Fatigaram os criativos da alma

Posted: July 8, 2016 in Luanda
dead_souls_by_lowietje

“Dead Souls”, de Lowietje

Waldemar Bastos sugere numa recente entrevista ao jornal Público que gente mal intencionada está a matar a música da alma em Angola. Aquela que, para lá de incentivar o bamboleante e sensual movimento de ancas, conduz os ouvintes à reflexão, à apreciação de emoções mais profundas e complexas.

Eu iria mais longe e diria que estão a matar a arte da alma, pelo menos aquela confeccionada pelas gentes das urbes e consumida pelas massas. Arriscando escarafunchar um pouco mais fundo, constato que, salvo raríssimas – por isso valiosíssimas – exceções, essa arte já anda morta e mumificada faz tempo.

Parece que os articídas já nem sequer se preocupam com um eventual ressuscitar do fenómeno consciência/contestação, ultimamente submetido a eletrochoques de realidade social calamitosa, num aparentemente tardio esforço de primeiros socorros, após perda do pulso de tão essencial fenómeno na expressão cultural.

Os poucos rappers estóicos que conquistam à ferros os seus modestos espaços, os Thó Simões, os Nástios Mosquito, as Alines Frazão, os Orlando Sérgio, os Agualusa, os Brunos M, os Sérgios Piçarra, Bongas e Paulos Flores são desvalorizados como sendo esporádicos exemplares sobreviventes de uma espécie condenada à extinção, pequenas exceções que confirmam a regra, bibelots na estante reservada à liberdade de expressão para a qual se aponta quando é necessário provar aos abelhudos dos direitos humanos – sobretudo os estrangeiros porque os nacionais são ignorados com sucesso – que também temos cá disso, dessa iguaria que “não enche barrigas”.

Tão residuais serão os ilustres mulheres e homens como os supracitados que deixou de fazer sentido para os articídas investir em mais do que piquetes ocasionais de dissuasão, estes próprios muitas vezes protagonizados pelos seus sensatos e genuinamente preocupados entes queridos.

Se a vida realmente inspira a arte e tendo em conta a fervilhante realidade que nos circunda, fausta matéria-prima que dispensaria auxiliares psicotrópicos à criatividade, vejo-me forçado a cingir-me a algumas possibilidades que não são mutuamente exclusivas:

  • Os nossos artistas merecem aspas
  • Os nossos artistas foram lobotomizados
  • Os nossos artistas autolobotomizaram-se
  • Os nossos artistas são comerciantes/empresários/candongueiros
  • Os nossos artistas são medrú a.k.a cagões

Em lado nenhum os artistas com sentido de missão, que se posicionam, que se engajam, que lêm, exaltam e/ou lamentam a realidade que aflige as suas sociedades (e as alheias também) constituem a maioria da classe, mas haverá poucos países – ocorrem-me de repente as sempre trágicas a já algo clichés Coreia do Norte e Guiné-Equatorial – onde há tanto por exprimir e tão poucos interessados em fazê-lo, ainda que tangencialmente. Cães de fila há-os aos pontapés, sempre dispostos a enaltecer os feitos, a abrilhantar os eventos e até a cantarolar os pronunciamentos do timoneiro/arquiteto/engenheiro sobre uma base de piano-forte para receber os proventos.

Num ambiente que se torna austero demais para os ocasionais aventureiros que se predispõem a colocar a cabeça fora da janela ao invés da mão para verificar se está a “serenar” com força ou devagar, é imperativo que a sociedade lhes devolva o carinho, encontrando formas de protegê-los dos extra-zelosos guardiões do statu quo, os autómatos programados a ligar e ir regulando o complicómetro até ao nível mfulupingado. Ou isso, ou um deserto sem oásis.

Luaty

28.6.2016, Hospital-Prisão de São Paulo

Comments
  1. Southwind says:

    Luaty the kid that doesn’t give up. Born rich but with conscience and in defense of the poor. Bravo! If Angola can produce one Luaty, then I am a Luaty. A voice that will not be shut. Excellent written and explicity. This is the today of Angola and we need, together, make it the future of Angola. Liberty NOW, not tomorrow, not when we are on our way to the oblivian. Now is the time, now is the moment, now is the opportunity. Carpe Diem!

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