Temporada V: Um mambo muito rápido

Posted: February 23, 2016 in Luanda
TRIBUNAL 5ª Temporada.jpg

A Temporada mais curta desde o início da palhaçada. Durou 1h30 minutos.

Depois de 10 dias de pausa, o juiz marcou uma sessão única contando receber todo o elenco governativo de salvação que faltava ouvir, a de hoje, 23 de Fevereiro.

Infelizmente para ele, de 26, apenas 6 compareceram, sabendo todos que dois deles estão presos, dentre os quais S. Excia Presidente da República da Salvação, Julino Kalupeteca e um terceiro, um dos advogados do caso, David Mendes, simultaneamente defensor oficial do já citado presidente no seu processo que decorre simultaneamente na Província do Huambo.

Foi justamente a este, que diz o juiz ter sido “devidamente” notificado no seu escritório, que o MP quis solicitar que fosse levado “sob custódia policial” para testemunhar. Quando todos pensávamos que isto não podia ficar mais esquisito, eis que os meninos bonitos do regime conseguem superar-se.

A sessão começou pouco depois das 10h00, com o juiz justificando-se de forma apologética ao primeiro declarante “Dr.” Aníbal Rocha, que a culpa do atraso se devia ao facto dos réus viverem muito distante um dos outros, em zonas de difícil acesso e que por isso se devia ser condescendente com a sua demora em chegar ao tribunal. Mas… mas… os réus chegaram muito antes da hora marcada!!! Amigo Jajá, não tem vergonha de responsabilizar terceiros para sacudir a água do capote?

Pois é, então de entre os seis declarantes de hoje, finalmente compareceram os dois ex-governadores de Luanda, Aníbal Rocha e José Maria Ferraz dos Santos. Estiveram também presentes o cientista político Nelson Pestana e os ativistas Adão Ramos, Fanuel Gama e Alemão Francisco. Normalmente a ordem de chamada dos declarantes é pela idade, mas hoje o juiz deu prioridade aos dois homens do M, um por ser de facto o mais velho, o outro por ter um óbito do qual o juiz já tinha conhecimento desde o dia de ontem. Será que o facto de pertencerem ambos ao Comité de Especialidade de Juristas do MPLA explica por si só tanta omnisciência?

Se Aníbal Rocha parecia estar tímido diante dos magistrados, dirigindo-se-lhes com excessiva deferência, o mais jovem dos militantes do M deu um pequeno show, muito apreciado pelos réus que não paravam de rir a cada resposta. José Maria alegou não ter conta em nenhuma rede social e ter tido conhecimento do seu nome estar na lista do GSN numa festa, quando um amigo lhe comunicou que teria sido apontado para Ministro da Construção. “Mais tarde corrigiram dizendo que era para Governador de Luanda. Deus me livre, logo esse cargo, o cargo do qual todos fogem, o pior cargo para se ocupar? Eu já estive lá e não quero voltar!”.  Assumiu nunca ter sido contactado por nenhum dos réus ali presentes, que pela primeira vez os via pessoalmente, tendo tido o primeiro contacto com a imagem dos jovens via imprensa “quando começou esta brincadeira”. Nova risada. Ter-se referido ao processo como uma brincadeira não provocou nem uma observação seca por parte do Jajá, deixou simplesmente passar. A sua franqueza foi desarmante e até alguns dos réus iam aprovando com meneios de cabeça algumas das suas observações. Por exemplo quando ele se questionou meio horrorizado: “como poderia eu ingressar num governo elaborado por jovens cuja luta é para combater o meu partido? Eu sou pioneiro da OPA, nós fomos criados com disciplina num tempo que não havia democracia e liberdade de expressão”. Mais a frente, Luís Nascimento quis aprofundar esta certeza de Ferraz, perguntando-lhe onde ouviu que os réus querem combater o seu partido, ao que este respondeu de forma inesperada: “Na rua!”. Risada geral!

Adão Ramos fez questão de terminar a sua presença no tribunal pedindo autorização para emitir um protesto: “Meretíssimo, este Tribunal que até está num edifício recém construído é discriminatório na possibilidade de acesso às pessoas portadoras de deficiência. Como vê, eu desloco-me em cadeira de rodas e não há uma única rampa aqui. Praticamente caí no esforço de chegar cá acima e já não tenho idade para levar estas coisas na desportiva. É absolutamente inaceitável que um edifício pertencente a um órgão de soberania que se bate pela justiça seja o primeiro a cometer a injustiça da discriminação, que é, aliás, proibida pela própria Constituição”. Jajá aquiesceu, não tinha como retorquir, pediu desculpas, apesar de não ser ele o empreiteiro, disse que tomaria nota dessa preocupação e depois estragou tudo tentando justificar atabalhoadamente que havia uma alternativa no edifício, o elevador, mas que este, infelizmente, ainda não tinha sido inaugurado! Yá, inaugurado, foi mesmo esse o termo que ele empregou e tudo o que uma pessoa na assistência podia fazer era imaginar um ato solene de corte de fita e champanhe no chão, eventualmente protagonizado pelo PR, já que estamos em fase de inaugurar parques de estacionamento…

Novo show de bola com fintas à Ronaldinho veio da parte de Nelson Bonavena, que entrou, como dizem os manos brazukas “a botar p’á quebrar”. Logo ao lhe ser perguntado se ele tinha conhecimento da inclusão do seu nome numa lista de um suposto Governo de Salvação Nacional ele retorquiu: “Meretíssimo, eu sou cientista político, não versado em ficção científica. Eu não lido com OPNIs, Objetos Políticos Não Identificados, que é o que essa lista representa para mim”. Gargalhada inevitável! Ainda quando lhe foi pedido que ditasse uma das suas respostas para a ata e a escrivã a quis simplificar retirando-lhe a redundância, o juiz perguntou se estava satisfeito ao que respondeu: “Bem, se quiserem tirar a minha intenção de enfatizar que vim porque conheço estes rapazes e em sua solidariedade, acho que pode ficar assim, mas o que eu ditei foi: vim a este tribunal porque conheço cada um dos jovens aqui sentados nestes bancos de réus e porque estou solidário com cada um destes jovens aqui sentados nestes bancos de réus”.  Para terminar, pediu também a palavra para protestar contra a forma ridícula e ilegal com que foi notificado, entendendo que por ser figura pública bem conhecida e de fácil localização não tinha de ter visto o seu nome exposto daquela forma. Jajá exibiu toda a sua matumbice ao responder que “o senhor é que está a dizer que é figura pública, eu não o conheço de lado nenhum e o Tribunal não é obrigado a conhecer os endereços das pessoas, mas tão somente a apurar a verdade dos factos nos autos”. Realmente dá para se indagar: como fará o tribunal para localizar os insurrectos que se recusam a comparecer em tribunal para os arrastar? Nelson pediu direito ao contraditório que o juiz recusou mandando que se retirasse da cadeira dos declarantes.

Neste momento Jajá fumegava por dentro e por isso já não teve capacidade para aguentar o embate com o declarante seguinte, Fanuel da Gama que teve repetidos gestos de desafiadora altivez ainda na parte de dar os seus dados biográficos. Quando o juiz lhe perguntou pela sua profissão, Fanuel limitou-se a fitá-lo longamente, com um sorriso nos lábios e um trejeito silencioso que se traduzia em “mô wí, não me está a apetecer te responder agora, acho que não vou mesmo responder”. Depois de um incómodo lapso de tempo, Jajá disparou: “não tem profissão”? Novo silêncio, dessa vez interrompido por um desdenhoso “tenho… silêncio… projetista”. Nova complicação assim que inicia o interrogatório propriamente dito, pois Fanuel disse que não era o seu nome que constava da lista do Governo de Salvação e que ele tinha sido ali convocado como usuário de facebook. Jajá não conseguia mais esconder o incómodo, primeiro ordenou que Fanuel deixasse de mascar, “mas não estou a mascar meretíssimo”, “então deixa de mascar a tua língua” e, para não perder o temperamento, solicitou a um dos outros juízes que procedesse ao mantra de questões com as quais já estamos amplamente familiarizados.

No final, Alemão ainda teve tempo para mostrar o seu respeito pelo Jornal de Angola, órgão pelo qual diz ter tido conhecimento da sua inclusão no governo de salvação, quando um amigo lhe ligou para informá-lo que o seu nome vinha lá citado. O juiz franziu o sobrolho e insistiu: “quer dizer então que só soube este ano que o seu nome constava da dita lista?”. “Sim, conforme já anunciei aqui, a semana passada e só porque um amigo me ligou a informar porque eu não leio o Jornal de Angola”.

O dia terminou assim, com nova suspensão de audiência e concomitante adiamento de mais duas semanas. Regresso marcado para dia 7 de Março, um dia carregado de simbolismo para os réus, pois nessa data se celebram 5 anos desde o início da luta desarmada contra o regime autoritário e repressivo de José Eduardo dos Santos.

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