Cadeias de Luanda: H04

Posted: August 12, 2016 in Luanda

Histórias da Cadeia H04

Nome: João Jonatan “Datcho”;
Idade: 16 anos;
Detido aos 21/12/2015 (1ª cópia recebida em Fevereiro de 2016);
Nº PROC: 2264;
Acusação: Furto de viatura;
Estabelecimento Prisional: Comarca de Viana;
Advogado: Não;
Família: Não foi perguntado;
Torturado: Sim

Num sábado de dezembro Jonatan (“Datcho” já lhe foi atribuído da na cadeia) e cinco amigos foram jogar futebol no campo do Nosso Super na Calemba II. Ao regressar (à pé, pois não tinham dinheiro de táxi), aparece um Sr. Que diz chamar-se “Terdosse” ao volante de um Hyundai Elantra e convidou-os para subir, que lhes dava boleia.

Os seis rapazes (idade entre os 14 e 16 anos) sabiam que esse Sr. era bandido, mas não recusaram a boleia, amontoando-se no banco de trás. A viagem terá durado 1/4 de hora após o que se despediram, tendo “Terdosse” seguido o seu rumo.

Na madrugada do dia seguinte (domingo) pelas 4 horas, a DNIC rompeu pelo portão de chapa da casa de Déange onde teria pernoitado Jonatan, arrombando-o. Cinco homens à civil, de catanas na mão gritando “onde está o Déange?”. A irmã avançou alegando que era parente (Pirésse, 16 anos) sendo recebida com uma coronhada de AKM no peito “estás presa!” e foi arrastada para o Hiace estacionado à porta.

Regressaram depois à residência arrancando Bibi (15 anos) e Déange (14 anos) à chapada, tendo por fim encontrado Jonatan escondido e apavorado em baixo da cama julgando tratar-se de um assalto. Ao ser localizado, partiram-lhe uma cadeira de plástico nas costas e foi colocado no carro com os outros onde retomaram a sessão de pancadaria: chapadas, cinturadas e catanas nas partes inferiores dos braços e pernas.

No carro foram encontrados os outros amigos com quem tinham jogado à bola, já torturados, estes tinham conduzido os agentes da DNIC até a casa de Déange: Nick (15 anos) e “De Patroa” (16 anos).

“Tá onde o carro? Quem estava a conduzir o carro?” (Zás, Zás) “Qual carro?” (Zás, Zás) “O carro onde subiram ontem!” (Zás, Zás). Disponibilizaram-se a mostrar a residência de “Terdosse” no Calemba II. Romperam o portão e encontraram a mulher do suposto perpetrador do furto, mas não lhe fizeram mal. Ao voltarem, mais tarde, já não encontraram ninguém. Tinham se evaporado.

Ao verem Déange e Jonatan os próprios DNIC se espantaram, dizendo: “Mas esses são miúdos, como podem ter cometido o crime?” Não lhes impediu de partir para a tortura para arrancarem confissões.

Não se lembra de quantas noites passou na esquadra numa cela de 4×4 m com mais ou menos 20 pessoas, onde a água era dada pelos agentes (20 bidões de 5litros / dia) e que servia para beber, lavar-se e outras necessidades.

Dias depois foi ouvido por uma procuradora que lhe comunicou que “o vosso caso vai longe” e que “a única inocente que vai soltar é a Pirésse”, o resto vão “longe”, assim foi. No dia seguinte Pirésse saíu, Jonatan e “ Da Patroa” foram evacuados para a Comarca de Viana, os outros 3 ficaram na esquadra (provavelmente encaminhados para outros locais mais tarde). Déange foi igualmente solto e Jonatan acredita que é por ter 14 anos.

Nenhum deles sabe conduzir! O carro roubado estava (aparentemente) equipado com GPS e quando os jovens subiram no carro a DNIC já estava no encalce dos criminosos. Nunca Jonatan tinha tido até à data problema algum com a polícia, não tendo sequer passado por uma esquadra.

O número do processo está algo confuso. Diz que lhe foi ditado e repetido assim: 2264, 2265, 2266. Diz ter estranhado mas não tinha como mais duvidar da palavra do agente.

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