos que ouvem e falam naquele local. Na penúltima sessão, já estava com febres e dor de cabeça fora dos meus parâmetros de “normalidade”. Não havia ambulância e tudo que muito sacrificadamente conseguiram arranjar-me foi um Paracetamol. Subimos para sala de audiências que estava um autêntico glaciar, tendo eu ainda a princípio pensado que seria impressão minha, que esta se devesse à febre. Depois vi várias pessoas tremendo de frio, incluindo alguns advogados. Pedi que se diminuísse a temperatura e eles aceitaram aconselhando-me na passada a mudar de lugar. Não notei alteração no ar…minha febre aumentou, aguentei a audiência, aguentei a extenuante viagem de regresso para casa, e disse aos manos que, prevalecendo a situação, não voltaria ao tribunal no dia seguinte.

Cheguei a casa, falei de meu estado de saúde à família, informando que rejeitaria ir ao tribunal se as condições permanecessem e que se tivesse que sair seria para o hospital. A febre piorou e quando fui acordado pelos agentes de serviço minha esposa já havia falado de minha condição de saúde e que não me deslocaria a tribunal naquele dia. Os agentes aflitos, consultaram os seus superiores e para o espanto de todos, não se opuseram a que eu ficasse em casa. Mais tarde fomos informados que não houve sessão. Voltei a fazer consulta no Hospital Prisão de São Paulo, fui atendido por enfermeiras que recomendaram uma gota espessa. O médico veio uma hora depois, cumprimentou-me e, ao sentir a minha mão quente exclamou com manifesta perplexidade: Estás mesmo com febres!…e apesar de sua simpatia, não conseguiu disfarçar a pressa em terminar o processo…fez a consulta de pé, passou a receita se apoiando num balcão ao lado e me indicou a função e forma de administração dos comprimidos. Voltou a estender-me a mão, dessa vez em gesto de despedida, subiu no carro e foi embora.

A minha esposa já me recomendava há uns tempos que fizesse exames para ver se não se tratava de infeção urinária, tendo reforçado o apelo depois de conversar com as esposas de dois manos dos 15. A medicação terminou, mas as febres e dor de cabeça continuaram… uma tia enfermeira que me observou, disse que, pela cor de meus olhos, poderia ser outra doença. Falou-me da infinidade de situações que poderiam estar ligada às tais febres e recomendou-me que fizesse novas consultas e novos exames.

A hipótese dela foi simplesmente lógica…porquê que os profissionais do hospital prisão não intuíram isto? Minha esposa reclamou dores de cabeça ontem e hoje teve que gastar praticamente metade do seu salário com consultas, análises e medicamentos para tratar infeções relacionadas aos órgãos íntimos. Eu não pude ir fazer as mesmas consultas pois o carro dos serviços prisionais e o patrulheiro da policia não vieram. A hipótese solicitada de ir com os agentes em meu carro, não foi respondida. Demos conta depois que mesmo que fossemos juntos, não poderíamos ter arcado com as despesas do meu tratamento, pois estando o mês no início já só lhe restava um terço do seu estipêndio (além da consulta já havia comprado produtos básicos para casa e para o bebé).

Não conseguiu dissimular a insatisfação estampada no seu rosto. Pus-me a pensar nas despesas com a casa esquecidas tal como as despesas das pessoas que partilham o mesmo teto comigo…elas que ate bem pouco tempo, respiraram por mim. Tive de parar de escrever o livro e começar analisar formas de obtenção de dinheiro. Estimei que quando saísse da cadeia iria juntar mais de 15.000,00 USD cobrando serviços prestados antes da minha detenção. Encontrei falidas a maior parte destas empresas que me deviam e as que sobreviveram estavam sem verbas para liquidar suas dívidas.

Gastei cerca de 8.000,00 USD para recuperar a minha esposa de um ato de grave negligência médica ocorrido na maternidade Lucrécia Paim e que foi amplamente divulgado nas redes sociais, chegando inclusive a ser mencionado como caso de estudo por um dos partícipes de um debate na TV Zimbo. Achamos que devemos ser reembolsados, mas a família está tão ressacada com o meu processo que foi sempre pondo de parte esta questão.

Encaro a crise como oportunidade de desenvolver vários projetos e atividades futuristas, consigo ver muita riqueza nela. Aguento a prisão até quando acabar de escrever ou a pressão de escrever…quando acabar vou querer desenvolver tais projetos, vou querer mais liberdade (surfar na crise) e caso esta me seja limitada, irei arranjar formas criativas de me manifestar. No livro “Livre na Prisão” falo do sentimento de prisão enquanto estive livre e do sentimento de liberdade enquanto estive preso.

Nelson Dibango

Comments
  1. Mwana Ntoto says:

    “Encaro a crise como oportunidade de desenvolver vários projetos e atividades futuristas, consigo ver muita riqueza nela. Aguento a prisão até quando acabar de escrever ou a pressão de escrever…quando acabar vou querer desenvolver tais projetos, vou querer mais liberdade (surfar na crise) e caso esta me seja limitada, irei arranjar formas criativas de me manifestar. No livro “Livre na Prisão” falo do sentimento de prisão enquanto estive livre e do sentimento de liberdade enquanto estive preso.”

    As vezes sinto que viver deve ser alguma forma silenciosa de destruicao da realidade. E uma realidade cada vez mais difusa e entupida de sem sentido, nem se quer mais preferir a morte!

    Gosto da linguagem utilizada no texto. Espero expectante por “Livre na prisao” espero que tenha o mesmo estilo de escrita. Atica a imaginacao, e suave, livre e tocante!

  2. Ju Jaleco says:

    Impressionante! Cada vez me custa mais compreender como vivem descansados os ultra-ricos (os tais do 1%) perante um panorama de tantas dificuldades, injustiças e pobreza!

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