Cadeias de Luanda: H06

Posted: September 1, 2016 in Luanda

Histórias da Cadeia 06

Nome: António Tomás Domingos “Betinho”;
Idade: 26 anos;
Detido aos 4/3/2016;
Nº PROC: Não tinha;
Acusação: Não formalizada à altura da recolha;
Estabelecimento Prisional: Hospital-Prisão S. Paulo;
Advogado: Não;
Família: Sim;
Torturado: Sim

“Betinho” não é iniciante no mundo do crime. Desde os 16 anos que enveredou por caminhos escusos começando por “receber telemóveis nas escolas”, diz eufemisticamente. Galgou rapidamente os degraus do crime e protagonizou vários assaltos à mão armada que já lhe valeram 2 passagens pela cadeia (esta será a terceira).

No dia 4 de Março um assalto correu mal e viu-se encurralado pela DNIC/SIC, não tendo hesitado em recorrer à sua AK de canos serrados entrando em bang-bang com os agentes da autoridade o que virá provavelmente e a justo título valer-lhe uma acusação de tentativa de homicídio. Acabaram as suas balas, as da DNIC não. Cercado e rasteirado no local, levou um bico e, ato contínuo, caiu-lhe em cima um dos agentes com um objeto que não consegue confirmar se tinha lâmina ou não, mas o resultado foi um empapado na zona pélvica – era sangue do pénis que sofreu um corte profundo, mas só mais tarde, ao passar-lhe o efeito da droga e já na esquadra da FUBU, se apercebeu do que se tratava pois começou a sentir dores dilacerantes.

Ali ficou num quintal, não numa cela, com o pulso direito algemado ao tornozelo esquerdo, esquecido, abandonado. Rastejou berrando, implorando que o algemassem de outra forma. Irritado, um dos agentes da esquadra zurziu-lhe com uma mangueira no ombro direito deixando-o com uma grande coloide. Só pelas 9 da manhã do dia seguinte trocaram a algema, colocando-o preso à uma mesa. Ninguém veio observar a sua “lesão” e assim se passaram mais alguns dias, ao relento e sentado no betão. O máximo que o agente da DNIC fez foi perguntar-lhe: “esse mambo ainda não caiu? Só te tiramos daí quando cair”.

No sétimo dia de detenção apareceu um senhor com um bloco de notas dizendo que foi enviado pelo procurador para tirar os seus dados. Por essa altura já Betinho tinha rasgado o calção e os boxers pois estes começavam a ser incorporados no tecido cutâneo pelo organismo que trabalhava para sarar a ferida. Estava portanto nú em pelota, com as chagas completamente expostas, deitando pus por todo o lado e permanentemente invadido por moscas e lombrigas consumindo por dentro a ferida e produzindo excrementos. Por sorte (?) não gangrenou, mas tudo o que o agente lhe repetia como um disco riscado era “ainda não caiu?”.

António Tomás Domingos Pirilau

Já praticamente sarado, dois meses depois de ter estado pendurado por uma pele

O auxiliar do procurador sugeriu que Betinho pagasse “algum dinheiro” para que o deixassem sair para se tratar. Betinho argumentou que a sua família não tinha possibilidades financeiras e foi por isso ficando por ali mesmo, à espera que “caísse”. Apanhou chuva. Defecava onde dormia pois nunca chegou a ser desalgemado da tal mesa.

Ao 14º dia chegou o patrulheiro para conduzi-lo ao hospital. Diz ter ouvido os polícias falarem entre si em linguagem semi-codificada, um tentando saber do outro qual o destino a dar-lhe, se era para matar ou transferir. No Hospital-Prisão S. Paulo disseram que no ponto em que aquilo estava já não conseguiriam tratar dele e reencaminharam-no para o Hospital Militar. Ali alegaram que só o poderiam atender com uma guia da procuradora.

Regressaram então à esquadra da FUBU para solicitar a dita guia, mas esta não era urgente para ninguém senão para Betinho que tinha o pirilau por um fio. Levou apenas dois dias a ser emitida. Só que, quando foi emitida, não havia carros para o transferirem para o Hospital, uma tal embrulhada que não lembra o diabo.

Depois de todo esta aventura e finalmente a ser acompanhado por técnicos de saúde diz estar satisfeito com o tratamento no HPSP. Não se lembra dos nomes dos agentes que o torturaram, apenas do auxiliar do processo, Sr. René (esquadra da FUBU)

Relato colhido em Maio de 2016

Comments
  1. Ju Jaleco says:

    Tanta coisa feia e criminosa que se passa em Angola (e não só)! Que tristeza! E os poderosos olham para o lado, ou são mesmo os autores ou, no mínimo, cúmplices… que raiva!

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