Cadeias de Luanda: H03

Posted: August 5, 2016 in Luanda

Histórias da Cadeia 03

Nome: Kilson Sadrack Maurício;
Idade: 17 anos;
Detido aos 26/10/2015;
Nº PROC: Não se recorda;
Acusação: Furto;
Estabelecimento Prisional: Calomboloca;
Advogado: Não;
Família: Sim;
Torturado: Sim

Em meados de Outubro de 2015, Kilson e dois amigos estavam a cirandar pela Vila-Flor onde residem, nas cercanias do Kero do Kilamba pelas 20h, quando repararam que um imprudente dono de cantina tinha deixado a porta encostada numa zona escura.

Kilson diz nunca ter tido antes comportamentos marginais, mas a tentação do lucro fácil e a vontade e adquirir um telefone novo, aliados ao momento que se lhes propiciou e à incitação de um dos amigos (ocasião faz o ladrão), resolveram entrar, levando o que conseguiram (caixa de sumo, leite, 300 AKZ, balde de sambapitos, 6 caixas de chocapic, 4 frascos de maionese). O dono não estava e esse “tesouro” foi transportado com auxílio de um carro-de-mão que encontraram numa oficina vizinha.

Alguns dias depois começaram a tentar trocar a mercadoria por liquidez, dirigiram-se à uma praça [Praça Vila-Flor] abordando uma vendedora de sanduíches para lhe tentar vender a maionese. A senhora e os outros vendedores na praça já teriam sido alertados que poderiam aparecer vendedores de mercadorias roubada pelo que, depois de alguns minutos, viram-se cercados por DNIC (afinal, às vezes a polícia é eficiente).

Acomodados no Land Cruiser da DNIC, saíram em direção à esquadra, mas não diretamente. Pararam numa casa em construção (obra parada), entraram no quintal e teve início a barbárie: amarraram-lhes os pulsos atrás das costas com braçadeiras, ordenaram que se deitassem no chão e começaram a pontapeá-los (eram 6 agentes) em todo corpo, incluindo a cabeça. Um dos agentes usa a sua arma para distribuir coronhadas. Para Kilson uma foi suficiente, abrindo-lhe a cabeça deixando-lhe uma cicatriz. Mas ainda não bastava. O motorista do patrulheiro, que veio recolhê-los quando começaram a aproximar-se as pessoas atraídas pelos choros e gritos, desferiu-lhe um golpe nos olhos com o seu porrete.

A exigência era que mostrassem o produto do furto e a arma. Eles acederam antes mesmo do primeiro pontapé, apavorados que estavam, mas não tinham arma para mostrar porque não havia. Mostraram aos agentes onde tinham escondido a “fortuna” que continuava intacta (nem um pacote de sumo tinham consumido) tendo estes levado o provento para a esquadra do KK 5000 (Kilamba-Kiaxi) sem nunca perguntarem onde ficava a cantina furtada. Ali foram colocados na cela [3,5x3m; +ou- 25 pessoas] onde dormiram com lençol direto no betão.

Duas semanas depois foram ao Comando de Viana para ser ouvidos pelo instrutor. Este (não se recorda do nome) começou ameaçá-lo que se não dissesse a verdade haveria de batê-lo. Quando Kilson disse que a porta da cantina estava só encostada ele levantou-se, pontapeou Kilson nas costelas por duas vezes e deu-lhe um igual número de socos na cabeça. Kilson pediu desculpas e confessou o que não fez. “Verdade?” “Não, mas se eu falar a verdade vais me bater”. O instrutor mordeu a própria mão em sinal de nervosismo que tentava controlar e ameaçou: “Vou te mandar para a Comarca”.

Promessa é dívida e assim foi, um mês depois de detido, mandado para Viana. No bloco B, 1º Andar na Comarca de Viana, passou um mês na “Catana” (no chão, de lado, com os pés de outro companheiro na sua cara, encaixados em longas filas pelo corredor), antes de ser “agraciado” com uma cela. Só quando chegou a Calomboloca lhe foi atribuída a farda (usada) e nada mais.

300 KWANZAS!

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